terça-feira, 26 de agosto de 2008

Platônico

Vira-a mais detalhadamente pela primeira vez já tinha um certo tempo, alguns meses atrás. Era quase meia-noite quando ele deixava o trabalho e ia para um bar para ver o final do jogo e ela estava na porta do prédio esperando a carona. Só que no mesmo instante em que passava por trás dela o tal carro chegou, e ela entrou e cumprimentou o motorista com um beijo nos lábios.

Ele, que antes tinha visto a tal garota de relance algumas vezes pelos corredores do trabalho, passou a observá-la com mais atenção. Aquele negócio de que homem só dá valor a uma mulher quando a vê com um outro, sabe? Pois então.

Passaram-se alguns meses até que ele foi promovido no trabalho. Deixou de ser o estagiário que escrevia o horóscopo e assinou seu primeiro contrato profissional. Também deixaria os 12 símbolos do zodíaco para escrever reportagens sobre música (agora sim seria gente, ele pensava).

Com o novo cargo, abandonou o antigo computador branco com Windows 1998 e um mouse que não funcionava e assumiu um daqueles pretos de última geração, com monitor fino de tela plana e mouse ótico.

Mas a agilidade da nova máquina não foi o ponto máximo de sua promoção. E nem a conta no banco, que melhoraria um pouco a partir do próximo dia 5. O que ele mais gostou nessa história toda foi o fato de a sua nova baia ficar virada para o corredor. Não porque via o movimento e escapava da cegueira de final de tarde com o pôr do sol, e sim porque percebeu que trabalhava no mesmo andar que ela.

Inicialmente pensou que ela estava apenas visitando o andar. Vendo-a por uma semana inteira todos os dias, constatou que ela trabalhava na redação ao lado, na parte de crítica cinematográfica. Isso não era um bom sinal – ele entendia tanto de filmes como um homem solteiro sabe trocar uma fralda. E as semanas e os meses rolaram...

Ele começou a perceber algumas peculiaridades naquela garota, que não estamparia uma capa de revista de beleza (não era loira, não tinha olhos claros, não tinha um peitão siliconado ou algo do gênero). Achava-se um cara sortudo por causa disso – talvez a concorrência não fosse desleal. E a cada dia gostava mais e mais dos cabelos pretos e ensaiadamente desajeitados da menina. De sua pele clara, que deixava transparecer vez ou outra uma olheira sob os olhos castanhos. Além disso, ela se vestia de uma forma extremamente... estilosa? Era o que ele dizia.

Passou a imaginar qual seria o nome de sua admirada (não tão secretamente, pois ele gostava de dar uma olhada nos olhos dela quando ela passava à sua frente no corredor). Carla? Não, muito sério. Alessandra? Não, muito menininha. E se ela tivesse um nome exótico, do tipo... Jelena? Hum, ela tinha cara de ter um nome exótico, mesmo. Tentou arranjar um jeito de descobrir.

Não pensou em um plano mirabolante para descobrir o nome dela. Sabia que poderia tentar uma abordagem quando desse sorte e cruzasse com ela no elevador. Poderia tentar alguma palavra bem-humorada, arrancar um sorriso dela e iniciar uma conversa. Não se preocupou, sabia que tinha apenas de esperar.

Até que um dia, não demorou muito tempo, eles se encontraram. Ele tinha acabado de sair do elevador e ela, deixando a redação, saía para fazer a hora do almoço. Pensou em segurar o elevador, mas seria cavalheirismo demais visto que ela ainda passava pela porta. Começaram a andar um na direção do outro e ele pensou em falar um “boa tarde”, mas seria formal e velho demais.

De tanto pensar, percebeu que era melhor não falar nada. Orgulhoso, fingiu que não viu aquela linda garota que passava de óculos escuros e fone nos ouvidos ao seu lado. Tentou se fazer de difícil. E ela nem percebeu nada.

Ela, para falar a verdade, nem sabia da existência daquele colega de redação.

2 comentários:

paula r. disse...

sim. mas quando parece que vai machucar demais eu respiro de 4 a 6 vezes pra mudar a circulação sanguínea do meu cérebro - dizem que ajuda a desviar o pensamento. já funcionou, hoje não me preocupa tanto.

e tem o pensamento que traz o medo estilo 'frio na barriga', mas aí são outros quinhentos.

*acho que óculos escuros e fones de ouvido afastam um pouco as pessoas. mas eu os uso o tempo todo, no fim.
**anormal é não ter medo.

paula r. disse...

=)