quarta-feira, 11 de outubro de 2006

A vida pneumotoraxiana

A data não é muito importante. Mas, se despertar interesse, foi logo após a eliminação do Brasil para a França na Copa do Mundo. O que realmente importa é onde tudo aconteceu: a estação Jabaquara do Metrô. Até hoje, quando passo por lá, espero que algo semelhante (ou igual) aconteça. Talvez não seja muito difícil, já que, por ser terminal também rodoviário (da EMTU, CMTC e dos que vão para o litoral sul), o Jabaquara reúne uma série de pessoas diferentes. Só que nunca aconteceu de novo, por mais que eu tente.

Na estação, parei em frente à banca de jornal para ver as manchetes do dia. As manchetes esportivas, claro. Apalpei os bolsos em busca de algumas moedas ou algo que valesse R$ 1,25. Nada. Então virei as costas, fui em direção ao embarque, mas um velhinho (daqueles que parecem passar a manhã de domingo no bar jogando dominó) barrigudinho, com uma roupa de velhinho - calça cinza escuro, malha (porque velhinhos falam ‘malha’) vinho e um boné do Palmeiras dirigiu-se a mim com uma cara atônita e uma pergunta meio idiota.

Se ele fosse outra pessoa, quase certeza de que eu não daria importância; simplesmente ajeitaria o fone de ouvidos e passaria reto. Mas a dúvida do velhinho realmente me tocou:

- Onde eu compro passagem do Metrô?
- Atrás de você, senhor, tem uma fila. Tá vendo onde tem aquele monte de gente parada? Só entrar atrás de algum deles que o senhor vai cair no guichê.
- E depois pra pegar o trem?
- Só virar na primeira esquerda, senhor. Tá vendo onde tem aquela plaquinha de embarque e a setinha pra esquerda? Então, lá já tem as catracas. Aí o senhor pode ir pra qualquer um dos lados, porque todos vão sentido Tucuruvi.
- Tá, mas é aqui que eu compro?
- Isso, onde tem esse monte de gente.
- É que faz tanto tempo que eu não venho aqui, a gente esquece!
- Ah, é normal (e um riso simpático).
- É que faz tanto tempo! Que nem, agora eu tô com 88...
- Nossa, não parece! Juro, o senhor está super bem! (e era verdade)
- É, então... eu quase não saio. Não tenho ninguém pra sair comigo... (Fiquei sem reações, não consegui comentar mais nada) É, não tenho ninguém pra sair comigo. E é ruim sair sozinho, né?
- Ah, com certeza!
- Mas é ali que eu compro, né?
- Ah, eu tô indo embarcar também, a gente vai junto até a fila! (Fomos)
- Pronto, senhor, é só ficar atrás desse cara com a camisa da França. É duro, né, ter que agüentar isso. Não basta o nosso Palmeiras, também ter que agüentar a Seleção...
- Palmeiras? (e deu uma olhada pra aba verde do boné) Ah, nem fala! Agora é só esperar aqui?
- Isso. Ah, por mim o senhor até poderia passar direto. É que sabe como o pessoal tem bom senso, né? O certo seria que o senhor passasse direto!
- Ah, tudo bem. É normal, mesmo. E aí depois é só pegar o trem?
- Isso. Só virar aqui, logo depois do guichê.
- Tá, brigadão, viu?
- Ah, magina, senhor. Bom dia, bom passeio!
- Bom dia! (e dei-lhe um pequenino abraço. Foi um misto de felicidade e tristeza. Porque eu sentia que a gente nunca mais se encontraria. E mais mórbido ainda, que ele logo mais... enfim)
Logo que passei das catracas, achei que deveria ter voltado. Agora é impossível a gente se encontrar de novo, eu sei, só que seria fantástico!

É, eu me senti como se fôssemos avô e neto. E aí ele não teria como falar que não tem com quem sair, porque, todo domingo, nós pegaríamos o metrô no Jabaquara (com mais algumas dezenas de palmeirenses que usam o mesmo transporte coletivo) e iríamos ao jogo. Ficaríamos nas cadeiras, no melhor lugar do estádio. Comendo pipoca, amendoim... como ele fazia comigo quando eu era pequenino e ia todo uniformizado pro estádio...
Como ninguém fez comigo quando eu tinha 6 anos de idade.
Iríamos a uma série de lugares. A todos aonde o metrô nos levasse, já que a estação Jabaquara é só o começo de uma rota interminável pela cidade.

Seria uma vida. Uma vida que não foi. Uma vida inteira que podia ter sido e que não foi.

O trem chega, abre as portas. Eu entro, penso em voltar para a fila da bilheteria. Soa o sinal e as portas se fecham.

A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

Um comentário:

Mjolnir disse...

Como eu já disse anteriormente; você escreve muito bem, e passa seu sentimento com maestria!
Continue este excelente trabalho!





Longos dias, e belas noites...