domingo, 28 de outubro de 2007

Dança da chuva

A semana passada foi marcada por um fenômeno natural que há muito tempo não acontecia, nem em São Paulo e nem no deserto do Atacama: a chuva.

É isso mesmo. Depois de muito tempo, a água voltou a cair de pé e correr deitada na maior cidade da América Latina. Por mais que tenha sido um bocado surpreendente, não deixa de fazer parte da tradição que se mantém há cinco milhões de anos na região, que vive uma seca danada durante grande parte de outono e inverno e volta a ver o combinado de hidrogênio, oxigênio e mais algumas impurezas ao longo de primavera e verão.

Curiosamente, a chuva já estava anunciada. No domingo, estava conversando com uma amiga de Sorocaba e ela dizia que por lá estava um vento de chuva. Batata: algumas horas depois, caiu uma chuva tremenda por aqui também. E continuou chovendo até ontem, mas com menos intensidade.

Por pura preguiça e por saber que certamente eu esqueceria meu guarda-chuva na redação se o usasse, decidi que não me protegeria da garoa forte enquanto fazia o tradicional caminho casa-metrô-metrô-Paulista-Gazeta. E isso me fez perceber algumas coisas que talvez eu não notasse se estivesse mais preocupado em me defender dos pingos ácidos.

Se um dia eu fizesse um top 5 dos meus lugares preferidos em São Paulo, a Avenida Paulista certamente estaria entre os três primeiros. Mas seguindo a máxima de que nem tudo é perfeito, em dias chuvosos a avenida mais famosa do Brasil apresenta talvez o seu maior defeito: a calçada (que aliás está sendo trocada pela Prefeitura, aumentando ainda mais o caos nas calçadas na hora do rush e diminuindo a área útil dos bares).

Quando chove, é praticamente uma bosta andar pelas calçadas da Paulista. É a mesma sensação de andar em um campo minado: a menor desatenção e o pedestre descuidado chafurda o pé em uma poça de um misto de água, sujeira e areia. Isso sem falar que é praticamente impossível de tentar imprimir mais velocidade aos pés pra fugir da chuva: os ladrilhos, quando molhados, adquirem uma textura semelhante a um sabão. Precisa falar mais?

Imagino que para as mulheres fica ainda mais desagradável, especialmente as executivas. Se não é raro ver uma dama perder um salto ao cravar o pé em um buraco e sair andando com o calçado na mão, imagina ter que andar com os pés desnudos na Paulista? Pois então...

Outra coisa que eu percebi é que andar na Paulista com um guarda-chuva em uma semana como a que passou faz bem para os olhos. É como se você adquirisse uma defesa natural contra todos os guarda-chuvas das outras pessoas, que estão sempre rondando o seu globo ocular. Mas na falta de um guarda-chuva é possível usar um escudo artificial. Basta usar um óculos.

Só que nem só de espinhos é feito um blog. A chuva na Paulista também tem seu lado bom, e prova disso são as pessoas, que se tornam muito mais generosas quando vêem uma pessoa se molhando gratuitamente na fila para atravessar a rua. Todos os dias, quando me postava para mais uma aventura, digo, para atravessar a Brigadeiro, uma velhinha solidária ou alguma moça simpática me olhavam, balbuciavam algo do tipo “menino, você vai se resfriar” e, discretamente, dividiam o guarda-chuva comigo ao longo da travessia do principal cruzamento da região. E isso em pleno século 21!

Outra coisa legal é a Paulista horas depois da chuva. Não faz muito sentido andar em uma avenida que normalmente é marcada sobretudo pelo cheiro de fumaça dos ônibus, mas que, depois de algumas horas de chuva, fica com o ar úmido. Fica até abafada no finalzinho da tarde ou à noite. E, como todo mundo sabe, as coisas que não fazem sentido são sempre as melhores.

Mas a temporada de chuvas de verão está aberta. Para mais aventuras e desventuras daqueles que todos os dias passam pela Avenida Paulista.

3 comentários:

Mané, comemorando o acesso do Opec, disse...

Já me ofereceram carona de guarda-chuva na Paulista também - na verdade, na Itapeva; mas é tudo Paulista. Acho que foi uma das duas cenas interioranas que eu vi em SP até hoje.

Lucas "Palmeirense" Mello disse...

Tive uma quarta-feira desagradável por causa da citada! Minha meia ficou molhada o dia todo! Pisei em vinte poças, seja na Paulista, seja na Alameda Santos. O pior foi um carro que jogou toda aquela água limpinha em cima de mim. Melhor ainda foi deixar cair o ativador do alrme numa corredeira na Alameda Padre Manuel (ou seria outra?). Até hoje ela deve estar divertindo os ratos. Sábado trouxe duas meias. Molhei as duas, porque o problema não são as meias, mas sim os tênis! Odeio chuva em SP.

Odeio a calçada da Paulista!

Tulio disse...

Pois é, a Av. Paulista molhada como esteve nestes últimos dias, trouxe à tona seus males e qualidades. Eu por exemplo inventei de sair na chuva para fotografar o povo paulistano executando uma coreografia de saltos desengonçados para desviar das poças d'água. Poderia ser chamado de Frevo Paulista! E os guarda-chuvas também são um desfile a parte. De todas as cores, formatos e tamanhos.
Entra no meu flickr e confira algumas fotos desta empreitada pluvial. www.flickr.com/photos/tuliovidal
Se quiser, pode usar uma ou outra foto para ilustrar seu blog!
Abs!