quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Indiscrições e punições

Se meu organismo soubesse como se vingar de mim após ser extremamente maltratado, certamente não hesitaria em forçar o desenvolvimento de uma gripe tomba-homem. Daquelas de causar dores no corpo inteiro – a começar pela garganta. Daquelas terríveis mesmo.

Só que a questão não é essa. O problema, de fato, é que meu organismo sabe exatamente como se vingar de mim. Embora eu não tenha tomado gelado, pegado friagem, andado descalço, dormido de janela aberta ou feito tudo isso ao mesmo tempo, meu corpo se vingou de mim.

Confesso que imaginei que isso aconteceria. Ainda que eu garanta diariamente a ingestão de uma quantidade razoável de vitamina C ao tomar um copo de suco de laranja no almoço, meu organismo não aceitou o fato de eu ter dormido seis horas nas últimas duas noites (duas de domingo para segunda, três horas e meia de segunda para terça e mais meia horinha no carro da reportagem ainda na terça).

Passei a quarta-feira inteira com um frio no nariz, que fazia de tudo para poder espirrar. Sabendo do perigo, adiei durante o dia inteiro o atchim fatal. Mas, claro, não deu certo. E depois do primeiro vieram todos os outros sintomas: cansaço, dor de garganta, dores no corpo... lá vem.

Ao entrar no metrô voltando pra casa hoje, ao som de Martha, my dear pela enésima vez, olhei para os dois lados em busca de um assento livre onde eu pudesse desmaiar por alguns instantes. Não encontrei, mas ao meu lado havia uma garota, feinha feinha, mas que me chamou a atenção por estar escrevendo com o caderno de lado e ainda mantendo uma letra bonita.

Papel rosa. Um bichinho verde e outro cor-de-rosa no pé da folha. Um coração vermelho ao centro. Frases esparsas, cujos finais eram tampados por uma mão: “Estou escrevendo porque [...]”. “Mas eu queria que você soubesse que eu gosto muito de você e [...]”. “Espero que um dia você [...]”.

Ok, eu sei que é feio bisbilhotar o que os outros escrevem, mas depois de dois anos de faculdade ouvindo a velha máxima de que “devemos estar sempre atentos ao que acontece ao nosso redor”, senti quase que obrigação de olhar. E se ela fosse a nova namorada, sei lá, de alguém famoso? E se estivesse planejando o assassinato de outra pessoa ainda mais famosa? Pautas, freelas... cifras. Ou então a inspiração para apenas um texto bonitinho neste blog.

Pensei em pegar o óculos na mochila para tentar ver melhor o que acontecia, mas poderia chamar a atenção dela. Preferi esticar o pescoço para o lado, baixar o olho, arriscar uma espiadela aqui e outra acolá.

Acontece que no exato momento a garota olhou para o lado e me olhou com a cara feia. Disfarcei, olhei para o lado e assobiei ao som do piano da música. Ela voltou a olhar para o caderno ensaiou colocar a caneta sobre o papel. Tentei uma olhadinha com o canto de olho. Ela fechou o caderno.

Aos meus ouvidos, o Paul me repreendia: Hold your head up your silly boy, see what you’ve done.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Algo semelhante à empatia

Que a situação do tênis brasileiro está uma lástima não há dúvidas. Enquanto o Guga inicia a sua turnê de despedida pelo mundo, outros raqueteadores nacionais se esforçam – muitas vezes em vão – na tentativa de entrarem na chave principal de algum torneio mequetrefe por aí. E, quando conseguem, não é raro caírem logo na primeira rodada.

Entre os homens, o que vem salvando o nome do país é a dupla mineira de Marcelo Melo e André Sá, semifinalistas em Wimbledon e quadrifinalistas do US Open e campeões do Torneio da Costa do Sauípe (que eu me recuso a chamar de Brasil Open). Já no feminino... xiii...

Ainda assim, resolvi recentemente começar a jogar tênis e entrei na lista de espera do clube. Assim que chamado, comprei raquete, munhequeiras (além de darem mais firmeza para o pulso, servem de toalhinha portátil e me remetem aos 16 anos) e me preparei para, enfim, correr de um lado para o outro que nem um idiota para rebater uma bolinha. Divertidíssimo, diga-se.

Não faz muito tempo, tive a minha primeira aula e o professor disse que precisava me testar para saber em que nível eu me encontrava, muito embora eu tenha deixado bem claro que tinha jogado pouquíssimas vezes nas últimas duas décadas.

Fui para o primeiro saque e pensei em jogar um slice bem angulado. Acertei a rede. No segundo, encurtei demais o braço e voltei a acertar a rede. Dupla falta. Cometi uma série de duplas faltas até perceber que eu não sabia sacar com slice, top spin e nem flat. Nada. Preferi, então, apenas colocar a bola na quadra.

Os velhos que estavam na quadra ao lado desistiram de jogar para ver o nosso jogo. Uma lástima. Não conseguíamos manter um rali com mais de três rebatidas para cada lado por causa da pouca familiaridade entre mim e a minha raquete.

E eu, que sonhava em descobrir meu talento tardio para o tênis, percebi que o meu forte mesmo não era o saque-voleio e nem o backhand, mas sim a paixão pelo esporte. E nada mais.

Depois desse dia, jurei que não seria mais tão crítico com os tenistas brasileiros...

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

"... mais que mil palavrões"

Noite de sábado, algo em torno das 22h30.

Um estádio de futebol. Um jogo entre um dos favoritos ao título e o último colocado. Uma partida horrível, um empate por 1 a 1, uma decepção coletiva.

Eu, do alto da arquibancada, gritava todos os palavrões possíveis pra expressar a minha indignação, raiva e todo o resto. Mais de 23 mil pessoas faziam isso. Menos duas.

Assim que minha voz começou a falhar e já tinha repetido todo o meu arsenal de nomes feios pela nona vez, sentei e comecei a olhar para o gramado. À minha frente, uma menininha de não mais que sete anos se virou, olhou para o pai e falou: “A gente jogou dinheiro fora, né, papai?”.

A garotinha, então se sentou no colo da avó. A velhinha, daquelas de orelhas bem grandes e rosto extremamente enrugado, pegou o último cigarro do maço, acendeu, tragou e suspirou profundamente. Ambas se olharam com o mesmo olhar desanimado.

A cena valeu mais do que todos os trocentos palavrões proferidos por toda a multidão.

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Rascunho manuscrito

Revirando recentemente as gavetas do quarto à procura de um documento, encontrei uma folha de papel que não estava amarela e nem roída pelas traças, mas estava escrita à mão – e isso significa que era de um tempo longínquo.

Parei para ler aqueles meus rabiscos em caneta azul. Era a primeira versão de um bilhete enviado via correio (!) para uma antiga paixão colegial, escrita no meu terceiro mês de faculdade. Não senti saudades dela ao encontrar o papel, mas tenho quase certeza de que meus olhos brilharam ao reler tudo aquilo, de relembrar bons, bons momentos da adolescência.

Reencontrei a tal destinatária umas duas, três vezes depois disso. Acho que não reescreveria algo tão simples hoje em dia - para falar a verdade, acho que nem escreveria para ela novamente. Mas segue abaixo na íntegra, com erros e tudo, só que sem a minha letra insegura enviados à minha garotinha ruiva (que, claro, não era ruiva):

"Garotinha ruiva,

As próximas palavras não vão tratar nada de mais. Acontece que me deu vontade de te deixar algumas palavrinhas mais bonitinhas. Estudar à noite dá insônia; insônia dá esses resultados.

E mesmo fazendo um tempo desgraçado que a gente não se vê, não se fala e nem se pensa, deu vontade de te escrever isso. Porque eu tenho saudades (por mais forçado que isso possa parecer). Porque eu tenho saudades das suas risadas, de te segurar uma estação a mais no metrô e até mesmo dos tchaus que você nunca me deu. Do cabelo mais loiro e mais... mais demais que tinha naquela droga de colégio. Ah, eu tenho saudades de você, sua chatona!

Tanto que até hoje eu sempre dou uma espiada para a sua rua no caminho de casa. Tanto que eu sempre acho que vou te encontrar no metrô quando eu saio do inglês, perto da sua casa. Enquanto isso, você fica sumindo assim, não dá as caras, não se comunica... só porque ficamos velhos o não quer dizer devamos ficar (tão) ranzinzas.

Se não quiser, nem precisa responder a carta. Só queria mesmo te falar isso.

Saudades de você.
"

--

Claro, ela não respondeu.

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Um bom filme, versão dublada

Costumo fazer várias associações estranhas a respeito da minha vida, e desta vez não foi lá muito diferente. Mas vamos começar, claro, pelo começo.

Quando decidi prestar vestibular para a faculdade que eu curso hoje, fiquei sabendo que deveria ver O show de Truman. E meu irmão, caçula, aprovou: “esse filme é bom, você vai gostar”. Arrogante confesso, duvidei. Assim como duvidei quando o caçula me recomendou o melhor livro que já li até hoje: Olhai os lírios do campo, do Veríssimo pai.

E ao ver O show de Truman em uma tarde de novembro nos distantes idos de 2005, reconheço que fiquei tocado. Acabei me deparando com um filme sensacional, fora do comum, visto por mim duas vezes no mesmo dia (algo único até hoje).

Depois assisti ao filme mais várias vezes, com legendas em português, em inglês ou até mesmo só com áudio em inglês. Estudo para as provas de listening das aulinhas de inglês.

Liguei a TV hoje ao voltar para casa depois de tomar umas e outras e me deparei com o filme passando na Globo, na versão dublada. Foi algo estranho: sabia praticamente todas as falas, todas as seqüências de imagens. Mas as vozes dos atores, a falta de entonação... enfim, o conjunto em si me causou uma estranheza enorme.

Estranho? Vou tentar simplificar. Sabe aquela sensação de reencontrar o melhor amigo depois de muito tempo, mas ter o ‘azar’ de se reencontrar com ele no meio de muita gente? Pois bem...

Fazia tempo que eu não via O show de Truman. Uns seis meses, pra falar a verdade. E rever todas as cenas, as seqüências e tal com vozes completamente diferentes foi algo que me remeteu à mesma sensação: a imagem é a mesma, o filme é o mesmo, mas... algo está estranho. Você até tenta mostrar as mesmas, digamos, emoções ao filme, mas é como se houvesse discrepâncias.

Imagino que reencontrar o melhor amigo depois de muito, muito tempo, mas em meio a muitas pessoas seja algo semelhante. Querendo ou não, o amigo está lá e a imagem, as recordações, as lembraças também são todas as mesmas.

Só que há coisas diferentes. Talvez as emoções. A multidão intimida. No cinema, a falta de sincronia entre falas e o movimento das bocas dos atores causa estranheza. As esperanças, os dias, o mundo... tudo se torna diferente por um momento, seja no filme como na amizade.

Dependendo da pessoa, é possível até que role uma crise existencial. Vai saber...

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Sobre as mãos femininas

Alguns dias atrás, estive trocando alguns recados no Orkut com a misteriosa porém simpaticíssima Lucy (que passará a partir desta data a fazer parte da seção ‘Valem o dobrão’ deste humilde blog), dentre outras coisas, sobre músicas dos Beatles.

Com a dúvida de ter deixado de citar uma ou outra música, fui para o trabalho no dia seguinte ouvindo a banda de Liverpool e, quando saí da estação do metrô e começou a tocar I wanna hold your hand, tive uma sensação estranha.

Foi automático: assim que o refrão começou a tocar, tive algo semelhante àquilo que se sente ao segurar a mão de uma garota. Algo que, indiscutivelmente, não tem comparação.

É claro que não vou me lembrar agora da primeira vez em que senti um arrepio ao pegar a mão de uma menina, mas isso não tira o mérito da questão e nem das minhas respostas naturais quando tenho uma mão feminina entre as minhas. É alguma coisa parecida com aquilo que o John e o Paul cantavam: And when I touch you I feel happy inside. Is such a feeling that, my love, I can’t hide. Genial.

Preciso confessar: a primeira coisa que noto ao segurar a mão de uma garota é a textura da pele, sempre macia. Algo tão... tão fora do comum que, certamente, aliviaria todas as dores possíveis. Tão fora desse mundo que são poucas as sensações melhores do que sentir essa mão afagando seu rosto.

Já os dedos, pequenos e frágeis, são paradoxais: Eles escondem toda a segurança e a firmeza que sua dona muitas vezes tenta transparecer. Só que, quando os dedos tentam mostrar firmeza, apertando-se entre os meus, geralmente a sua dona já deixou manifestar toda a sua insegurança. Sentir uma garota apertar a sua mão com quase toda a força possível que ela pode fazer é algo que trespassa uma responsabilidade enorme a um homem.

Essa história sobre mãos femininas já influenciou um relacionamento (ou quase isso) meu. Não faz muito tempo assim, saí com uma garota e, durante boa parte desse nosso primeiro encontro, ficamos de mãos dadas. Só desfizemos nossa união aparente para irmos embora quando ela se segurou aos meus braços, já meio alta.

Um pouco tempo depois, voltei a sair com a garota, mas apenas para, sei lá, jantarmos e colocarmos o assunto em dia. Na hora de nos despedirmos, contudo, apertamos as mãos. As dela, delicadas e sensíveis em nosso primeiro encontro, naquele dia estavam extremamente secas e ásperas desta vez. Senti que não deveríamos mais nos reencontrar.

Não, não tenho uma tara por mãos. Já me apaixonei por garotas sem jamais ter segurado suas mãos e já me desinteressei facilmente por garotas que tinham uma mão pequena, macia e frágil. Mas que I wanna hold your hand vai ser incessantemente tocada no meu fone de ouvido já bem mambembe nos próximos dias, isso vai.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Mudanças sociais da telefonia celular

Mais do que revolucionar o mundo das telecomunicações, os celulares alteraram algo que, pelo menos durante a minha infância, era uma das marcas de consolidação de uma amizade ou até mesmo uma paixonite: a memorização de números de telefone.

Antes de ter meu primeiro celular (panorama que só mudou depois de 16 anos de vida a muito contragosto), a vida era diferente. Para não correr o risco de perder o contato de amigos e paqueras, anotava todos os números em dois lugares diferentes: em uma agenda eletrônica e em uma lista que ficava guardada no fundo da minha gaveta.

Sendo assim, logo que realizava as primeiras ligações para determinada pessoa, consultava os números antes de discar. E isso se repetia várias vezes durante vários dias, semanas ou meses, dependendo de cada pessoa. E dependendo da freqüência das ligações, era automático decorar os números mais importantes.

Essa memorização era algo tão forte que até hoje eu me lembro dos números de telefones de alguns dos meus amigos mais marcantes do passado (embora muitos deles já tenham mudado de número, casa, cidade e até mesmo país faz tempo) e de minhas principais duas paixões. Mesmo depois de muito tempo.

Até que ganhei meu primeiro celular e troquei a lista de papel no fundo da gaveta pela agenda na memória do celular. Ah, como era mais fácil! Na necessidade de ligar para alguém, bastava caçar o nome da pessoa ali na agenda, apertar o botãozinho verde e shazam, o telefone já se ouvia a chamada. Ter que conferir o número se tornou obsoleto, bem como a minha agenda eletrônica, que acabou deixando de receber os meus novos contatos.

Mas isso, de fato, não é nem um pouco construtivo para uma amizade e, logo, para a sociedade. Como você pode considerar como seu melhor amigo aquela pessoa cujo número de telefone (que é quase ou até mais importante do que o número do RG dela) você desconhece? Não, isso não é amizade que se preze.

Recentemente, acabei me desprendendo do meu celular, esquecido em algum lugar que não o meu quarto ou a minha mochila. E justamente recentemente me senti na extrema necessidade de ligar para alguns amigos por motivos que não vêm ao caso agora.

Qual não foi a minha decepção ao me dar conta de que, embora soubesse de várias coisas da vida dos tais amigos, não sabia nem como começava o número de seus telefones.

Eu, justamente eu, aquele ser que cerca de 17 anos atrás apertou alguns botõezinhos e, embora mal soubesse falar o próprio nome, conseguiu ligar para a avó por simplesmente ter decorado o número discado todas as noites pela mãe.

Por um bom tempo me senti um mau amigo, até que retomei meu celular poucos momentos atrás e voltei a me sentir um excelente amigo. Adventos da modernidade.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Beleza (quase) pura

Chega um tempo em que um segredo o consome tanto, mas tanto, que é preciso extravasá-lo ao mundo, ou pelo menos ao Fantástico.

Não que escrever tamanha bobagem aqui seja a mesma coisa que contar ao Zeca Camargo e a mais de muitos milhões de brasileiros, ao resto do mundo uma peculiaridade minha, pelo contrário: imagino que apenas os meus fiéis leitores (valeu, vocês dois!) descobrirão isso. Enfim.

Quando pequeno, ainda com cinco ou seis anos, me perguntaram qual era o tipo de menina de que eu gostava. Por achar uma menininha da minha sala (a Marina, loirinha de olhos verdes) extremamente bonitinha, falei que preferia as loiras. Bem original, hein?

Só que os anos foram passando e o meu gosto foi mudando. Percebi que gostar de garotas loiras era muito relativo, especialmente depois da explosão de loiras que a Carla Perez provocou. Pouco a pouco mudei meu gosto e passei a me interessar pelas garotas de cabelo castanho, seja escuro ou claro.

Apenas depois de muito tempo percebi que meu gosto ia além da cor do cabelo. Características psicológicas à parte, as meninas que mais me atraíam eram as baixinhas (do alto dos meus 1,70m não poderia ser diferente) de cabelo castanho. Legal, não?

Mas de uns anos para cá, passei a ver que meu gosto não era tudo. Tinha um outro detalhe que certamente me cativava como nenhum outro: piercing no nariz, daqueles de argola na narina (não aquele estilo búfalo) . Independentemente da cor do olho, do cabelo ou de qualquer outro detalhe da garota, o tal do nose ring me cativou.

Recentemente comentei isso com uma amiga e ela, logo de cara, aproveitou para rir da minha cara: “Então basta uma pessoa chegar com uma argola no nariz e já era, você tá gamadão?”. Fui obrigado a refinar as minhas exigências. “Não, claro que não. Mas ter o piercing no nariz de fato chama a minha atenção”.

A tal garota, que por infelicidade do destino não tem um piercing de argola no nariz, pediu para que eu explicasse o motivo da minha peculiaridade. “Não sei, apenas gosto”, respondi, meio que de ombros. “Mas talvez seja porque, sei lá, ao mesmo tempo a menina mostra que quer ser como todas as outras que usam um piercing no nariz, mas também mostra uma certa rebeldia por usar uma argola. Sei lá, imagino uma garota mais independente”.

Ah, esqueci de falar: a minha primeira namorada, aquela garota com quem me reencontrei casualmente não muito tempo atrás, usava piercing no nariz. De argola, aliás. Mas desde antes de namorá-la já gostava do tal adorno.

Não, não escrevi tudo isso para que alguma garota com piercing de argola no nariz se sensibilize, me mande cartas ou qualquer palhaçada do tipo. Apenas senti que estava na hora de compartilhar um segredo por aqui. :)

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Ponte aérea Pristina-Pequim

Creio que ninguém no momento esteja pensando nisso, mas ao ler recentemente algumas notícias sobre a independência de Kosovo, acabei enveredando as minhas reflexões para um lado nem um pouco engajado.

Bom, vamos lá. Kosovo sempre foi terra de ninguém (ou de vários). Antes, conhecida como Dardânia, incorporou o Império Romano, mas por volta do século IX foi tomada pelos Bizantinos de origem búlgara. Mais tarde a Sérvia decidiu ocupar o lugar, mas perdeu o comando séculos depois para os Turco-otomanos. Os eslavos só vieram reassumir o comando mais tarde.

No início do século passado, no entanto, os albaneses passaram a controlar a região. Depois de uma guerra e outra, voltou a fazer parte dos sérvios, mas desta vez sob o comando da Iugoslávia. Mas o reino dos eslavos do sul pouco a pouco foi sendo dizimado, reoriginando os já existentes Sérvia, Montenegro, Croácia, Macedônia, Eslovênia e Bósnia-Herzegóvina.

Tá, mas e o Kosovo? Bom, o Kosovo, de maioria étnica albanesa, continuou sob domínio da Sérvia. Depois da grande Guerra do Kosovo no final do século passado entre o que restava da Iugoslávia (Sérvia e Montenegro) e a Otan (patrocinada pelos Estados Unidos), o Estado não-independente foi controlado pela Organização das Nações Unidas, a ONU.

Mas o que de fato a baiana (ou no caso, a kosovar) tem pra ser controlada por todo mundo, inclusive pela ONU? Bom, não sei se esse é o principal atrativo local, mas o país é uma das rotas obrigatórias do tráfico pesado de drogas. Só a nata dos entorpecentes mundiais – o Morro do Dendê é fichinha.

Papo separatista vai, papo separatista vem, no começo deste ano a maioria albanesa do Kosovo (quase 90% da população) enfim decidiu se emancipar oficialmente no último domingo (e foi assim mesmo: um cara leu um decreto e zaz, independência!). Um dia depois, criou-se uma bandeira oficial e, de quebra, despertou-se um mal-estar entre EUA, Rússia e alguns países da União Européia.

Mas, por ora, o papo não é a geopolítica. A minha dúvida é se haverá atletas kosovares nos Jogos Olímpicos de Pequim-2008. Se em 2000 até o Timor Leste conseguiu enviar atletas, fica a dúvida sobre a possibilidade de os integrantes do mais novo país do mundo conseguirá desfilar com sua bandeira na cerimônia de abertura em agosto, na China.

Bom, não deve ser fácil. Em um país com 2 milhões de habitantes, é complicado aparecer algum atleta de alto nível, especialmente em um período tão conturbado como o vivido pelo Kosovo recentemente. Para se ter uma idéia, 2 milhões de pessoas é o número aproximado de pessoas que anda de metrô em São Paulo diariamente.

E quantos atletas você já viu no metrô? Até hoje, eu só vi um: um dos membros da seleção brasileira de canoagem velocidade, que voltava do Pan do Rio de Janeiro (ele tinha um caiaque nas costas, um remo nas mãos e uma camiseta oficial do COB – só assim que eu descobri que ele era atleta).

Embora quase nenhuma das federações de esportes kosovares sejam reconhecidas mundialmente e as seleções do país apenas disputem amistosos, fica a expectativa de o Comitê Olímpico Internacional reconhecer o Kosovo como um país independente.

Em vez de investir em armamentos e blábláblá, o governo bem que poderia tentar fazer algum nadador, corredor ou qualquer outro tipo de atleta a conseguir índice olímpico e participar de Pequim-2008. Seria uma propaganda e tanto para um Estado recém-formado (isso se ele continuar existindo até agosto).

Em tempo: Fidel renunciou em Cuba. A pressão que ele exercia sobre os atletas da ilha caribenha era enorme, mas dava resultado em ouro, prata e bronze nas Olimpíadas. Era mais ou menos a mesma coisa que a União Soviética fazia pra mostrar que o regime político lá era bom.

Em Pequim-2008, os cubanos não vão mais sofrer pressão do Fidel para conseguirem resultados e, mais do que isso, deverão ter mais liberdade para migrarem para os grandes centros do esporte (vulgo Europa e Estados Unidos). Além disso, vai mostrar se os atletas insulares eram mesmo um fenômeno ou corriam com medo do ditador.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Dia livre

Estive fazendo algumas continhas básicas de somar e multiplicar sem a ajuda de uma calculadora apropriada para tais operações e, se nada deu errado (é bem provável algo - e logo tudo - tenha dado errado), cheguei à incrível marca de 32 finais de semana gastos em função do trabalho dos últimos 60 possíveis.

Mas logo depois de suar frio por ter feito contas sem a ajuda de um papel, um lápis e/ou maquininha de calcular, cheguei a uma conclusão (que não é tão minha: a Carol Canossa já havia obtido as mesmas idéias duas vezes: aqui e aqui): o duro não é ter que trabalhar nos finais de semana, mas sim durante a semana inteira.

É verdade. Embora veja amigos se vangloriando por não terem de labutar aos sábados e aos domingos e mais amigos torcendo para não pegarem um emprego que exija plantões nos dias santos de judeus e cristãos, respectivamente, confesso que não é tão ruim assim o trabalho aos finais de semana.

Além de me sentir bastante útil para a sociedade ao chegar em casa no sábado à noite, ainda tenho passe livre pra dizer “putz, hoje não, tô cansadaço” ao receber algum convite para fazer alguma coisa desagradável. Sempre funciona. Sem falar no fato de que é quando a redação fica mais solidária e, tirando os momentos de tensão nos finais dos jogos, as risadas são inevitáveis.

E trabalhar aos finais de semana, pelo menos para mim, rendem uma folga em um dia aleatório durante a semana seguinte. E justamente na manhã de hoje, aproveitando o dia livre do trabalho, me encontrei pensando nisso e em várias outras preocupações cotidianas enquanto estava sentado na beira da lagoa do Parque do Ibirapuera.

Era pouco menos que 11 da manhã quando eu, já cansado de pensar, deitei sobre a grama que margeia a lagoa, fechei os olhos e praticamente me desliguei do resto do mundo, que do lado de fora do parque acelerava, freava e buzinava seus carros. Com o braço esquerdo sobre os olhos, peguei no sono e quase comecei a sonhar.

Acordei extremamente relaxado algumas dezenas de minutos depois com a certeza de que não é muito legal trabalhar aos finais de semana, quando toda a população mundial descansa, mas em compensação é extremamente divertido folgar enquanto o mundo se mata de trabalhar.

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Mistério de 25 horas da humanidade

Todos os anos, geralmente em fevereiro e pouco depois da esbórnia carnavalesca, grande parte da população brasileira se depara com um fenômeno artificial ligeiramente bizarro: o dia mais longo do ano.

Pois é. Aprendemos nos primeiros dias de escola (alguns mais avançados tomam conhecimento antes) que os dias têm 24 horas. Há quem diga por aí que a duração do dia é um pouco menor do que isso: em números exatos, o dia teria a duração de 23h56 horas siderais.

Polêmicas científicas à parte, o fato é que em fevereiro há o dia de 25 horas, que geralmente é plano de fundo para acontecimentos muito, mas muito estranhos. Sobretudo por ele ter duas meias-noites, a hora cabalística.

A mais comum dessas coisas peculiares é o fato de que o dia mais longo do ano é o que mais recarrega as energias do ser humano. Basta ir para a cama antes das 22 horas e pegar no sono. Você acordará no dia seguinte com a sensação de ter dormido muito mas do que o normal.

Mas o dia das 25 horas se torna ainda mais esquisito se ele for a véspera do seu aniversário. Há relatos verídicos de pessoas que saíram com uma idade e, após cantados dois parabéns nas duas meias-noites, voltaram para casa dois anos mais velhos. Já pensou?

Por essas e outras, ufólogos, psicólogos, cartomantes, líderes espirituais, chefes de família, conselheiros e palpiteiros são uníssonos: se possível, guarde leito no dia de 25 horas. É seguro, é saudável, é econômico, preserva amizades e, como já dito anteriormente, recarrega energias. Dica pessoal. O duro é ter que aturar o Zorra Total na televisão.

Mas é claro que há controvérsias quanto à mística do dia de 25 horas. Tem aqueles que costumam se dar bem na tal data cabalística, enquanto outros, fiéis e inocentes, juram que será nesta data a inauguração do famigerado estádio do Corinthians.

Já a mídia marrom e golpista tenta nos convencer de que é apenas um dia normal, que marca o fim do horário de verão (aham, e eu sou o Bozo!). Mas amigos de amigos meus juram que um dia com 25 horas não é quase nada perto do universo paralelo encontrado dentro do Unibanco, onde o dia tem 30 horas. Medo.

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Reencontro real

Em algum dia do ano passado, calculei por aqui que a chance de alguém encontrar alguma determinada pessoa no metrô de São Paulo é de 0,0000000025%. Pois bem.

Era uma sexta-feira normal. Eu havia acordado às 10h45, tinha visto alguns desenhos animados, tomado banho, pegado o jornal e ido para o trabalho. Após ler a crônica do Caderno 2 e as notícias de outros esportes, fiz baldeação e senti que alguma coisa não estava muito normal.

Por quê? Descer uma escada com os olhos arregalados não é muito normal. O pior de tudo, aliás, foi perder o trem por causa de uma mulher lerda que empatou a fila e não permitiu que eu embarcasse. Acontece.

Fiquei andando pela plataforma de embarque até encostar em um pilar e ler as principais chamadas do dia. Acabei abrindo o caderno principal pra ler o desenrolar do lance dos cartões corporativos quando olho para o lado e vejo uma garota. Não ‘uma’ garota. Era a minha ex-namorada, a garota com quem eu queria encontrar há muito, muito tempo.

“Olha, é ela!”, pensei. “OK, legal... deixa ela ir”, repensei. “Humm... não. Faz mais de dois anos que eu quero me encontrar com ela e... ah, vou falar com ela. Putz, é melhor correr”. Corri um pouco e chamei sua atenção. Como? É, não foi a melhor abordagem: dei uma jornalada de leve em seu braço.

Bom, vou apenas reproduzir o que aconteceu. Fica mais fiel:

Eu: Hey!
Ela: Oi?
Eu: Hey!
Ela: Oi?
Eu: Hum... lembra de mim?
Ela: Não...

(Decepção. Mas... calma, hoje eu tenho barba, diferentemente daquela época)

(O que falar agora? A verdade, claro: eu sou aquele seu ex-namorado que foi cuzão o bastante pra terminar por telefone e sumir da sua vida por muito, muito tempo, lembra? Humm... calma, melhor não)

Eu: É, imaginei... Felipe, lembra?
Ela: Nossa!
Eu: E aí, tudo bom? E... nossa, quanto tempo!
Ela: É... bom, eu tô meio atrasada, tenho que ir, de verdade.

(O trem da minha plataforma chegava. O da dela, não)

Eu: Poxa, fazia tempo que eu queria te encontrar. E... ah, você ainda mora na Saúde?
Ela: Sim... mas eu tenho que ir, tô atrasada.

(Meu trem abriu as portas. O da plataforma dela, nem sombra)

Eu: É, eu também tenho que ir. Tenho que ir pro trabalho, e...
Ela: Ok.
Eu: Tchau. Bom, tomara que a gente não leve tanto tempo pra se ver de novo. (piscadela de um olho só)
Ela: ...

--

Entrei no metrô, sentei com o jornal na mão e tentei digerir o acontecimento. Não consegui. Tentei encontrar alguma música no ipod que substituísse ou resumisse aquele momento. Não consegui.

Encontrá-la representou a realização de um dos meus maiores desejos de ultimamente. E, quer saber, não foi nada muito pior do que eu imaginei que seria. Só que, no fundo, foi bacana reencontrá-la.

Já meio alto depois do trabalho, acabei lembrando de uma coisa. O jeito de ela dizer “tô meio atrasada” era bem igual ao jeito que ela mostrava uma insegurança para mim três anos atrás. Era quando eu apertava a ponta de seu nariz, sorria e dava um beijo em seus lábios.

Ah! Será que ela lembrou que hoje fez exatamente três anos e dois meses que a gente terminou?E será que ela se lembrou de algum momento bom antes de três anos e dois meses atrás?

Ah, deixa pra lá.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Relações desconexas

Ou mais uma da série ‘pensamentos pueris sobre amizades’.

Em uma de minhas andanças pela cidade ultimamente, estive pensando em uma besteira bem grande que, estranhamente, se fixou na minha cabeça em uma tarde de segunda-feira.

De uma hora pra outra, comecei a pensar que o esforço muscular que fazemos para cumprimentar uma pessoa é diretamente proporcional à quantidade de afeto que temos por ela (familiares não contam). Parece bobagem, e de fato não deixa de ser. E não é difícil de explicar, ou pelo menos tentar defender essa tese bem ridícula.

É mais ou menos assim, pelo menos no meu caso. Costumo cumprimentar meros colegas, independentemente de onde sejam, com um simples aperto de mão e no máximo um ‘opa’ ou ‘té mais’.

Com pessoas com quem eu sequer tenho um coleguismo, me restrinjo ao ‘opa’ e poupo os músculos do braço direito de qualquer esforço maior. Com mulheres não é diferente, embora, por instinto, façamos mais esforços, seja com desconhecidas ou colegas.

Ok, mas e com pessoas mais próximas? Simples: pessoas com quem tenho um pouco mais de convivência sempre valem um tapinha no ombro ou, então, uma saudação com as mãos a uma primeira vista (algo do tipo ‘ôô, campeão, e aí!?’). Melhores amigos merecem um abraço e ponto final.

Há quem discorde e diga que isso é balela. “Consigo muito bem disfarçar qualquer reação quando me encontro com alguém querido, como por exemplo aquela garota por quem sou apaixonado”. Sim, concordo, embora seja impossível disfarçar uma fortíssima taquicardia. E, àqueles que fugiram das aulas de ciência, vale lembrar que o coração é um músculo.

Mas nem tudo é tão simples assim. Coincidentemente, justamente no dia em que essa estranha relação me atormentava por aí, encontrei uma garota por quem guardo certo carinho. Em contrapartida, temos uma coisa bem peculiar em comum: o orgulho. Tanto orgulho que acaba transformando o carinho mútuo em uma indiferença quase que cruel por não nos procurarmos.

Pego mais ou menos de surpresa com o encontro (quase que previsto) com a tal amiga, senti que deveria esconder a qualquer custo o carinho que sentia por ela – a menos, é claro, que ela demonstrasse reciprocidade. Não foi o caso: ao mesmo tempo em que nossos olhares se cruzaram, ela levantou as sobrancelhas e eu dei um ¼ de sorriso com um canto da boca (algo semelhante àquela cara de tédio).

Hoje, coincidentemente, nos reencontramos e o cumprimento foi exatamente o oposto. Não, não trocamos um abraço efusivo, mas desta vez quem ergueu as sobrancelhas fui eu, enquanto ela deu o sorriso amarelo entediado.

Bom, pelo menos rolou a tal da reciprocidade.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Mudanças drásticas

Segunda-feira foi o último dia de trote na faculdade e hoje, terça, representou a volta ao normal no quinto andar daquele prédio feio na Paulista. Isso significa que toda aquela ceninha de ‘eu sou o veterano mau que pega as bixetezinhas pra fazer mingau’ seria deixada de lado e o mundo retornaria aos seus eixos (para mais detalhes do que um veterano mau pode fazer conheça as bixetes Saci e a Racismo Não, minhas principais obras de arte da temporada) .

Mas primeiros dias de aula são sempre iguais. E hoje, durante uma das minhas divagações aleatórias durante as aulas acadêmicas, acabei me lembrando de dois primeiros dias de aula em um passado não muito distante.

Mudei de colégio da quarta para a quinta série. No meu primeiro dia na nova escola, não por acaso me senti extremamente estranho ao adentrar uma sala cheia de pessoas desconhecidas. Calado, escolhi um lugar e não falei um A sequer até que o sinal batesse me libertando para voltar para casa.

Aquele dia de fevereiro de 1999 foi bastante esquisito e, sinceramente, bem ruim. Não é nada agradável ser aluno novo. Se grande parte das minhas amizades haviam sido construídas até então de forma natural ao longo da vida, iniciar uma vida nova é complicado. Bastante. Era como se algo estivesse faltando na minha vida.

Não muito tempo depois, em um tempo que eu já estava enturmado e tudo mais, novamente me vi diante de uma situação esquisita. Embora não tivesse mudado de instituição de ensino, havia caído em uma sala com praticamente os mesmos alunos do ano anterior, salvo duas exceções: coincidentemente, meus dois melhores amigos – que, embora estivessem matriculados, não estavam lá.

Não foi um primeiro dia tão parecido como aquele da quinta série. Já conhecia muita gente da sala e, desta forma, não precisei ficar tão calado como antes. Contudo, foi muito estranho – foi quando aquele clichê (de bastante efeito) de ‘tão perto mas tão distante’ fez algum sentido para mim.

Se aquele dia inaugural em 1999 tinha sido complicado, o outro havia sido bem mais. Não era como se alguma coisa estivesse faltando, mas sim como se muita coisa estivesse faltando.

A explicação para tudo isso é simples: tudo culpa minha, uma pessoa que insiste em seguir um modelo ultrapassado e antiquado de criar melhores amizades.

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Cultura do café

Não foram milhões, milhares, centenas ou sequer dezenas de pedidos – foram apenas dois, de Júlio Simões e Mané, mas a saga Starbucks continua. Acontece que me empolguei um pouco no anterior e apenas o dividi em dois, para não fazer com que meus três ou quatro fiéis leitores (também te amo, mãe!) se cansassem.

Pois bem: depois de deixar alguns muitos preciosos trocados na Starbucks do cruzamento da alamedas Santos x Campinas, houve um dia em que tomei café de graça por lá. Eu explico como.

Dia desses, após atravessar a cidade, pegar metrô, trem e caminhar um bom bocado para resolver alguns problemas extremamente burocráticos que não vêm ao caso agora (um dia, talvez...), cheguei à Paulista duas horas antes de o meu expediente no trabalho começar. Entre ficar andando que nem uma barata tonta pela região ou me preparar fisicamente para o trabalho, optei pela segunda alternativa e fui encher a cara de café.

Após comprar a minha dose de café moído na hora, me sentei em uma das poltronas e fiquei jogando boliche no telefone celular até que um dos funcionários convidou a todos os presentes no estabelecimento (um casal de amigos e eu) a participar da degustação de café que iria começar. É claro que eu não recusaria cafeína de graça.

Então uma outra funcionária, visivelmente insegura, começou a explicar as maravilhas do café tipo Verona, originário da Ásia Pacífica (próxima ao Pacífico, dã!) e muito famoso na Itália, claro. Um café de gosto mais textura suave e gosto refinado, coisa e tal.

A moça também explicou outra coisa importantíssima para degustadores de café: os grãos de café produzem um óleo que incrementa o sabor da bebida, mas os filtros de café captam todo esse óleo – o ideal mesmo é usar uma prensa francesa, que era vendida lá mesmo. Além disso, aprendi lá que o café tem quatro inimigos: oxigênio, luz, umidade e calor. Interessante.

Depois de muita explicação começou a degustação propriamente dita. Mas, antes de nos esbaldarmos com o café Verona, um pedido: que sentíssemos o aroma do café. Como? Fazendo uma concha com a mão sobre o copo e cheirando a. fumacinha. Enquanto fazíamos isso, tive a sensação de que, se alguém chegasse de fora, imaginaria que estávamos baforando alguma droga. Falando em droga, o outro cara da degustação disse que sentiu cheiro de ervas no café. Café, sei.

A moça ensinou também outra coisa: deveríamos sorver o café. E como fazia isso? Resposta: fazendo biquinho e puxando o café fazendo barulhinho de sopa. “É chique, ó”, disse, antes de fazer aquele barulho tosco que certamente me renderia no mínimo um olhar maternal de plena censura se fosse feito em público.

O café servido, contudo, não estava adoçado. Não precisava, segundo a palestrante: todo tipo de café combina com um alimento. Aquele, por exemplo, combinava com chocolate. Deveríamos comer um pouco de chocolate (servido de graça, claro) e então tomar o café. Fiz isso e senti um dos melhores gostos possíveis.

Confesso que, então, passei a me sentir um expert da cafeína. Já tinha ouvido no rádio uma entrevista sensacional na Jovem Pan sobre café e aprendi que o hábito humano de tomar café começou há muito, mas muito tempo, quando uns pastores perceberam que as ovelhas comiam um frutinho amargo e ficavam ligadonas durante a noite inteira. Também aprendi que, inicialmente, o café não era torrado e moído, mas feito de sob a forma de infusão, como chá. Fora várias outras coisas. Agora, tinha participado de uma degustação de café e consumido na Starbucks de graça.

Agora a parte de serviços deste blog: quem também quiser tomar café de graça na Starbucks, basta conferir nas lojas os horários em que as sessões de degustação rolam na franquia. Na da Alameda Santos, há duas sessões por dia: às 11 horas (mas que na verdade começa ao meio-dia) e às 18 horas.

sábado, 9 de fevereiro de 2008

Queimando a língua

Era metade de 2006 quando eu descobri que a rede Starbucks estava prestes a desembarcar no Brasil, em uma das aulinhas de inglês – das quais hoje eu tenho saudade. Não muito tempo depois, passei a ouvir depoimentos de várias garotas de cabelo lisinho e roupinha de marca elogiando o frapuccino de morango de lá. Não dei bola.

Até que no comecinho de 2007 li uma coluna do Marcelo Rubens Paiva no Estado de S. Paulo comentando a chegada da Starbucks à capital paulista: “O Prêmio Por Que Pensei Nisso Agora deveria ser entregue aos empresários que demoraram, mas trouxeram o Starbucks Café para o Brasil. Neguinho vai deixar de tomar aquele cafezinho go-to-so de todas as esquinas em troca de um café numa caneca de papelão com canudinho que custa seis paus? Pior que vai.

Pois bem. Passei a imaginar o Starbucks como um McDonald's cafeinado e não me interessei em me aventurar por lá – até porque, àquela época, café não fazia parte do meu vocabulário e nem compunha 45% da minha alimentação diária. Só que o tempo passou e estava na Paulista em uma tarde de terça-feira em novembro esperando dar o tempo do cinema e me deparei com uma das lojas da rede ianque – no caso, a do Center 3.

Como estava com sono depois de Decidi, então, pedir o famoso frapuccino de morango, ficar acordado e desmistificar a rede ianque. Gostei do atendimento, que me chamou pelo nome e não pela bebida (simpatia, olha só!), mas recebi um milk-shake que me deixou ainda com mais sono. Acontece.

Um mês depois, no dia da penúltima despedida do Thiago Bronzatto, marquei com duas amigas de me encontrar no Starbucks da Alameda Santos antes de irmos pra longínqua cidade do nosso amigo. Sem personalidade, pedi a mesma coisa que a Carol (um capuccino tall) e teria a chance de experimentar a primeira bebida quente de lá.

Gostei do ambiente simpático daquela loja da Starbucks, pertinho do trabalho, e passei a ir vez ou outra lá. Apesar de no começo ter certos problemas com o tamanho dos copos (um dia pedi um café americano (ou seja, puro) venti achando que era o menorzinho e ganhei meio litro de café, que me rendeu 12 horas-extras de insônia), percebi que lá sempre toca umas músicas bem diferentes e legais, passei a me adaptar ao lugar bem simpático e até descobri que o café do dia é mais gostoso do que o americano.

Passei a adquirir a simpatia de alguns dos caixas e passei a simpatizar em particular com uma loirinha de olhos azuis que fica por lá na parte da manhã.

O Starbucks entrou de vez para o meu conceito quando passou a me salvar aos finais de semana, quando a Fundação não disponibiliza café no andar 3 ½ (!). Além disso, foi lá que eu consegui a ração de soma necessária para trabalhar nos dias 22, 23, 24 e 26 de dezembro (no dia 25, só jornalistas trabalham). Bem legal.

Toda vez que vou ao Starbucks queimo a língua: nas formas denotativa e conotativa. Denotativa porque não sei esperar o café esfriar um pouco e conotativa porque, bom, lá não tem nada a ver com um McDonald’s cafeinado.

Se tem algum ponto negativo no Starbucks é o fato de não aceitar VR – o que me daria a sensação de tomar café de graça. Nem tudo é perfeito, claro, embora seja possível tomar café de graça por lá. Mas isso fica pra um outro dia.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Teresa, Teresa... e Teresa

A primeira vez que vi Teresa
Achei que ela tinha pernas estúpidas
Achei também que a cara parecia uma perna


Quando vi Teresa de novo
Achei que os olhos eram muito mais velhos que o resto do corpo
(os olhos nasceram e ficaram esperando dez anos que o resto do corpo nascesse)

Da terceira vez não vi mais nada
Os céus se misturaram com a terra
E o espírito de Deus voltou a se mover sobre as faces da água

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Um dia desses voltei pra casa um pouco alto – ou um pouco mais do que isso – e a primeira coisa que vinha à minha cabeça era esse poema do Manuel Bandeira. Não por menos: estava pensando em quantas Teresas não passaram pela minha vida.

É normal. Platônico que sou, costumo me fechar em torno de uma paixão bobinha ou, pior, em um pensamento pueril de uma paixão. Besteira, romantismo, imaturidade. Chame do que quiser. Eu digo apenas que é meu jeito de ser.

Só que é exatamente nessas horas em que me aparecem as Teresas da vida. Garotas para quem eu olho com certo carinho à primeira vista, mas que têm pernas estúpidas e rostos semelhantes às pernas (e, conseqüentemente...). Instantes depois, as pernas estúpidas passam para segundo plano e os olhos mais velhos que o corpo que me incomodam. Mas a vida segue...

E é justamente quando tento olhar pela terceira vez para a Teresa que já é tarde demais. Os céus, e as terras, e as faces da água... tudo já sido movimentado há tempos – e não por mim, claro.

E as Teresas apenas se tornam parte de uma poesia que jamais será escrita.

E por falar em Teresa, impossível não citar o Madrigal Tão Engraçadinho: "Teresa, você é a coisa mais bonita que eu já vi até hoje na vida, inclusive o porquinho-da-índia que me deram quando eu tinha seis anos".

Apenas quem já teve um porquinho-da-índia aos seis anos sabe do que eu estou tentando falar.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

A melhor música de todos os tempos (ou não)

Certamente isso vai soar como uma blasfêmia a qualquer músico inveterado, mas algumas reflexões minhas nos últimos não me deixam esconder minha música preferida. Apesar de a música mundial – especialmente o rock, meu gênero preferido – estar repleta de coisas simplesmente sagradas, a minha canção predileta e seu intérprete são praticamente desconhecidos.

Não, não se trata dos inquestionáveis Beatles, que fizeram o básico se tornar chique. Também não é nada musicalmente perfeito como Led Zeppelin e muito menos algo tão clássico como Born to be wild, do Steppenwolf, e nem Smoke on the water, do Deep Purple. Sinto frustrar aqueles mais nacionalista ao dizer que minha música favorita não foi composta ou interpretada por Los Hermanos ou Chico Buarque.

Descobri essa canção ainda com 15 anos, no primeiro colegial. Em um dia aparentemente qualquer no laboratório de informática do meu colégio, um colega de sala abriu a Internet – algo que não nos era permitido aquele dia – em um site que eu não conhecia, o Punk Hardcore.com (página que eu também não acessei novamente).

Pois bem. Naquela sexta-feira, por volta da hora do almoço, o site anunciava o lançamento de um novo single de uma banda da qual eu jamais havia ouvido falar. A música em questão tocava sempre que a página virtual especializada em punk e hardcore era acessada. E o som que tocou logo chamou a minha atenção. Ao perguntar para o meu amigo, obtive o nome e o intérprete da música: I believe I can fly, gravação do Me First and the Gimme Gimmes de 2003.

Pois bem, agora vamos por partes. A música em questão foi originalmente composta por R-Kelly, um cantor de hip hop norte-americano que hoje em dia aguarda por seu julgamento da acusação de pedofilia. Embora tenha escrito músicas para diversos grupos (dos quais eu não gosto nem um pouco), I believe I can fly foi a que fez mais sucesso por um motivo especial: embalou o filme Space Jam (Warner Brother/1996).

Para quem não lembra, a trama de Space Jam é mais ou menos a seguinte: alguns alienígenas baixinhos capturam os Looney Toones. Pernalonga, Patolino e cia. limitada propõem um desafio para serem libertados: como os ETs são baixinhos, sugerem uma partida de basquete.

Os etezinhos, então, roubam o talento dos cinco melhores jogadores em atividade na NBA naquele ano (Charles Barkley, Pat Ewing, Muggsy Bogues, Larry Johnson e Shawn Bradley) e se tornam monstros grandes e talentosíssimos. O Pernalonga, então, tenta convencer o então aposentado Michael Jordan a deixar o beisebol e voltar às quadras de basquete. É divertidíssimo (pelo menos para um garoto de oito anos que assistiu ao filme em 1996).

Quanto ao intérprete da minha versão predileta: o Me First é uma banda de punk cover estilo Globetrotters – famoso time de basquete que se reúne de vez em quando para jogar basquete de forma incrível e alegrar o público. O grupo, que conta com o vocalista Spike Slawson (Swingin’ Utters), os guitarristas Chris Shiflett (Foo Fighters, mas que também tocou no No use for a name) e Joey Cape (Lagwagon), o baixista Fat Mike (Nofx) e o baterista Dave Raun (também do Lagwagon), de vez em quando faz alguns shows, grava algum CD e regrava sucessos da música. E I believe I can fly foi uma dessas.

Com duração de 2min58 (versão Me First), o som mistura um início bem calminho, mas que ganha muito mais ritmo e (pessoalmente) graça no primeiro refrão. Bem animada, a música é difícil de ser ouvida à exaustão. A letra também é bonitinha: trata de uma pessoa sem muitas esperanças na vida, mas que conheceu o amor de verdade, ganhou confiança e passou a ter otimismo na vida (qualquer semelhança com este que vos escreve é pura coincidência). E as poucas pessoas para quem eu recomendei gostaram.

I believe I can fly não é tão desconhecida como parece. Ela foi eleita uma das 500 melhores músicas de todos os tempos de acordo com a revista Rolling Stones. Também chegou ao topo da lista das mais pedidas no Reino Unido, na Suíça e na Holanda, além do segundo lugar em Áustria e Estados Unidos e no terceiro posto da Alemanha. Ela também é famosa por tocar durante partidas da NBA e, também, em formaturas colegiais nos EUA. Mas não na versão do Me First, claro.

Para quem jamais ouviu falar da música versão Me First, segue o clipe dela logo abaixo. E para quem nunca nem ouviu falar da tal banda, uma sugestão: Kazaa e Limewire, claro (no Youtube há muitos vídeos ao vivo, com som muito ruim). Além da trilha do Space Jam, as minhas outras favoritas da banda serem as regravações de Don’t cry for me Argentina e Over the rainbow (isso, aquela mesma do Mágico de Oz!).

Uma das coisas legais no Youtube, no entanto, é este vídeo, que mostra uma apresentação em um Bar Mitzvah (um dos momentos marcantes da vida de um novo judeu). Legal ver a cara atônita de grande parte da festa e o riso contido nos molequinhos mais novos. Depois, todo mundo cai no som, claro.


segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Masoquismo profissional

Demorou um ano e dois meses. Enquanto quase toda a população nacional comemorava a segunda-feira de Carnaval com todas as combinações alcoólicas possíveis em alguma praia por aí, eu me esbaldava com um café da Starbucks na Avenida Paulista e me preparava psicologicamente para o trabalho: a minha primeira cobertura de treino do Palmeiras.

Embora já tivesse feito treinos das seleções brasileiras de softball, esgrima e basquete e também do Botafogo, ainda tinha comigo um pé atrás: era o primeiro grande de São Paulo, e ainda mais depois de muito tempo me dedicando apenas ao noticiário dos outros esportes. Depois de tantos meses de ‘reclusão’ voltaria a ser lido (ou alguém acha que notícias de NBA e tênis dão alguma audiência? Infelizmente, não).

Pois bem. Peguei laptop, celular, cabos e mais cabos, documentos, óculos, blusa de moletom, barrinha de cereal, gravador... e ainda assim senti que estava esquecendo algo. Só no carro percebi que havia deixado para trás o bloquinho e a caneta. Acontece.

Ao chegar ao CT do Palmeiras, tentei armar o laptop e desisti logo em seguida: não havia tomadas trifásicas no local. Claro que na hora me lembrei do fatídico Grand Champion Brasil (mais explicações aqui e aqui), quando tive que passar um estresse danado para conseguir um adaptador. Preferi não correr riscos. E lá também não havia internet banda larga com cabo para muita gente. É, as coisas não iam muito bem.

O treino começou e eu, que nem de longe lembrava aquele molequinho vislumbrado eu até uns cinco anos atrás sonhava em ver de perto os jogadores do Palmeiras, observava tudo atento. Enfim. O momento mais legal foi quando começou um treino de finalizações e eu fiquei atrás do gol vendo os chutes e, mais legal ainda, as defesas do Marcos. Claro, foi inevitável ver um ou outro jogador errar feio o alvo e mandar a bola pra fora do campo, por cima do alambrado.

Num desses bicões esdrúxulos, a bola caiu ao meu lado. Nada mais gentil do que devolver, não? Pois bem... ao pegar a bola, senti que poderia ser observado por ninguém menos do que Wanderley Luxemburgo e, se a carreira jornalística não virasse, poderia virar gandula do Palmeiras. Mas, ao tentar jogar a bola por cima do alambrado, coloquei pouca força e a bola apenas bateu no topo da grade. E pior: caiu com tudo na cabeça de um renomado repórter de rádio. Vergonha foi pouco.

Apesar de vários pesares com o notebook, que me deixou na mão logo após eu pensar que não precisava salvar os textos porque nada de mal iria acontecer, terminei a cobertura e voltei para casa. Com cinco notícias bem bestas, ganhei destaque principal de capa pela primeira vez depois da final feminina do Aberto da Austrália. Tinha até esquecido como era bom ter a sensação de que é possível ser lido por mais de duas pessoas.

E, claro, essa superexposição textual rendeu várias críticas. Bastou entrar no Orkut e ver vários torcedores metendo o pau em uma das minhas notícias. Elogios como ‘Gambazeta’ e ‘jornalismo de segunda’ foram fichinha para aqueles que acharam que havia um erro pelo fato do lateral-direito Élder Granja ter sido relacionado pra viajar com o elenco – o que de fato aconteceu. Apesar de ser xingado injustamente por torcedores preguiçosos e passionais/irracionais, estava sentindo falta de ver repercussão das minhas notícias – coisa que só acontece no futebol.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Paradoxo carnavalesco

Morar próximo à rodoviária que liga São Paulo ao litoral sul nunca me foi útil para muita coisa. Mas hoje, ao ver um mundo de gente com malas feitas indo para Santos, me lembrei de uma outra sexta-feira de carnavais atrás naquele mesmo cenário.

Aquele início de noite de sexta-feira carnavalesca estava tão normal quanto o das de todos os anos: quente, apesar da chuva que havia caído durante a tarde, e com uma certa alegria no ar. Carnaval, oras.

Ao seguir minha tradicional rota para casa, passando em frente a uma das lanchonetes da rodoviária, vi várias pessoas sentadas em volta de várias mesas se esbaldando com chopes em copos plásticos (algo próximo à heresia, diga-se). Todas esperavam o horário de seus ônibus rumo à praia, menos um: um cara sentado ao balcão.

Diferentemente de todos os outros daquele ambiente, o cara, bem vestido, com calça jeans e gola pólo, já beirando os 30 anos, não bebia chope, mas café. Não estava acompanhado, mas sozinho. Não se divertia como os outros, mas claramente se penalizava. Não ria, mas chorava. Copiosamente.

Era estranho pensar que o mundo saía para cinco dias de folga, descanso, farra, folia, libertinagem, libido, luar, putaria, pecados, abstrações e afins, e alguém logo ao lado chorava. Curioso, me sentei a uma mesa um pouco distante, pedi um suco de laranja e passei a observar.

Muitas pessoas que passavam por lá poderiam achar que o tal cara estava apenas bêbado ou drogado. Difícil: ninguém em tais condições tomaria café de uma forma até certo ponto compulsiva. E foi essa a mesma coisa que um policial da rodoviária contou à dona do estabelecimento, que havia estranhado o comportamento do cara do balcão.

Ainda soluçando, o cara pediu mais dois cafés antes de se levantar, com seu passo trôpego e soluçante, e ir embora. Difícil saber o que se passava com ele: se havia sido demitido, perdido algum familiar, terminado um noivado de 15 anos... sei lá, parecia ser alguma coisa grave.

Minutos depois, uma garota, já zureta por causa dos chopes, foi ao balcão reclamar com a caixa: seu sanduíche não tinha palmito. Reclamou, reclamou, reclamou... depois chorou um bocado, fez uma ceninha, ganhou um palmito e embarcou para a praia feliz e contente. Ah, as alegrias sintéticas. Ah... o carnaval!