quarta-feira, 14 de maio de 2008

A essência do amor

Se realmente existe amor verdadeiro (e eu, tolo ingênuo, acredito que há), ele é encontrado em sua melhor forma nos casais de velhinhos pela rua.

Lá com seus 70, 80 anos – e depois de viverem uns 50 deles juntos, pelo menos –, os dois velhinhos ainda permanecem lado a lado, seguindo juntos o mesmo caminho da vida. Atravessaram fases ruins e superaram todas as tormentas: as desconfianças, os ciúmes, as épocas de marasmo, as crises conjugais com ou sem fundamentos, os maus momentos financeiros, a moda do divórcio... tudo. E ainda estão lá, firmes e fortes, embora enrugados, encurvados e com cabelos brancos.

O casal ainda está lá, andando pelas ruas, e com as mãos dadas no meio de tanta gente, do mundo inteiro. Uma talvez ex-leitora deste blog comentou neste espaço que “andar de mãos dadas é uma das demonstrações de carinho mais fofas que existem. Fundamental”. E ela estava certa: quando pegava na mão da minha ex-namorada, por exemplo, sabia todos os nuances emocionais pelos quais ela passava: quando estava insegura, feliz, empolgada, explodindo de paixão... até mesmo no dia em que ela pôs um ponto final ao relacionamento, eu havia notado algo diferente nos raros instantes em que ficáramos de mãos dadas naquela manhã: a mão dela estava frouxa, fria, esquiva. E, durante todo esse tempo, os velhinhos continuavam lá, em seus passos lentos e com os dedos entrelaçados.

Mas o que dizer, então, do velhinho que com as suas mãos empastela a mão da velhinha enquanto estão tomando café e conversando sobre a vida? Naquele gesto, ele mais do que protege sua esposa de todos os males invisíveis que não a acometerão, mas a assombram. E quando ele dá tapinhas com a palma de sua mão direita nas costas da mão da velhinha, transmite todo o amor e todo o incentivo que seus olhos e sorriso já confessam.

O amor sincero nos casais de velhinhos também se faz presente no respeito que há entre o casal. Um dia desses, em um elevador, um velhinho contava a uma interlocutora com a metade de sua idade sobre o feriado recente: “Ah, eu viajei pro interior. As irmãs da minha senhora não estão muito bem de saúde e fomos ficar um tempo com elas”.

Minha senhora. Minha senhora! Expressão antiga e quase antiquada, mas tão respeitosa e carinhosa! Muito melhor do que o hoje comum “patroa”. Infinitamente melhor do que o tão usado “minha mina”. E bem mais carinhoso do que o “minha garota”, que vez ou outra eu tenho a chance de dizer.

A essência do amor sincero não está em palavras bonitas sussurradas ao pé do ouvido e nem em versos belos rabiscados em uma folha de papel. Tampouco está em um beijo intenso dado em algum momento especial, talvez sob o pôr-do-sol ou uma noite estrelada. A essência do amor sincero está, em sua forma mais verdadeira, nos casais de velhinhos que até hoje estão juntos. Eles sim sabem das coisas mais bonitas da vida – e a fazem mais bela a cada dia.

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Dias desses, inclusive, li uma crônica do Mario Prata sobre tema semelhante. No mínimo inquestionável, que pode ser encontrada aqui e vale (muito) a pena ser lida.

5 comentários:

Margareth disse...

“andar de mãos dadas é uma das demonstrações de carinho mais fofas que existem. Fundamental”. Mas nem sp existe amor...respeito pelo sentimento do parceiro(a)...cumplicidade...Enfim,amar é uma arte.

juliana moura disse...

quase chorei. haha

elsa e fred, né?

Fábio disse...

Hahaha, Elsa & Fred total!

E "minha senhora" não dá, mas velhinhos fofos e apaixonados são demais mesmo. Um dia a gente chega lá!

Juliana disse...

Andar de mãos dadas é essencial. Tudo que tenho que mostrar para o meu namorado é pelo jeito que seguro a mão dele.

A gente combinou de terminar a vida em um sítio, velhinhos, com um bando de netos brincando, como aconteceu comigo quando criança. Espero que dê certo, porque conheço muitas histórias de velhinhos que ainda dormem de mãos dadas.

Beijo Held.

Lupilo Blythe disse...

meu vô tem 80 anos e tem uma namorada de 6o. Namoram há uns três anos, acho. Vai que você viu eles por aí e não sabe ,-]
bom, pode ser que existam casais que continuam fofinhos depois de uma vida, mas não estou me lembrando de nenhum agora...

beijo

PS ah! esses meninos blogueiros que postam abertamente sobre seus relacionamentos! hahaha