Embora não seja a pessoa mais otimista do mundo, não nutria nenhum sinal de pessimismo em relação às perspectivas a respeito da quarta-feira, 12 de março. Muito pelo contrário, diga-se. Em um raro período de excitação vivido ultimamente, até cheguei a comentar com a Lucy que o dia seria perfeito.
Por que seria perfeito? Bom... ainda que o fanatismo pelo meu time de futebol não seja mais o mesmo de uns nove anos atrás, ontem teria jogo do Palmeiras no Palestra Itália e ambos iríamos. Isso tudo já valia por si só.
E a expectativa de ir ao Parque Antártica nem me deixou abalado logo pela manhã, quando eu descobri que não teria como enviar alguns documentos necessários para a minha tão sonhada viagem de férias e fui obrigado a rever alguns planos. Enfim.
As coisas melhoraram bastante quando eu saí do trabalho e fui informado de que não haveria aula na faculdade. Muito embora eu nem planejasse assistir às duas aulas do dia, o fato de que não receberia faltas para ir ao jogo inflou meu otimismo. Shrek, um dos estagiários que ralam absurdamente muito, e eu, então, fomos juntos ao Palestra até a metade do caminho, quando ele foi se encontrar com o pai e eu, com a Lucy.
“Nossa, são nove da noite e eu estou andando aqui, sozinho, nessa rua escura pra caramba. Algum tempo atrás eu teria medo, mas não hoje”, foi o que eu pensei enquanto me preparava para entrar na Turiassu. Mas parei de me preocupar quando revi na fila da bilheteria o Chitão, amigo dos tempos de colégio e grande companheiro de Palestra. Foram alguns minutos para trocar risadas, perguntas de praxe... momentos bacanas.
Então entramos no estádio sem problemas, nos encontramos com a família do Shrek e o jogo começou. Apesar de a Ponte Preta ter marcado 1 a 0, não desanimamos. Também não desanimamos quando a chuva caiu, apertou e nos castigou. Até porque o Palmeiras virou e ganhou por 2 a 1. Perfeito, mais divertido que uma goleada.
Na saída, a chuva, que já era forte, ficou ainda maior. Fiquei prestando atenção nas poças de água na Turiassu enquanto voltava com a Lucy, que em certo momento me puxou um pouco preocupada e aconselhou “vem pra cá”. Olhei para trás e vi um cara com a mão ligeiramente esticada.
Assim que paramos na Sumaré, virei a mochila para pegar o celular da Lucy e o bolso estava aberto pela metade. Não encontrei o meu ipod, a minha carteira e, pior, nem o celular dela. Fui roubado pela primeira vez em 20 anos. Assim que me dei conta, uma enxurrada passou com tudo pelos meus pés. “Tava tão bom hoje, Lucy, mas sempre tem algo pra estragar e não deixar as coisas perfeitas”, reclamei, quase que infantilmente.
A “sorte” foi não ter perdido também o meu celular. Consegui passar meu paradeiro ao Shrek e voltar de carona para casa. Além disso, ainda vi que ficaram comigo o bilhete único, a chave de casa, o cartão do banco, o VR e o crachá da Gazeta. Menos pior.
Então acordei hoje cedinho, terminei o relatório da faculdade sobre Ciência Política e fui ligar para o Bronzatto para avisar que a minha parte estava terminada. Meu celular, que se molhara um pouquinho, ficou temperamental. Disparou a tecla 4 e o botão verdinho só trabalha quando quer.
Além disso, perdi todas as anotações de aula feitas nas últimas seis semanas (eram duas páginas de monobloco), a apostila de Ciência Política está parecendo uma sopa de letrinhas e a Odisséia herdada do Mané ficou em estado ainda mais deplorável. Repetindo o próprio Mané, que por sua vez repetiu a Carol Canossa, não exite alomço grátis.
Ah, que maravilha! Mamãe vai adorar quando ler isso....
quinta-feira, 13 de março de 2008
terça-feira, 11 de março de 2008
Estrelato de 50 minutos do eucalipto jacareiense
Toda árvore tem uma história e, também, faz parte da história de incontáveis seres. Ela já serviu de abrigo para vários tipos de animaizinhos, de alimento para muitos outros... pode ter sido o local do primeiro beijo de muitos casais de namorados, etc. etc. etc.
Toda árvore guarda consigo um espírito vencedor por ter sobrevivido a períodos de seca, a pragas, ao desenvolvimento urbano do homem, à poluição... e a derrubada de uma árvore representa uma vitória covarde e cruel do ser humano.
Mas é claro que eu não pensei nisso recentemente. Sentado na primeira poltrona de um ônibus de viagem, vi crescendo à minha frente um congestionamento enorme na Via Dutra em pleno fim de tarde de sábado.
Uma placa sinalizava meu paradeiro:
Jacareí – 2 km
San José, CA – 18 km
Rio de Janeiro – 339 km
Então o ônibus abriu a porta e todos os passageiros desceram para esticar a perna. Todos sacaram seus celulares e ligaram para algum conhecido: “Olha, vou me atrasar. A estrada tá parada, parece que eu vi um carro virado e vai demorar umas duas horas pra liberar”. Fiz o mesmo, mas sem inventar tanta história.
No mesmo instante, um cara desceu de um trator e passou ao meu lado. Meu espírito quase jornalístico me fez abordá-lo e perguntar o que de fato tava rolando. “Ah, não é nada de mais, não. Acontece que vão derrubar um eucalipto velho ali na frente e aí interditaram a estrada pra não cair galho em cima dos carros. Daqui uns 40 minutos liberam o tráfego de novo”. Mais uma pergunta: onde eu estou? “Ah, aqui já é Jacareí”.
Sem muita alternativa, voltei ao ônibus, peguei a Odisséia herdada do Mané, sentei na grama e continuei lendo as aventuras e desventuras de Ulisses, que na verdade se chama Odisseu, em vários lugares inventados por gregos chapados. E fiquei nisso durante uns 30 minutos.
Não foi raro ouvir reclamações ao meu lado de pessoas execrando a prefeitura jacareiense por interditar o trânsito no sábado à tarde para cortar uma árvore. Claro, também dei uns pitacos sobre a inteligência de parar uma estrada à tarde, e não de madrugada, quando o tráfego é menor (agora, já em São Paulo novamente, imagino que possa ser um pouco perigoso. Enfim).
Então o tráfego foi liberado 50 minutos depois de o ônibus de viagem saído de São Paulo ligar os motores, acelerar e seguir caminho a San José, Califórnia. Ao passar pelo famigerado eucalipto, ele estava lá, em pé, não havia sido derrubado.
O eucalipto jacareiense era apenas uma árvore que deixou de passar desapercebida, ao contrário das outras muitas mil com que me deparei ao longo da viagem. Era uma árvore que sobreviveu à brutalidade humana e, de quebra, ainda entrou para a história da minha oitava viagem.
Toda árvore guarda consigo um espírito vencedor por ter sobrevivido a períodos de seca, a pragas, ao desenvolvimento urbano do homem, à poluição... e a derrubada de uma árvore representa uma vitória covarde e cruel do ser humano.
Mas é claro que eu não pensei nisso recentemente. Sentado na primeira poltrona de um ônibus de viagem, vi crescendo à minha frente um congestionamento enorme na Via Dutra em pleno fim de tarde de sábado.
Uma placa sinalizava meu paradeiro:
Jacareí – 2 km
San José, CA – 18 km
Rio de Janeiro – 339 km
Então o ônibus abriu a porta e todos os passageiros desceram para esticar a perna. Todos sacaram seus celulares e ligaram para algum conhecido: “Olha, vou me atrasar. A estrada tá parada, parece que eu vi um carro virado e vai demorar umas duas horas pra liberar”. Fiz o mesmo, mas sem inventar tanta história.
No mesmo instante, um cara desceu de um trator e passou ao meu lado. Meu espírito quase jornalístico me fez abordá-lo e perguntar o que de fato tava rolando. “Ah, não é nada de mais, não. Acontece que vão derrubar um eucalipto velho ali na frente e aí interditaram a estrada pra não cair galho em cima dos carros. Daqui uns 40 minutos liberam o tráfego de novo”. Mais uma pergunta: onde eu estou? “Ah, aqui já é Jacareí”.
Sem muita alternativa, voltei ao ônibus, peguei a Odisséia herdada do Mané, sentei na grama e continuei lendo as aventuras e desventuras de Ulisses, que na verdade se chama Odisseu, em vários lugares inventados por gregos chapados. E fiquei nisso durante uns 30 minutos.
Não foi raro ouvir reclamações ao meu lado de pessoas execrando a prefeitura jacareiense por interditar o trânsito no sábado à tarde para cortar uma árvore. Claro, também dei uns pitacos sobre a inteligência de parar uma estrada à tarde, e não de madrugada, quando o tráfego é menor (agora, já em São Paulo novamente, imagino que possa ser um pouco perigoso. Enfim).
Então o tráfego foi liberado 50 minutos depois de o ônibus de viagem saído de São Paulo ligar os motores, acelerar e seguir caminho a San José, Califórnia. Ao passar pelo famigerado eucalipto, ele estava lá, em pé, não havia sido derrubado.
O eucalipto jacareiense era apenas uma árvore que deixou de passar desapercebida, ao contrário das outras muitas mil com que me deparei ao longo da viagem. Era uma árvore que sobreviveu à brutalidade humana e, de quebra, ainda entrou para a história da minha oitava viagem.
domingo, 9 de março de 2008
Sabedoria materna
Parte 1:
Sábado de manhã. Eu, no banco do passageiro, rabiscava algumas palavras no papel e tentava elaborar uma lista de coisas para colocar na mochila antes de viajar. Mamãe ao meu lado.
“Camisetas, camisa do Palmeiras, bermuda, cueca, meia, documento, dinheiro, Odisséia, apostila, escova de dente, pasta, xampu, desodorante, sabonete, toalha de banho, carregador de celular...”. Estava completa.
Então minha mãe sentenciou: “Você vai esquecer alguma coisa, quer ver?”. Ah, hoje não. Ela tinha que errar algum dia, e nada melhor do que naquele sábado.
Parte 2:
Cheguei em casa, coloquei a lista em cima da cama e, enquanto socava tudo dentro da mochila o mais rápido possível, riscava o correspondente na listinha. Terminado, abarrotei tudo um pouco mais pra fechar a mochila e pronto.
Parte 3:
Antes de voltar ao carro, até lembrei de passar na guarita e pegar o meu jornal do dia. Dia de crônica do Marcelo Rubens Paiva no Caderno 2. Dia em que o jornal vale a pena. Então joguei a mochila no banco de trás e sentei no banco do passageiro, antes de mamãe começar um interrogatório.
“Pegou camiseta?”. “sim”. “Bermuda?”. “Uhum”. “Meia?”. “Três pares”. “Cueca?”. “Yep”. “Documento, dinheiro, xampu, sabonete, carregador de celular?”. “Confere, confere, confere...”.
Parte 4:
Mamãe insiste no interrogatório antes de colocar o carro na garagem do prédio. “Tá levando camiseta?”. “Tô”. “Bermuda?”. “Também. “Meia e cueca você não esqueceu, né?”. “Não”. “E o carregador de celular?”. “Tá aqui”. “E xampu, sabonete, toalha de banho...?”. “Tudo nas profundezas da mochila, mãe”.
Parte 5:
Depois do almoço. Novamente no carro, agora a caminho do metrô, que por sua vez me deixaria na rodoviária, com mamãe no volante e no comando da entrevista.
“Não esqueceu carregador de celular?”. “Não, mãe (note como as respostas soam quase entendiadas)”. “E bermuda, meia, cueca?”. “Peguei...”. “Blusão?”. “Tem lá”. “A toalha de banho tá na mochila?”. “Sim, junto com o barbeador”. “E escova de dente, pegou?”.
Tapa na testa: “Puuuuuuuuta merda, não”.
E a sabedoria materna me venceu mais uma vez.
Sábado de manhã. Eu, no banco do passageiro, rabiscava algumas palavras no papel e tentava elaborar uma lista de coisas para colocar na mochila antes de viajar. Mamãe ao meu lado.
“Camisetas, camisa do Palmeiras, bermuda, cueca, meia, documento, dinheiro, Odisséia, apostila, escova de dente, pasta, xampu, desodorante, sabonete, toalha de banho, carregador de celular...”. Estava completa.
Então minha mãe sentenciou: “Você vai esquecer alguma coisa, quer ver?”. Ah, hoje não. Ela tinha que errar algum dia, e nada melhor do que naquele sábado.
Parte 2:
Cheguei em casa, coloquei a lista em cima da cama e, enquanto socava tudo dentro da mochila o mais rápido possível, riscava o correspondente na listinha. Terminado, abarrotei tudo um pouco mais pra fechar a mochila e pronto.
Parte 3:
Antes de voltar ao carro, até lembrei de passar na guarita e pegar o meu jornal do dia. Dia de crônica do Marcelo Rubens Paiva no Caderno 2. Dia em que o jornal vale a pena. Então joguei a mochila no banco de trás e sentei no banco do passageiro, antes de mamãe começar um interrogatório.
“Pegou camiseta?”. “sim”. “Bermuda?”. “Uhum”. “Meia?”. “Três pares”. “Cueca?”. “Yep”. “Documento, dinheiro, xampu, sabonete, carregador de celular?”. “Confere, confere, confere...”.
Parte 4:
Mamãe insiste no interrogatório antes de colocar o carro na garagem do prédio. “Tá levando camiseta?”. “Tô”. “Bermuda?”. “Também. “Meia e cueca você não esqueceu, né?”. “Não”. “E o carregador de celular?”. “Tá aqui”. “E xampu, sabonete, toalha de banho...?”. “Tudo nas profundezas da mochila, mãe”.
Parte 5:
Depois do almoço. Novamente no carro, agora a caminho do metrô, que por sua vez me deixaria na rodoviária, com mamãe no volante e no comando da entrevista.
“Não esqueceu carregador de celular?”. “Não, mãe (note como as respostas soam quase entendiadas)”. “E bermuda, meia, cueca?”. “Peguei...”. “Blusão?”. “Tem lá”. “A toalha de banho tá na mochila?”. “Sim, junto com o barbeador”. “E escova de dente, pegou?”.
Tapa na testa: “Puuuuuuuuta merda, não”.
E a sabedoria materna me venceu mais uma vez.
quinta-feira, 6 de março de 2008
Escapadas (Dia livre, o retorno)
Quando era pequeno – e quanto digo isso me refiro aos meus oito ou nove anos –, não tinha a menor idéia de que dali uns dez anos estaria na faculdade e, de quebra, trabalhando. É óbvio, jamais poderia imaginar que decidiria fazer jornalismo e nem que seria estagiário de um veículo de comunicação cujo slogan é “o melhor site de esportes do Brasil”. Naquela época, eu nem sabia o que era um site.
Acontece que, na minha visão, trabalhar queria dizer vestir calça, sapato, camisa, gravata e paletó, pegar o carro e fazer alguma coisa até umas 17 horas. De segunda a sexta e amem.
Isso que eu faço hoje de acordar quase ao meio-dia, bater cartão às 14 e depois às 19, de tênis, camiseta e calça jeans, não seria trabalho nem aqui e nem na China. E quanto a trabalhar no final de semana, então? Folgar em um dia da semana? Peraí, tem certeza de que estamos falando de trabalho?
Pois bem. Contra quase tudo e contra quase todos (até mesmo contra mim mesmo), minha vida chegou a esse ponto. E hoje eu sou alguém que não usa roupa social e folga em um dia útil a cada duas semanas. Hoje, inclusive.
Arranjar o que fazer em um dia de folga não é complicado. Poderia, por exemplo, desfalecer sobre a minha cama durante muito, muito tempo e repor todas as energias. Era possível também ir ao Ibirapuera, ao clube, ao cinema... ou então ir para biblioteca da faculdade e ler todos os 20 mil textos “obrigatórios” ao curso. Melhor não. Até mesmo o escadão parece ser idéia melhor.
O que eu decidi fazer? Ora, simples: botei o pé na estrada. Isso mesmo, viajei – e não foi na maionese (piada ruim detectada). Quinta-feira, rodoviária do Tietê, 9h07, guichê de uma empresa. “Qual é o próximo ônibus pra tal lugar?”. “9h15”. “Tá, pode ser”. “17 reais. Plataforma 50, o senhor tem dez minutos”.
Enquanto o mundo corria, eu descia as escadas para a plataforma 50 dançando Beatles. Enquanto o mundo ia para o trabalho, eu ia viajar por aí só com uma mochila nas costas.
Ao entrar no ônibus, relembrei aqueles passeios escolares ao museu ou coisa do tipo. Procurei, então, um assento vazio no fundo, abri as ventoinhas de ar condicionado... os motores foram ligados, as portas foram fechadas... E agora (nota da redação: este texto foi escrito dentro do ônibus) eu olho para o lado e só vejo mato, mato, mato, carro, mato, vaca, cavalo, mato, uma fábrica aqui e outra ali. E acredito que os meus seis companheiros de ônibus vêem a mesma coisa. Mas sem a minha trilha sonora de Shout out Louds.
Quer saber? Posso trabalhar comom um louco – especialmente aos finais de semana – e não ter lá muitas pretensões salariais no futuro. Mas não trabalho de terno e gravata, tenho folgas durante a semana e, agora, estou viajando com a sensação de estar cabulando aula, mas sem o medo de ser flagrado e ter que dar satisfações.
Ainda bem que eu me enganei dez anos atrás!
Acontece que, na minha visão, trabalhar queria dizer vestir calça, sapato, camisa, gravata e paletó, pegar o carro e fazer alguma coisa até umas 17 horas. De segunda a sexta e amem.
Isso que eu faço hoje de acordar quase ao meio-dia, bater cartão às 14 e depois às 19, de tênis, camiseta e calça jeans, não seria trabalho nem aqui e nem na China. E quanto a trabalhar no final de semana, então? Folgar em um dia da semana? Peraí, tem certeza de que estamos falando de trabalho?
Pois bem. Contra quase tudo e contra quase todos (até mesmo contra mim mesmo), minha vida chegou a esse ponto. E hoje eu sou alguém que não usa roupa social e folga em um dia útil a cada duas semanas. Hoje, inclusive.
Arranjar o que fazer em um dia de folga não é complicado. Poderia, por exemplo, desfalecer sobre a minha cama durante muito, muito tempo e repor todas as energias. Era possível também ir ao Ibirapuera, ao clube, ao cinema... ou então ir para biblioteca da faculdade e ler todos os 20 mil textos “obrigatórios” ao curso. Melhor não. Até mesmo o escadão parece ser idéia melhor.
O que eu decidi fazer? Ora, simples: botei o pé na estrada. Isso mesmo, viajei – e não foi na maionese (piada ruim detectada). Quinta-feira, rodoviária do Tietê, 9h07, guichê de uma empresa. “Qual é o próximo ônibus pra tal lugar?”. “9h15”. “Tá, pode ser”. “17 reais. Plataforma 50, o senhor tem dez minutos”.
Enquanto o mundo corria, eu descia as escadas para a plataforma 50 dançando Beatles. Enquanto o mundo ia para o trabalho, eu ia viajar por aí só com uma mochila nas costas.
Ao entrar no ônibus, relembrei aqueles passeios escolares ao museu ou coisa do tipo. Procurei, então, um assento vazio no fundo, abri as ventoinhas de ar condicionado... os motores foram ligados, as portas foram fechadas... E agora (nota da redação: este texto foi escrito dentro do ônibus) eu olho para o lado e só vejo mato, mato, mato, carro, mato, vaca, cavalo, mato, uma fábrica aqui e outra ali. E acredito que os meus seis companheiros de ônibus vêem a mesma coisa. Mas sem a minha trilha sonora de Shout out Louds.
Quer saber? Posso trabalhar comom um louco – especialmente aos finais de semana – e não ter lá muitas pretensões salariais no futuro. Mas não trabalho de terno e gravata, tenho folgas durante a semana e, agora, estou viajando com a sensação de estar cabulando aula, mas sem o medo de ser flagrado e ter que dar satisfações.
Ainda bem que eu me enganei dez anos atrás!
quarta-feira, 5 de março de 2008
Ponto de encontros casuais
O fato de morar em uma cidade grande não dá a garantia de que você sempre terá alguma coisa para fazer. E foi justamente nesse contexto em que eu me encontrei hoje, quando bati o cartão do trabalho às 17 horas e teria que esperar até às 19 para entrar na aula.
Entre as duas opções que me restavam (ficar na Paulista ou voltar para casa e retornar logo em seguida), optei pela primeira, ajudado por um filme em cartaz no cinema. Mas como a sessão teria início apenas às 17h30, seriam 30 minutinhos de tédio.
Foi quando eu resolvi matar o tempo sentado no escadão da Gazeta com o ipod no colo e os fones (novos!) nos ouvidos. Mas o mais estranho é que, não fosse o bilhete do cinema no bolso, eu certamente teria o que fazer até as 19 horas.
Assim que me acomodei em um dos milhões (?) de degraus, vi lá embaixo uma antiga conhecida, amiga de uma antiga amiga minha, andando meio despreocupada. Poderia ser uma boa chance de rolar um “e aí, como você tá, que anda fazendo, tem notícias daquele cara e lembra daquele dia engraçado?”. Mas a música no meu ouvido estava mais interessante.
Menos de três minutos depois, vi passar um colega do meu condomínio. Mais tarde, quem apareceu foi um dos meus colegas de trabalho, enquanto instantes em seguida foi a vez de uma colega de faculdade.
A primeira pessoa que veio falar comigo, no entanto, não me conhecia. “Opa, cara, onde fica o Mercado Pirituba?”. Ainda me readaptando ao som ambiente, pedi para repetir. “Onde eu encontro o Mercado Pirituba?”. Pensei, pensei... “Mercado, tem certeza? Pìrituba é longe pra caralho”, salientei. “Sim, é... eu tenho que ir lá pra Ponte dos Remédios e tenho que pegar esse ônibus”, explicou.
Lembrei. O Bruno Neguinho mora nesse fim de mundo. Bastou puxar pela memória e... “Cara, tem o Terminal Pirituba, não seria isso?”. Uma luz brotou na cara dele. “Sim, é, é Terminal Pirituba! Onde eu pego?”. “Olha, é aquele ali que acabou de fechar as portas no ponto de ônibus”. O cara agradeceu e saiu correndo. Em vão.
Nos minutos seguintes sentado no escadão, vi vários conhecidos passarem atordoados, compromissados, descompromissados e relaxados. Claro, não vi quem eu realmente queria ver. Até que as 17h30 chegaram e eu tive que partir para o cinema. Mas que o escadão é um programa e tanto contra o tédio, disso eu passei a não ter mais dúvidas.
Entre as duas opções que me restavam (ficar na Paulista ou voltar para casa e retornar logo em seguida), optei pela primeira, ajudado por um filme em cartaz no cinema. Mas como a sessão teria início apenas às 17h30, seriam 30 minutinhos de tédio.
Foi quando eu resolvi matar o tempo sentado no escadão da Gazeta com o ipod no colo e os fones (novos!) nos ouvidos. Mas o mais estranho é que, não fosse o bilhete do cinema no bolso, eu certamente teria o que fazer até as 19 horas.
Assim que me acomodei em um dos milhões (?) de degraus, vi lá embaixo uma antiga conhecida, amiga de uma antiga amiga minha, andando meio despreocupada. Poderia ser uma boa chance de rolar um “e aí, como você tá, que anda fazendo, tem notícias daquele cara e lembra daquele dia engraçado?”. Mas a música no meu ouvido estava mais interessante.
Menos de três minutos depois, vi passar um colega do meu condomínio. Mais tarde, quem apareceu foi um dos meus colegas de trabalho, enquanto instantes em seguida foi a vez de uma colega de faculdade.
A primeira pessoa que veio falar comigo, no entanto, não me conhecia. “Opa, cara, onde fica o Mercado Pirituba?”. Ainda me readaptando ao som ambiente, pedi para repetir. “Onde eu encontro o Mercado Pirituba?”. Pensei, pensei... “Mercado, tem certeza? Pìrituba é longe pra caralho”, salientei. “Sim, é... eu tenho que ir lá pra Ponte dos Remédios e tenho que pegar esse ônibus”, explicou.
Lembrei. O Bruno Neguinho mora nesse fim de mundo. Bastou puxar pela memória e... “Cara, tem o Terminal Pirituba, não seria isso?”. Uma luz brotou na cara dele. “Sim, é, é Terminal Pirituba! Onde eu pego?”. “Olha, é aquele ali que acabou de fechar as portas no ponto de ônibus”. O cara agradeceu e saiu correndo. Em vão.
Nos minutos seguintes sentado no escadão, vi vários conhecidos passarem atordoados, compromissados, descompromissados e relaxados. Claro, não vi quem eu realmente queria ver. Até que as 17h30 chegaram e eu tive que partir para o cinema. Mas que o escadão é um programa e tanto contra o tédio, disso eu passei a não ter mais dúvidas.
terça-feira, 4 de março de 2008
Da primeira vez não se esquece (apenas de algumas partes)
Meu primeiro jogo em um estádio aconteceu em setembro de 1998, com um 1 a 0 magrinho do Palmeiras sobre o Internacional no Palestra Itália. Desde então, passei a freqüentar o Parque Antártica com o meu pai apenas em jogos de uma torcida. Clássico era perigoso, complicado. E assim se passaram dez anos.
Até que na última quinta-feira eu me dirigia aos elevadores do trabalho torcendo apenas para que a minha gripe fosse dizimada como passe de mágica quando as portas se abriram e por elas saiu o Fini, setorista do Corinthians. “Domingão somos você e eu no clássico, hein? Se prepara”, anunciou.
Responsável por uma fatia dos outros esportes, não levei muita fé. “Não, cara, tem certeza? Acho que só vai você pro estádio e eu fico na redação”, respondi. “Não, tá lá seu nome e estádio. Você vai”, completou. Claro, dei um sorriso de orelha a orelha e subi para o trabalho.
E a primeira coisa que eu fiz foi pedir para o Mané dar uma olhada na pauta e confirmar. Logo em seguida, ainda tive que ler da Carol Canossa um “eu falei que você ia, mas você tava tão convicto de que não ia...”. Sim, eu sou teimoso.
Até que domingo chegou e eu fui ao Morumbi para o dérbi entre Corinthians x Palmeiras. E como sempre acontece na primeira vez, várias coisas deram errado. A começar pela linha verde do metrô (que deve ter apenas dois trens: um que vai e outro que volta), que quase que me atrasou. Em seguida, a farmácia onde eu compraria o Aturgyl para que eu pudesse respirar apesar do resto de resfriado que ainda permanecia em mim estava fechado. Foi quando eu senti que as coisas não dariam muito certo.
Deixei de ter esse pensamento quando cheguei ao estádio e o trabalho começou. Falar com policiais, esperar desembarque de times, desfalques de última hora... presidente de clube aqui, dirigente acolá. Teve até apresentação de carro de corrida. Em meio a tanta correria, esqueci que o dia conspirava contra mim.
Até que a partida começou. Insossa. E não demorou muito tempo para eu tentar ajeitar o sinal do radinho de pilha que me auxiliava e ver que a anteninha tinha ficado na minha mão. Alguns minutos depois, uma outra parte do rádio se quebrou sem mais nem menos. E antes mesmo do intervalo um dos falantes do meu fone de ouvido mambembe foi pro beleléu sei mais nem menos. Depois do intervalo, pra ajudar, o Corinthians ainda marcou um gol, que foi anulado.
Estava certo de que aquele não era o meu dia quando olhei meu cronômetro, que marcava 28 minutos do segundo tempo no mesmo instante que o placar indicava 0 a 0. Mas não demorou muito para eu ver que estava enganado: dois minutos depois sairia o gol da vitória do Palmeiras. Enquanto o Valdívia comemorava descontroladamente no gramado, eu vibrava silenciosamente em uma cabine no meio da torcida corintiana. Quase que uma tortura.
Então o clássico acabou. Entusiasmado, saquei o telefone do bolso a caminho da sala de imprensa e comemorei a vitória, o gol, o trabalho, o dia, a noite... o final de semana inteiro, tudo. E já nem me lembrava mais que não tinha mais fone de ouvido e nem radinho de pilha. Sabia apenas que estava feliz.
Até que na última quinta-feira eu me dirigia aos elevadores do trabalho torcendo apenas para que a minha gripe fosse dizimada como passe de mágica quando as portas se abriram e por elas saiu o Fini, setorista do Corinthians. “Domingão somos você e eu no clássico, hein? Se prepara”, anunciou.
Responsável por uma fatia dos outros esportes, não levei muita fé. “Não, cara, tem certeza? Acho que só vai você pro estádio e eu fico na redação”, respondi. “Não, tá lá seu nome e estádio. Você vai”, completou. Claro, dei um sorriso de orelha a orelha e subi para o trabalho.
E a primeira coisa que eu fiz foi pedir para o Mané dar uma olhada na pauta e confirmar. Logo em seguida, ainda tive que ler da Carol Canossa um “eu falei que você ia, mas você tava tão convicto de que não ia...”. Sim, eu sou teimoso.
Até que domingo chegou e eu fui ao Morumbi para o dérbi entre Corinthians x Palmeiras. E como sempre acontece na primeira vez, várias coisas deram errado. A começar pela linha verde do metrô (que deve ter apenas dois trens: um que vai e outro que volta), que quase que me atrasou. Em seguida, a farmácia onde eu compraria o Aturgyl para que eu pudesse respirar apesar do resto de resfriado que ainda permanecia em mim estava fechado. Foi quando eu senti que as coisas não dariam muito certo.
Deixei de ter esse pensamento quando cheguei ao estádio e o trabalho começou. Falar com policiais, esperar desembarque de times, desfalques de última hora... presidente de clube aqui, dirigente acolá. Teve até apresentação de carro de corrida. Em meio a tanta correria, esqueci que o dia conspirava contra mim.
Até que a partida começou. Insossa. E não demorou muito tempo para eu tentar ajeitar o sinal do radinho de pilha que me auxiliava e ver que a anteninha tinha ficado na minha mão. Alguns minutos depois, uma outra parte do rádio se quebrou sem mais nem menos. E antes mesmo do intervalo um dos falantes do meu fone de ouvido mambembe foi pro beleléu sei mais nem menos. Depois do intervalo, pra ajudar, o Corinthians ainda marcou um gol, que foi anulado.
Estava certo de que aquele não era o meu dia quando olhei meu cronômetro, que marcava 28 minutos do segundo tempo no mesmo instante que o placar indicava 0 a 0. Mas não demorou muito para eu ver que estava enganado: dois minutos depois sairia o gol da vitória do Palmeiras. Enquanto o Valdívia comemorava descontroladamente no gramado, eu vibrava silenciosamente em uma cabine no meio da torcida corintiana. Quase que uma tortura.
Então o clássico acabou. Entusiasmado, saquei o telefone do bolso a caminho da sala de imprensa e comemorei a vitória, o gol, o trabalho, o dia, a noite... o final de semana inteiro, tudo. E já nem me lembrava mais que não tinha mais fone de ouvido e nem radinho de pilha. Sabia apenas que estava feliz.
sábado, 1 de março de 2008
Dificuldades de relacionamento
Minha timidez é algo quase do passado. Ultimamente, apenas fiz uso dela como um pouco de charme, confesso. Mas isso não quer dizer que a minha capacidade de comunicação com as pessoas em geral tenha melhorado e chegado a um ponto próximo do ideal.
Instantes atrás, por exemplo, notei que ainda tenho muito a melhorar. Tomando um copo d’água à beira do CCT da Barra Funda do São Paulo, tento puxar papo com um cara ao meu lado. Simpático, respondeu logo de cara. “Yo soy de Italia, de Lugano, proximo a Milano”. Maravilha. Adoro trocar uma idéia ou outra com estrangeiros.
Apresentamo-nos e a pergunta que ele, que disse ser amigo pessoal do Adriano, logo me fez: “Que acha de Adriano?”. Minha cabeça deu um nó e imaginei uma resposta em português, uma em espanhol, uma em italiano e outra em inglês. Acabei falando todas ao mesmo tempo. “Humm, yo creo que vá bene, but... queria mucho que él se acertasse, pero... está dificile, muito dificile”.
É claro que a reação do cara não foi outra a não ser dar uma risada da minha cara. Corei, sorri e me expliquei. “Perdone, pero yo no hablo... digo, yo no parlo italiano”. Ele foi empático. “Parla español?”. “Mezzo punto”. “Yo compreendo la mistura de português y español, no hay problemas”.
Acabei aproveitando a oportunidade para praticar o meu fraquíssimo espanhol estilo ‘engana cabrón’, falei sobre estilos de marcação no futebol, a diferença entre os zagueiros de Milan e Sertãozinho... e, ao final da conversa, o italiano se despediu e eu, automaticamente, respondi “Grazzi”. Com sotaque da Sicília e tudo.
Coisas que só uma manhã de sábado pode proporcionar.
Instantes atrás, por exemplo, notei que ainda tenho muito a melhorar. Tomando um copo d’água à beira do CCT da Barra Funda do São Paulo, tento puxar papo com um cara ao meu lado. Simpático, respondeu logo de cara. “Yo soy de Italia, de Lugano, proximo a Milano”. Maravilha. Adoro trocar uma idéia ou outra com estrangeiros.
Apresentamo-nos e a pergunta que ele, que disse ser amigo pessoal do Adriano, logo me fez: “Que acha de Adriano?”. Minha cabeça deu um nó e imaginei uma resposta em português, uma em espanhol, uma em italiano e outra em inglês. Acabei falando todas ao mesmo tempo. “Humm, yo creo que vá bene, but... queria mucho que él se acertasse, pero... está dificile, muito dificile”.
É claro que a reação do cara não foi outra a não ser dar uma risada da minha cara. Corei, sorri e me expliquei. “Perdone, pero yo no hablo... digo, yo no parlo italiano”. Ele foi empático. “Parla español?”. “Mezzo punto”. “Yo compreendo la mistura de português y español, no hay problemas”.
Acabei aproveitando a oportunidade para praticar o meu fraquíssimo espanhol estilo ‘engana cabrón’, falei sobre estilos de marcação no futebol, a diferença entre os zagueiros de Milan e Sertãozinho... e, ao final da conversa, o italiano se despediu e eu, automaticamente, respondi “Grazzi”. Com sotaque da Sicília e tudo.
Coisas que só uma manhã de sábado pode proporcionar.
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