terça-feira, 28 de agosto de 2007

Despaixão

Eram amigos há 21 anos, mas nos últimos dois pouco se viam, mesmo sendo vizinhos de portade uma casa geminada. Ambos tiveram suas rotinas alteradas e os horários quase nunca batiam. Com sorte, conseguiam sair juntos de vez em quando, em um sábado a cada cinco ou seis. Mas com sorte.

Em um domingo de manhã, 26 dias depois de terem tomado rapidamente um café pela última vez, acabaram se cruzando por acaso na rua. Um ia a pé comprar o jornal na banca a dois quarteirões de casa, enquanto o outro ia de carro ao mercado comprar comida para o cachorro.

O que dirigia parou no meio-fio, baixou o vidro do carro e chamou o amigo. O que andava na calçada abriu a porta e entrou no banco do passageiro, deixando de lado a idéia de comprar o jornal.

Então o motorista iniciou a conversa do mesmo jeito dos últimos dois anos:

Quanto tempo, cara! disse, engatando a primeira marcha.
Verdade, né? Andei meio sumido, sabe como é... essa rotina me mata.
A minha também. Mas... mas e o que acontece do outro lado da parede da sala?
O mesmo de sempre, quase não dá tempo de fazer nada novo. E você?
Não te falei, mas acho que me apaixonei.
De novo? Digo...
Dessa vez foi sério. Foi daquelas que fazem você andar pela rua dançando I saw her standing there, ou então chegar ao escritório dando risada às segundas de manhã.
Sério mesmo?
Claro. Já tinha até imaginado o que dar para ela no nosso primeiro ano de namoro.
O quê?
Uma viagem para a Europa. Ouvi ela dizer uma vez que nunca tinha ido à Europa. Pensei em Praga, mas já vi fotos animais de Turim também.
E você tem essa grana toda?
Não, mas já tinha começado a economizar.
Foi sério mesmo, então. Quem é?
Você não conhece. É uma pequena que entrou no trabalho no começo do ano.
Bacana. E aí?
Não deu certo. Percebi que a nossa relação era estritamente profissional.
Como assim?
Ah, deixa pra lá.
Mas você ainda tá apaixonado, ou seja lá o que for?
Não.
Qual o nome dela?
Ana Maria. Viu o jogo ontem?

Continuaram conversando, falando sobre casualidades. Até que o passageiro interrompeu o assunto bruscamente:

Ana Maria! disse quando o semáforo fechou Qual a primeira imagem que veio na sua cabeça?
A festa de 50 anos da nossa empresa, semana passada respondeu o motorista, baixando levemente o olhar . Todas as filiais da cidade estavam lá. Eu tinha saído para pegar um vinho para nós dois. Quando voltei, tinha um cara da sucursal do Centro falando com ela – e lançou um sorriso amarelo.
Beijo?
Que beijo... suspirou, voltando a colocar o carro em movimento Só que não foi só ele. Depois, me falaram que um outro cara da sucursal da Zona Sul também tinha conseguido.
E você?
Tomei os dois copos de vinho.
Mas... mais nada?
Ah, um cara da minha repartição falou que eu deveria tentar alguma coisa com uma amiga dela que estava lá. Mas... mas como eu poderia dançar com outra depois disso?
E como você tá agora?
Normal, se quer saber. A única diferença é que as coisas de que eu gostava nela agora me deixam profundamente irritado. Mas daqui um mês isso passa.
Tem falado com ela?
Não.
Quer falar sobre isso?
Muito. Mas espera acabar essa música.

Foi quando começou a tocar I saw her standing there pela terceira vez seguida.

Um comentário:

Diana disse...

Oi Fe! meu novíssimo parente held! ahuiaohauiaaaa... resolvi passar aqui no seu blog e tals, faz tempo q nao falo com vc.
vê se aparece!