segunda-feira, 14 de julho de 2008

Dónde está Wally? (La plata, la plata!)

Buenos Aires (Argentina) - Domingo de manhã, não tinha muito para fazer após acordar e tomar o desayuno. Tomei um banho e resolvi sair para a rua, meio sem rumo pelos bairros e tentar me perder e me achar logo em seguida por Buenos Aires. Peguei a carteira, coloquei nela uns 60 pesos... e ainda pus no bolso de trás uma nota de 50 pesos e mais duas de 50 reais, para poder fazer o câmbio se encontrasse algum lugar por ali.

Antes de sair, lembrei também de pegar a máquina fotográfica. Quem acompanha este blog há mais tempo deve ter percebido que imagem não é lá o meu forte. Acho muito mais bacana escrever do que tirar uma foto, embora a imagem para mim seja algo quase que essencial. Na dúvida, coloquei a mala na mochila.

Passei pela feira em San Telmo, aqui perto do albergue, e tive vontade de parar em todos os cafés de esquina para justamente tomar um café. Acabei andando tanto que, quando dei por mim, estava muito perto da Bombonera. Andando sozinho em La Boca, achei melhor voltar.

Seguindo o ótimo roteiro portenho que a Lui fez para mim (e nem agradeci ainda, que vergonha!), olhei no guia turístico onde era Puerto Madero. Era logo ali, bastava apenas pegar a Martín García, depois a Paseo Colón, a Inginero-qualquer-coisa e pronto, três diques sob o sol de uma manhã de domingo. Bonito, né? Poderia até ter aproveitado mais não fosse a visão estranha que eu tive pouco antes, de um cara com a cabeça toda ensangüentada andando pela avenida de entrada da Boca.

Saí rapidamente e fui conhecer os diques de Puerto Madero. Uma região bem bonita, resolvi até sacar a máquina da mochila para tirar uma ou outra foto. Coloquei-a no bolso logo depois e olhei o guia: estava perto da Casa Rosada, por que não dar uma olhada?

Tinha um prédio bem legal perto da Casa Rosada, tirei mais uma foto e segui no caminho para a sede do governo argentino, logo à minha frente. Mas queria ver a Casa de perto, e poder cumprir uma dívida deixada no Brasil com uma bela, bela foto de lá.

Então comecei a contornar a Plaza de Mayo quando três moleques de uns 16 anos e com roupas bem pobres se aproximaram. Como não tenho cara de turista nem nada, continuei andando normalmente. Eles começaram a falar um espanhol bem sujo, não entendi e segui caminho. Então me cercaram, dois deles sacaram facas do bolso e apontaram para a minha barriga. “La plata, la plata, la plata”.

Mal tive tempo para tirar dois pesos do bolso: o menorzinho deles enfiou as mãos nos meus bolsos, tirou carteira e todos os pesos. E a câmera da minha mãe, o maior prejuízo e que me deixou com mais peso na consciência: era uma câmera bem bonita, e tal. E... dela, né?

Fiquei sem reação e forcei um tom desesperado, tentando achar algum policial por perto. As pessoas ao redor apenas olharam os moleques saírem correndo, ninguém fez nada. Parei um taxista, que me falou para entrar que ele me levaria à delegacia. Perguntou como tudo tinha acontecido, e eu detalhei. “Sacaran el carajo?”, perguntou. Pensei em responder “Eu fui assaltado, não estuprado”, mas apenas disse que sim. “Que tipo? El trinta e ocho?”, perguntou assustado. “No, faca de cocina”. Então eu percebi que carajo é revólver.

Parei na delegacia, e me senti em pleno Brasil. O delegado (tinha cara de viado, me mandou tomar no cu). Voltando, e deixando a música do Raimundos de lado. O delegado disse que não poderia fazer nada, porque eu tinha sido assaltado do outro lado da Paseo Colón. Eu deveria ir até a Secunda Comisionaria e lá fazer a ocorrência.

Burocracia, burocracia. A mesma que eu notei quando parei um carro de polícia estacionado na rua e contei para o policial o que havia acontecido. “Você foi assaltado do outro lado da rua, estou tomando conta deste. Desculpe”.

A caminho da delegacia, um flanelinha me parou e perguntou se eu não tinha um cigarro para lhe dar. Pediu desculpas por me pedir o cigarro, mas fui compassivo: “Já aconteceu coisa pior”. Expliquei para ele o que havia acontecido, e o cara com a camisa do Boca foi bem solícito. “Pibes hijos de puta, no se hace eso com turistas”. Ele também me aconselhou: “Nada vai acontecer na Comisionaria, não vão te dar um cartão novo e nem uma máquina. É apenas burocracia, você sabe”. Profético.

Cheguei à Secunda Comisionaria, fiz a ocorrência e ganhei um papel a mais para guardar. Puto, puto da vida.

6 comentários:

Julio Simões disse...

Pô, vc nem me contou que esteve na Argentina!

Foram nas férias da GE? Eu fiz a mesma coisa em 2006, e também relatei algumas coisas no Despojo.

Fala a verdade: Buenos Aires é um lugar encantador, n é?

L.F disse...

Nossa, Fê.
Pelo menos não aconteceu algo pior, né ?!!?
Espero que fique bem e te cuida.
beijos

Lui disse...

Ah, isso deve ter sido realmente chato, e eu entendo totalmente o stress, mas não deixe o acontecido atrapalhar sua viagem! Sua mãe é fofa e já disse que tá tudo bem, então respira fundo e esquece!

E que bom que você gostou do meu roteirinho. Eu gostaria de ter feito um melhor, mas não deu tempo...

Beijos! Aproveita aproveita!

Lui disse...

Ah, e não se esqueça de voltar a Puerto Madero à noite, hein?

Emanuel disse...

Pô, velho... Que zica...

Eu estava empolgado, ia falar pra você procurar o turístico Siga la Vaca em Puerto Madero...

Até ver a cagada dos moleques... Que merda!

Carolina Maria, a Canossa disse...

Putz, vc deve ter cara de patinho na visão dos ladrões, só pode...