quarta-feira, 18 de julho de 2007

Sorria, você está sendo filmado

Não é fácil voltar para casa depois de 15 dias de ausência. Por mais que você conheça tintim por tintim do seu lar dos últimos 19 anos melhor do que a você mesmo, é normal estranhar alguma coisa nos primeiros instantes do retorno.

Foi assim comigo esses dias. Voltei para a minha casa normal (longas histórias de separação de pais) no domingo. Cansado, porém, a única coisa que me limitei a fazer foi cair na minha cama e dormir profundamente até o despertador acabar com a brincadeira. No dia seguinte a história foi diferente.

Deu 18 horas e alguma coisa ficou diferente no meu quarto, mas eu não sabia o que era. Os (velhos) pôsteres do Palmeiras e da seleção brasileira de 2002 estavam todos no lugar. Os CDs de uma adolescência musical, em ordem. Os livros, contados na estante. Mas alguma coisa estava diferente.

Aprisionado por toda essa incerteza de estranhamento, decidi ir tomar banho para pensar melhor na situação. Assim que entrei no banheiro, no entanto, uma surpresa: o vidro do boxe é novo? Não, não pode ser. Eu tomei banho hoje de manhã e não percebi que era novo. Não, eu não tava tão cansado assim.... será?

Não. Liguei a luz e o vidro do boxe continuava verde, como sempre fora nos últimos 17 anos (minha mãe falou que ele foi trocado uma vez, quando eu tinha dois anos). Desliguei a luz para ver se entendia o que tava acontecendo e percebi: tinha alguma coisa com muita luz voltara para o banheiro.

O problema é que não era só para o banheiro. Tinha um refletor virado para a janela do meu quarto! Mas por que diabos fizeram isso? Há 19 anos eu moro aqui e por que fizeram essa merda? E como eu iria dormir? A luz passava pela janela, pela cortina, pela veneziana... e deixava o meu quarto claro.

Na hora de dormir, tentei mudar as folhas das venezianas. A sem buraquinhos ia ficar no lado contrário do que o normal. Melhorou um pouco, mas ainda assim não tava legal. Sei lá. Sou metódico. Tão metódico ao ponto de almoçar sozinho no mesmo restaurante de segunda a quinta-feira e em outro às sextas. E, se possível, na mesma mesa. Pegando as mesmas coisas no self-service. Tão metódico a ponto de pegar o mesmo vagão do metrô em todas as estações, tão metódico a ponto de gostar de ter uma rotina.

Acabei dormindo, mesmo com o meu quarto mais iluminado do que a Torre Eiffel. Só que hoje de manhã decidi reclamar. Liguei na administração do meu condomínio e decidi reclamar. Mas sem me identificar, inicialmente.

“Oi, eu sou morador do condomínio e voltei de viagem hoje. Percebi que instalaram um refletor novo pra iluminar um corredor do condomínio, mas a luz ficou virada para o meu quarto. Foi como dormir com um holofote apontado para a minha cama durante a noite toda. Quer dizer... tinha um holofote apontando para a minha cama durante a noite toda!”

O auxiliar administrativo prontamente respondeu: “Pode ficar tranqüilo que a gente vai arrumar isso o mais rápido possível. Bom dia, Felipe”.

Agora, escrevo com a luz do quarto apagada. Não preciso acender nada aqui, a nova instalação do condomínio supre qualquer necessidade de luz que eu possa ter.

Mas o pior é o seguinte: tem um holofote de luz apontado para o meu quarto. E o auxiliar de administração sabe exatamente quem estava falando, apesar de o condomínio ter pouco menos do que (e não é exagero) 500 apartamentos.

Perseguição!

3 comentários:

Mané, way cooler that that, disse...

Eles SEMPRE sabem que somos nós!

Mas quem não gosta de ter uma rotina? Eu tenho a minha de escapar de Jucas e afins para ir para casa - e também descobrir mudanças que me deixaram desconfortáveis, depois de morar no mesmo lugar entre 1989 e 2004!

Diana disse...

nossa.. eu nao ia conseguir dormir.. e se conseguisse, ia sonhar com uma nave alienígena bem iluminada a noite inteira... e ah! voltei! =:)

Mind Freak disse...

Nossa, eu tenho medo da rotina, ela é uma prisao com barras invisiveis para mim, eu trabalho e estudo vivo numa rotina, mas eu tenho que fazer algo para sair dela, me sinto morto quando eu estou preso na mesmice.
Falando do quarto-holofote, nao me sentiria muito incomodado, me adaptar a essas coisas nao é dificil, alias tirar proveitos delas tb nao