terça-feira, 16 de outubro de 2007

O indivíduo e a alcachofra

Alguns dias atrás, tive a sensação de estar prestes a descobrir o sentido da vida. O mais legal disso tudo é que aconteceu enquanto eu comia uma alcachofra no almoço. Ah, um detalhe que é bom ser citado: o que acompanhava a refeição era um suco de maracujá, e não vodca.

Mas... será que é loucura imaginar que o cerne do indivíduo tem uma correlação gigantesca com o ato de comer uma alcachofra? Acho que não. Eu explico.

Pessoas normais (ou pelo menos minha avó me ensinou assim) começam comendo uma alcachofra de folhinha em folhinha. Uma por uma. Banhando a parte molinha em um molho e raspando com os dentes.

Depois as folhas vão ficando gradativamente menores, mais finas. Chega um momento em que é preciso juntar duas ou três folhinhas, pouco desenvolvidas e praticamente sem cor, para tirar alguma coisa boa de lá.

As folhas vão ficando menores e menores até o momento em que você se depara com uma coisa bizarra: um monte de pêlos. Para seguir caminho em sua alimentação, é preciso retirá-los. E com cuidado, claro, porque aquela coisa estranha espeta os dedos.

Concluída a ‘barbeação’ da alcachofra, ei-lo: o miolo, tenro, ainda quente. Esperando apenas ser cortado, salpicado com um pouco de molho e, então devorado.

E aí você termina de comer o miolo e tem vontade de mais um. Para isso, porém, é preciso encarar outra alcachofra inteira, com folhas verdes, não tão verdes, roxas, rosas, sem cor e com pêlos. Já pensou em comprar um vidro de miolos de alcachofra em conserva? Não tem graça alguma!

OK. E agora, já pensou em transferir isso pra sua vida?

Você começa uma tarefa qualquer, seja ela parte do seu trabalho ou algo prazeroso, aos pouquinhos, em doses homeopáticas. Esses pequenos atos praticamente não têm sentido lógico. Para que tudo isso faça sentido, é preciso ter alguma explicação paralela. Alguma relação com comer de folhinha e folhinha, desprovidas de 'conteúdo', e salpicando o molho para dar um sabor?

Chega um momento em que você já está tão acostumado a fazer as suas tarefas de pouquinho em pouquinho que passa a fazer várias coisas ao mesmo tempo. Afinal, aquelas tarefas anteriores não tinham muito sentido lógico e muitas delas podem ser concluídas simultaneamente. Se você fosse concluir coisa por coisa, ficaria louco e perderia um tempo enorme na sua vida. Lembrou das folhinhas sem cor e saboreadas unidas?

Inevitavelmente você se depara com um problema gigantesco na atividade em questão. Abandonar o seu desafio não é algo tão impossível de ser feito, basta arranjar alguma desculpa esfarrapada boa o bastante. Ah... e a parte peluda da alcachofra, hein?

Mas... já pensou em batalhar, suar, sofrer e ter o gosto de ter vencido um desafio? É algo incomparável. Você se sente em um mundo paralelo, mais do que satisfeito por ter chegado ao fim de um desafio e enfim obter a recompensa mais do que gratificante. Miolo... não se esqueça do miolo!

Só que o que acontece sempre que você chega ao fim de um desafio? A sensação de dever cumprido logo dá lugar à necessidade de sanar outra meta. Não dá simplesmente para ficar parado. E então se faz necessário comer mais uma alcachofra. Digo, pensar em um novo objetivo de vida e batalhar por ele.

Ou será que é legal apenas ver as coisas caírem no seu colo? Nem tanto, né?

3 comentários:

Margareth disse...

Oi filho...Agora fiquei viciada no Cavaleiro...Muito boa a comparação entre a vida e a alcachofra...Só vc poderia ter uma idéia dessa...Continuando a comparação,quando a vida nos der só os miolos ,com certeza não terá mais sentido vivê-la...

Mané, de cabelo novo, disse...

Vergonhosamente, eu nunca comi uma alcachofra.

Mesmo assim, filosofia pura!

Carol Canossa disse...

Apesar de eu também não me lembrar quando comi uma alcachofra pela última vez, reconheço que a sua tese faz sentido.