segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

Show da virada

Embora espere ansiosamente pelo final do ano, o dia 31 de dezembro sempre me deprime um bocado. É quando eu estigmatizo todos os meus atos como os ‘últimos do ano’. Sempre foi assim, e não imagino que as coisas mudarão daqui pra frente. Até porque todas as horas que antecedem o reveillon são sempre iguais.

Uma das coisas mais marcantes do último dia da temporada é a São Silvestre. Não tem um ano sequer em que eu não faça questão de ficar na frente da televisão vendo alguns corredores brasileiros tentando parar os favoritos quenianos. Desde os inícios dos anos 1990, quando minha avó passava a tarde do dia 31 aqui em casa, até hoje em dia.

É sempre bom acompanhar a transmissão da corrida pela televisão, com os corredores passando por inúmeros pontos turísticos do centro de São Paulo até virarem na Brigadeiro e subi-la até a Paulista. Até cruzarem a linha de chegada com a mais do que a mais tradicional música de fundo das transmissões da Globo.

No ano passado foi diferente. Acompanhei as chegadas das três provas da São Silvestre direto da linha de chegada, pois havia sido escalado para trabalhar durante a corrida. Foi muito estranho ver Fernando Aranha (cadeirantes), Lucélia Peres (feminino) e Franck ‘canelas-de-sabiá’ Caldeira (masculino) se sagrarem campeões em frente ao prédio da Fundação Cásper Líbero sem a trilha sonora. Bateu um vazio: alguma coisa estava faltando.

Em anos ‘normais’, assim que acaba a corrida eu arranjo alguma coisa não muito útil para fazer. Jogo vídeo-game, toco violão ou guitarra, leio algumas páginas de um livro. Até que o relógio bate 20 horas e eu faço a barba e tomo banho pela última vez na temporada. Coloco uma roupa qualquer e fico na sala vendo televisão até a hora da janta.

Depois de comer, volto para o sofá e fico por lá até uns 20 minutos antes da meia-noite. Aí eu me levanto, vou para a janela do meu quarto e fico pensando em tudo o que aconteceu nos últimos 12 meses. É triste ver que as coisas passaram mais do que rapidamente. Também faço alguns planos para o ano que se iniciará. Quase nunca os cumpro, claro..

Então volto para a sala alguns instantes antes da meia-noite. Quando o novo ano se inicia, abraço meu irmão, meu pai, meu cachorro, tomo champanhe, ligo para a minha mãe, falo com a minha tia... Uns 20 minutos depois disso, desço e fico enchendo a cara com os amigos do prédio até o amanhecer. E volto para casa com a primeira ressaca do ano.

A São Silvestre (e o Cléber Machado chamou a antena da Gazeta de ‘uma das antenas da TV Globo)... voltando: A São Silvestre acabou de acabar e a música-tema praticamente não foi ouvida durante a dobradinha queniana de Robert Cheruiyot e Alice Timbilili. Talvez o mais importante seja a minha primeira viagem para o exterior, para local – ou locais – ainda a ser definido. Também já começo a pensar no trabalho que os Jogos Olímpicos de Pequim me darão quanto à cobertura e na depressão inerente a qualquer grande evento, com a volta à mesmice.

Pretendo levar uma vida bem mais saudável do que a levada em 2007. Dormindo cedo, acordando mais cedo ainda... fazer alguma coisa útil antes de ir para o trabalho.Viajar mais e aproveitar melhor o tempo de folga.

Talvez daqui a 366 dias eu volte à janela do meu quarto e pense no que eu consegui fazer ou não em 2008. E também terei a mesma preguiça ao pensar que terei que passar por março, abril, maio... e muitos outros meses até o próximo reveillon. É sempre igual e continuará sendo. Mas não é tão ruim quanto parece.

sábado, 29 de dezembro de 2007

O centro e a origem

De uns anos para cá, nutri um sentimento não muito agradável em relação ao centro da cidade – tanto que não ia para lá há um ano por livre e espontânea vontade. Que belo paulistano, não?

Mas eu tinha que ir ao centro ainda esta semana para fazer um documento não muito importante no Fórum João Mendes Jr. Só que, com tanto temor do centro, saí de casa sem mochila, ipod, celular e ou carteira. Tinha apenas um envelope com os documentos necessários, 12 mangos no bolso e mais 50 em uma das meias. Prevenção, oras!

Saí do metrô na Praça da Sé, virei à esquerda, depois à primeira direita, caí na Onze de Agosto, atravessei uma avenida movimentada e entrei no fórum. Embora já soubesse que deveria ir na sala 224, perguntei para a moça de colete vermelho. Ela nem chegou a me falar.

“De bermuda não pode entrar, desculpa. De bermuda você só pode ir na Nossa Caixa, na Rua 15 de Novembro, porque lá também dá para tirar esse documento. Para chegar lá você sabe, né? É só voltar para a praça, atravessar e logo você encontra o banco”.

Mesmo depois de atravessar a Praça da Sé novamente, percebi que não sabia encontrar a agência matriz e precisava pedir informações. Só que também sabia que pedir informações no meio da Praça era um risco, um chamariz para trombadinhas (na mesma hora me lembrei de uma amiga de uma cidade interiorana que veio fazer vestibular na capital recentemente e me contou que, enquanto não voltava para a sua terra, tinha a constante sensação de que seria assaltada).

Acabei parando em um bar na frente do Pátio do Colégio (lugar que eu conhecia vagamente) e pedi a tal informação. O caminho que o cara engravatado comendo um torresmo me indicou era simples: atravesse a rua, vire na primeira direita e desça. Fiz tudo como sugerido e não tive problemas para encontrar o banco. Sem fila, precisei de apenas alguns minutos para requisitar o documento e voltar para casa.

Poderia ter saído do banco e voltado diretamente para casa dentro do prazo estipulado anteriormente. Mas, ao sair da 15 de Novembro, percebi que estava diante de uma rua ligeiramente tortuosa, cheia de prédios e pessoas. Aquela que me chamou a atenção há uns 14 anos. De mãos dadas com o meu pai, perguntei qual era o nome dela. “É a Rua Direita. Direita, mas você pode ver que é torta!”, explicara.

E lá estava eu: diante da Rua Direita, onde começavam todos os memoráveis passeios com meu pai pelo centro da cidade, entre meus cinco e 12 anos. Tudo estava mais ou menos da mesma forma: o McDonald’s, as ruas, as pessoas, as mercadorias no chão... Não tinha como não reviver tudo aquilo de novo.

Segui caminho pela Rua Direita, porém torta, apenas para ver onde ela ia dar. Mas, enquanto passava pelas travessas, notava que estava diante de ruas cujos nomes estavam encravados na minha memória: Álvares Penteado, Quintino Bocaiúva, José Bonifácio!

Assim que passei pela José Bonifácio, vi à minha frente um prédio bastante familiar, mas cujo nome eu também não lembrava. Então passei pela Praça do Patriarca e emboquei em uma rua mais familiar ainda: a Rua São Bento. Pela lógica de que “deve passar no metrô São Bento”, decidi segui-la.

Percebi que estava no Largo São Bento e do lado do Prédio dos Correios – lugar não muito estranho para mim, já que costumava passar por lá para ir à Galeria do Rock em meus tempos áureos de Rock n’ Roll. Atravessei o Anhangabaú, subi a São João e passei em frente ao Rei do Mate, que servia o melhor mate com leite da cidade três anos atrás. Costumava ir lá com um velho, velho amigo.

Desta vez não parei para tomar o mate com leite. Atravessei a Líbero Badaró, virei à direita e voltei à Rua São Bento. Passei de novo pela Praça do Patriarca e retornei à Rua Direita, para a parte derradeira do meu passeio nostálgico. Derradeira mesmo: já eram 11h30 e eu deveria voltar para casa.

Antes de deixar a Rua Direita, vi um molequinho de no máximo quatro anos tentando acompanhar o ritmo das passadas largas do pai, que lhe segurava a mão. O adulto, porém, parou em frente a um prédio, pegou o filho no colo e apontou. “Sabe, filho, esse foi o primeiro prédio que construíram em São Paulo e no Brasil”. A mãe, que acompanhava o passeio entre pai e filho, ralhou: “Ele é muito novo! Você acha que ele vai lembrar disso?”.

Se aquele molequinho vai se lembrar disso no futuro eu não sei. Eu, mesmo tendo pegado a conversa sem querer, sabia que o prédio em questão era o Edifício Guinle. Meu pai me contou isso uma vez, quando eu devia ter por volta de quatro, cinco anos.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Inocentada

A data de 28 de dezembro não é tão insignificante assim como pode parecer. Além de ser o 362º do ano, o dia ainda é marcado por algumas comemorações importantes ao redor do mundo.

Foi em 28 de dezembro de 1813, por exemplo, que nasceu o Irineu Evangelista de Sousa, vulgo Barão de Mauá, aquele de quem todo mundo ouviu falar na escola, que queria industrializar o Brasil na época do café, mas esbarrou na burocracia da monarquia.

Quando Mauá já tinha 13 anos, o Iowa se tornou o 26º Estado dos Estados Unidos. Também na Terra do Tio Sam, 30 anos após a incorporação do Iowa, nasceu na Virginia Thomas Woodrow Wilson, que em março de 1914 sucedeu o xará Thomas Marshall e se tornou o 28º presidente norte-americano, cargo que ocupou até 1921.

Também no dia 28 de dezembro, mas em 1936, nasceu o empresário Abílio Diniz, hoje ricaço e dono do Grupo Pão de Açúcar, que detém o supermercado de mesmo nome, cujas filiais espalhadas pela cidade abastaecem as geladeiras e os armários da minha, da sua e da casa de todos.

Outra personalidade importantíssima para a vida de todos nós nasceu em 28 de dezembro, no ano de 1944: o ator mexicano Edgar Vivar, o não menos engraçado Senhor Barriga, pai do Nhonho, que ele também interpreta. Pois é, parabéns aos gorduchos amigos do Chaves, que hoje completam 63 anos.

No mundo do esporte, o 28 de dezembro é a data em que o ex-tenista australiano Patrick Rafter, ex-número um do mundo e bicampeão do US Open, em 1997 e 98. Em 1979, quem nasceu foi o norte-americano James Blake, atual 13º do ranking de entradas da ATP.

O dia 28 de dezembro também foi marcado por algumas mortes importantes, especialmente para a cultura brasileira: o poeta Olavo Bilac, em 1918, a atriz Daniela Perez e o escritor Otto Lara Resende (ambos em 1992).

Mas o que pouca gente sabe é que o dia 28 de dezembro é lembrado também pela Bíblia. De acordo com o livro mais vendido do mundo, foi nesta data que o Rei Herodes ordenou a morte de todas as crianças menores de idade em Belém na vã tentativa de acabar com o recém nascido Jesus. Há quem diga que foram mortos 3 mil crianças, outros apostam em 15 mil, enquanto tem aqueles que juram que foram apenas dez (e não 10 mil).

Em países de origem hispânica, como a Espanha, o dia ganhou importância em referência ao massacre: virou o Dia dos Santos Inocentes, também conhecido como Inocentada. Em outras palavras, virou o Dia da Mentira, assim como no Brasil e em outros países, como EUA e Japão, a data é comemorada em 1º de abril.

Quem costuma sempre fazer brincadeiras no dia 28 de dezembro são os jornais espanhóis, que têm a tradição de criar notícias absurdas. O esportivo Marca é o que mai se aproveita do fato para cravar notícias bombásticas que enganam o mundo inteiro.

No ano passado, quando eu achava o dia 28 de dezembro apenas uma dia como todos os outros, o Marca colocou em seu site oficial que a Fifa havia recontado os votos da eleição de melhor do mundo e havia dado o prêmio ao francês Zinedine Zidane e tirado o troféu das mãos do zagueiro italiano Fabio Cannavaro. Uma bomba sem tamanho.

Lembro que aquele dia na redação, por volta das 8h30, estávamos apenas Paulo Amaral, setorista do Palmeiras, e eu, que comemorava meu 28º dia de estágio. Maravilhado pela possibilidade de fazer ligações internacionais do trabalho, sugeri que tentássemos ligar para a Fifa e pedir alguma aspa oficial, para não dar crédito para os madrilenos.

Liguei para Zurique, na Suíça, no telefone 222-7777. Após falar com a telefonista com um inglês dotado de belo sotaque germânico, fui repassado para o assessor de imprensa. E qual não foi a minha surpresa quando ele disse “No, no, absolutely not! This is a lie. Today is Dia dos Inocentes in Spain, which is a ‘fool day’, like April, 1st!”. Uma bomba ainda maior, já que todos os outros sites de esportes do Brasil e do mundo, assim como algumas emissoras de rádio, davam Zidane como o mais novo melhor do mundo.

Paulo Amaral e eu, ressabiados, compramos a idéia do assessor da Fifa e destoamos de todas as publicações do globo terrestre. Menos de 15 minutos depois, nossos xarás italianos do Gazzetta dello Sport retificavam a informação. Horas depois caía a máscara do Marca: era uma mentira. Aquele 28 de dezembro de 2006 foi o dia do meu primeiro ‘grande’ furo.

Passei o ano inteiro esperando por esta data e até passei a imaginar a mentira de 2007: “Poderiam fazer alguma coisa com o Fernando Alonso, talvez com o Rafael Nadal... é bem capaz que façam com o Ronaldinho saindo do Barcelona e indo para um outro time, mas seria tão previsível que ninguém acreditaria”, pensava.

Ao acordar, a primeira coisa que fiz foi entrar no Marca e ver qual a mentira da vez. E, para a minha decepção, foi “Milan poderia fechar em 1º de janeiro com Ronaldinho”. Uma decepção, apesar de haver uma outra notícia incrustada: a saída do Zambrotta.

Não colou, e vários comentários de leitores do site denunciam a Inocentada. Sem graça.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Tradições natalinas

O Natal, como todo mundo já está mais do que cansado de saber, se mantém vivo até hoje pela tradição – tradição esta, aliás, que a cada ano é menos visível nas ruas das grandes cidades. No entanto, são alguns pequenos que o mantêm vivo até hoje.

O primeiro, é claro, são os presentes. Não faz muito sentido as pessoas trocarem lembranças apenas porque é o dia em que Jesus nasceu, de acordo com a educação que todos nós tivemos. Em todo caso, não tem quem não espere ansiosamente por abrir um embrulho no dia 24 de dezembro, antes da meia-noite. E receber um embrulho, abrir o pacote e se deparar com o presente é uma sensação tão boa que nunca vai se extinguir no ser humano – muito embora seja amenizado com o passar do tempo.

Outra coisa bem costumeira na época natalina é a meia-noite. É mais do que de praxe as pessoas (todas!) manterem um olho no especial de Natal da Globo e outro no relógio, esperando a virada para a meia-noite. Então os ponteiros se aproximam do 12 e, quando enfim se unem, todo se abraçam, trocam palavras ensaiadas porém positivas. Algumas vezes reais, até (muito embora grande parte das pessoas só se veja apenas em 25 de dezembro e, muito mais embora ainda, todos esses desejos valham apenas por 24 horas – a duração do Natal propriamente dito).

E, como não poderia deixar de ser, após o Natal há a ceia. Fartura. Aves, porcos, peixes, farofas, saladas, grãos, sementes, frutas lustradas e mais frutas que não parecem frutas, mas uma casca dentro da outra. Coca-cola! Silêncio durante a refeição. Raspar de talheres, segundo prato, silêncio, raspar de talheres... terceiro prato (há quem consiga). Raspar de talheres e barrigas estufadas. Pavês, pudins, bolos. Pandu cheio – agora de verdade. Sono.

Então chega o dia 25 propriamente dito às 11 horas da manhã, quando o mundo acorda de ressaca depois da ceia. Mas depois de alguns instantes, todos já estão preparados para mais uma aventura glutona. Aves, porcos, peixes, farofas, saladas, grãos... tudo de novo.

A noite do dia 25 de dezembro chega com a mesma intensidade que uma noite de domingo. Às vezes fica até a expectativa de ver a Glória Maria na telinha e a música do Fantástico. O fato de elas não aparecerem torna a noite pior do que a de domingo. O dia de Natal é um domingo fajuto.

Alguns povos até tentam amenizar essa sensação de fim de feira na data natalina. Uma das maneiras mais criativas é tradicionalíssima em países de origem anglo-saxônica (como Estados Unidos, Reino Unido, Canadá, África do Sul, Austrália e Nova Zelândia): o Boxing Day. No dia 26 de dezembro, é costume os patrões darem a seus empregados alguns presentes, as lojas organizarem liquidações irresistíveis e, além disso, muitos eventos esportivos acontecerem.

Na Inglaterra há a sempre interessante rodada do Boxing Day na Premier League. Por fazer parte da tradição o duelo entre rivais locais, Londres costuma ser palco de vários dérbis. Este ano, Tottenham (norte da cidade) e Fulham (centro-oeste) se enfrentaram no White Hart Lane (estádio do Tottenham): massacre dos anfitriões por 5 a 1.

Os sul-africanos fazem diferente – e, em certos casos, de uma forma até que mais divertida. As famílias colocam toda a sobra das ceias em uma caixa (caixa, box, caixa...) e vão para a praia. Rola, então, um piquenique coletivo com todos os farofeiros. Não é divertido? É um bom jeito de fazer amizades, conseguir algumas paqueras... ou apenas encher o bucho com várias comidas diferentes.

Tem países que não são tão criativos como os anglo-saxônicos, e eles simplesmente criaram um segundo dia de Natal. É, isso mesmo, um Natal duplo – que acontece sobretudo em países de origem germânica e nórdica ou colonizados por esses povos ao longo da história: Alemanha, Dinamarca, Finlândia, Holanda, Lituânia, Noruega, Polônia, Suécia e Suriname.

Deve ser comilança e bebedeira em dobro, ressaca ao quadrado e clima de domingo ao cubo.

domingo, 23 de dezembro de 2007

O retorno dos bad boys (com cara de tiozões)

O futebol é talvez o esporte mais fácil de ser coberto no mundo do jornalismo esportivo. Mais até do que o levantamento de peso, que tem uma notícia a cada dois anos. Mas, ainda assim, é o que salva qualquer um em dias extremamente parados, como 23 de dezembro.

Modalidade mais popular no mundo inteiro, o esporte bretão é o único capaz de proporcionar cenas extremamente bizarras como as que vão a seguir, com a trilha sonora de A vida de Brian (1979), um dos clássicos do grupo britânico de comédia e cinema Monty Phyton.




A música, já utilizada neste blog anteriormente, merece destaque: chama-se Always look on the bright side of life, foi composta e gravada inicialmente por Eric Idle e encerra a trama vivida pelo 'messias' Brian Cohen, nascido duas manjedouras ao lado de Jesus e que também recebeu a visita dos três reis magos.

Resenhas à parte, voltemos ao futebol. Além de propiciar algumas risadas em vários vídeos do mesmo estilo espalhados pelo YouTube, o esporte ainda consegue agitar uma redação de esportes dois dias antes do Natal. Como? Pergunte ao Edmundo.

Após ouvir do Palmeiras que não continuará no Palestra Itália em 2008, o ídolo de 36 anos foi visto recentemente em uma balada no Rio de Janeiro vestindo a camisa do Vasco da Gama. Coincidentemente ou não, justamente o time de São Januário é o mais cotado para ficar com o camisa 7.

Se tudo der certo para o lado dos cruzmaltinos, o Animal poderá mais uma vez atuar ao lado de Romário, baixinho, técnico, manda-chuva, artilheiro dos mil gols e careca do Vasco (mais detalhes aqui). E, após a notícia ir para o ar, o Raul, editor escalado para dar destaque ou não para as groselhas publicadas por este estagiário que vos escreve, me chamou em seu computador.

O motivo? Ver um dos melhores vídeos do YouTube, com um clipe de um som gravado na época em que o Romário não tomava tônicos capilares e que o funk carioca era conhecido apenas como rap: 1995, ano que vivia a expectativa de a dupla brilhar no Flamengo.

Não deu certo, mas rendeu este video, visto e discutido durante longos minutos no 12º andar de um prédio na Paulista. E dono de uma letra, no mínimo, engraçadíssima.



Naquela época, Edmundo ainda era um jovem talento do futebol brasileiro, com 24 anos (muito pouco para um jogador de time grande nos idos de 1995), enquanto o já consagrado Romário, tetracampeão mundial, tinha 29.

Hoje, 12 anos depois, o Animal já comemorou 36 carnavais, enquanto o Baixinho é um quarentão, com 41. Se a dupla for reeditada, confesso que não seria nada mal uma regravação de Não tem cara de tiozão. Já pensou?

sábado, 22 de dezembro de 2007

Homem de negócios

Confesso que não sou um dos melhores torcedores em estádios. Prefiro muito mais sentar em algum lugar mais tranqüilo das arquibancadas e assistir ao jogo tranqüilamente a ficar no meio das torcidas organizadas gritando que nem um maluco.

Nada contra as manifestações de arquibancada: até acho algumas muito, muito boas (de outras torcidas, já que a do Palmeiras é uma das coisas mais bizarras do mundo dada a rivalidade imbecil entre uma facção e outra). Só acho que o meu grito não vai ser o fator-chave para o jogador acertar um lançamento, o time fazer um gol... esas coisas. A não ser quando tomo uma cerveja ou outra antes de entrar no estádio.

Para falar a verdade, nunca achei que poderia mudar o rumo de um time de futebol. Até uma manhã de sábado, em um dia que, assim como todos os outros do mês de dezembro, as notícias esportivas praticamente não existem.

Sozinho na redação, tinha à minha frente apenas um copo de café e uma pauta: NBA, Superliga (masculina e feminina), Campeonato Inglês e outros esportes. Antes de começar com a Liga Norte-americana de Basquete, porém, dou uma geral nos concorrentes. Em um deles, uma bomba: o Corinthians estava perto de contratar um atacante. Uau!

Deixei de lado o massacre do Boston Celtics e tentei ligar para alguns empresários envolvidos na negociação. Consigo falar com o primeiro logo de cara. Um cara bem educado para os meios futebolísticos, diga-se. Após confirmar o negócio entre Timão e jogador argentino, uma pergunta. "Você tem o telefone de algum diretor do Palmeiras?". Respondi que sim e perguntei de qual ele queria. "O que manda mais". Pensei alguns átimos de segundo. "Pode ser do Cipullo?". "Pode, pode sim".

Eu nem precisei perguntar por que o empresário queria o telefone: ele mesmo já me explicou. "É que eu vou oferecer agora um jogador pra eles". Hummm... quem?. "É o lateral-direito fulano de tal. Mas ó, não fala nada ainda que senão pode melar o negócio. Eu te ligo daqui a pouco e te falo o que rolou, combinado?". Combinado.

Ao desligar o telefone, no entanto, alguns pensamentos passam pela minha cabeça. Eu poderia noticiar que o lateral-direito fulano de tal seria oferecido ao Palmeiras. Seria o primeiro jornalista do Brasil a cravar a notícia. Os outros sites repercutiriam o caso, assim como os jornais, os programas de rádio e de televisão...

Isso faria com que o nome de Palmeiras e do tal jogador ficassem em evidência na mídia. "Por obrigação" o clube poderia contratar o atleta e eu ser um dos principais responsáveis pelo acerto. Com a camisa 2, ele poderia se tornar um dos melhores jogadores da história da equipe, conquistar títulos e mais títulos. Ganharia um ou dois bustos no Parque Antártica. E, em reconhecimento pela influência na oferta, eu poderia até conseguir uns trocados de bonificação.

Ou então... com o nome em destaque e cotado para acertar com o Palmeiras, o jogador passaria a ser assediado por outras equipes. Concorrência aberta. Cifras cada vez maiores. Um acerto milhonário. Em reconhecimento, o empresário poderia até me dar, sei lá, 1% do valor do negócio como um "muito obrigado". Certamente seria muito mais do que os meus rendimentos de um decênio somados.

Mas por outro lado... uma notícia prematura poderia melar todo o negócio com o Palmeiras. E com várias outras equipes. O jogador perderia o espaço no cenário nacional e internacional, voltaria para sua terra de origem e não teria um contrato legal. Sua família passaria por necessidades... coisas assim. Ou então o empresário poderia me culpar por ter atrapalhado a negociação e... talvez até me processasse. Pediria uma indenização milhonária, que mesmo se eu trabalhasse intensamente durante um decênio seria sanada.

O que eu fiz? Parei de pensar e fiz a notícia do tal jogo do Boston Celtics. Melhor assim: não sou bom em negócios. Além disso, parece que o Palmeiras não se interessou muito pelo tal jogador e o negócio não saiu. Melhor ainda: ele nem era tão bom assim.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Injustiça literária

O discurso não é novo: a arte de escrever, embora seja considerado por muitos uma arte, não paga contas. Ou pelo menos não a da maioria dos escritores.

Os motivos são bem simples, e o principal deles é que o Brasil não possui uma cultura de leitura de livros. Ainda mais em um mundo como o de hoje em dia, em que há televisão a cabo com 150 canais, Internet com muito mais do que 1.001 utilidades.

Por conta disso também se cai no princípio básico da economia (e o único que eu sei): quanto maior a demanda, maior é a oferta e menor é o preço. Mas se a demanda for pequena, a oferta também o será. E o preço... ah, o preço vai aumentar. E a demanda vai continuar baixa.

Da última vez em que me informei sobre o preço para o lançamento de um livro (e isso foi em 2003, por aí), era algo em torno de R$ 10 mil o milhar de exemplares, se não me engano, em uma editora chinfrim. Tenho medo de pensar o valor hoje em dia...

Mas recentemente tive mais uma prova de que o crime, digo, a escrita não compensa. Em uma rápida passagem pela Fnac, encontrei em uma pilha meio jogada um dos livros com o qual eu flertava há algum tempo: Don Quijote de la Mancha, edição comemorativa do IV Centenário da Academia Espanhola, capa dura, 1.235 páginas de história e mais 101 de prefácios. Ao que tudo indica, importada.

Um extraterrestre talvez imaginasse a fortuna que R$ 28 representariam se passasse o código de barras do livro de Cervantes no leitor ótico. Eu, que ‘ganho’ aproximadamente esse valor por dia, achei exatamente o contrário. E não pude deixar essa chance passar.

Na fila do caixa, porém, me deparei com uma outra obra – talvez um marco da literatura mundial. História para pais, filhos e netos, do Paulo Coelho. Capa mole, 304 páginas. Tudo isso pela bagatela de R$ 42. Isso mesmo: apenas 14 pratas a mais em relação ao Dom Quixote.

Fiz algumas contas rápidas. O livro do Cervantes me custaria 28 reais por 1.336 páginas. Depois da sessão ‘Regra de três, pra que te quero?’, a relação desejada: R$ 0,02/página. Dois centavos por página! O do PC, pouco menos dos que R$ 0,14/página. Sete vezes a mais do que o Dom Quixote.

Não digo que a solução deveria ser aumentar o preço da história do famoso fidalgo para, sei lá, R$ 590; mas sim baixar o valor dos demais. Até porque... nada contra o Paulo Coelho, mas é um exagero qualquer livro dele ser, em números relativos, sete vezes mais caro do que um marco da literatura mundial.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Inseguranças e alívios

Não foram muitas mulheres que nos últimos 19 anos receberam flores enviadas por mim. Tudo isso por uma série de motivos que não vem ao caso agora. Nas poucas vezes que enviei, porém, a mesma história se repetiu. As únicas coisas que eram invariavelmente diferentes eram a floricultura e o funcionário. Sempre.

O resto nunca muda. Passo dias procurando alguma floricultura perto dos lugares que eu costumo freqüentar. Alguma das minhas duas casas, colégio, faculdade, trabalho... casa de quem receberá as flores. É uma escolha complicada, feita apenas na última hora.

Antes de definir a floricultura, aliás, tenho inúmeros pensamentos de deixar tudo isso de lado e trocar as flores por um ingresso de cinema. É muito mais fácil. Já cheguei também a consultar floriculturas online e colocar algumas flores na cesta. Claro que sempre mudo de idéia antes de fazer tal bobagem.

Mas depois que escolho a loja cujas flores presentearão amiga, paquera ou mãe, me dirijo ao local. Entro na loja, começo a observar alguns arranjos ou vasos na vã tentativa de mostrar que sei exatamente o que vou pedir. Até que me atendem e a minha farsa é revelada. “Posso ajudar?”, o vendedor (ou vendedora) pergunta. E eu já deixo claro que praticamente nem sei o que estava fazendo e que queria apenas tal arranjo de flores.

O funcionário da floricultura às vezes pergunta para quem são as flores e, após ouvir a minha resposta, recomenda alguns cartões. E pede para que eu escreva a dedicatória enquanto ele (ou ela) faz a anotação burocrática do meu pedido.

Os cartões de floriculturas são extremamente cruéis para mim, uma pessoa que tem sérios problemas em passar uma mensagem em poucas palavras (vide o tamanho dos posts deste blog). Passo alguns minutos olhando profundamente o cartãozinho, a caneta (que é intimadora, pois significa que um erro é fatal) e o meu rosto no espelho até que uma idéia vem à mente. Escrevo-a rapidamente, fecho o envelope e entrego para o florista.

Pago a encomenda e saio da loja imaginando a cara de surpresa que a destinatária fará. Será que ela vai gostar? O que vai achar? E... e a família dela, será que vai pensar. Aliás, será que ela vai receber? E a mensagem que eu escrevi? Tudo isso, é claro, apenas evidencia a insegurança deste que vos escreve.

Minha paranóia textual acaba tomando conta do caso. Lembro que coloquei uma vírgula aqui ou acolá na curta mensagem. “Se ela perceber isso, pode entender tudo diferente. Pode até se zangar. Putz, e aquele verbo? Era no presente ou no pretérito perfeito do subjuntivo ? Os sentidos também podem ficar diferentes. Putz, que merda que eu fiz!”. E fico com isso na cabeça durante algumas horas.

Até que as flores são enviadas e a destinatária em questão (ou alguém muito próximo a ela e a mim) me notifica. “Adorei as flores! E o cartão, nossa, que cartão! Obrigada!”. E respiro aliviado. “Ela não percebeu aquela vírgula e nem o tempo do subjuntivo. Que sorte!”.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Previsões, adiamentos e a calça maldita

Era um início de tarde de terça-feira. Julio Simões e eu nos espremíamos para passar no meio de muitas, muitas pessoas que se amontoavam na frente do Stand Center (cujo logotipo, aliás, é coincidentemente muito parecido com o do Sports Center, da ESPN).

“Esse é o pior lugar pra passar”, disse o Julio, no mesmo momento em que eu pensava a mesma coisa. “É... e vai ficar ainda pior quando começarem a reformar a calçada aqui na frente”, emendei.

Logo em seguida, não sei bem por que, entramos no assunto Law Kin Chong. E o Julio previu:

“É bem capaz que o próximo lugar a ser fechado seja aqui”...
“Humm... não sei. Se fecharem aqui, a economia de São Paulo pára”, exagerei.
“E também... bom, eles abrem de novo, como sempre”.
“Falando nisso, bem lembrado: preciso passar aqui na volta do almoço”.

Então, depois do almoço, já de pandu cheio, tive preguiça ao chegar na frente da Estação Trianon-Masp: “Ah, eu vou lá amanhã, vai. Hoje não”. E voltei pra casa em vez de ir ao Stand Center.

E então o destino se vingou: não bastasse estar uma chuva mais do que intensa na Paulista por volta das 14 horas desta quarta-feira e o meu guarda-chuva ter literalmente virado do avesso e parado de funcionar no meio da tempestade, cheguei ao Stand Center e o local estava fechado, lacrado.

Otimista, até pensei que poderia o fechamento ser apenas temporário, como todos os últimos. Mas mais tarde, passando à frente do local com a Carol, apenas constatei minhas certezas ao ver a placa de 'interditado'.

E eu, que poderia ter ido ontem ao reduto xing-ling na Avenida Paulista, passei o resto do dia pensando naquele velho e terrível ditado de não deixar para amanhã o que poderia ter sido feito hoje...

Calça maldita: Como já disse anteriormente neste espaço, costumo não usar a minha memória para fins lá muito úteis. Uma das coisas que eu costumo lembrar é a roupa que usei em determinado dia. E por causa disso elegi a calça de roupa que me acompanhará nos piores momentos profissionais.

Tudo começou quando eu fui para Itu em outubro para um treino do Botafogo e, digamos, não foi lá uma das melhores experiências profissionais que alguém pode ter. Nada contra o time de General Severiano, diga-se.

No final de novembro, novamente usando a mesma calça azul-bem-claro, fui para o Grand Champions Brasil. Um sufoco. E também estava com ela semana passada, quando fui a uma coletiva da Confederação Brasileira de Tênis. Nenhum problema na pauta, não fosse o fato de eu ter derrubado um bom bocado de café nela antes de ir para a entrevista.

Hoje, já ressabiado, acabei vestindo-a. Como já disse, não foi o meu melhor dia. E, como não fez calor, passei o resto da tarde com as pernas (bem) molhadas. Superstições à parte, começo a ponderar a idéia de aposentá-la.

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Hierarquia

Uma coisa que está implícita no convício social: os lugares no carro determinam hierarquicamente quem é quem em um grupo de amigos ou até mesmo em uma família. É algo tão inerente ao ser humano que quase ninguém percebe isso hoje em dia. Ou, se nota, não dá a devida importância.

No banco do motorista sempre senta o motorista, obviamente. E, curiosamente, a pessoa que dirige é geralmente aquela mais segura de si, dos seus atos e de suas palavras. Até porque é preciso um bocado de autoconfiança para dirigir em uma cidade caótica como São Paulo.

Ao lado do condutor, no banco do passageiro, vai sempre aquele ser que possui mais afinidade com a figura principal do veículo. Esposa, marido, namorada, namorado, melhor amigo ou amiga. Sempre. E os bancos de trás ficam relegados às pessoas que, teoricamente, são os coadjuvantes do relacionamento.

Em uma família isso é bem claro: os pais ocupam os bancos da frente e os filhos vão atrás. Na ausência de um dos chefes da família, o banco da frente é geralmente assumido pelo filho mais velho. Eu, por exemplo, não me sinto nada bem vendo meu irmão mais novo no banco da frente ao lado da minha mãe. Nada de ciúme bobo ou algo do tipo, mas apenas nível hierárquico: primogênitos na frente, oras.

Em um círculo de amigos também. O dono do banco do passageiro é sempre a namorada (ou namorado) do motorista (ou da motorista). Se não há um par afetivo na história, o melhor amigo (ou amiga) assume o posto. Em muitos casos há uma amizade bastante intensa e um outro tipo de relação. Costuma-se, assim, haver um rodízio. Que muitas vezes não é combinado, faz apenas parte da intuição de cada um.

Assim também é possível perceber o quanto você está em alta com seus amigos. Se você vai na frente com relativa freqüência, parabéns. Caso haja um revezamento justo, melhor ainda: são todos bem amigos. Só que se você já está acostumado a conversar com as pessoas da frente apenas olhando pelo retrovisor, tome cuidado... seu moral não está muito alto. E se você for o dono do carro, relaxe: sempre haverá alguém para andar ao seu lado.

São raras as pessoas que fogem à regra e abrem mão de seu nível hierárquico (o que apenas reflete uma das características humanas: quem abre mão do poder?). Eu já me arrisquei a mudar de ‘posição social’ voluntariamente algumas vezes anos atrás: quando um amigo mais velho, que já dirigia, se propunha a dar carona a algumas de minhas paqueras para casa.

Muitas vezes deixava de ir na frente para fazer companhia às garotas no banco de trás. Não dava muito certo: a mudança social abrupta assustava-as, e muitas vezes achavam que eu estava profundamente apaixonado, a ponto de abrir mão do lugar de direito do carro. Um erro fatal para inocentes relacionamentos juvenis.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Relações trabalhistas

Cada pessoa tem um hábito diferente quando chega ao trabalho.

Tem alguns que chegam e fazem questão de cumprimentar um por um. Há também aqueles que apenas fazem uma saudação coletiva, enquanto ainda tem um ou outro que passa reto por todo mundo e senta no seu espaço reservado sem falar um a sequer.

Na hora de ir embora também. Tem os que vão de mesa em mesa falar até logo, alguns que dizem um tchau geral, outros só balbuciam alguma despedida aos que estão no caminho... e nem sempre os hábitos são os mesmos na hora de cumprimentar e despedir. Mas não é esse o mérito da questão.

É simples. Embora todos os funcionários tenham costumes diferentes ao saudar os companheiros de trabalho no início ou no final do expediente, uma coisa é comum a qualquer um: a pausa no trabalho para ir ao banheiro. As pessoas se tornam muito mais simpáticas... e cúmplices, talvez.

Nunca reparou? Pois preste atenção: você pode ter visto a pessoa uma, duas ou quarenta e nove vezes naquele dia. Ela pode até sentar ao seu lado e vocês conversaram o tempo todo. Mas se duas se encontram no caminho do banheiro, a reação é a mesma para qualquer outra pessoa: um levantar de sobrancelhas, um sorriso e algum comentário. Ou talvez um apelido inventado às pressas: “Opa! E aí, campeão!”. Um que está na moda, por motivos óbvios, é este: “Ê, curintia! (que tem também a variante ‘Ê, segunda!’)”

Não interessa se você já o viu durante seis horas de expediente, passou a hora do almoço com o indivíduo ou coisas do tipo. Está implícito em qualquer relação trabalhista que evitar uma saudação no caminho do banheiro é uma tremenda grosseria.

E por quê? Talvez porque muitas pessoas sejam cúmplices indo ao banheiro e essas saudações queiram apenas significar algo do tipo “É, eu também não estava com vontade de ir ao banheiro, mas precisava andar um pouco e respirar novos ares. Só não conta pro chefe”.

E se o encontro casual não acontece no caminho, mas no banheiro em si, sempre há algum assunto clássico. Algo do tipo elevador: “Calor, né?”, “Putz, tá foda hoje”. E, claro, um que está sendo bem usado nos sanitários e toaletes do mundo inteiro ultimamente é “E o Timão, hein?”.

Nunca os assuntos são profundos – até porque... quem seria o indivíduo que começaria uma densa conversa na fila da pia do banheiro. A conclusão disso tudo? Golpes de Estado, partidos políticos ou qualquer revolução são coisas que jamais podem ser iniciadas com um encontro no toalete.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Recorte de jornal

(clicando na imagem ela fica maior, a ponto de ser lida)

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Limitações

Reza a lenda que eu não tinha muito mais do que três anos recém completados quando aprendi a ler. Até hoje não sei como tudo começou, mas meus familiares têm essa história na cabeça.

Alguns meses mais tarde já sabia rabiscar algumas letras em um papel. Tudo isso sem ir para a escola – lugar que eu passei a freqüentar apenas com quatro para cinco anos.

Aprendi a falar, ler e escrever relativamente cedo. Consegui criar uma estrutura mental bacana para hoje, a alguns meses dos 20 anos, ter uma paixão enorme por pensar, criar e... coisas assim – textualmente falando. Consigo me comunicar até que bem com as pessoas, tenho um diálogo interessante com quem me interessa, às vezes tenho idéias que acho muito, muito boas (e que nem sempre são assim de fato, diga-se)...

Enfim. Sinto que tenho uma pequena inteligência dentro de mim, em algum lugar bem obscuro que ainda não foi descoberto. Talvez isso tenha um pouco a ver com o fato de a linguagem estruturar o pensamento. Coisas que Noam Chomsky, Roland Barthes e LM Sá Martino podem explicar melhor.

Só que as coisas mudam um pouquinho se fizermos uma pequena alteração: o idioma. Percebi que se a minha suposta capacidade de pensamento e comunicação me satisfaz bastante em português, em outras línguas não é bem assim. E eu me sinto bastante (e bota bastante nisso) limitado tentando me expressar utilizando algo que não a última flor do Lácio.

Mesmo eu tendo feito inglês durante um tempo até que interessante e conseguido pegar um diploma que, dizem, me permitiria cursar qualquer universidade nos Estados Unidos, Inglaterra ou outro país de língua inglesa, não me comunico como gostaria. De vez em quando, especialmente na rua, tento pensar algumas coisas em inglês. Não é tão difícil, mas também não é tão fácil como em português.

E ultimamente tentei enviar um e-mail para um grande amigo que foi para Londres há alguns dias. Enquanto digitava, constatei algo: meu vocabulário para criar é algo muito mais do que restrito. O que é estranho, porque consigo entender livros, reportagens e textos em geral em inglês, além de filmes... Mas se estava acostumado a ter conversas bastante filosóficas e profundas com esse amigo, notei que em inglês não iríamos muito além do papo esporte-mulher-esporte-mulher-trabalho.

Em espanhol as coisas não são muito diferentes. Senti que tenho mais dificuldades ainda em castelhano do que em inglês quando fui bater um papo com um dirigente da Real Federação Espanhola de Tênis. Conseguimos ter um pouco de conversa. Entendia tudo o que ele me dizia, mas tinha extrema dificuldade para formular frases. E olha que as línguas são parecidas; e eu também não tenho dificuldade alguma em ler e entender textos e conversas em castelhano.

A conclusão disso tudo? Se em português consigo pensar algumas coisas e ter algumas idéias que nem toda a população tem, se vivesse em países como Espanha, Inglaterra, Chile ou Escócia talvez apenas me comunicasse precariamente. Na Holanda e na Bélgica, com meu nível ‘alfabetizando’ em holandês, talvez tivesse a capacidade de apenas sobreviver. Enquanto isso, em países como Alemanha, França, Suécia, Rússia, Japão e China, eu seria tão comunicativo como um arbusto.

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Prodigalidade

“Olha, filho, fica nos degraus porque você não sabe nadar”.
“Ah, mãe, a água é boazinha! Não tem perigo, olha”.

Alguns passos depois...

“Mãe! MÃE!! Mãe, tô me afogando! Essa água é assassina!”.

...

Se bem me lembro, foi mais ou menos assim a minha primeira experiência com piscinas. Aconteceu em alguma manhã de janeiro há alguns 15 anos, na maior piscina do Círculo Militar.

Apesar da experiência traumática e quase fatal para um garotinho de quatro ou cinco anos, não fiquei com medo da água. Pelo contrário. Fiz aulas de natação, aprendi um nado mambembe e passei a adorar passar as férias de janeiro no clube.

Era uma tradição. Acho que grande parte da minha paixão pelos últimos meses do ano aconteceu por causa da expectativa criada com a ida ao clube (que sempre significou piscina). Até que chegava janeiro, minha mãe tirava férias e eu torcia veementemente para que o sol saísse todas as manhãs para que pudéssemos ir nadar.

Também por conta do clube o cheiro de bronzeador me remete a algumas das melhores lembranças da infância. Muito bom. Misturando isso ao cheiro de cloro da piscina, melhor ainda. E bem peculiar, confesso. Mas cada dia no clube era inesquecível.

Até que os anos passaram. Meus pais se separaram, minha mãe se mudou para um prédio com piscina e decidiu se desfazer do título do clube. “Já tínhamos piscina, ora, não precisávamos mais de clube”, dogmatizei. E, conseqüentemente, meu gosto por piscinas foi diminuindo gradativamente.

Os anos continuaram passando. Eu terminei o colégio, passei na faculdade, comecei a fazer jornalismo, arranjei um estágio na GE.Net, mergulhei de cabeça no mundo dos outros esportes, passei a ter um carinho especial pelo tênis.

Enquanto isso, o esporte com raquetes e bolinhas no Brasil seguiu aos trancos e barrancos e a Confederação Brasileira de Tênis decidiu alavancar a modalidade. Fez uma parceria com a Federação Suíça em junho e, em dezembro, marcou uma entrevista coletiva para anunciar o começo de uma associação com a Real Federação Espanhola e outros países latino-americanos. O local? O Circulo Militar.

Tudo isso junto resultou no meu retorno uns oito anos depois a um dos lugares mais perfeitos da minha infância. Nostalgia era pouco quando eu passei pelo estacionamento na rua. Depois, assim que passei a catraca, fiz questão de desviar meu caminho até a sala da coletiva e fui dar uma volta pelo clube. Ah, eu ainda sabia os caminhos de cor. A revistaria, onde eu comprava o Almanacão de férias da turma da Mônica, ainda estava lá. Ah!

Mas o momento mais, digamos, emocionante, foi voltar a ver as piscinas. Tão azuis como da última vez...e tão vazias como da última vez. As cadeiras para banhistas continuavam dispostas da mesma forma. Talvez fossem as mesmas cadeiras. Assim como as velhinhas nas mesas na porta do restaurante. Parecia até que eram as mesmas.

Mas... alguma coisa estava diferente. As piscinas maiores, que eu sempre achei incrivelmente fundas, não pareciam ser tanto assim. E o lugar onde eu quase me afoguei parecia ser ainda mais raso do que realmente era. Da mesma forma que a plataforma para mergulhos, as escadas para o restaurante das piscinas... estranho.

Andei mais um pouco e entrei no corredor poliesportivo, onde crianças brincavam nas quadras. Dei alguns passos e já estava em outra alameda. Antes o corredor parecia ser maior. As quadras também. Vai ver é a globalização, que vem reduzindo as distâncias do mundo. Só podia ser.

Dei mais uma volta e passei pelo vestiário masculino. Me chamou a atenção a entrada, que não parecia estar tão bem cuidada anos atrás. As percebi que tinha sido reformado. Dentro também: estava mais iluminado, com sessões coloridas de armários... os locais de banho estavam mais limpos... e até o guarda-volumes, que sempre me pareceu sombrio e assustador, estava mais convidativo. As coisas mudam!

Minha opinião também. Ultimamente, costumava dizer por aí que, se um dia ganhasse na loteria ou achasse muitos mil reais na rua, a primeira coisa que faria era comprar um título no Clube Pinheiros, que dispensa qualquer apresentação. O Paulistano também, por ter a melhor feijoada e ser bastante convidativo. Mas o único que me deu vontade de voltar foi o Círculo Militar - dono da medalha de ouro do Campeonato Mundial de Bocha-2006, prêmio que é a menina dos olhos da sala de troféus do clube.

Apesar de tudo, porém, o Círculo Militar havia perdido um detalhe. A porta giratória, que sempre me amedrontou na entrada (o medo de ser barrado na porta do clube era enorme naquela época), parecia não estar lá. “Ih, mas faz tempo que tiraram. Nem lembrava mais”, me disse um porteiro quando perguntei.

Uma pena. Eu lembrava.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Lugares (in)comuns

O mundo tem se tornado um lugar bem esquisito nos últimos tempos.

Costumo dizer para algumas pessoas mais íntimas que o mundo é estranho. Tão estranho que tem se tornado bastante previsível de uns tempos para cá.

Verdade. Basta ver que, em novembro, a velha profecia se realizou e um dia extremamente seco se converteu em uma chuva torrencial apenas porque era 2 de novembro.

Algum tempo atrás, também tive a sensação de que encontraria uma antiga amiga no metrô só porque tinha sonhado com ela na noite anterior. Daí pra mais. Algumas pessoas mais próximas sabem certos detalhes incrivelmente bizarros do meu dia-a-dia.

Enfim. São inúmeras aventuras e desventuras, vários entendimentos e desentendimentos. Tudo muito inusitado, engraçado, triste, broxante. Várias coisas ao mesmo tempo. Mas nada tão bizarro que se compare a algo como isso:

Durante o fim da minha infância até a metade da minha adolescência, tive um grande amigo. Vivemos muitas coisas juntos: começamos a beber, conhecemos garotas, namoramos algumas dessas garotas, desabafávamos, reclamávamos da vida, conhecíamos lugares novos. Chegamos até a viajar – o que, para uma pessoa que viajou raríssimas vezes como eu, é algo que coroa uma amizade (já falei dele aqui).

Mas como toda amizade que começa na infância, acabou perdendo a intensidade e praticamente terminou. Chegamos a nos encontrar pela rua depois de um tempo (aliás, nos dois últimos de nossos encontros casuais, tive a sensação de que o encontraria). Só que nossa amizade não foi reatada. E ele acabou indo viver em Minas.

Até que hoje conectei no MSN e alguns instantes depois ele também conectou. Não sei por que, tive vontade de mandar uma mensagem para ele. Antes de digitar alguma coisa, vi que na data da nossa última conversa, eu falei que tinha acabado de ser aprovado no estágio na Gazeta.

Ao ver que já fazia um ano que não nos falávamos, acabei não mandando nada naquele momento. No entanto, mantive uns dois ou três assuntos paralelos durante a noite, mas com quatro janelas abertas. Ainda pensava em tentar falar alguma coisa com ele.

Minhas três companhias virtuais foram dormir praticamente ao mesmo tempo. Fui fechando as janelas uma a uma, até que... até que, na hora de fechar a janela da conversa não iniciada com o tal amigo, o impensado: “Carlos !! diz: aíí heldekaa!” A mesma saudação idiota de anos atrás. Impensado, impossível, improvável. E extremamente engraçado.

E que apenas justifica a minha tese inicial: o mundo tem se tornado um lugar bem esquisito nos últimos tempos. E bota esquisito nisso.

Atualizado (1h09): Apesar de ter que acordar às 6h45 na terça-feira, não consegui dormir cedo. Para gastar meu tempo de insônia, decidi assistir a alguns episódios de Seinfeld. Antes de chegar ao AV 2 da televisão, passei pelo SBT e qual não foi a minha surpresa ao ver dezenas de modelos boazudíssimas de biquíni rebolando ao som do hino do Palmeiras. Bizarro; o mundo continua bizarro.

Atualizado II (1h11): Não bastasse ver as modelos dançando o hino do Palmeiras, o Fantasia me propiciou algo ainda mais bizarro menos de dois minutos depois. O cara que ia participar da brincadeira pediu a palavra para se declarar para a Helen Ganzarolli. E o fez: em italiano. Às vezes, acho que eu sou o anormal da história.

domingo, 9 de dezembro de 2007

Sobre os dias ruins

Tem dias em que a primeira coisa que eu faço ao abrir os olhos é fechá-los novamente. Inconscientemente, como se isso fosse me proteger de toda aquela sensação mais do que incômoda de que as horas fora de casa serão terríveis.

Mas isso, infelizmente, não funciona. Segundos após abrir os olhos, o despertador dispara o velho som estridente e me impede de ficar na cama. Deixo a cama ainda cambaleando, tropeçando... e o pior: espirrando. Nada pior do que começar o dia com um ataque de rinite.

A alergia dura muito tempo – o suficiente para me deixar de mau humor. Na sensação de que o ataque me tirou preciosos minutos, começo a fazer as coisas rapidamente para evitar o atraso. Besteira: percebo que estou pronto com dez minutos de adiantamento. O que resta? Ligar a televisão na primeira baboseira no afã de o tempo passar.

Ao sair de casa, porém, tenho o enorme desejo de voltar. As avenidas estão vazias, assim como as ruas, alamedas, paralelas, transversais... Isso me deprime. É como se todo aquele espaço, antes apinhadíssimo, fosse meu. Um desperdício.

Toda essa sensação de solidão me dá vontade de ligar para alguém. Tem vezes em que até saco o celular da mochila e dou uma olhada rápida pela lista. Melhor não. Talvez ninguém entenderia o que estava acontecendo.

Mas a humanidade, embora não esteja na rua, não foi dizimada: ela se escondeu no metrô. Para minha infelicidade, já que um banco vazio seria o ideal na tentativa de dormir mais alguns minutos e acordar com um humor melhor. Mas o único banco teoricamente disponível é ocupado por algum cara nem um pouco altruísta, que repousa a mala de viagem ou a sacola de compras no assento. Resta-me, então, ficar em pé e lutar contra o sono.

Apenas uma coisa poderia me despertar e recuperar o humor: doses cavalares de cafeína. Mas todas as minhas fontes de cafés grandes estão fechadas. Maldade: até o Popeye descola latas de espinafre quando mais precisa. Eu, enquanto isso, tenho que me contentar com um banho de água gelada no rosto. Não deve fazer bem.

É quando eu sinto que todas as coisas conquistadas até hoje foram fáceis demais, ao passo que todos os meus principais objetivos são praticamente impossíveis de ser atingidos. Isso sem falar em todas as pequenas felicidades cotidianas desperdiçadas à toa. São nesses dias em que eu tenho as piores crises existenciais.

É justamente nesse momento que me dá vontade de me render simultaneamente a três dos meus principais vícios: ficar deitado, fazer palavras cruzadas e ver programas de esportes. Não é pedir muito, é? Sei que não. Mas o homem jamais vai ser feliz aos domingos.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Batidas

Ela tropeçou ao tentar executar um passo de dança em uma festa: ao tentar colocar o pé esquerdo no chão, tropeçou no direito e perdeu o equilíbrio.

Mas sua alegria não terminou no chão. Enquanto caía, foi amparada por um cara para quem ela estava olhando já há alguns instantes.

Sua alegria, em contrapartida, terminou minutos depois, quando foi para o banheiro lavar o rosto: encontrou a melhor amiga nos braços do tal cara. E não, a amiga não tinha perdido o equilíbrio ao tentar executar um passo de dança.

Ao presenciar a cena, desistiu de lavar o rosto. Preferiu voltar ao balcão do bar e pedir mais uma batida. “Com menos fruta e mais vodca dessa vez, querido”, pediu ao garçom, com a voz bastante enrolada.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Mãos trêmulas

“A balada tah uma droga. Queria vc aqui, querido. Te ligo qnd chegar em casa. Depois a gnt se fala. Bjos”, escreveu a garota, com as mãos trêmulas e um pouco umedecidas de suor, após trair o namorado pela segunda vez na noite. Era aniversário de uma amiga.

Um telefone celular despertou do outro lado da cidade quando uma mensagem de texto chegou, e o dono do aparelho teve um arrepio. Não, não foi por causa do vibra-call. Foi porque, naquele mesmo instante, a mulher a quem ele se agarrava lhe deu um puxão nos cabelos da nuca após receber um beijo no pescoço.

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Esquisitice

Confesso que tenho certos hábitos excêntricos. Esquisitos, para ser sincero.

Tenho sérios problemas para conquistar algumas metas irrelevantes que traço para o meu cotidiano. Quando as alcanço, no entanto, não consigo ir além. É como se eu me contentasse com pouco. Um exemplo? Fácil.

Uma vez, reencontrei uma garota depois de muito tempo. Ela não era nada mal; pelo contrário: simpática, charmosa... e, com o tempo, ficou com mais cara e corpo de mulher. Claro que combinamos de sair. Ela me passou o novo número do celular dela. Passei o meu também e acertamos que ligaria primeiro aquele que tivesse o primeiro tempo livre. Fechado.

Fui eu quem teve o primeiro tempo livre. Estava na fila do cinema na véspera de um feriado e liguei para ela. Chamou, chamou, chamou... só não caiu na caixa postal porque, de acordo com a voz eletrônica, aquele número não dispunha de tal facilidade.

Mais tarde ela me mandou uma mensagem desculpando por não ter me atendido. O motivo? Estava viajando com a família e o celular passava grande parte do tempo fora de área. Mas me ligaria, então, dentro de uma semana.

O tempo passou e ela não me ligou. Dois finais de semana depois me mandou um e-mail com um convite para um cinema na semana que se iniciaria. Perguntei se poderia ser na quarta-feira, seria mais fácil. Ela aceitou.

Na véspera de nosso encontro ela me ligou no comecinho da noite, mas acabei não atendendo, sem querer. Confesso que senti minha mochila se mexendo no chão da sala de aula por volta daquele horário. Contudo, me dei conta da chamada apenas quando cheguei em casa, às 23h30. Decidi não retornar a ligação... ela acordaria cedo, coitada, não iria acordá-la.

A quarta-feira chegou e eu tentei ligar para ela umas três vezes: caixa postal. Às pressas, mandei um e-mail reforçando o lugar e o horário para o nosso encontro. Só que ela não apareceu. Humm... tudo bem, não havíamos combinado por telefone. Seguimos esse ritmo de desencontros durante mais um mês. Quando eu tinha tempo livre e ligava, ela não atendia. Quando ela me ligava, eu é que não atendia.

Até que um dia tudo mudou. Eu tinha acabado de sair do cinema, sentei em um banco na mesma praça de sempre, abri um livro e percebi que não estava muito a fim de lê-lo. Saquei o celular, procurei o número dela na agenda e disquei.

Foram cinco toques longos até eu pensar em desligar o telefone mais uma vez. Até que uma voz masculina – e ligeiramente afeminada, diga-se – atendeu. Antes que eu pudesse perguntar se tinha sido engano e desligar aliviado, a voz se prontificou: um instante, por favor.

Até que atendeu a voz feminina por que eu esperava.

- Oi, Fê!
- Hahahha, oi! Decidiu atender o telefone hoje, então?
- É, meu, que coisa! Mas e aí, tudo bom?
- Ah, tudo, e você?
- Também... como vai essa força?
- Ahnn... oi?
- Como vai essa força?
...

Foi quando a ligação foi interrompida: meus créditos tinham terminado. Pensei em comprar algum cartão telefônico e ligar para ela, mas... não. Meu objetivo já estava cumprido. Digo... ela era, para mim, a garota que não atendia o telefone. Poderíamos até combinar por e-mail algum outro encontro... poderíamos dar início a um relacionamento descompromissado ou até mesmo a um namoro.

Mas... depois que ela atendeu o telefone, qual era a graça da nossa relação?

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

"Triste" realidade

Não sou lá muito fã de escrever sobre esportes no meu tempo fora do trabalho, mas os recentes acontecimentos me fizeram abrir uma exceção.

Não ver o Palmeiras ganhar um título decente há quase oito anos (o último foi a Copa dos Campeões, em julho de 2000) me fez perder um bocado da paixão pelo futebol. Não tinha muita coisa para comemorar ultimamente, até que chegou domingo.

Em dias normais, ficaria puto da vida com o fiasco que meu time deu em pleno Palestra Itália perdendo por 3 a 1 para o Atlético-MG e jogando fora a vaga na Libertadores de 2008. Mas 2 de dezembro de 2007 não foi um dia normal: foi o dia em que 90% dos torcedores brasileiros apaixonados por futebol comemoraram a queda do Corinthians para a Série B do Campeonato Brasileiro.

Quando o árbitro Alício Pena Jr. Pediu a bola e decretou o final da partida, comemorei na janela do prédio como há tempos não fazia. Dei muita risada ao ver o choro de todos aqueles corintianos e não tive dó, assim como não tiveram de mim há cinco anos, quando o Palmeiras foi rebaixado. Aquela coisa de que vingança se come fria.

Meu momento mais animado nessa história toda aconteceu hoje de manhã, quando surgiu uma pauta extra para fazer no trabalho: a sina do Corinthians na Segundona em 2008. A notícia, que tinha tudo para ser chata e cansativa, foi talvez a que mais me divertiu ao longo de sua confecção. Muito bom, embora eu deva ter sido xingado por uma boa parcela de torcedores.

Menos ensandecido, porém, percebo que o rebaixamento do time do Parque São Jorge foi terrível para o futebol brasileiro. Além de mostrar que o lance de parcerias feitas às pressas é uma roubada a longo prazo, ressaltou algo que não apenas eu, mas muitos estamos dizendo nos últimos anos: o futebol brasileiro está falido, para não se aprofundar em outros aspectos como a debandada de ‘craques’ para o exterior.

O segundo time mais popular do Brasil é, hoje, de segundo escalão. E na ‘elite’ temos equipes como o Ipatinga, que nada mais é do que uma sucursal do Cruzeiro. Uma lástima. Pelo menos em 2008, o Campeonato Brasileiro vai perder grande parte de popularidade. A média de público certamente cairá, bem como a audiência da televisão. Não haverá o sempre eletrizante Majestoso e nada disso. O time mais odiado pelo Brasil vive uma situação lamentável. E ver um inimigo em uma situação é sempre ruim: bater em quem agora?

Claro que o rebaixamento de um dos tetracampeões brasileiros vai fazer com que o clube assuma as rédeas da panela de pressão que é o Corinthians. Isso só vai acontecer lá pela segunda metade de 2008, quando o time emplacar uma série de resultados positivos na Série B e passar a brigar por uma vaga no G-4. Até lá, pode apostar: vários vexames acontecerão. E é bom a diretoria tomar cuidado com o Paulistão, quando times inexpressivos como Rio Claro, Guaratinguetá e Noroeste fecham parcerias com duas mil empresas e formam times até que fortinhos para o certame.

Mas não acho que a queda do Corinthians será um marco no futebol brasileiro. O sinal de alerta foi aceso em 1997, quando o Fluminense foi rebaixado para a Série B e, no ano seguinte, para a Série C. A nova era de vexame dos grandes (cujo slogan é a velha máxima de que ‘não tem mais bobo no futebol’) teve início em 2002, com as quedas de Palmeiras, Botafogo e Portuguesa.

Desde então, foram 13 times tradicionais que amargaram pelo menos um ano na segunda divisão antes de retornar à ‘elite’ – ou então chafurdar ainda mais na lama.

Quer a prova?

2002: Palmeiras e Botafogo caíram e conseguiram o acesso no ano seguinte, enquanto a Portuguesa passou cinco anos na Série B até voltar.

2003: Campeão brasileiro de 1988, o Bahia caiu e ainda não conseguiu voltar. O Tricolor soteropolitano, aliás, chegou a cair para a terceira divisão em 2006 e voltou para a B neste ano.

2004: O Grêmio caiu e suou para voltar na temporada seguinte. Junto com o Tricolor Gaúcho também foram rebaixados Vitória (que só em 2007 conseguiu o acesso) e Guarani (rebaixado para a Série C em 2006).

2005: O primeiro campeão brasileiro, não escapou da queda em 2005, mas subiu um ano depois. O Coritiba demorou 12 meses a mais, e só agora está de volta.

2006: Vice-brasileiro em 2000 e 2001, vice da Libertadores em 2002 e campeão paulista de 2004, o surpreendente São Caetano teve seu vôo errante rebaixado para a Série B, assim como a Ponte. Ambos não conseguiram subir este ano e, em 2008, enfrentarão o Timão.

2007: Corinthians, Paraná e Juventude. Será que voltam? Acho que corintianos e paranistas sobem, enquanto o Ju fica um tempinho na B.

Mas a pergunta que fica mesmo é: em 2008, quem serão os grandes que terão que passar pelo purgatório da Série B? Não sei, só que tenho a sensação de que, nos próximos dez anos, vários clubes tradicionalíssimos cairão. Te cuida, São Paulo!

domingo, 2 de dezembro de 2007

Espera

Fui um garoto tímido desde os primórdios. Nas minhas primeiras lembranças sociais, apareço me escondendo da vizinha do apartamento ao lado ou então me vem à mente a vergonha de sair do meu universo primitivo (carro da minha mãe) e entrar na escolinha para o primeiro dia de aula.

Essa minha timidez diminuiu em bons números com as minhas primeiras amizades. Mesmo assim, nas festinhas de aniversário nos buffets infantis, ela voltava a ficar evidente: se chegava um pouco tarde e um grupinho já estava com uma conversa consolidada, tinha uma enorme dificuldade para me enturmar. A solução? Chegar mais cedo e participar da formação dos grupinhos. Muito mais fácil.

Por causa disso, acabei desenvolvendo o hábito de ser pontual. E essa minha pontualidade, em vez de ser vista como uma qualidade, acaba apenas evidenciando meus principais defeitos sociais, dentre eles a tal timidez, a gigantesca insegurança e uma certa ansiedade – coisas que poucas pessoas acreditam que eu tenha.

Quando combino alguma coisa com alguém, sempre acabo chegando uns cinco minutos antes. Sempre bom estar lá antes, eu acho. O problema é que quase ninguém pensa assim, e muitas vezes as pessoas acabam chegando muito além do estipulado. Muito mesmo.

Uma das piores coisas para uma pessoa tímida e insegura é ficar plantada em um mesmo lugar por muito tempo. Às vezes tento disfarçar, dou voltas no quarteirão e até finjo chegar atrasado. Mas nem sempre isso dá certo, e acabo ficando parado no mesmo lugar.

Os dez primeiros minutos da espera são normais e até passam bem rápido. Depois da primeira olhada no relógio e de constatado o princípio de atraso, porém, a insegurança começa a bater. Por que o atraso? Será que a pessoa desistiu? Ou... pode ser o trânsito. Eh, pode ser o trânsito. Mas e se aconteceu alguma coisa? Puxa, já faz 20 minutos que a gente combinou, por que não avisou?

Nesse momento, tento a minha cartada mais vã possível: o celular. Mas, como todo mundo já deve saber, o celular só costuma funcionar quando você está no meio de uma prova, de uma entrevista de emprego, em uma reunião, no trabalho ou no elevador. Quando mais se precisa dele, resta apenas a caixa postal.

Depois de ficar tanto tempo no mesmo lugar com as mãos nos bolsos, percebo que os dedos começam a suar. Tiro as mãos do bolso, estralo os dedos, esfrego-os. Ter barba nessa hora ajuda, e acabo sempre puxando alguns fios do queixo. Também penso em uma música e começo a marcar o ritmo com os pés. Incessantemente.

Enquanto isso, as pessoas em volta começam a perceber que você está esperando alguém. Muitas delas sabem isso, e boa parte delas começa a desconfiar de que você levou um bolo. Começo a olhar para os lados, esperando ver a qualquer momento a pessoa com quem combinei. Meus bolsos começam a pesar. As pernas, a tremer. É preciso arranjar alguma coisa para fazer.

Depois de alguns instantes, a salvação: a pessoa esperada chega, ou então a primeira do grupo combinado. As mãos param de suar, as pernas param de tremer e a vida, pouco a pouco, vai se reajustando.

Quase ninguém acredita quando eu digo que sou tímido e inseguro. “Você, que consegue se aproximar de alguém com tanta facilidade e fazendo tantas piadas? Ah, conta outra, vai!”.

É que nenhuma delas me espiou enquanto eu esperava por alguém.

sábado, 1 de dezembro de 2007

O início (um ano depois)

Quando o relógio virou de quinta-feira 30 de novembro para sexta-feira 1º de dezembro, estava deitado em minha cama tentando dormir. Mas a carga de pensamentos era tão grande que a única coisa que eu conseguia fazer era me virar de um lado para o outro, de um lado para o outro.

Acabou que só consegui pegar no sono às 3h30. Não deveria ser um belo começo de dia para alguém que colocou um despertador para tocar às 6 horas e um celular para tocar a cada cinco minutos, das 6 às 7 horas. Mas não precisou um segundo alarme: já no primeiro estava completamente acordado.

Sem sono apesar do pouco tempo dormido, tomei banho, fiz a barba, penteei o cabelo. Comi um pouco de cereal com iogurte, coloquei uma camisa social marrom e fui para o metrô. No trem lotado, me encostei na porta e comecei a ler o Jardim do Diabo, do Veríssimo (que aliás não chega nem perto da pior crônica dele). Na Saúde, ainda vi uma amiga exótica (nascida na China, que fazia aula de inglês comigo e tinha um nome engraçado) entrar sonolenta no vagão e dormir em pé. Com dó, preferi não acordar a menina e segui minha viagem até a Avenida Paulista.

Depois de passar um belo tempo no RH preenchendo os documentos de praxe, fui transferido para outra sala, desta vez para tirar foto pro crachá. Após ser pego de surpresa na primeira tentativa pelo fotógrafo da Administração de Pessoal e não gostar da segunda, aceitei, já meio tímido, a terceira tentativa. “Putz, que cara de imbecil”, eu disse. “É, mas eu não sou nenhum Duran”, disse o cara do RH, com um ar meio mal-humorado. “Não, o problema não é o fotógrafo, mas o modelo”, respondi. Ele achou graça e então começamos a conversar. O Fábio, o tal cara do RH com a máquina digital na mão, se mostrou bastante simpático. E me fez agüentar as 1h30 de atraso em que fiquei sendo jogado de um lado pro outro no décimo andar.

Recebi meu crachá e a foto não negava a cara de imbecil. Mas subi para o 12º para enfim começar meu primeiro dia de trabalho. Meu primeiro dia na Gazeta Esportiva.Net, há exatos 365 dias. E, após ser apresentado oficialmente para o Emanuel, o estagiário que dividiria o expediente matutino comigo, comecei a minha jornada.

Depois daquele primeiro dia, passei por mais algumas coisas. Fiz futebol, me apaixonei pelo mundo dos outros esportes, flutuei entre as duas editorias, mudei de horário, voltei ao meu horário habitual... fui um dos principais responsáveis pelas coberturas de Roland Garros, Wimbledon, temporada 2006/07 da NBA e, ultimamente, as Copas do Mundo masculina e feminina de vôlei. Isso sem falar nas provas matinais dos Jogos Pan-americanos.

Nesses 12 meses, me senti uma pessoa importante ao entrar em um carro de reportagem para fazer a minha primeira pauta externa, a fatídica São Silvestrinha com a Carol. Depois, tomei chuva na São Silvestre de verdade com o Mané (postagem de 01/01/2007), tomei sol que nem um camelo em São Caetano do Sul à espera da Ana Paula Oliveira, tomei chá de cadeira para conseguir uma mísera tomada para trabalhar no Ginásio do Ibirapuera no Grand Champions Brasil.

Ao longo dos últimos 365 dias, fiz minha primeira cobertura em um estádio de futebol (e aliás vendo meu primeiro jogo no Morumbi, com São Paulo x Figueirense), entrei no gramado do Pacaembu e ainda vi o Corinthians perder para o Sport, fui a um treino do Botafogo em Itu.

Além disso, ainda acompanhei uma etapa dos testes físicos da seleção de esgrima pro Pan, fui a uma coletiva com presidentes das confederações brasileira e suíça de tênis, a treinos da equipe brasileira de softbol... fui a eventos da NBA no Clube Pinheiros e em uma favela, cobri a apresentação e alguns treinos da seleção brasileira masculina de basquete para o Pré-olímpico das Américas, fui a um treino do time feminino de basquete... fui a um evento da Johnnie Walker em Barueri e andei de Mercedes com um bicampeão de Fórmula 1.

No último ano, falei com pessoas com quem jamais imaginei que um dia falaria: dirigentes dos quatro grandes clubes de São Paulo, inúmeros jogadores e técnicos de futebol e de vários esportes... e de vários países. De Ruy Cabeção a Doni, passando por César Castro (saltos ornamentais) e Edmílson Dantas (maior medalhista brasileiro de levantamento de peso em Pan-americanos, alguém que ninguém conhece). Sem esquecer Magic Paula, Paulo Bassul, Nenê Hilário, Anderson Varejão, Tiago Splitter e Leandrinho Barbosa. Mas com destaque também para Samuel Dalembert, Shawn Marion, Jaime Oncins, Fernando Meligeni, Mats Wilander... Mika Hakkinen! Bjorn Borg!

Confesso que troquei muitos momentos de diversão ou de sono em nome do trabalho. Perdi finais de semana. Perdi feriados, viagens... e é claro que reclamei também de muitas coisas. Mas a cada dia de expediente, aprendia o equivalente a dois meses de faculdade. Aprendi inúmeras coisas de outros esportes. Aproveitei.

E o melhor do que isso: nos últimos 12 meses, formei algumas amizades que vão além do 12º andar.