quinta-feira, 5 de julho de 2007

As férias de inverno de 2004

Andando hoje pela Vila Mariana, vi, do outro lado da rua, dois moleques com mais ou menos 16 anos sentados, escondidinhos, em uma praça. Eles tiravam da mochila, com todo o cuidado do mundo, uma garrafa de 51 e despejavam o conteúdo dentro de uma garrafa de 2L de Coca Cola.

Na primeira olhada, achei engraçado ver os dois moleques sem jeito para colocar a pinga no refrigerante. Alguns instantes depois, lembrei que, três anos atrás, era eu quem fazia o mesmo. Não naquela praça, mas no mesmo bairro. E do mesmo jeito.

Julho de 2004 foi legal. Foi o mês de férias mais intenso que eu já tive até hoje. Lembro que eram raros os dias que eu passava sóbrio ou em casa. E mais raros ainda os dias que eu passava sóbrio e em casa.

Quase todo dia, o ritual era o mesmo. Uma garrafa de 51 comprada a um valor muito alto (tipo uns R$ 7) em algum boteco (os caras de botecos faturam pra caramba vendendo pinga pra molecada), algum refrigerante (barato demais, se possível). Tudo era colocado dentro de uma mochila (geralmente a minha) e procurávamos um lugar mais vazio.

Misturávamos tudo em uma rua escondida perto do Shopping Santa Cruz e bebíamos escondidos. Afinal, a molecada não passava dos 16 anos e era perigoso algum pai aparecer do nada. Que ridículo, quem apareceria em uma rua escondida nas profundezas da Vila Mariana? E por que tinha que ser justamente o pai de algum de nós, sendo que nenhum de nós morava por lá? Que besteira! Mas era legal. Pra caralho.

As pessoas com quem fazia isso eram diferentes a cada dia. Apenas um moleque era o mesmo todos os dias. Era o meu melhor amigo da época, cujo nome não interessa agora. Passávamos os dias bêbados, falando sobre nada, falando sobre garotas. Ou com garotas.

Naquela época, tínhamos uma facilidade tremenda para chamar garotas para ir ao shopping beber. Mesmo as que não bebiam. Elas iam, a gente passava horas de porre e depois íamos embora. Nunca passava de uma tarde no shopping bebendo pinga com refrigerante. Mas se quer saber, era divertido pra caralho. Todos os dias.

O moleque ainda tem uma facilidade tremenda para chamar garotas para ir ao shopping ou para onde quiser. Mas não acho que ele faz mais isso. Nossa amizade começou a ficar abalada depois do último show do Fonzie em São Paulo, que rolou em primeiro de outubro daquele ano.

Não tem um motivo óbvio, mas senti que dali pra frente tudo ficou mais desgastado. Continuamos amigos intensos até, sei lá, janeiro de 2005. Depois eu comecei o terceiro colegial, ele se cansou de tomar porre de pinga com refrigerante e a gente foi, pouco a pouco, perdendo contato.

Recentemente, ouvi boatos de que ele se mudou para Minas Gerais e está namorando uma das garotas que bebia com a gente nas férias. Na verdade, era eu em quem chamava essa garota para ir, porque sempre achava que poderia rolar alguma coisa com ela. Não deu, e isso eu percebi duas semanas depois de as férias terminarem. Mas... acontece. Agora ela também está em Minas, acho que se mudou há uns dez meses.

Mas faz quase dois anos que nenhum de nós tem contato com o outro. Eu, o amigo, a garota... e quase ninguém daquela época. Acontece.

Mas, depois de 2004, acho que por um bom tempo vou lembrar de julho não como o mês mais frio do ano ou como sei lá o que, mas como aquele, algum ano no passado, eu tive as férias mais intensas que um adolescente de 16 anos pode ter.

Foram fantásticas aquelas férias e, é claro, é impossível repeti-las. Até porque agora eu tenho 19 anos e não consigo beber muita pinga como antes, infelizmente (algo como meia garrafa e continuar em pé, sabendo o caminho de casa). Pra falar a verdade, o meu eu de três anos atrás me chamaria hoje de mocinha que não agüenta beber pinga.

Ou não. Talvez ele nem fosse me reconhecer. Afinal, hoje não tenho mais os cabelos ligeiramente compridos como naquela época. Tenho barba, em contrapartida. Não tenho mais aparelho fixo, nem sisos e nem freio da língua. Não uso mais um tênis barato comprado na Galeria do Rock e nem um blusão de moletom do MxPx, oriundo do mesmo lugar. Isso sem falar que agora eu tenho cabelos brancos (achei três fios só na última semana. Se continuar nessa média, o que vai acontecer no final do ano?).

E o principal: talvez o garoto de 16 anos não entenderia como alguém em sã consciência trabalharia em julho, o mês mais legal para tirar férias (depois de dezembro, evidentemente).

Puxa!

Um comentário:

Márcia Oliver disse...

Pow mt loko suas férias de 16
em julho...
axo mt legal pessoas que vivem a vida loukamente, pelo menos agora vc ja tem um hitoria pra contar...
bjos..