segunda-feira, 22 de setembro de 2008

45, segundo tempo

Olhou pela janela para viver aquela vista pela última vez. Aquela janela que, nos melhores dias, deixava trespassar uma luz clara, brilhante e pura do sol nas mais belas manhãs que ele já vira. Daquele sol que o esquentou quando ele deitou na cama em um domingo para se esquentar, mas nem precisou – o abraço que aconteceu naquele momento valeu muito mais do que qualquer calor.

Viu aquelas casinhas ali embaixo, tão pequenininhas. Ele sabia que nunca mais as veria. Aproximou-se do parapeito para inspirar aquele ar pela última vez. Viu, do lado de fora, um copinho de plástico com alguns tocos de cigarro lá dentro. “Ela andou fumando, que pena”, pensou.

Não quis mais olhar pela janela, e sim esquecer aquela vista para sempre – mas sabia que não conseguiria. Virou-se após respirar fundo e viu a porta aberta. A porta branca, testemunha de tudo o que se passara naquele quarto. A porta, que já não era mais puramente branca, tinha sido enfeitada com desenhos psicodélicos que não faziam sentido algum.

Queria ficar ali por mais um minuto para desvendar o que era aquilo que parecia uma lua minguante. Queria ficar ali por mais algumas horas para desvendar todos os desenhos. Queria ficar ali para sempre, mas sabia que não podia. E o choro, entalado na garganta, quase explodiu – converteu-se apenas em uma fungada e em duas lágrimas.

Antes de passar pela porta, deu a última volta por aquele quarto. Tirou uma caneta do bolso, escreveu qualquer coisa em um papel em branco que estava por lá. “Para você nunca se esquecer de que fez alguém te amar”. Ele achou que isso a tocaria daqui alguns anos. Prendeu o bilhete em um porta-recados, colocou suas tralhas nas costas e saiu.

Ainda havia mais uma porta por onde passar. A última. O último passo, o último instante, o último segundo. “... o último beijo?”, ele arriscou. “Acho melhor não”, ela recusou, fria, com os olhos baixos. “Um abraço, pelo menos?”. “Desculpa, querido, não quero te abraçar”, ela sacramentou.

Ele baixou a cabeça, mas teve forças para erguê-la mais uma vez. “Queria te dizer até logo, sabe? Queria mesmo, mas... alguma coisa me diz que... é adeus”, ele fraquejou. “É só um até logo”, ela confortou. Ele lhe de um beijo na bochecha. “É estranho te dar um beijo no rosto depois de tudo o que a gente viveu”, ele admitiu. Ela não respondeu; e ele saiu pela porta, que se fechou logo em seguida.

“Adeus”, ele sussurrou.

5 comentários:

Boninha disse...

Que triste, Heldolino!

Acho que ele não sabe lidar com o "Adeus" pra valer... =/

Aline disse...

Now the deed is done
As you blink she is gone
(Let her get on with life)
(Let her have some fun)

Eu sei quem você é ( eu acho), de vista, lá daquele quinto andar abafado. ;)

Aline disse...

Putz, é mesmo! Era eu mesma. Não tinha certeza se era você porque não entendi qual seria sua ligação com sjc...fiquei olhando com uma cara de boba pensando "Ué, será que ele também é de sjc?"

Você vai sempre lá?:)

Aline disse...

ah, I got it ;)

Fábio disse...

Recentemente, eu também achei que havia dado um "adeus". Mas, para a minha sorte, foi mesmo só um "até logo" - seguido por um "olá, que saudade, como vai você?" deliciosamente definitivo.

Como me disse uma pessoa pra lá de especial dia desses, "há coisas que a gente não consegue mesmo explicar", né? Por isso, vai com calma, porque nunca dá para saber ao certo se haverá novos reencontros pelo caminho.

Ah, o texto ficou do caralho! Triste e bonito, ao mesmo tempo. E o título, "45, segundo tempo", também ficou bem legal!