sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Praça de Pedra (parte III)

Qual seria a novidade que a namorada do bebaço tinha para falar?

Teria o pai dela impedido o romance pelo fato de ele ser jornalista de mídia eletrônica e ela de mídia impressa? Ou então ela estava grávida dele? Ou pior: do irmão dele? Ou... ou então desta vez não restava dúvida, e os marcianos finalmente haviam chegado?

Não perca essa e todas as outras respostas no terceiro e último capítulo da nada emocionante Praça de Pedra. *

*Se você, pára-quedista, não entendeu nada, leia o primeiro capítulo da trama clicando aqui e o segundo clicando aqui.
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CAPÍTULO FINAL

Antes de contar a novidade, ele respirou fundo.

“Ela tinha recebido uma proposta pra passar um mês em Madri como correspondente do jornal. E lá faria um curso de espanhol. Cara, até hoje eu queria ver a cara de cu que eu fiz naquela hora. Ela não percebeu, eu acho, porque me deu um beijo intenso e me agradeceu a ajuda. Eu, claro, preferi não contar a minha novidade.

“Sabia que era a oportunidade da vida dela, mas ainda assim tentei convencê-la a ficar. Falei que poderia eu mesmo ensinar espanhol pra ela...”.

“Hablas español?”, interrompi.

“Sí, pero no mucho”, brincou. “Quer dizer... quando era mais novo, fiz aula e peguei um certificado no Instituto Cervantes. Mas sabia que ela tava louca pra ir. Deixei. Ela não quis que eu fosse no aeroporto me despedir dela. E também não contou a data em que voltaria. Disse só que queria me fazer uma surpresa, chegando de repente no meu apartamento”.

“Puta, que merda. Já saquei!”, interrompi mais uma vez. “Você conheceu outra garota nesse meio tempo, levou pro seu apartamento e aí a sua namorada chegou do nada. E aí vocês terminaram. Puts... e a nova mulher era a melhor amiga dela, por acaso?”, perguntei.

“Não. Isso é a história de um livro que eu já li. E, pelo visto, você também, né?”, perguntou. Dei um sorriso amarelo confirmando. “Minha vida não é um livro, chapa. Mas agora me deixa continuar.

“Naquele mês em que ela foi pra Espanha, eu não saí de casa esperando algum sinal. Adorava quando ela me mandava uma carta ou um cartão-postal e dizia que estava com saudades. Mas isso aconteceu só nas três primeiras semanas. Depois ela não me mandou mais nada. Na minha cabeça, isso queria dizer que ela estava pra voltar.

“Então eu passei a comprar pizza todo dia, pra não correr o risco de fazer compras no mercado ou sair pra jantar, ela chegar em casa e não me encontrar. Até que um dia tocou a campainha. Fui atender correndo. Era a vizinha do 111. Ela tinha um envelope na mão e dizia que era meu. Que o número do apartamento estava errado na correspondência, mas o meu nome estava como destinatário. Agradeci, fechei a porta e comecei a ler”.

“Era dela?”, chutei.

“Sim. E na hora percebi que era alguma merda. Primeiro, porque ela tinha esquecido o número da minha casa, que é tão fácil de decorar: 123. Depois entendi melhor. Ela dizia que não ia voltar. Que se deu tão bem no curso que foi contratada por um jornal espanhol. Ficaria por lá. E que um dia, quando eu conseguisse férias na tevê, era para eu ir visitá-la. Ou seja: isso ia levar pelo menos um ano.

“Você foi?”, perguntei.

“Não. Descobri meses depois que ela arranjou um namorado em uma viagem que fez pra Valencia. E a gente não se falou mais. Durante 13 anos”.

Ele não falou nada. Eu também não. Ficamos uns momentos em silêncio.

“Até hoje de manhã. Antes de eu sair pro trabalho, a minha vizinha do 111 me entregou mais uma carta da minha namorada. Ela tinha escrito que estava voltando. Casada, com três filhos. O marido – aquele namorado valenciano – queria conhecer o Brasil. E ela queria me apresentar pra ele e pros filhos (o mais velho tem o meu nome, acredita? E o mais novo tem o nome do pai). Ela pediu por favor para a gente se encontrar. Que ia ser muito especial, que blábláblá, o caralho”.

Mais alguns momentos de silêncio.

“Eu não deveria ir. Aliás, eu não quero ir!”, raciocinou.

...

“Mas o idiota aqui vai!", emendou, um pouco resignado. "Por quê? Porque eu ainda quero ver o rosto dela mais uma vez. Porque... ah, cara, eu ainda amo aquela mulher! Que bosta!”

Ele se levantou e foi embora, ainda cambaleando.

2 comentários:

Mané disse...

De verdade?

Eu gosto de pensar que esse cara sabe das coisas. Porque aí ele seria como eu, como você, como um monte de gente que a gente conhece.

(Certo, sem a Espanha e um valenciano no caminho.)

Boninha disse...

Ok.

Juro pra você que é uma história das mais bonitas - e tristes - que eu já li.

Wow.