terça-feira, 11 de março de 2008

Estrelato de 50 minutos do eucalipto jacareiense

Toda árvore tem uma história e, também, faz parte da história de incontáveis seres. Ela já serviu de abrigo para vários tipos de animaizinhos, de alimento para muitos outros... pode ter sido o local do primeiro beijo de muitos casais de namorados, etc. etc. etc.

Toda árvore guarda consigo um espírito vencedor por ter sobrevivido a períodos de seca, a pragas, ao desenvolvimento urbano do homem, à poluição... e a derrubada de uma árvore representa uma vitória covarde e cruel do ser humano.

Mas é claro que eu não pensei nisso recentemente. Sentado na primeira poltrona de um ônibus de viagem, vi crescendo à minha frente um congestionamento enorme na Via Dutra em pleno fim de tarde de sábado.

Uma placa sinalizava meu paradeiro:
Jacareí – 2 km
San José, CA – 18 km
Rio de Janeiro – 339 km

Então o ônibus abriu a porta e todos os passageiros desceram para esticar a perna. Todos sacaram seus celulares e ligaram para algum conhecido: “Olha, vou me atrasar. A estrada tá parada, parece que eu vi um carro virado e vai demorar umas duas horas pra liberar”. Fiz o mesmo, mas sem inventar tanta história.

No mesmo instante, um cara desceu de um trator e passou ao meu lado. Meu espírito quase jornalístico me fez abordá-lo e perguntar o que de fato tava rolando. “Ah, não é nada de mais, não. Acontece que vão derrubar um eucalipto velho ali na frente e aí interditaram a estrada pra não cair galho em cima dos carros. Daqui uns 40 minutos liberam o tráfego de novo”. Mais uma pergunta: onde eu estou? “Ah, aqui já é Jacareí”.

Sem muita alternativa, voltei ao ônibus, peguei a Odisséia herdada do Mané, sentei na grama e continuei lendo as aventuras e desventuras de Ulisses, que na verdade se chama Odisseu, em vários lugares inventados por gregos chapados. E fiquei nisso durante uns 30 minutos.

Não foi raro ouvir reclamações ao meu lado de pessoas execrando a prefeitura jacareiense por interditar o trânsito no sábado à tarde para cortar uma árvore. Claro, também dei uns pitacos sobre a inteligência de parar uma estrada à tarde, e não de madrugada, quando o tráfego é menor (agora, já em São Paulo novamente, imagino que possa ser um pouco perigoso. Enfim).

Então o tráfego foi liberado 50 minutos depois de o ônibus de viagem saído de São Paulo ligar os motores, acelerar e seguir caminho a San José, Califórnia. Ao passar pelo famigerado eucalipto, ele estava lá, em pé, não havia sido derrubado.

O eucalipto jacareiense era apenas uma árvore que deixou de passar desapercebida, ao contrário das outras muitas mil com que me deparei ao longo da viagem. Era uma árvore que sobreviveu à brutalidade humana e, de quebra, ainda entrou para a história da minha oitava viagem.

3 comentários:

Mané disse...

Eu pararia de contar as viagens. Se o eucalipto ajudar, você deve passar muitas vezes por ele ainda...

Lucy in the Sky disse...

Eu apoio o comentário acima!

Eleanor Rigby disse...

E como você não presta atenção nas coisas pequenas, menino. Seja mais atento.