Há tempos vinha me perguntando que sinal eu receberia da vida e enfim perceberia que não era apenas mais um jovem menininho mimado, mas sim uma pessoa adulta.
A primeira vez em que eu achei que tinha recebido o toque foi aos 13 anos, quando fiz a barba pela primeira vez. Mas meu mundo não mudou depois disso, a outras coisas continuaram acontecendo e me faziam refletir um bocado.
Passei por muitas coisas que poderiam ter sido decisivas para deixar de ser apenas um garotinho. Terminar o Ensino Fundamental e iniciar o Ensino Médio? Humm... não. A primeira namorada? Também não. Então o que seria?
Por um tempo achei que tinha descoberto o tal sinal: fazer a barba com pincel, espuma de barbear, uma Mach 3 e com direito a loção pós-barba (da mais ardida) no final. Mas também não era isso o que mudaria a minha vida.
Terminar o colegial poderia ser considerado alguma coisa importante? Não. Poucos meses depois, entrei na faculdade e as coisas não mudaram muito. Nem quando fiz 18 anos. E tirar a carteira de motorista? Poderia ser mais independente, dirigir... Não, não. Não era isso que me faria um homem.
E abrir uma conta no banco? Ir ao caixa eletrônico, passar um cartão com o meu nome, digitar uma senha criada por mim? Ou então ver os envelopes plásticos da minha carteira recheados de cartões? Humm... ah, talvez. Mas eu ainda sentia que faltava alguma coisa. E essa coisa eu não encontrei quando fui ao pronto-socorro sozinho, sem a companhia da mamãe ou do papai.
Achei que tinha descoberto a vida adulta quando fui à minha primeira entrevista de emprego. Camisa, calça, sapato... apertos de mão, palavras ensaiadas, barba feita... ah, ainda não. Conseguir o primeiro emprego? Ser demitido no primeiro emprego? Quer saber, não era isso ainda...
Comecei a trabalhar na GE.Net e ainda assim sentia que faltava alguma coisa. Humm... a minha primeira notícia assinada? Não. O meu primeiro furo jornalístico? Menos. Talvez a minha primeira pauta externa, o meu primeiro colete de imprensa, a minha primeira credencial, a minha primeira matéria especial, a minha primeira entrevista, o meu primeiro jogo do estádio? Não, acho que não encontraria a resposta no trabalho.
Sabe como percebi que tinha deixado de ser apenas mais um molequinho espoleta e um novo adulto? Quando cheguei em casa alguns dias atrás com dores nas costas. Então tomei um café e, instantes depois, o desconforto passou. Assim, como mágica.
Coisas de adulto.
sexta-feira, 26 de outubro de 2007
quinta-feira, 25 de outubro de 2007
Convite noturno
Um telefonema no meio da noite.
Do outro lado da linha, uma voz feminina. Doce, suave, de tom um bocado meloso.
“Alô?”, atendeu o homem, soltando o copo de uísque sobre o balcão do bar.
“Amor, onde você tá?”, perguntava a garota.
“Alô? Ah... eu... eu tô no bar...”
“Ah, querido, por quê? Vem aqui pra casa, vem. Tá frio, eu tô sozinha... vem pra cá, amor”, pediu a voz feminina.
O homem ainda hesitou.
“M-mas... eu to bêbado, e... e talvez você não goste, e...”
“Deixa de ser bobo! Eu gosto de você. E vem aqui pra casa, meu amor. Vou te esperar, tá? Um beijo, Rô”.
“Ahn... outro”.
O homem desligou o telefone e colocou-o sobre a mesa.
Virou o copo de uísque que ainda estava pela metade e pediu mais um ao garçom. Também pediu um maço de cigarros, do mais forte que tinha, e um isqueiro. Não fumava, mas a ocasião requisitava muitos cigarros.
Fabrício não entendia. Por um instante, achou que alguma garota o havia convidado para deixar aquele bar pequeno, abafado, malcuidado e até malcheiroso. Mas foi apenas um engano, pois se tratava da namorada do Rô.
Quem era Rô ele não sabia. Não conhecia Rodrigos, Robertos, Róbsons e nem Robervais. Sabia apenas que esse Rô devia ser um cara de sorte.
Do outro lado da linha, uma voz feminina. Doce, suave, de tom um bocado meloso.
“Alô?”, atendeu o homem, soltando o copo de uísque sobre o balcão do bar.
“Amor, onde você tá?”, perguntava a garota.
“Alô? Ah... eu... eu tô no bar...”
“Ah, querido, por quê? Vem aqui pra casa, vem. Tá frio, eu tô sozinha... vem pra cá, amor”, pediu a voz feminina.
O homem ainda hesitou.
“M-mas... eu to bêbado, e... e talvez você não goste, e...”
“Deixa de ser bobo! Eu gosto de você. E vem aqui pra casa, meu amor. Vou te esperar, tá? Um beijo, Rô”.
“Ahn... outro”.
O homem desligou o telefone e colocou-o sobre a mesa.
Virou o copo de uísque que ainda estava pela metade e pediu mais um ao garçom. Também pediu um maço de cigarros, do mais forte que tinha, e um isqueiro. Não fumava, mas a ocasião requisitava muitos cigarros.
Fabrício não entendia. Por um instante, achou que alguma garota o havia convidado para deixar aquele bar pequeno, abafado, malcuidado e até malcheiroso. Mas foi apenas um engano, pois se tratava da namorada do Rô.
Quem era Rô ele não sabia. Não conhecia Rodrigos, Robertos, Róbsons e nem Robervais. Sabia apenas que esse Rô devia ser um cara de sorte.
quarta-feira, 24 de outubro de 2007
Piloto da Vez I (ou chica guapa e suco de xubáqui)
Não acho que seja loucura dizer que um dos principais sonhos de qualquer homem é o de pegar uma estrangeira. As mulheres brasileiras podem ser as mais belas, as com mais gingado e tudo mais, mas o fetiche de ter um caso com uma gringa de fato provoca. É claro que eu não sou diferente. Mas como nunca tive lá muito contato com garotas de outro país, nunca pude pôr a teoria em prática. Até ontem.
Confesso que me surpreendi ao ser escalado para cobrir o Piloto da Vez – projeto da (Keep Walking) Johnnie Walker para conscientizar de que tomar um porre e voltar para casa dirigindo não dá certo –, com a presença do Mika Hakkinen. Até porque já fazia um certo tempo em que eu não fazia uma pauta externa de outros esportes. Enfim.
Não sabia exatamente do que encontraria no Kartódromo Internacional de Barueri. Cheguei ao lugar ainda meio perdido, tentando me encontrar no meio de muitos garçons servindo taças repletas de... água (e eu achando que o evento teria Black Label adoidado). Mas tudo bem, vai.
Acabei parando para ver o que estava acontecendo dentro da pista. Vários domingueiros aprendiam dicas de direção segura em carros novinhos enquanto o pessoal de fora via e comentava. Entre um desses comentários, algumas palavras em castelhano me chamaram a atenção. Segui o som da voz e percebi uma garota de não mais do que 25 anos. Olhos azuis azuis azuis, cabelos castanhos e lisos... muy guapa.
Passei a olhar para ela de canto de olho. Ela estava ao lado de uma amiga e conversavam sobre muitas coisas que eu não consegui identificar. Mas consegui pelo menos perceber que o sotaque dela era de argentina. Como? Não sei. Só percebi que era diferente do sotaque de espanhóis, chilenos e bolivianos. Talvez fossem os filmes. Não sei.
Continuei olhando para ela de vez em quando. Já ela... bom, não sei se ela olhava para mim ou para as garrafas de uísque que estavam na prateleira atrás de mim. Bom, melhor pensar na primeira opção.
Claro que imaginei um milhão de maneiras de abordá-la. A melhor delas talvez fosse perguntar se ela tinha conseguido tirar uma foto com o Hakkinen. Independentemente da resposta, poderia dizer em um portunhol arrastadíssimo “humm... ah, se você quiser... soy periodista y o fotógrafo que está comigo sacou algumas de usted e... bom, yo puesso enviarte via e-mail. Isso, claro, se quiser passarme su e-mail”. Pensei algumas vezes antes de colocar o plano em prática e desisti. Era bem capaz de ela achar que eu estava vendendo a foto.
Acabei não indo falar com ela e fui encher a cara. De suco, claro. Assim que peguei uma taça de suco de abacaxi, ela apareceu do meu lado e perguntou o sabor das bebidas. “Naranja e... aaahn... eehh... abacaxi”, disse o barman. Ela também se serviu de uma de abacaxi e, no mesmo instante, uma amiga apareceu ao seu lado. Perguntou de que eram os sucos. “Este és de naranja y este és... no se, eh... xubáqui? No se, pero és muy raro”.
Dei uma risada contida. Ela também. A porta estava aberta para uma aproximação.
(continua...)
Confesso que me surpreendi ao ser escalado para cobrir o Piloto da Vez – projeto da (Keep Walking) Johnnie Walker para conscientizar de que tomar um porre e voltar para casa dirigindo não dá certo –, com a presença do Mika Hakkinen. Até porque já fazia um certo tempo em que eu não fazia uma pauta externa de outros esportes. Enfim.
Não sabia exatamente do que encontraria no Kartódromo Internacional de Barueri. Cheguei ao lugar ainda meio perdido, tentando me encontrar no meio de muitos garçons servindo taças repletas de... água (e eu achando que o evento teria Black Label adoidado). Mas tudo bem, vai.
Acabei parando para ver o que estava acontecendo dentro da pista. Vários domingueiros aprendiam dicas de direção segura em carros novinhos enquanto o pessoal de fora via e comentava. Entre um desses comentários, algumas palavras em castelhano me chamaram a atenção. Segui o som da voz e percebi uma garota de não mais do que 25 anos. Olhos azuis azuis azuis, cabelos castanhos e lisos... muy guapa.
Passei a olhar para ela de canto de olho. Ela estava ao lado de uma amiga e conversavam sobre muitas coisas que eu não consegui identificar. Mas consegui pelo menos perceber que o sotaque dela era de argentina. Como? Não sei. Só percebi que era diferente do sotaque de espanhóis, chilenos e bolivianos. Talvez fossem os filmes. Não sei.
Continuei olhando para ela de vez em quando. Já ela... bom, não sei se ela olhava para mim ou para as garrafas de uísque que estavam na prateleira atrás de mim. Bom, melhor pensar na primeira opção.
Claro que imaginei um milhão de maneiras de abordá-la. A melhor delas talvez fosse perguntar se ela tinha conseguido tirar uma foto com o Hakkinen. Independentemente da resposta, poderia dizer em um portunhol arrastadíssimo “humm... ah, se você quiser... soy periodista y o fotógrafo que está comigo sacou algumas de usted e... bom, yo puesso enviarte via e-mail. Isso, claro, se quiser passarme su e-mail”. Pensei algumas vezes antes de colocar o plano em prática e desisti. Era bem capaz de ela achar que eu estava vendendo a foto.
Acabei não indo falar com ela e fui encher a cara. De suco, claro. Assim que peguei uma taça de suco de abacaxi, ela apareceu do meu lado e perguntou o sabor das bebidas. “Naranja e... aaahn... eehh... abacaxi”, disse o barman. Ela também se serviu de uma de abacaxi e, no mesmo instante, uma amiga apareceu ao seu lado. Perguntou de que eram os sucos. “Este és de naranja y este és... no se, eh... xubáqui? No se, pero és muy raro”.
Dei uma risada contida. Ela também. A porta estava aberta para uma aproximação.
(continua...)
terça-feira, 23 de outubro de 2007
Piloto da Vez II (ou sobre sublimações)
Recapitulando: havia uma argentina lindíssima no evento em Barueri. Trocamos alguns olhares rápidos, mas o conquistador aqui não sabia como iniciar um papo com a garota do país vizinho. Até que ambos se encontraram pegando um suco de abacaxi e trocaram um sorriso. Certo. Voltando...
Era a melhor chance de começar a puxar assunto com a argentina de olhos azuis. A única. Um mínimo deslize e qualquer possibilidade de uma troca de culturas iria por suco abaixo. Não podia falhar. A pressão era grande.
Quando eu abri a boca para explicar que aquela fruta não se chamava xubáqui, mas sim abacaxi, a assessora de imprensa do evento me chamou. Iria começar a coletiva do Mika Hakkinen. “Vamos lá?”. Argentina, trabalho, argentina, trabalho, argentina, trabalho, argentina... suspiro... trabalho. Destampei a caneta para começar a anotar a entrevista com a mesma sensação de estar tampando para sempre a chance de tomar um café em Buenos Aires com uma chica guapa. Mas a vida é assim.
Aos poucos estou me acostumando a ver pessoalmente pessoas que eu vi a minha vida inteira na tevê. Não é fácil. Na telinha, as personalidades sempre parecem ser muito mais altas do que realimente são, possuírem um certo brilho próprio. Ao vivo, meu amigo, isso não existe. E as pessoas são tão normais quanto você ou eu.
Pois bem. Entrei na sala de imprensa improvisada, com um sofá para o Hakkinen e algumas cadeiras para os jornalistas. Sentei na primeira fila e já traduzia mentalmente as perguntas para fazer. E ainda ganhei um tempo, já que as mídias impressas são sempre as últimas a perguntar.
A coletiva não rendeu nada, como é de costume. Coletivas sempre são assim. Como ainda tinha algumas perguntas para fazer, perguntei se poderia falar com o Mika depois. Fiquei surpreso quando disseram que sim, mas que teria de esperar. Sem problemas.
É estranho imaginar que as coisas podem dar certo mesmo quando tendem a dar errado. Se antes eu achava que seria uma pauta meio perdida, estava prestes a conseguir uma entrevista reservada com o Mika Hakkinen. Isso, aquele piloto que eu costumava escolher no videogame quando tinha 11 anos.
Só que aconteceu mais do que isso. Antes de falar com o reles estagiário, o Mika deu algumas voltas no circuito do kartódromo. Os profissionais de imprensa estavam convidados para serem passageiros do ex-bicampeão de Fórmula 1. Já andou de Mercedes com um piloto de F1 dando slalons, acelerando em curvas, cantando pneu? É quase a mesma sensação de andar em uma montanha russa, mas com bancos de couro, ar condicionado, direção elétrica... e, claro, muito mais seguro.
Depois das aventuras a bordo da Mercedes, enfim aconteceu a entrevista. É estranho como as coisas podem dar incrivelmente certo em seqüência. Foi o que aconteceu na entrevista. Por causa de uma frase mal formulada em inglês, ganhei a confiança do cara. E por causa de várias frases bem formuladas por parte dele, saí da sala de imprensa com a sensação de ter conseguido a matéria da minha vida. Ou quase isso.
...
Voltei para casa hoje um pouco de cabeça cheia, meio revoltado com o frio, com o calor, com a garoa, com o trânsito, com a minha dor de cabeça... com tudo. Até com o sol, com o galo, com o porco... e com os cavalinhos, se bobear. Coisas que só uma terça-feira pode proporcionar.
Mas bastou abrir a porta do meu quarto e ver uma cópia da entrevista com o Hakkinen. A minha terceira profissionalmente, mas um bocado mais especial do que a primeira, que simplesmente caiu no meu colo. Essa era especial, por vários motivos.
Outra coisa: essa entrevista me lembra um outro assunto. Sabe aquela argentina? Não encontrei mais com ela depois da coletiva com o Mika. Não peguei o e-mail dela, não a ensinei a falar abacaxi e nem sequer perguntei o seu nome.
Era a melhor chance de começar a puxar assunto com a argentina de olhos azuis. A única. Um mínimo deslize e qualquer possibilidade de uma troca de culturas iria por suco abaixo. Não podia falhar. A pressão era grande.
Quando eu abri a boca para explicar que aquela fruta não se chamava xubáqui, mas sim abacaxi, a assessora de imprensa do evento me chamou. Iria começar a coletiva do Mika Hakkinen. “Vamos lá?”. Argentina, trabalho, argentina, trabalho, argentina, trabalho, argentina... suspiro... trabalho. Destampei a caneta para começar a anotar a entrevista com a mesma sensação de estar tampando para sempre a chance de tomar um café em Buenos Aires com uma chica guapa. Mas a vida é assim.
Aos poucos estou me acostumando a ver pessoalmente pessoas que eu vi a minha vida inteira na tevê. Não é fácil. Na telinha, as personalidades sempre parecem ser muito mais altas do que realimente são, possuírem um certo brilho próprio. Ao vivo, meu amigo, isso não existe. E as pessoas são tão normais quanto você ou eu.
Pois bem. Entrei na sala de imprensa improvisada, com um sofá para o Hakkinen e algumas cadeiras para os jornalistas. Sentei na primeira fila e já traduzia mentalmente as perguntas para fazer. E ainda ganhei um tempo, já que as mídias impressas são sempre as últimas a perguntar.
A coletiva não rendeu nada, como é de costume. Coletivas sempre são assim. Como ainda tinha algumas perguntas para fazer, perguntei se poderia falar com o Mika depois. Fiquei surpreso quando disseram que sim, mas que teria de esperar. Sem problemas.
É estranho imaginar que as coisas podem dar certo mesmo quando tendem a dar errado. Se antes eu achava que seria uma pauta meio perdida, estava prestes a conseguir uma entrevista reservada com o Mika Hakkinen. Isso, aquele piloto que eu costumava escolher no videogame quando tinha 11 anos.
Só que aconteceu mais do que isso. Antes de falar com o reles estagiário, o Mika deu algumas voltas no circuito do kartódromo. Os profissionais de imprensa estavam convidados para serem passageiros do ex-bicampeão de Fórmula 1. Já andou de Mercedes com um piloto de F1 dando slalons, acelerando em curvas, cantando pneu? É quase a mesma sensação de andar em uma montanha russa, mas com bancos de couro, ar condicionado, direção elétrica... e, claro, muito mais seguro.
Depois das aventuras a bordo da Mercedes, enfim aconteceu a entrevista. É estranho como as coisas podem dar incrivelmente certo em seqüência. Foi o que aconteceu na entrevista. Por causa de uma frase mal formulada em inglês, ganhei a confiança do cara. E por causa de várias frases bem formuladas por parte dele, saí da sala de imprensa com a sensação de ter conseguido a matéria da minha vida. Ou quase isso.
...
Voltei para casa hoje um pouco de cabeça cheia, meio revoltado com o frio, com o calor, com a garoa, com o trânsito, com a minha dor de cabeça... com tudo. Até com o sol, com o galo, com o porco... e com os cavalinhos, se bobear. Coisas que só uma terça-feira pode proporcionar.
Mas bastou abrir a porta do meu quarto e ver uma cópia da entrevista com o Hakkinen. A minha terceira profissionalmente, mas um bocado mais especial do que a primeira, que simplesmente caiu no meu colo. Essa era especial, por vários motivos.
Outra coisa: essa entrevista me lembra um outro assunto. Sabe aquela argentina? Não encontrei mais com ela depois da coletiva com o Mika. Não peguei o e-mail dela, não a ensinei a falar abacaxi e nem sequer perguntei o seu nome.
Foto do Túlio Vidal/Gazeta Press
O que me restou dela? Apenas uma foto, que realça alguns 'defeitos' dela: o nariz grande (típico de um argentino portenho), o queixo saliente, o rosto magrelo... Não importa. Era uma garota charmosa, bonita, de olhos azuis e um sorriso cativante. Que vai me lembrar um raríssimo suco de abacaxi.Auto-promoção: Não gosto muito de divulgar meus textos de trabalho. Prova disso é que, sempre que citei neste espaço algumas notícias, optava por aquelas que não foram escritas por mim. Mas já que os dois 'capítulos' não existiriam se não fosse a entrevista com o Hakkinen, ei-la: Hakkinen prevê início da "era Raikkonen" na Ferrari
segunda-feira, 22 de outubro de 2007
O noivado de Luciana
A vontade que a Luciana tinha de ser igual à mãe impediu-a de conseguir cumprir tal objetivo.
Em todos os lugares as pessoas diziam que a Luciana era a cópia em miniatura da dona Elisa. E não era para menos: os olhos grandes e azuis, os cabelos louros, lisos e longos e a pele branca, um pouco mais clara do que leite, eram idênticas às da mãe. Isso sem falar no enrubescer ao gargalhar e no jeito delicado de morder uma bolacha salgada. Idênticos.
A Luciana queria tanto ser igual à mãe que um dia, quando a dona Elisa foi fazer uma visita rápida a uma amiga no hospital, decidiu passar um café quentinho para o pai, que voltava do trabalho todo dias às 17h45. Pequenina, a garotinha de sete anos teve problemas para alcançar o bule quente no fogão quando a água ferveu. Uma grande gota, quente e cruel, se desgarrou das demais e queimou a bochecha esquerda da Luciana.
A partir de então, ninguém nunca mais falou que a Luciana parecia com a dona Elisa. E não era para menos: a menina ficou com uma marca vermelha, do tamanho de uma cereja robusta, estampada no rosto. Para sempre. Não tirava a sua beleza, mas chamava a atenção de todos.
A menina entrou na adolescência tendo enrubescido poucas vezes ao gargalhar depois do fatídico acidente. Quando corava, ninguém percebia. Mas ela não se importava com o descaso alheio. Com o tempo, aprendeu a não ligar para muita coisa. Tanto não se importava com ações e pensamentos alheios que nunca teve crises existenciais. E olha que ela deu o primeiro beijo aos 15 anos de idade, dois anos depois que todas as suas melhores amigas. O primeiro beijo da Luciana, aliás, mereceria um capítulo à parte se um dia alguém resolvesse fazer uma biografia dela.
Tudo aconteceu em uma festa de 15 anos de idade de uma menina da sala. Todas as garotas tinham ido ao baile de debutante maquiadas como modelos. Só a Luciana não passou base, blush, sombra, batom... nada. As amigas achavam estranho. “Você bem que poderia esconder a sua... queimadura”, sugeriam hesitantes. “Não quero. Se um dia alguém gostar de mim, vai ser por causa da beleza interna”, rebatia. A Luciana, para falar a verdade, adorava quando ouvia coisas assim na tevê. E chorava quando via filmes sobre o tema.
Enfim. Sem maquiagem e apenas com seu jeito cativante, Luciana deu seu primeiro beijo na tal festa. O Leandro, um dos meninos mais populares do segundo ano, se aproximou dela. Conversou com a garota como ninguém nunca dantes o havia feito. Luciana, por sua vez, sentiu algo que jamais havia sentido. E, durante o beijo, ela percebeu que ruborizou.
O Leandro não ligou para a Luciana no dia seguinte. Na segunda-feira no colégio, passou pela menina e nem sequer olhou para ela. As amigas explicaram: “Ele estava bêbado, Lu. E nem deve se lembrar. Você não percebeu?”. A Luciana não chorou ao saber. Também não odiou o Leandro. Apenas tentou esquecer. Conseguiu, mas com um trauma: jamais colocou uma gota de álcool na boca.
No geral, a Luciana não se abalou com o que aconteceu. Tanto que no mês seguinte conheceu o Ricardo, um garoto que havia se mudado para a casa da frente. Começaram a namorar dois meses depois.
Hoje, 12 anos depois do primeiro beijo entre os dois, o Ricardo pediu a Luciana em noivado. Antes de fazer o pedido, escreveu um poema bastante pueril, mas bonitinho, que arrancou algumas lágrimas da moça.
A causa do pranto? Uns versos que sequer tinham rima, mas que significaram muito para Luciana. Não vou conseguir transcrevê-los aqui, mas era algo como "Esqueço meu nome, esqueço o mundo e viajo para um mundo a parte quando te beijo / Mas nesse meu universo paralelo, sempre sinto que meu rosto está ficando vermelho".
Em todos os lugares as pessoas diziam que a Luciana era a cópia em miniatura da dona Elisa. E não era para menos: os olhos grandes e azuis, os cabelos louros, lisos e longos e a pele branca, um pouco mais clara do que leite, eram idênticas às da mãe. Isso sem falar no enrubescer ao gargalhar e no jeito delicado de morder uma bolacha salgada. Idênticos.
A Luciana queria tanto ser igual à mãe que um dia, quando a dona Elisa foi fazer uma visita rápida a uma amiga no hospital, decidiu passar um café quentinho para o pai, que voltava do trabalho todo dias às 17h45. Pequenina, a garotinha de sete anos teve problemas para alcançar o bule quente no fogão quando a água ferveu. Uma grande gota, quente e cruel, se desgarrou das demais e queimou a bochecha esquerda da Luciana.
A partir de então, ninguém nunca mais falou que a Luciana parecia com a dona Elisa. E não era para menos: a menina ficou com uma marca vermelha, do tamanho de uma cereja robusta, estampada no rosto. Para sempre. Não tirava a sua beleza, mas chamava a atenção de todos.
A menina entrou na adolescência tendo enrubescido poucas vezes ao gargalhar depois do fatídico acidente. Quando corava, ninguém percebia. Mas ela não se importava com o descaso alheio. Com o tempo, aprendeu a não ligar para muita coisa. Tanto não se importava com ações e pensamentos alheios que nunca teve crises existenciais. E olha que ela deu o primeiro beijo aos 15 anos de idade, dois anos depois que todas as suas melhores amigas. O primeiro beijo da Luciana, aliás, mereceria um capítulo à parte se um dia alguém resolvesse fazer uma biografia dela.
Tudo aconteceu em uma festa de 15 anos de idade de uma menina da sala. Todas as garotas tinham ido ao baile de debutante maquiadas como modelos. Só a Luciana não passou base, blush, sombra, batom... nada. As amigas achavam estranho. “Você bem que poderia esconder a sua... queimadura”, sugeriam hesitantes. “Não quero. Se um dia alguém gostar de mim, vai ser por causa da beleza interna”, rebatia. A Luciana, para falar a verdade, adorava quando ouvia coisas assim na tevê. E chorava quando via filmes sobre o tema.
Enfim. Sem maquiagem e apenas com seu jeito cativante, Luciana deu seu primeiro beijo na tal festa. O Leandro, um dos meninos mais populares do segundo ano, se aproximou dela. Conversou com a garota como ninguém nunca dantes o havia feito. Luciana, por sua vez, sentiu algo que jamais havia sentido. E, durante o beijo, ela percebeu que ruborizou.
O Leandro não ligou para a Luciana no dia seguinte. Na segunda-feira no colégio, passou pela menina e nem sequer olhou para ela. As amigas explicaram: “Ele estava bêbado, Lu. E nem deve se lembrar. Você não percebeu?”. A Luciana não chorou ao saber. Também não odiou o Leandro. Apenas tentou esquecer. Conseguiu, mas com um trauma: jamais colocou uma gota de álcool na boca.
No geral, a Luciana não se abalou com o que aconteceu. Tanto que no mês seguinte conheceu o Ricardo, um garoto que havia se mudado para a casa da frente. Começaram a namorar dois meses depois.
Hoje, 12 anos depois do primeiro beijo entre os dois, o Ricardo pediu a Luciana em noivado. Antes de fazer o pedido, escreveu um poema bastante pueril, mas bonitinho, que arrancou algumas lágrimas da moça.
A causa do pranto? Uns versos que sequer tinham rima, mas que significaram muito para Luciana. Não vou conseguir transcrevê-los aqui, mas era algo como "Esqueço meu nome, esqueço o mundo e viajo para um mundo a parte quando te beijo / Mas nesse meu universo paralelo, sempre sinto que meu rosto está ficando vermelho".
domingo, 21 de outubro de 2007
Leitura dinâmica
Tem dias em que você acorda com uma vontade enorme de ler. Poderia até devorar um livro de 468 páginas fazendo apenas uma pausa para tomar um copo d’água e outro para atender o telefone.
Em dias assim é difícil de se focar em apenas uma leitura. Você começa com o jornal e passa por vários blogs. Depois de ler vários arquivos dos blogs, fuça pelos favoritos de algumas páginas até encontrar textos tão bons a ponto de serem lidos durante muito tempo.
Acordar e ter vontade de ler é uma das coisas mais divertidas que há. Mas depois de realizar todas as suas leituras espontâneas, você se lembra de que precisa ler aquele texto de 50 páginas para a prova de amanhã da faculdade.
O tema de economia é importante para a sociedade, mas não convidativo para vpcê. Nem um pouco. Mas a vontade de ler algo é tamanha que talvez não seja tão complicado assim. Não custa nada tentar.
Então você deita na cama, acende os abajures e começa pelo título. “Dados macroeconômicos da economia brasileira”. Bom, o primeiro passo já foi dado. Faltam apenas 500. E... olha, tem uma tabela... menos trabalho ainda! Vai ser fácil!
“Os dados da tabela acima contam em números a história da economia brasileira...”. Hum, hoje à noite talvez tenha alguma coisa para fazer. Puts, tem a final da Copa do Mundo de rúgbi à tarde!... “Essa história é importante para visualizar o que poderia acontecer se uma política de crescimento fosse implementada para...”. África do Sul ou Inglaterra? Depende. O Jonny Wilkinson vai estar inspirado? Se não, acho que a África do Sul leva. Não, voltando. Onde eu parei? Ah, no título.
“Os dados da tabela acima...”, ué, acho que eu já li isso. Ah, verdade. Ia começar o segundo parágrafo. “O câmbio era controlado pelo Banco Central que desvalorizava o real cerca de ...”. Ei, por que não está escrito Real, em caixa alta?.......... ah, onde eu parei? “A taxa overnight (SELIC) de juros, que flutuava ao redor de 1,65% ao mês (17% ao ano) até outubro, subiu para 3,04% ao mês (43,34% ao ano) em novembro e para 2,97% ao mês (42,1% ao ano)...”. Será que eu vou ter que decorar tudo isso? Por que tanto número?... E será que se eu multiplicar os números menores por 12 vai dar o número maior? Ah, faz de conta que sim, vai.
Então você se levanta. Abre a janela, respira um pouco. Vai à cozinha, toma um copo d’água. Mais um. E mais um. E volta determinado para a leitura.
“A desvalorização do real ficou em apenas...”. De novo em caixa baixa? “... real ficou em apenas 8,26% e a inflação ficou em nível mínimo de 2,49% ....................................”
Ahn? Ah... Inflação... inflação... cadê inflação? Ah, achei.
“... inflação foi um crescimento nulo (0,13% do PIB) e um... um... ... ... um ....................................”
“..................................................”
“..................................................”
Então você dorme. E se esquece de tudo. Até de que sabe ler.
Em dias assim é difícil de se focar em apenas uma leitura. Você começa com o jornal e passa por vários blogs. Depois de ler vários arquivos dos blogs, fuça pelos favoritos de algumas páginas até encontrar textos tão bons a ponto de serem lidos durante muito tempo.
Acordar e ter vontade de ler é uma das coisas mais divertidas que há. Mas depois de realizar todas as suas leituras espontâneas, você se lembra de que precisa ler aquele texto de 50 páginas para a prova de amanhã da faculdade.
O tema de economia é importante para a sociedade, mas não convidativo para vpcê. Nem um pouco. Mas a vontade de ler algo é tamanha que talvez não seja tão complicado assim. Não custa nada tentar.
Então você deita na cama, acende os abajures e começa pelo título. “Dados macroeconômicos da economia brasileira”. Bom, o primeiro passo já foi dado. Faltam apenas 500. E... olha, tem uma tabela... menos trabalho ainda! Vai ser fácil!
“Os dados da tabela acima contam em números a história da economia brasileira...”. Hum, hoje à noite talvez tenha alguma coisa para fazer. Puts, tem a final da Copa do Mundo de rúgbi à tarde!... “Essa história é importante para visualizar o que poderia acontecer se uma política de crescimento fosse implementada para...”. África do Sul ou Inglaterra? Depende. O Jonny Wilkinson vai estar inspirado? Se não, acho que a África do Sul leva. Não, voltando. Onde eu parei? Ah, no título.
“Os dados da tabela acima...”, ué, acho que eu já li isso. Ah, verdade. Ia começar o segundo parágrafo. “O câmbio era controlado pelo Banco Central que desvalorizava o real cerca de ...”. Ei, por que não está escrito Real, em caixa alta?.......... ah, onde eu parei? “A taxa overnight (SELIC) de juros, que flutuava ao redor de 1,65% ao mês (17% ao ano) até outubro, subiu para 3,04% ao mês (43,34% ao ano) em novembro e para 2,97% ao mês (42,1% ao ano)...”. Será que eu vou ter que decorar tudo isso? Por que tanto número?... E será que se eu multiplicar os números menores por 12 vai dar o número maior? Ah, faz de conta que sim, vai.
Então você se levanta. Abre a janela, respira um pouco. Vai à cozinha, toma um copo d’água. Mais um. E mais um. E volta determinado para a leitura.
“A desvalorização do real ficou em apenas...”. De novo em caixa baixa? “... real ficou em apenas 8,26% e a inflação ficou em nível mínimo de 2,49% ....................................”
Ahn? Ah... Inflação... inflação... cadê inflação? Ah, achei.
“... inflação foi um crescimento nulo (0,13% do PIB) e um... um... ... ... um ....................................”
“..................................................”
“..................................................”
Então você dorme. E se esquece de tudo. Até de que sabe ler.
sábado, 20 de outubro de 2007
Sobre álcool e traições
Já ouviu falar na história do Ângelo?
Tudo bem, não são muitas as pessoas que conhecem. Nem mesmo o próprio Ângelo conhece. Afinal, quem é o Ângelo?
Bom... o Ângelo era um cara sensível. Inocente em muitos casos. Ou quase todos.
Para se ter uma idéia, quando era adolescente, ele se apaixonou por uma menina do mesmo bairro em que morava. Na esperança de vê-la todos os dias, mudou o caminho de casa só para passar na casa dela. Acabou se acostumando, e faz o caminho até hoje. Mesmo sabendo que ela não mora mais naquela casa.
O Ângelo fazia muitos amigos. Não tinha problemas em conhecer as pessoas e nem em confiar nelas. Muitas vezes, contava muitas coisas de sua vida porque confiava cegamente nas pessoas. O Ângelo, você deve ter percebido, não era um cara normal.
Uma dia desses, o Ângelo estava voltando para casa quando decidiu alugar um filme para ver de madrugada. Escolheu uma comédia romântica italiana e continuou o trajeto. No meio do caminho, entretanto, encontrou um velho amigo e começaram a confabular. Decidiram parar em um bar para conversar sobre a vida, mas acabaram falando sobre mulheres. O Ângelo era um pouco diferente, mas nem tanto.
No bar, Ângelo tomou uma caipirinha. Claro, levantou para ir embora e percebeu que estava meio bêbado. Mesmo assim, pegou o trem no Brás com destino Estudantes. Quando o trem parou e abriu as portas, levou um susto ao ver uma garota que conhecia e tentou disfarçar. Acabou entrando na porta ao lado e tentou não ser visto.
Quando as portas se fecharam à sua frente, percebeu que poderia espiar a garota pelo reflexo do vidro. Mesmo assim, abriu um livro em uma página qualquer e fingiu ler, enquanto espiava a menina se engraçar com um amigo.
Sentindo-se um detetive, Ângelo ficou de olho na menina, que se abraçava ao outro cara. O outro rapaz, aliás, tentava a todo momento dar um beijo na menina. Ela dava um sorriso, desviava o rosto... e os dois ficaram nisso durante algumas estações. Algumas. Quando chegaram à estação Suzano, Ângelo viu uma mão em uma nuca, um braço em um ombro, duas cabeças ritmadas. Um beijo? Um beijo...
Ângelo sentiu um aperto no coração. A garota, noiva de um amigo, estava beijando um cara no trem.
Ângelo desceu duas estações depois e voltou para casa perturbado. Sentia-se na obrigação de ligar para o amigo e contar tudo o que tinha acontecido. Pensou em como explicar a situação. Seria complicado.
A dúvida corroía o pensamento de Ângelo quando ele abriu o portão de casa. No mesmo instante em que girou a maçaneta da porta da casa, acabou se esquecendo do mundo. Seu pai, imediatamente, deu-lhe um abraço. Era gol do Brasil, que ganhava o campeonato. Que campeonato? Que importa!?
Ângelo e o pai comemoraram. Tomaram uma, duas, cinco caipirinhas.
Ângelo acordou no dia seguinte de ressaca. Não sabia como tinha chegado em casa e nem como tinha colocado o pijama antes de dormir.
A única coisa de que se lembrava era o título do Brasil.
Tudo bem, não são muitas as pessoas que conhecem. Nem mesmo o próprio Ângelo conhece. Afinal, quem é o Ângelo?
Bom... o Ângelo era um cara sensível. Inocente em muitos casos. Ou quase todos.
Para se ter uma idéia, quando era adolescente, ele se apaixonou por uma menina do mesmo bairro em que morava. Na esperança de vê-la todos os dias, mudou o caminho de casa só para passar na casa dela. Acabou se acostumando, e faz o caminho até hoje. Mesmo sabendo que ela não mora mais naquela casa.
O Ângelo fazia muitos amigos. Não tinha problemas em conhecer as pessoas e nem em confiar nelas. Muitas vezes, contava muitas coisas de sua vida porque confiava cegamente nas pessoas. O Ângelo, você deve ter percebido, não era um cara normal.
Uma dia desses, o Ângelo estava voltando para casa quando decidiu alugar um filme para ver de madrugada. Escolheu uma comédia romântica italiana e continuou o trajeto. No meio do caminho, entretanto, encontrou um velho amigo e começaram a confabular. Decidiram parar em um bar para conversar sobre a vida, mas acabaram falando sobre mulheres. O Ângelo era um pouco diferente, mas nem tanto.
No bar, Ângelo tomou uma caipirinha. Claro, levantou para ir embora e percebeu que estava meio bêbado. Mesmo assim, pegou o trem no Brás com destino Estudantes. Quando o trem parou e abriu as portas, levou um susto ao ver uma garota que conhecia e tentou disfarçar. Acabou entrando na porta ao lado e tentou não ser visto.
Quando as portas se fecharam à sua frente, percebeu que poderia espiar a garota pelo reflexo do vidro. Mesmo assim, abriu um livro em uma página qualquer e fingiu ler, enquanto espiava a menina se engraçar com um amigo.
Sentindo-se um detetive, Ângelo ficou de olho na menina, que se abraçava ao outro cara. O outro rapaz, aliás, tentava a todo momento dar um beijo na menina. Ela dava um sorriso, desviava o rosto... e os dois ficaram nisso durante algumas estações. Algumas. Quando chegaram à estação Suzano, Ângelo viu uma mão em uma nuca, um braço em um ombro, duas cabeças ritmadas. Um beijo? Um beijo...
Ângelo sentiu um aperto no coração. A garota, noiva de um amigo, estava beijando um cara no trem.
Ângelo desceu duas estações depois e voltou para casa perturbado. Sentia-se na obrigação de ligar para o amigo e contar tudo o que tinha acontecido. Pensou em como explicar a situação. Seria complicado.
A dúvida corroía o pensamento de Ângelo quando ele abriu o portão de casa. No mesmo instante em que girou a maçaneta da porta da casa, acabou se esquecendo do mundo. Seu pai, imediatamente, deu-lhe um abraço. Era gol do Brasil, que ganhava o campeonato. Que campeonato? Que importa!?
Ângelo e o pai comemoraram. Tomaram uma, duas, cinco caipirinhas.
Ângelo acordou no dia seguinte de ressaca. Não sabia como tinha chegado em casa e nem como tinha colocado o pijama antes de dormir.
A única coisa de que se lembrava era o título do Brasil.
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