domingo, 4 de novembro de 2007

Florisbela

A verdade dói. Machuca. Magoa. Aflige, agonia, angustia. Arde, queima, inflama, infecciona. A verdade, caríssimo(a) leitor(a), faz sofrer.

Desde pequeno as pessoas são obrigadas a esconder a maioria das verdades. Em nome de uma vida em sociedade harmoniosa, aprendemos algumas... ahn, digamos, mentiras sociais. Ou vai falar que aquela carne com gosto de borracha que a mãe da sua namorada fez no domingo passado estava mesmo uma delícia como você disse? Ah, bom.

Não é apenas da mãe das nossas namoradas que ocultamos a verdade. Das nossas também. Não? Hum... quer dizer então que aquele dia em que cruzou a porta de casa de lado, quase realizando a dança do siri às 4 da madrugada, você não estava bêbado, como a sua mãe, preocupada, perguntou. Você estava apenas com sono, como você explicou? Ahn, bom saber.

As mentiras sociais ganharam ultimamente uma dimensão tão grande que não é apenas para os seus pais, sogros, chefes, melhores amigos e ilustres desconhecidos que você as conta. Tem horas em que você faz uso das ‘guardiãs de uma vida social’ até para você mesmo.

Duvida? Então quer dizer que aquela garota que você chama para ir ao cinema há seis meses e que sempre se esquiva com uma desculpa esdrúxula (como a morte de avós) está apenas se fazendo de difícil, mas está caidinha por você? Ah, por favor! E, além do mais, as pessoas podem ter no máximo duas avós... e não as cinco que já empacotaram, coincidentemente, na noite de sábado.

A verdade absoluta se tornou algo tão obsoleto que alguém que faz uso de tal advento é considerado antiquado, ultrapassado... e muitas vezes careta. Pessoas que são sinceras ao extremo geralmente são mal interpretadas e, curiosamente, perdem a confiança das pessoas com quem se mantém a veracidade. É estranho.

Só que ninguém percebe que uma verdade bem encaixada, em determinados momentos, satisfaz o indivíduo de tal forma que é praticamente impossível de descrever.

Quer um exemplo? Vamos lá.

Não muito tempo atrás, fui a uma festa de 15 anos. Desde os primeiros instantes em que sentei na mesa reservada, fixei meu olhar em uma garota na mesa da frente. Não deveria ser mais velha do que eu; talvez tivesse até a minha idade. Estava desacompanhada e cuidando de umas menininhas pequenas, que não ultrapassavam os oito anos de idade. Não sei se foi o vinho, mas às vezes olhava para a tal garota, e sentia que ela também me olhava. Bacana.

Festas de 15 anos são divertidamente previsíveis. Depois da cerimônia de praxe, sempre muito emocionante e divertida, todos os convidados, independentemente da idade, vão para a pista dançar YMCA, Elvis, Twist and Shout... é a tradição. Até mesmo uma garota de belos traços que cuidava, talvez, das irmãs mais novas.

Durante as músicas, pensei em dezenas de mentiras sociais para me aproximar da garota. Desde perguntar se ela era parente da debutante até fingir ser um estilista de renome com trejeitos não muito heterossexuais, elogiar o vestido dela, dar risada da abordagem bizarra e emendar uma séria de mentiras sociais. Achei melhor não.

Estava quase me arrependendo por não ter arriscado nenhuma mentira social quando peguei o paletó, coloquei no ombro e me preparei para ir embora. Impulsivamente, porém, voltei à pista, respirei fundo e me dirigi à garota. Dei um leve toque no braço dela, que se virou para mim meio sem entender o que acontecia. Ou então prevendo o que iria acontecer.

“Hum... eh... oi”, gaguejei.

“Oi!”, respondeu, de forma surpreendentemente simpática.

“Então... não me leva a mal, mas... eu já estou indo embora e... bom, eu só queria te dizer uma coisa: você é muito bonita. Muito mesmo, de verdade. Parabéns!”

Deu para ver que ela não entendeu o que estava se passando, tanto que me olhou até com um ar de espanto. “Ah, brigada. Brigada mesmo!” E deu um sorriso tão sincero que me deixou orgulhoso da minha sinceridade.

Mas a minha satisfação, de certa forma, se misturou a um pequeno arrependimento. Eu deveria ter pelo menos perguntado o nome dela.

Um comentário:

margareth disse...

Oi...E aí? Vc chegou no aconchego do seu lar dançando como um sirí? Pior do que não ter perguntado o nome da garota foi não ter deixado o n° do seu celular com ela ou vice-versa.