quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Tilena

Achava-se um cara de sorte sempre que se lembrava de como a havia conhecido. Foi em um fim de tarde, quando tomava café em algum bar próximo à faculdade e lia um livro. Ela, com um cigarro na mão, olhou para ele e pediu um acendedor. “Como?”. “Acendedor”, repetiu a garota, fazendo um gesto com a mão fechada e dobrando o polegar.

“Isqueiro, você diz?”, ele acabou perguntando. “Sí, izquiero”, corrigiu a garota, tirando alguns fios do cabelo liso e preto da frente dos olhos castanhos. “Olha, eu não fumo”, disse ele. “Mas tenho sim um isqueiro aqui na mochila. Ele... é rosa, meio gay, mas não repara”.

Ele sempre se perguntava por que diabos tinha um isqueiro na mochila. Gostava de dizer para si mesmo que homem que se preza era obrigado a ter um isqueiro à mão. Kit sobrevivência, brincava. Mas conseguiu algo melhor do que isso.

A garota se sentou à mesa e fumou o cigarro. Começaram a conversar, e ela contou que era chilena. Estava em São Paulo há poucas semanas, tinha vindo para fazer um curso com duração de muito tempo. Estava morando numa quitinete ali por perto. Tinha acesso à internet, começaram a trocar e-mails e combinaram de sair mais vezes. O cara de sorte e a tilena (ele adorava o jeito que ela falava ‘Chile’, com o ch com som de tch).

A sorte continuou do lado dele. Ela achou bonitinho o embaraço do cara, que não sabia se a chamava de guapa ou hermosa. “É tudo la misma cosa, chico”. Começaram a sair. E quem diria que ele, que nunca tinha gostado muito de latinas, iria se apaixonar perdidamente por uma tilena. Mas não era difícil: quão graciosa e linda era aquela mulher, um ano mais velha que ele. Que o chamava de chico (leia: tico).

O tal do tico não sabia como lidar muito com ela. Achava que as palavras que dizia não faziam tanto efeito – ela não estava familiarizada, falava castelhano. Também não sabia se tudo aquilo que ela lhe falava tinha o mesmo significado intenso em português.

Mas... e precisava? Ele sabia exatamente tudo que a tilena queria dizer justamente quando ela não falava nada. Quando sorria e mostrava todos os dentes brancos, lindos e alinhados. Quando forçava o corpo dela junto ao dele. Quando apertava forte a mão em seu quadril. Quando suspirava mais forte em seu ouvido.

É claro que o tal do tico sortudo passou a viver em função da tilena. Passou a ir para a faculdade apenas em dias de prova. Dormia quase todos os dias no quarto-cozinha-banheiro dela e até se distanciou um pouco dos amigos. Ele estava feliz, estava vivendo o melhor momento de sua vida. E sabia disso todas as vezes que via sua garota dormindo com os cabelos despenteados jazendo sobre o colo nu.

Um bom tempo se passou. E houve um dia em que a tilena não disse muita coisa. Mas deu o mais belo sorriso, forçou o corpo dele junto ao dela com mais intensidade, apertou ainda mais a mão no quadril dele. Suspirou como nunca.

Só depois, já fumando um cigarro, ela falou: “Tico, na próxima semana eu volto para o Tile. Vou para casa, para siempre. Pero... me voy com su acend, digo, izquiero gay, sí?”.

3 comentários:

Boninha disse...

Que triste... xico. hahaha

paula r. disse...

amor é sempre tão gostosinho.

Fábio disse...

É, amigo...