terça-feira, 13 de novembro de 2007

Febre

Alguns meses atrás, preparei um post cujo final não me senti à vontade para escrever naquele momento. Deixei o arquivo encostado para algum período de vacas magras e acabei esquecendo o probrezinho nas profundezas do meu pendrive improvisado. Mas recentemente me lembrei daquelas palavras e senti que a hora de publicá-lo era esta. Só que acabei não o encontrando mais. Melhor.

Lembro que minhas primeiras palavras eram “Se o Pink e o Cérebro não conseguiram conquistar o mundo foi porque não tiveram a idéia de lançar um jornal gratuito”. Por quê? Bom... achei que tinha chegado a essa conclusão por causa da febre e da acirradíssima rivalidade entre o Destak e o Publimetro, que polarizavam a distribuição nos semáforos das principais avenidas de São Paulo.

Tudo isso começou quase ao mesmo tempo em que iniciei minha jornada matutina na Gazeta. Logo no metrô Jabaquara, via cerca de 90% dos passageiros munidos de um Destak. O tablóide de raízes lusitanas era rapidamente devorado e algumas de suas notícias invariavelmente eram comentadas ainda dentro do vagão do trem. Isso começou a me assustar um pouco.

Mas foi na Avenida Paulista que talvez por pouco não tenha rolado uma guerra. Vendo o sucesso do Destak, o Metrô decidiu aumentar a tiragem do Metronews, que há tempos era distribuído em quase todas as estações, mas que nunca chegou a cair no gosto do leitor. A destakmania, porém, fez com que o pequeno diário voltasse à ativa.

Em junho, no entanto, o capítulo mais notável foi escrito. De um dia para o outro, brotaram garotas vestidas de um verde marca-texto distribuindo um outro tablóide: o Publimetro, originado na Suécia, mas no Brasil vinculado ao grupo Saad – o mesmo da Bandeirantes.

Com uma diagramação diferente e uma impressão muito próxima da perfeição, o Publimetro praticamente matou o Metronews e passou a ganhar parte do público do Destak com uma tática infalível: quando os semáforos da Paulista ou de suas alamedas fechava, um batalhão de vaga-lumes distribuía um exemplar.

Batata: sucesso na certa. E não era para menos. E na própria redação ouvia vários elogios ao jornalzinho dos Saad, que aliás eram clientes de foto e texto da Gazeta Press.

Vendo isso o Destak não ficou para trás. Comprou uniformes de um tom vermelho-florescente, carrinhos iguais ao do Publimetro e também passou a fazer a distribuição nos semáforos. Tinha dias em que ia trabalhar de manhã e via uma disputa luminosa ao longo de toda a Paulista. Era até engraçado. Mas, no fundo, me perguntava uma coisa: será que a moda ia pegar mesmo, e os jornais gratuitos substituiriam os da banca?

Tive a resposta para essa pergunta em setembro, quando o editor-chefe do Destak (um jornalista cujo nome eu esqueci) realizou uma palestra na Cásper e, para o terror do coordenador do curso e para os universitários mais inocentes, quase me convenceu de que o Destak era a oitava maravilha do mundo. Por quê? A tiragem era enorme, o ganho com publicidade mais ainda, a circulação de um exemplar era muito maior do que as de Estado e Folha, por exemplo, e que uma boa fatia da sociedade paulistana estava migrando para os novos impressos... e o melhor: o formato tablóide, muito mais prático do que o standard.

De fato o formato tablóide é algo relevante. Leitor assíduo do Lance! na sétima série, tinha muito mais facilidade para me organizar no metrô. Prova mais concreta disso hoje em dia é testemunhada por centenas de pessoas diariamente, que devem até achar engraçado a luta atrapalhava que eu travo com o Estado todos os dias dentro de um metrô no horário do rush.

Só que... é tudo? Comecei a ver que as publicações gratuitas não eram tão boas assim na mesma palestra. Primeiro, perguntaram para o editor do Destak como era feita a apuração pela reportagem do jornal. A resposta, que eu já intuía, foi simples: as notas eram chupadas de outras mídias. Matérias in loco? “Não, eh.. .veja bem...”. Estava respondido.

E, ao mesmo tempo, todos os dados apresentados pelo experiente jornalista se tornaram irrelevantes para mim. Será que o Destak de fato tinha todo aquele número de leitores ou eles achavam que todos que pegavam o jornal no semáforo eram clientes assíduos da publicação? E também... é muito fácil dizer que você despacha 100 mil exemplares diariamente sendo que você não os vende.

A prova real foi tirada em uma segunda-feira de manhã, quando peguei um Publimetro pela manhã: as notícias não passavam de simples notinhas de, no máximo, dois parágrafos (geralmente o lide e uma aspa). Profundidade? Humm...

Ao mesmo tempo em que percebi que os jornais gratuitos não eram tão perfeitos assim, comecei a trabalhar à tarde e perdi os rituais da distribuição dos tablóides. Nas últimas semanas, com meu retorno ao expediente matutino, percebi que não havia mais disputa. O Destak acumulava nas mãos das distribuidoras de calçada. Na avenida, era raro ver alguém entregando nos carros. E o Publimetro? O Publimetro tinha desaparecido?

Achei que o tablóide Saad tinha desaparecido como muitos outros. Até hoje, quando, coincidentemente, recebi um exemplar. Fazendo uma rápida comparação entre os destaques do Estado e do Publimetro, bom... para se ter uma idéia, o gratuito tinha como uma das manchetes “Tropa de Elite é o filme nacional mais visto do ano”. Humm... tá. E a notícia, cadê? Dentro das páginas, outra coisa: o conteúdo, que já era pouco, perdeu ainda mais espaço para os anúncios publicitários.

Passei o dia tentando refletir sobre o caso e percebi o quão enganado estava ao imaginar que os jornais gratuitos eram o segredo para se conquistar o mundo. O fenômeno dos tablóides for free não passou de uma febre passageira que não durou nem um ano. Talvez por isso o Pink e o Cérebro sequer tenham pensado em tentar tal plano infalível.


Se você perdeu todo esse tempo, leu tudo isso e, assim como seu, sentiu que esse texto não tem conteúdo algum, confira a opinião do André. Menos crítica, mas muito mais embasada do que a minha.

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Sabatina

Algumas pessoas dizem que eu me entrego demais ao trabalho. Que valorizo muito mais o emprego do que a minha vida social. Que perco horas do meu escasso sono vendo algum jogo da NBA ou da Copa do Mundo de vôlei até altas horas da madrugada para colocar o relato no ar com mais informações do que apenas acompanhando os resultados em outro site. Que deixo de sair nas madrugadas de sábado para domingo nos finais de semana em que sou escalado, sendo que poderia muito bem emendar a madrugada ou ir de ressaca para a redação.

Não discordo de nenhuma dessas pessoas: às vezes até eu mesmo acho que me preocupo em demasia com coisas relativamente bestas. Mas poucas pessoas sabem o quanto de experiências fascinantes eu vivo durante o expediente.

Apenas para enumerar algumas coisas: andar de Mercedes com um bicampeão de Fórmula 1, ver o Corinthians perder para o Sport em pleno Pacaembu, conversar com uma capa da Playboy, pegar a estrada em uma quinta-feira de manhã... mas foi no último sábado que, talvez, tenha vivido uma das coisas mais inusitadas e prazerosas.

Cheguei ao número 900 da Paulista às 6h40 e iniciei minhas tarefas minutos mais tarde, depois de abrir a redação, ligar o quadro de luz e esperar meu computador – lerdo e barulhento, porém meu xodó – embalar de vez. Como ficaria sozinho na redação até 10 horas, aproveitei para descalçar os tênis e ficar apenas de meia. E puxei a cadeira do lado, estiquei as pernas... ah, a liberdade solitária!

Tinha que fazer o relato de Brasil x Coréia do Sul pela Copa do Mundo feminina de vôlei, e dediquei toda a minha atenção para Paula Pequeno, Sheilla e cia. limitada.

Não percebi quando a Globo encerrou a transmissão da partida e começou a passar um outro programa. Concentrado nos resultados da NBA, tive a atenção desviada apenas por uma voz praticamente indecifrável, mas inconfundível, e que me remeteu a um dos melhores momentos da minha infância.

Enquanto o Pato Donald fazia suas palhaçadas na televisão com os esquilinhos Tico e Teco, percebi que lá fora caía uma chuva até que bastante forte. Foi quando o cenário de redação praticamente desapareceu e eu me vi com cinco ou seis anos, às 9 horas de uma manhã fria logo após acordar, deitado no sofá da sala de casa vendo desenhos de Mickey, Pateta e Pato Donald.

No mesmo instante senti falta de algo fundamental para uma fria manhã sabatina com os clássicos desenhos animados do Walt Disney: uma bebida quente. Entre o leite com chocolate feito pela a minha mãe que beira a perfeição e o café grande com gosto de água suja do Monet, fiquei com a segunda (e única) opção.

Decidi, então, pegar o elevador, descer nove andares e comprar o café, que, apesar de horrível, poderia fazer aquele momento ser ainda melhor. Depois de pegar a tradicional fila causada sobretudo pela, digamos, incompetente atendente de caixa, peguei a bebida e voltei para o 12º andar.

Mas assim que cheguei novamente à redação, olhei pela janela e a chuva já tinha parado. Até um sol se arriscava timidamente entre as nuvens. Só que o pior de tudo foi ver que já não passava mais o Pato Donald na Globo, mas sim algum dos desenhos japoneses que a emissora insiste em passar diariamente. Confesso que foi uma decepção bem grande.

A lição que ficou disso tudo? Trabalhar sábado de manhã pode não ser a melhor coisa do mundo, mas proporciona coisas inesperadas. E o mais importante: forçar algo inesperado para se tornar próximo ao perfeito é um risco, que pode custar o fim do acontecimento.

domingo, 11 de novembro de 2007

Pesadelos

A natureza, meu amigo, é fria. Fria e calculista. A tal ponto de não parecer natural.

Faz algum tempo tive um sonho. Um pesadelo, talvez. Nele, eu era escalado para trabalhar aos domingos, do final da madrugada ao início da manhã. E deveria sair de casa antes mesmo de o sol nascer.

Lembro que acordei no horário certo. Tomei banho, tomei alguns copos de café, comi um pão de fôrma passado na torradeira. Tomei mais um pouco de café e saí de casa.

Ao abrir o armário para pegar a roupa, apenas duas peças estavam disponíveis. Uma calça preta e uma camiseta, também preta. Entre elas e nada, elas. Melhor que nada.

Quando o carro saiu da garagem, uma gota d’água caiu do céu com um peso tão grande que não parecia ser de água, dado o barulho que fez quando se chocou com a lataria do carro. Talvez tenha até amassado o capô. Estranho. O céu estava escuro, era noite... mas não havia prenúncio de chuva.

Além disso, as ruas, sempre abarrotadas e engarrafadas, estavam livres. Não havia um outro carro sequer saindo de casa. Ninguém se atreveria. E as avenidas, assim, não pareciam avenidas. Pareciam longos tapetes de concreto estendidos em um dia sombrio.

A atenção à direção foi interrompida com um ruído. Um arrepio atravessou a espinha no mesmo ritmo cadenciado que o vibracall do celular no bolso. O alô tradicional, um pouco desconfiado, é respondido por uma voz trêmula.

Depois da saudação automatizada, a única coisa que se poderia responder àquele tipo de chamada é ‘fica calma, tô indo praí agora’. E, no exato momento em que a ligação é encerrada, uma tromba d’água caiu na rua. Uma chuva nunca dantes vista. Uma chuva que já era anunciada.

O volume da água era grande. Além de repentina, não parecia ser natural.

Aliás, não era natural. Passado o choque da ligação, os pingos rarearam, afinaram e pararam. O sol apareceu, as pessoas saíram à rua e as calçadas não tinha indício algum de água.

sábado, 10 de novembro de 2007

Chuva torrencial

Um velho ditado escandinavo diz que pessoas de caminhos opostos, quando se cruzam e descruzam em seguida, tornam-se opostas ao que eram antes do encontro.

Mas aquele cara nunca gostou de provérbios. Nem dos chineses, que estão na moda, e muito menos dos escandinavos, que ninguém conhecia. E, certamente, ele não pensou em nenhum adágio (nem o da cigarra e das formiguinhas) quando fugiu da repartição 40 minutos antes do término de seu expediente naquela tarde quente de dezembro.

E também posso apostar o quanto quiserem que ele sequer cogitou a hipótese de imaginar em um aforismo quando, ao dobrar a esquina, o sol se esvaiu e uma nuvem pesada e negra tomou conta do céu.

Apesar da tempestade torrencial iminente, preferiu voltar para casa a retornar ao trabalho. Petulante, tentou até andar mais rápido do que a aproximação da chuva. Quase conseguiu, mas a alguns quarteirões de sua casa, foi surpreendido por uma tromba d’água, no mínimo, aterrorizante.

Instantes depois de amaldiçoar a si mesmo por não ter consigo um guarda-chuva qualquer, tomou uma atitude precipitada. Ao atravessar a rua, enfiou-se sob uma sombrinha alheia, que servia de abrigo para uma mulher que se preparava para atravessar a avenida.

Sabia que a sua nova parceira de guarda-chuva olharia feio ao notar a estranha e inesperada companhia. Agiu então com naturalidade e cinismo, como se fosse normal se enfiar sob um guarda-chuva alheio, decidiu não retribuir a repreensão visual. Mas não foi bem isso o que aconteceu.

“Além de não me falar tchau da última vez, não vai nem pedir licença?”, reclamou a conhecida voz feminina que partia de sua esquerda.

“Ah, tá brincando!? Nossa, quanto tempo!”, surpreendeu-se, com um sorriso brotando no rosto molhado.

“Tanto que eu nem lembro mais quanto. E aposto que você também não. Você nunca se lembrava e nem se importava com nada!”, censurou a mulher.

“Eh... desculpa, eu também não lembro. Pra falar a verdade, estava pensando nisso hoje de manhã e fiquei confuso. Não sei se faz cinco anos, dez meses e 28 dias ou se cinco anos, dez meses e 29 dias”, lamentou.

“Como assim, você se lembra? Aposto que está inventado! Você sempre inventava historias...”

“Não, não. É verdade. Não foi em fevereiro que a gente terminou...”

“Você terminou, lembra? Ou você se esqueceu desse detalhe?”, ironizou a garota.

“Desculpe. Não foi em janeiro que eu terminei com você? Então... mas agora eu não lembro se aquele domingo era dia 16 ou 17. E... bom, como hoje é dia 15 de dezembro... E também tem que eu sempre confundo as contas quando tem um ano bissexto no meio”

“Me estranha você se lembrar de uma data como essa. Você nunca se importou com nada. E, pra falar a verdade, aposto que ainda não se importa”.

“Não é bem assim. Você pode não acreditar, mas eu mudei um bocado nesses últimos cinco anos, dez meses e 28 ou 29 dias”

“Aposto que não. Por exemplo, tenho certeza de que você não sabe que dia foi o nosso primeiro beijo”.

“10 de março, né?”.

“Hmm... é. Mas e daí? E o dia do meu aniversário, você lembra?”, inquiriu a mulher.

Silêncio.

“Tá vendo? Sabia, você não mudou!”, exclamou vitoriosa.

Andaram mais alguns passos em silêncio sob o guarda-chuva até que ele parou. Ela, assustada, também. E ele começou a falar com o mesmo orgulho que teria se tivesse descoberto a teoria da relatividade.

“Sabe quando foi a última vez que a gente pegou chuva?”, perguntou.

Mais um silêncio.

“Foi quando eu te pedi em namoro. E isso foi em 23 de maio”.

“Grande coisa. Mas do número do meu apartamento você não deve se lembrar também!”

“Não. Mas lembro que a escada de emergência onde você me escondeu quando seu pai chegou mais cedo em casa em uma sexta à tarde tinha 18 degraus”.

Pela primeira vez na conversa ela riu. E ele aproveitou o momento para dar mais uma prova de que era um novo homem. E de uma forma, no mínimo, inesperada.

“Lembra essa casa vermelha, que na época era amarela?”

“Esse puteiro, você quer dizer?”, corrigiu a mulher.

“Eh... é, digamos que sim. Você sabe que ele é bem especial pra mim, né?”

“Aham, você me disse. Foi nele que você perdeu a virgindade, com 13 anos de idade”, respondeu, meio entediada.

“Não, era mentira. Eu perdi minha virgindade com você, e com 16 anos. Mas é que foi na frente dele que...”

Foi na frente dele que os dois ex-namorados mataram as saudades. Cinco anos, dez meses e 28 (ou 29?) dias depois.

terça-feira, 6 de novembro de 2007

O lado iluminado

A vida passa rápido de verdade. Muito mesmo, pra falar a verdade. Tanto que hoje já não sei se faz dias, semanas, meses ou até mesmo alguns anos que conheci uma amiga.

Era uma garota especial. Por mais que não conversássemos todos os dias, era bom estar perto dela. Ela me passava confiança, me fazia prestar mais atenção em algumas coisas antes corriqueiras... enfim. Era uma menina diferenciada.

Nossa amizade, porém, não durou muito. Por um motivo que não vem ao caso agora, ela teve que se mudar para muito, muito longe. Para um lugar que também não vem ao caso agora. Só que antes de ir me ensinou algumas coisas que eu, teimoso, relutava para ver.

Ela me fez perceber que algumas coisas na vida são ruins e poderiam muito bem enlouquecer qualquer um. Outras, por outro lado, apenas te fazem ter vontade de xingar. Mas ela me disse para que, quando eu estivesse roendo os ossos da vida, para não reclamar, mas assobiar. Segundo ela, isso ajudaria a fazer com que tudo se tornasse melhor.

Se isso não funcionasse e as coisas parecessem ter se estragado, eu é que teria me esquecido de algumas coisas, como rir, sorrir, dançar, cantar... Mas se ainda assim eu me sentisse um monte de lixo, tudo ficaria mais divertido se eu apenas assobiasse.

Com a garota aprendi que viver é algo meio absurdo, já que morrer é o fim da linha. Por outro lado, sempre que eu acordasse, deveria abrir a janela e cumprimentar o sol ou até mesmo quem estivesse passando pela rua. O que ela queria dizer é que eu deveria deixar as minhas preocupações de lado e sorrir para o mundo, pois poderia ser a minha última chance.

Caso um dia isso não fizesse sentido e eu inventasse de ter alguma tendência suicida, então eu deveria olhar também o lado bom da morte. Mas isso só quando eu estiver à beira de dar meu último suspiro. Minha amiga sabia que eu não teria coragem de tomar atitudes tão extremistas.

Minha amiga foi embora e, inevitavelmente, perdemos o contato. Não sei onde ela está e, sinceramente, não faço muita questão de procurar também. Só que, ainda assim, me lembro dela de vez em quando. Quando? Humm... quando eu acho que a vida é mesmo uma merda, reflito um pouco mais e percebo que tudo não passa de uma piada. Tudo isso não passa de um show.

E então continuo sorrindo. Nem que seja por uma besteira qualquer.


segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Flit

Alguém com um conhecimento intermediário de inglês deve saber que flit significa se mover rápida e instantaneamente de um lugar para o outro (voando, inclusive). Em países de língua bretã, pessoas desligadas e até mesmo ignorantes também são chamados de flit.

No entanto, o que a maioria das pessoas que sabem o significado de flit em inglês não tem conhecimento que a palavra, durante muitos anos, fez parte do vocabulário de grande parte da população nacional, como o principal inseticida do mercado.

Eu mesmo passei um bom tempo da minha infância convivendo com as quatro letras. Sempre que algum inseto indesejável adentrava a casa da minha avó, ela pedia para alguém pegar do Flit e dar um cabo na mosca, barata ou seja lá o que for.

Talvez minha avó soubesse a história do Flit, só que nunca pensei em perguntar. Mas andei indo atrás de algumas informações sobre o inseticida e consegui algumas informações nem um pouco relevantes.

Por exemplo. Ao longo da década de 1920, os principais hospitais do Rio de Janeiro utilizavam gases sulfurosos, obtidos por meio da queima da flor de piretro, para dedetizar os quartos de alguns pacientes. Mas como o enxofre não é a substância mais cheirosa da tabela periódica, era preciso isolar grande parte das alas para que o odor não atrapalhasse alguns pacientes.

Inevitavelmente o método utilizado se tornaria inviável. E se tornou praticamente obsoleto em 1928, quando chegou ao mercado a lata mais temida por todos os insetos: o Flit, da Esso.

Mas... peraí, lata? E como aplicava? Virava o veneno em cima do inseto? Dependendo de como for, talvez fosse mais fácil tentar esmagar o animal indesejado com o a lata, e não com o seu conteúdo...

Só que a indústria pensou nisso, e o Flit era aplicado com o auxílio de uma bomba: a famosa bomba de Flit, pai do spray e avô do aerosol. E era inconfundível: uma bomba como essa só poderia ser aplicada com o inseticida. Diferentemente das latas de spray que hoje estão no mercado.

Não sei até quando o Flit ficou no mercado, mas nunca mais ouvi falar em tal palavra desde que minha avó morreu. Para falar a verdade, nem sei se naquela época aquela bomba cor-de-laranja continha Flit ou já um dos famosos Baygon, SBP... e não sei nem se o Detefon ainda perdura nas prateleiras de supermercados.

Contudo, uma coisa que eu não esqueço é o cheiro do Flit: forte, ácido e atordoante. Deixava o ambiente inteiro e alguns cômodos vizinhos também. Hoje em dia há os inseticidas à base de água, que não poluem, não fazem mal para a família... isso sem falar naqueles que são ligados na tomada e garantem uma noite de sono tranqüila.

Resumindo: os novos inseticidas acabaram com a magia de exterminar insetos.

domingo, 4 de novembro de 2007

Florisbela

A verdade dói. Machuca. Magoa. Aflige, agonia, angustia. Arde, queima, inflama, infecciona. A verdade, caríssimo(a) leitor(a), faz sofrer.

Desde pequeno as pessoas são obrigadas a esconder a maioria das verdades. Em nome de uma vida em sociedade harmoniosa, aprendemos algumas... ahn, digamos, mentiras sociais. Ou vai falar que aquela carne com gosto de borracha que a mãe da sua namorada fez no domingo passado estava mesmo uma delícia como você disse? Ah, bom.

Não é apenas da mãe das nossas namoradas que ocultamos a verdade. Das nossas também. Não? Hum... quer dizer então que aquele dia em que cruzou a porta de casa de lado, quase realizando a dança do siri às 4 da madrugada, você não estava bêbado, como a sua mãe, preocupada, perguntou. Você estava apenas com sono, como você explicou? Ahn, bom saber.

As mentiras sociais ganharam ultimamente uma dimensão tão grande que não é apenas para os seus pais, sogros, chefes, melhores amigos e ilustres desconhecidos que você as conta. Tem horas em que você faz uso das ‘guardiãs de uma vida social’ até para você mesmo.

Duvida? Então quer dizer que aquela garota que você chama para ir ao cinema há seis meses e que sempre se esquiva com uma desculpa esdrúxula (como a morte de avós) está apenas se fazendo de difícil, mas está caidinha por você? Ah, por favor! E, além do mais, as pessoas podem ter no máximo duas avós... e não as cinco que já empacotaram, coincidentemente, na noite de sábado.

A verdade absoluta se tornou algo tão obsoleto que alguém que faz uso de tal advento é considerado antiquado, ultrapassado... e muitas vezes careta. Pessoas que são sinceras ao extremo geralmente são mal interpretadas e, curiosamente, perdem a confiança das pessoas com quem se mantém a veracidade. É estranho.

Só que ninguém percebe que uma verdade bem encaixada, em determinados momentos, satisfaz o indivíduo de tal forma que é praticamente impossível de descrever.

Quer um exemplo? Vamos lá.

Não muito tempo atrás, fui a uma festa de 15 anos. Desde os primeiros instantes em que sentei na mesa reservada, fixei meu olhar em uma garota na mesa da frente. Não deveria ser mais velha do que eu; talvez tivesse até a minha idade. Estava desacompanhada e cuidando de umas menininhas pequenas, que não ultrapassavam os oito anos de idade. Não sei se foi o vinho, mas às vezes olhava para a tal garota, e sentia que ela também me olhava. Bacana.

Festas de 15 anos são divertidamente previsíveis. Depois da cerimônia de praxe, sempre muito emocionante e divertida, todos os convidados, independentemente da idade, vão para a pista dançar YMCA, Elvis, Twist and Shout... é a tradição. Até mesmo uma garota de belos traços que cuidava, talvez, das irmãs mais novas.

Durante as músicas, pensei em dezenas de mentiras sociais para me aproximar da garota. Desde perguntar se ela era parente da debutante até fingir ser um estilista de renome com trejeitos não muito heterossexuais, elogiar o vestido dela, dar risada da abordagem bizarra e emendar uma séria de mentiras sociais. Achei melhor não.

Estava quase me arrependendo por não ter arriscado nenhuma mentira social quando peguei o paletó, coloquei no ombro e me preparei para ir embora. Impulsivamente, porém, voltei à pista, respirei fundo e me dirigi à garota. Dei um leve toque no braço dela, que se virou para mim meio sem entender o que acontecia. Ou então prevendo o que iria acontecer.

“Hum... eh... oi”, gaguejei.

“Oi!”, respondeu, de forma surpreendentemente simpática.

“Então... não me leva a mal, mas... eu já estou indo embora e... bom, eu só queria te dizer uma coisa: você é muito bonita. Muito mesmo, de verdade. Parabéns!”

Deu para ver que ela não entendeu o que estava se passando, tanto que me olhou até com um ar de espanto. “Ah, brigada. Brigada mesmo!” E deu um sorriso tão sincero que me deixou orgulhoso da minha sinceridade.

Mas a minha satisfação, de certa forma, se misturou a um pequeno arrependimento. Eu deveria ter pelo menos perguntado o nome dela.