sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Rapidinhas olímpicas (21s30)

Quando eu era pequeno, queria ser igual ao Evair. Queria ser o camisa nove do Palmeiras, marcar o gol do título do campeonato, comemorar com a torcida e ser um ídolo. Acabou que o Evair foi o meu primeiro grande ídolo, ao lado do Senna. Depois vieram Guga e Marcos. E só.

Creio que muito mais do que 50% da molecada de hoje em dia quer ser um jogador de futebol. Alguns sim querem comemorar com a torcida e virar ídolo, mas muitos pensam em seguir os passos de outros ‘ídolos’, que marcam meia dúzia de gols no Brasil, recebem uma proposta da Arábia e vão para lá ganhar dinheiro.

Acontece que jogadores de futebol não deveriam servir de modelos para ninguém. Ou pelo menos a maioria dos atletas. São um baita dum contra-exemplo: mais da metade estuda até a terceira série, mal sabe conjugar um verbo e ganham mais do que um médico. É uma afronta um jogador de futebol ganhar mais do que um professor, sei lá.

Mas isso não é tudo. Os tais dos jogadores saem do país e tal. Alguns ainda são convocados para defender a seleção brasileira. Antes da partida, perfilados, balbuciam um a-do-le-tá nos versos iniciais e ainda arriscam um “Se o senhor dá essa igualdade, prometemos conseguir um braço forte”. Ah, alguns até sabem cantar direitinho um “terra dourada” e “pátria amada, Brazil”. Aposto que eles pensam no Z na hora de cantar.

Pode ser porque há quase um ano e meio me concentro sobretudo nas editorias de outros esportes, mas percebi que há atletas com um certo nível de cultura. Que sabem conjugar verbos e até falam algumas palavras bonitas. Tem um, em especial, que faz faculdade nos Estados Unidos.

Ninguém conhece direito esse atleta. Nasceu na pequena Santa Bárbara D’Oeste, fez um estágio em Piracicaba e se mandou para os States. Começou a competir, ganhava a bolsa de estudos por lá. Teve um Mundial em 2007 em que ele, todo esquisitão e com cabelos azuis, ficou em quarto lugar. Alguns meses depois, já mais comportado e loiro, ganhou duas medalhas de ouro em um Pan-americano. Dois, só? Ah, mas tem um atleta, o Thiago, que ganhou seis! Ah, e esse cara é esquisito, ele se soca inteiro antes das provas”.

Acontece que um ano se passou e o tal do cara dos States, pouquíssimo badalado, foi para a sua primeira Olimpíada. Foi na sombra do Thiago, que passou os 12 meses indo a vários programas de televisão, todo sorridente e tal. Ninguém apostava nesse cara que treinava nos Estados Unidos.

Na primeira prova, quase ficou de fora da final. Foi apenas o oitavo colocado das semifinais, foi nadar marginalizado na raia oito, pegando a marola de todo o resto. “Enganação, pipoqueiro. Só podia ser brasileiro”. Mas, na final, o cara terminou em terceiro. “Ah, mas já tá se achando, olha só: disse que vai ganhar o ouro nos 50m. Tá bom”.

Aí o cara foi lá, quebrou o recorde olímpico nas eliminatórias. “Ih, talvez ele seja bom mesmo”. Nas semifinais voltou a quebrar, e se classificou com o melhor tempo e com 0s2 de vantagem sobre os adversários. “É, o cara é bom. Mas ele vai amarelar, só pode. Certeza de que vai amarelar”.

Mas o cara quebrou o recorde olímpico pela terceira vez. Ficou a 0s02 do recorde mundial. Se tornou o primeiro atleta brasileiro da história a ganhar uma medalha olímpica de ouro na natação. Deixou para trás alguns caras que eu tinha como mito na natação, o Gustavo Borges e o Xuxa.

O cara vibrou, chorou, fez festa, chorou, gritou e chorou de novo. Mas não foi aquele choro chato da Jade Barbosa. Disse para ninguém desistir nunca dos seus sonhos. Mas o mais bonito mesmo foi no pódio, quando cantou o hino nacional. Sorrindo e chorando. Cantou certinho. Nada de adoletá-lepetipetipolá-conseguimos-conquistar-com-braço-forte.

Isso sim é que é um atleta de verdade, com um enorme potencial para ser ídolo. Muito embora, deve-se dizer, metade do ouro é dos Estados Unidos. No Brasil, o que o César Cielo conseguiria? Ser jogador de futebol?

Rapidinhas olímpicas:

Roginho:
Roger Federer é gay. O cara é um gênio do tênis, talvez o maior de toda a história, mas não deixa de ser gay. “Ele é suíço demais”, eu disse uma vez para um norte-americano em Buenos Aires, que concordou comigo. Ele já ganhou mais de 41 milhões de dólares na carreira, e continua com a namorada gorducha dele. É o único que ainda não deu uns pegas na Sharapova (o Nadal também não, mas anda se engraçado com a minha musa Caroline Wozniacki - linda, apesar das caretas que faz jogando tênis). A homossexualidade do Federer só ficou evidente depois da semifinal de duplas, quando só faltou ele dar um beijo no Wawrinka. Vale a pena ver.

Vencendo pelo cansaço: Tem pautas realmente complicadas para repórteres em época de Olimpíadas, mas o Pedro Bassan conseguiu uma realmente fácil: fazer a Jade Barbosa chorar depois da final do individual geral da ginástica. O problema é que a menininha, que tinha se estatelado no chão duas vezes nas duas últimas provas, estava irredutível: algo raro até então. O Bassan tentou aqui, tentou ali, repetiu perguntas e nada. Até que ele tocou na ferida da Jade (a família). E ela abriu o berreiro. Pô, assim até eu!

Jornalismo sério: Há uma lenda nas redações de esporte do país afora de que uma vez estava passando uma prova de tiro esportivo na televisão, coisa rara. Durante a transmissão, o comentarista falou dos alvos, pratos lançados para serem estraçalhados pelos atiradores. À deriva, um(a) jornalista acordou de seu transe, abismada: “Eles atiram em patos? E... vivos?”, perguntou, com os olhos arregalados. Comecei a me imaginar indo ao embarque da delegação brasileira olímpica de patos.

Sensacionalismo: O Paulo Bassul é um cara muito gente fina, mas a seleção brasileira feminina de basquete (que ele treina) só vem dando vexame em Pequim. Até nas declarações. Depois de perder a quarta partida seguida, com uma série de cagadas no final da partida que culminaram na eliminação da equipe, a pivô Kelly prometeu mudança de postura: “Vamos entrar do mesmo jeito contra a Bielorrússia”. Claro que ela não falava de fazer cagadas, mas entrar com a mesma disposição. Mas é claro que não tive dúvidas e cravei a aspa na manchete.

2 comentários:

Fábio disse...

Do mesmo jeito que era injustiça ignorar o Cielo por causa do "boom" de medalhas do Thiago no Pan, será que não é meio cruel descer a lenha no Thiago por causa do ouro do Cielo em Pequim? Hummmm...

Mas o homem de Santa Bárbara é foda mesmo. E você bem que tinha avisado!

Ah, a Carol Wosniack continua linda, ai ai... Mas minha nova musa olímpica é a goleira da seleção de futebol da Noruega (que não sei o nome). Espetacular! :)

paula r. disse...

eu adoro as declarações infelizes dos nossos losers. e não são losers porque perdem, loser é uma postura. tinha até preparado uma 'notícia comentada' com base em declarações do t. pereira pro blog, mas preferi colocar a vitória do cielo.

sobre o texto do marcelo coelho e a maratona: ela parou onde tinha que parar, né? depois da linha de chegada.

beijo

p.s.: é todo mundo tããão novinho nas olimpíadas! o cielo tem só 21 anos, o phelps é poucos meses mais velho que eu. sensação estranha.