sábado, 27 de setembro de 2008

E-mail não enviado, um tempo atrás

Hey,

Sabe? Queria te contar uma coisa. Ou várias. Ou... sei lá, talvez sejam várias coisas resumidas em uma, não sei. E antes que você ache que eu enlouqueci de vez, deixa eu começar a explicar.

Ouvi aquela sua música pela primeira vez... ah, eu lembro exatamente o dia em que ouvi aquela sua música pela primeira vez. Eu estava lá, um pouco desconfortável e espremido em uma cama que não era a minha. Acordei com você se levantando cuidadosamente ao meu lado, passando por cima de mim e indo tomar banho.

Enquanto o chuveiro fazia barulho, eu fiquei lá deitado apoiando minha nuca sobre o travesseiro e sobre as palmas das mãos e pensando como era um homem de sorte. Depois você entrou no quarto, ligeiramente iluminado pelo sol que também se comprimia pelos buraquinhos da veneziana, e estava enrolada em uma toalha verde. Achou que eu estava dormindo, tirou a toalha, colocou um vestido (e como eu gostava daquele vestido!), calçou os chinelos e foi para a sala.

Saí do quarto não muito tempo depois. Também tomei um banho e fui para a cozinha, onde tomamos café-com-leite e comemos pizza amanhecida. Você, então, colocou o mini system com um CD que começou com o vocal calmo do Paul e um violãozinho. “Essa música diz muito de mim, sabia?”, você me disse. E cantarolou toda a música enquanto me olhava tomar café-com-leite e comer aquela pizza horrível de pêssego.

Aquela música ficou na minha cabeça por um bom tempo. Alguns meses. Todos os dias ouvia aquela música várias vezes. Geralmente quando eu devorava vários cigarros lamentando cada acorde da música e esperava o tempo de entrar no trabalho. Chegou um dia que eu decidi odiar aquela música, e simplesmente parei de ouvir.

Um tempo passou, até que um dia eu estava no meu carro indo para o cinema com uma outra garota. Estava ouvindo Ohio, do Bowling for Soup (aquela que começa tipo She said she needed a break, a little time to think. But then she went to Cleveland, with some guy named Leelan that she met at the bank). Logo depois começou a tocar aquela música, que me pegou meio desprevenido (não lembrava que tinha gravado o som naquele CD).

A garota ao meu lado disse que a música era bonitinha, perguntou de quem era. “É do Paul”, eu falei. “Paul? Que Paul?”. “Paul... McCartney”, expliquei. Ela fez uma cara de quem já tinha ouvido falar aquele nome (claro, poxa!). Tentei clarear a mente dela “Sabe? John, Paul, George, Ringo...”, elucidei. “Hum... de que banda eles são?”, ela perguntou. “Beatles!?”, respondi meio sarcástico.

Ela, então, disse algo que realmente me incomodou. “Sabia que eu nunca ouvi Beatles?”. Olhei incrédulo, soltei uma exclamação. “Como assim você nunca ouviu Beatles?”, indaguei. “Ah, nunca... nunca ouvi nenhuma música deles, acredita?”. Aquilo me chocou, de verdade. Coincidentemente ou não, aquele foi o último dia em que fomos ao cinema.

Mais um tempo se passou e, um dia desses, acordei com uma enorme vontade de ouvir essa música. Tomei banho, fui para o trabalho feliz da vida ouvindo aquela música, vivendo um outro dia. E não me lembrei de você um instante sequer.

Não lembrava mais que aquela era a sua música. Acho que a transformei na minha música.

3 comentários:

e disse...

minhas músicas que viraram músicas de dois já estão voltando pra mim. o engraçado é que nunca teve beatles no meio... deve ser um sinal.

paula r. disse...

ah, comentário acima é meu com o outro gmail.

Dayane Abreu disse...

é meio vazio saber que teus escritos não são direcionados a ninguém em especial.