domingo, 5 de agosto de 2007

Reunião em família

Era o aniversário de 21 anos da Andressa, a neta mais velha da Dona Teresinha. A garota, hoje adulta, decidiu fazer as comemorações em um bar em Moema, bairro cujas ruas são todas iguais. Os ambientes de lá não fogem ao jargão também.

O dia era especial – nada melhor do que comemorar o aniversário em um sábado. Deu para reunir a família inteira (primas, primos, tios, tias e até a avó de 78 anos) em volta de várias mesas do Elephante’s. A reunião era bem perto do palco improvisado do bar, onde dois caras tocavam Oasis com um violão e um pandeiro meia-lua.

Reuniões em família são sempre iguais. Por mais que todos os filhos já tenham filhos e os netos tenham mais do que 15 anos de idade, parece haver alguma coisa que faz com que todos os encontros tenham a mesma cara. E no aniversário da Andressa não foi diferente.

A irmã mais nova da Andressa, que não muito tempo atrás havia completado 17 anos, fez questão de sentar ao lado de um primo, que acabara de tirar habilitação. A conseqüência disso era que os pêlos que o garoto havia conseguido – com muito esforço – cultivar no queixo eram motivos de inúmeras carícias por parte da garota. Os pais do provável futuro casal de primos, no entanto, achavam tudo isso engraçado – cada vez mais, à medida que o chope era sorvido das tulipas.

O tio caçula, o único dos cinco irmãos que ainda não havia se casado, pedia alguns drinques de Martini e fumava Marlboro Light. Mas estava tentando parar, porque acoplava aqueles filtros de plástico aos que já vêm com os cigarros. Mesmo assim, sempre acendia um após ficar vermelho por não saber responder às perguntas da mesa: “Tá na hora de arranjar uma esposa, não acha?”.

Quase todas as primas da Andressa já tinham mais de 18 anos e já estavam namorando. Elas fizeram questão de levar os namorados à confraternização. Cada casal trocava beijos tímidos entre inúmeras juras de amor. Todos da mesa achavam tudo isso muito lindo, menos a tia Isabel, que já estava divorciada há alguns anos e dizia que essa coisa de amor era tudo bobagem.
Alheia a tudo isso e talvez um pouco deslocada do restante da família estava a Dona Teresinha, que embora gostasse de ficar em casa à noite tomando chocolate quente, fez questão de ir à festinha de sua primeira neta. Poucos prestavam atenção na velhinha, que, por trás dos óculos de lentes grandes, olhava interessada para tudo o que acontecia em volta.

Mas ninguém falava com a Dona Teresinha. Percebendo isso, a mãe da Andressa decidiu pedir uma porção de calabresa para a velhinha, que começou a comer como as avós devem ter aprendido a fazer: retiram o miolo das fatias de pão e comem. Depois, colocam, com um garfo e com toda a destreza que apenas uma avó sabe, os pedaços de lingüiça dentro do pão e mordem. A Camilinha, mais novas das netas, fez questão de puxar uma cadeira para se sentar ao lado da avó. E as duas ficaram muito tempo conversando.

A festa tinha tudo para ir até muito tarde. Mas reuniões em família acabam sempre da mesma maneira: a tia Isabel acabou bebendo demais e não conseguiu ir ao banheiro sozinha. Teve que ir amparada pela Camilinha, que, apesar dos 16 anos, conseguiu sustentar a tia. E então todo mundo decidiu que era hora de cantar parabéns e se despedir.

Aos poucos, o grande encontro foi chegando ao fim. E, à medida que iam embora, todos davam longos e efusivos abraços à Dona Teresinha – de longe, a mais querida de toda a família.

Bares de São Paulo são legais. E se, durante alguns minutos, a conversa na sua mesa não estiver 100%, dá pra observar, entre um chope e outro, o que acontece na mesa ao lado. Sempre tem alguma coisa interessante, como o aniversário da Andressa.

Um comentário:

Mané, sem PC, disse...

Hahahaha!

Tenho certeza que eu não fui o único, e que mais alguém pensou que você estava "terceirizando" o encontro!

(OK, se foi o que aconteceu, desconsidere!)