terça-feira, 20 de maio de 2008

Sobre olhares e retrovisores

“E aí, quando você estiver dirigindo e for mudar a marcha, descansa a mão na perna dela como quem não quer nada. Se ela não se importar, mantenha: logo ela também coloca a mão dela sobre a sua perna. Você vai ver como dirigir fica ainda mais gostoso e ter um carro vira um enorme adianto com mulheres”.

Todo mundo já deve ter ouvido isso pelo menos uma vida. Pai, tio, amigo do pai ou do tio já devem ter dado tal conselho ao filho que pela primeira vez marcava de dar carona para alguma paquera. Eu mesmo já ouvi, embora nunca tenha vivido tal oportunidade. Mas um dia desses passei por uma situação semelhante, ainda que um bocado diferente.

Era um dia qualquer em que eu estava andando pela rua quando encontrei duas pessoas conhecidas próximas a uma estação de metrô: uma amiga, que na verdade fora uma das minhas grandes paixões há algum tempo, e seu irmão. Buzinei, os dois olharam e perguntei aonde iam. Não iam para o mesmo lugar que eu, mas fingi que passaria lá perto e ofereci a carona – é sempre bom conversar um pouco.

Os dois entraram, e para a minha infelicidade momentânea o irmão dela se sentou no banco do passageiro e ela, atrás de mim. Comecei a bater um papo com o irmão sobre coisas banais até que ela, depois de alguns minutos, também falou alguma coisa. Como não podia me virar e olhá-la nos olhos, dei uma olhada de relance no retrovisor e pude acompanhar também suas palavras.

Mais alguns semáforos à frente, quando o assunto já tinha esfriado, dei uma olhada no espelho para mudar de faixa e nossos olhares se cruzaram novamente. Ficamos alguns segundos nos olhando e voltei a prestar atenção no trânsito. Momentos depois, mais uma espiada – e então chegou a vez dela de desviar o olhar.

Sorrateiramente, descumpri uma das regras básicas do trânsito e ajeitei o espelho retrovisor de modo que ficasse mais fácil visualizar o rosto dela. Quando o semáforo permitia e ela não estava percebendo, aproveitava para admirar um pouco mais suas belas feições.

Ficamos nessa lengalenga de troca de olhares por alguns quilômetros. Até inventei um caminho maior para poder ter alguma desculpa de olhá-la e ser olhado, simultaneamente ou não. Ainda assim, infelizmente, chegamos ao ponto em que eles desembarcariam.

Depois que meus caronas saíram, aumentei um pouco o volume do som e retomei meu rumo. Dobrei o quarteirão, dei mais uma olhada no retrovisor e não vi mais minha antiga paixão no banco traseiro do meu carro. Seu lugar estava vazio. E eu também me senti mais vazio.

Não, não senti nenhum novo acesso de paixão por ela. Nossa história já teve seu tempo para ser escrita, mas não rendeu mais do que algumas crônicas (algumas, aliás, das que eu mais tenho orgulho). Mas foi bom matar as saudades dela, sobretudo de seus olhos.

Um comentário:

Grande Rael disse...

=)
preciso de um carro
mesmo achando q o transporte publico é o caminho, e que o transito em sp é uma nhaca, esses momentos sao valiosissimos, tive um recentemente..e dps devolvi o carro pro paps. mas rendeu!