quarta-feira, 2 de abril de 2008

Saudades de Marisa

Era rotina em 2007: todos os dias, após dormir muito pouco e acordar cedinho, eu comprava um café na lanchonete de qualidade questionável do prédio do trabalho, pegava o elevador, batia o cartão minutos antes das 8 horas e, antes de engolir seco a solução de água quente com cafeína, sempre parava no bebedouro para tomar um copo de água gelada.

O porquê da água gelada? Sempre disse para o Mané que era pra limpar meu organismo antes de eu poluí-lo ainda mais com o café do Monet. Mas a verdade nua e crua é que era mania minha mesmo. Eu simplesmente achava que precisava tomar um copo de água gelada antes do café quente.

Só que com o tempo passei a notar um papel afixado na parede logo em frente à fonte de água: o controle de limpeza do bebedouro. Nele, a responsável pela limpeza anotava a atividade realizada (limpeza externa, limpeza do filtro, troca de mangueira ou troca do filtro), o dia em que esteve por lá e deixava a sua assinatura.

E as anotações eram parecidas: a cada três dias, mais ou menos, a responsável pela limpeza anotava lá o código para a limpeza do filtro e a externa (3 e 4, respectivamente) e deixava lá o seu nome. E todos os dias eu via o mesmo nome assinado: Marisa.

Passei um ano inteiro vendo a assinatura da Marisa logo cedo. Romanticamente, daria até para dizer que era uma das primeiras coisas que eu via todos os dias. Não, lógico que não! Mas claro que comecei a reparar no relatório de controle da limpeza do bebedouro do 12º andar.

Com certo tempo, passei a notar que a linha tênue da assinatura da Marisa podia variar de uma limpeza para outra. Tinha dias em que ela estava com pressa e mal dava para distinguir as outras letras depois da primeira letra do nome. Tinha dias, talvez com mais tempo, em que ela fazia uma letra redondinha. Às vezes, bem-humorada, até fazia uma voltinha nas perninhas do M. Em um dia mais triste, contudo, ela mal se lembrava de colocar o pingo no i.

Resumindo: ainda que eu não fizesse noção alguma de como era o seu rosto, dava para saber um pouquinho da vida da Marisa apenas vendo a assinatura dela naquele papel afixado próximo ao bebedouro. Tinha dias em que eu até bebia dois copos de água porque via a data e sabia que o filtro estava limpinho: “Ah, hoje a Marisa passou por aqui!”.

Até que um dia desses, em que não comprei café no Monet – que há uma semana vem sendo boicotado por freqüentadores do famigerado prédio da Paulista, 900 – e cheguei no trabalho logo cedo com um copão do Starbucks na mão, notei algo diferente quando parei para beber água. A Marisa havia perdido o posto de limpadora do bebedouro. Agora, Madalena assinava a ficha.

Conheço a Madalena. Ela era a responsável pela preparação da solução de água quente com açúcar mascavo (chamavam aquela bebida bem docinha de café, mas tenho minhas dúvidas) que mantinha a Gazeta inteira acordada. Não foi um choque ver a Madalena na nova função, mas bateu aquela curiosidade: “E o que será que aconteceu com a Marisa?”

Hoje já estou me acostumando a ver o nome da Madalena na fichinha. Mas é complicado mudar algo que fez parte da sua rotina por 16 meses. Se eu, que apenas lia o nome da Marisa, já achava estranho... imagina para a própria Marisa, que certamente deve ter iniciado uma nova vida?

Vai saber.

2 comentários:

Fábio disse...

Pô, Pepe, que susto... Por um instante achei que você fosse falar da nossa gloriosa primeira-dama, hehehehe!

:)

Lui disse...

Hahahaha...e eu achei que era das lojas Marisa, sabe...de mulher pra mulher?