quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Perfeição sonolenta

O momento de mais segurança da minha infância era a noite. Apesar das ameaças de bicho papão, bruxa Reizel, homem do saco e chupa-cabra, me sentia protegido dormindo na mesma cama que a minha mãe.

Ela, desde quando eu era pequeno, foi a minha protetora. E se eu acordasse no meio da noite com medo de qualquer coisa, bastaria abraçá-la forte que qualquer preocupação se esvairia. Era mágico.

Mas os anos passaram, eu cresci, passei a dormir na minha cama, meus pais se separaram e eu fiquei morando com meu pai... demorou até que eu voltasse a dividir a mesma cama com alguma mulher. Levou muitos anos, até que...

Faz um certo tempo. Deve ter sido em alguma noite perdida em um passado não muito distante. Depois de beber um bocado (naquela época, um copo de vinho já era demais para nós), pegamos no sono rapidamente vendo o filme preferido dela em seu quarto.

Não sei exatamente quando fechei os olhos e comecei a sonhar. Lembro-me apenas de acordar no meio da noite, ainda de madrugada, com um leve chute no tornozelo. Ao me virar para o lado, tive uma das visões mais bonitas que já vi até hoje: era uma garota linda, muito mais do que eu já achava. Com os olhos cerrados e os lábios entreabertos, me passava uma serenidade imensa, ao passo que a respiração ligeiramente ofegante me deixava preocupado: estava tendo um pesadelo?

Tentei virar para o outro lado e voltar a dormir. Não consegui. Fui tentado a voltar meus olhos para ela, que jazia a poucos centímetros de mim. Naquele momento, já estava virada para o outro lado, ainda mais encolhida: devia ser por causa de um pesadelo.

Com ela de costas para mim, comecei a notar a beleza de suas curvas. Engraçado. Só naquela hora consegui pensar na profunda beleza daquela garota... e também na perfeição da obra divina.
De tanto olhar, comecei a notar também alguns defeitos. Pequenas falhas bestas, mas que me surpreenderam a princípio: como um ser tão perfeito poderia ter aqueles defeitos? Mas bastaram alguns minutos mais de observação para que aqueles ‘pequenos erros de fabricação’ se tornassem os mais belos que eu já tinha visto até então.

Não consegui mais dormir e fiquei contemplando-a durante o resto da madrugada. Ao mesmo tempo em que tinha um desejo incomensurável de abraçá-la e jamais largá-la, fazia questão de respirar o menos possível e evitar movimentos desnecessários para não a acordar. Ainda levantei da cama, sorrateiramente, para ligar a televisão para ver a transmissão da Fórmula 1. Assisti a toda a corrida sem volume, claro.

Mas naquele momento acabei me lembrando das últimas noites em que tive uma mulher ao meu lado: quando dormia na cama da minha mãe. Antes, eu era o ser inofensivo que precisava de proteção. Naquele momento, com a garota, me sentia na obrigação de protegê-la e cuidar-lhe.

Depois do automobilismo, fui para a cozinha e preparei o leite com a pequena mancha de café de que ela gostava. Com a bebida ainda quente, levei para a cama e acordei-a.

Acordá-la talvez tenha sido uma das coisas mais cruéis já feitas por mim até hoje. Ela abria os olhos ainda atordoada com a claridade, enquanto eu via pela última vez aquela perfeição meio sonolenta. Algo que eu jamais encontrei novamente.

2 comentários:

Mané disse...

Putz, eu achando que isso ia virar um conto erótico, e de repente, você acorda e vai assistir Fórmula 1!

Francamente!

OBS: Quem ganhou?

margareth disse...

Como sempre...adorei seu texto.Foi bom saber ...Te adoro