quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Encontros

Uns quatro meses atrás, se não mais, encontrei uma velha amiga no metrô. Na bem da verdade, não se tratava de uma amiga que eu não via há certo tempo, mas sim de uma antiga paixão dos tempos de colégio, com quem eu não me encontrava desde o dia da formatura, há quase três anos.

Naquele dia havia sonhado com ela, um sonho um bocado esquisito de que eu não me lembro mais. Coincidentemente, havia saído mais cedo do trabalho naquele dia, todos os semáforos ficaram vermelhos quando eu ia atravessar, o metrô na linha verde demorou mais do que o normal para chegar.

Fiz baldeação e esperei no primeiro vagão na plataforma da Ana Rosa. Olhei no relógio, fiz alguns cálculos rápidos e percebi que poderia encontrar ocasionalmente com aquela velha paixão, que saía do cursinho por volta daquele horário. O trem chegou, espiei rapidamente na janela do primeiro vagão e vi muitas mochilas e roupas coloridas. Gente de cursinho. Então optei pelo segundo.

Estava meio sonolento, e só acordei de verdade quando as portas se fecharam e quase deixaram minha mochila do lado de fora. Acabei me encostando nas portas, que só se abririam novamente no ponto final, e passei a olhar com quem dividiria o vagão. Notei uma garota de roupa preta e cabelo louro, brilhante, intenso. Um pouco mais baixa que eu e estava de costas. Olhei melhor e pensei que... que talvez fosse aquela garota dos tempos de colégio. Difícil. Pelo que me lembrava dela, tínhamos o mesmo tamanho e o louro do cabelo dela era lindo, mas não tinha tanto brilho. Nem quando voltávamos juntos para casa sob o sol das 13 horas.

Dei dois passos e percebi que era ela. Meu coração não deu um salto e ela não me viu. Pensei em fingir não ter visto nada, mas como não me encontrava com ela há quase dois anos e meio, parei para matar as saudades. Cutuquei seu ombro. Ela me olhou e demorou alguns décimos de segundo para se lembrar de mim. Lembrou. Deu um sorriso, falou oi. Arrisquei um abraço. Em vão.

Começamos a conversar. Ela disse que estava estressada por causa do cursinho, que estava estudando quase o tempo todo, que estava fazendo aulas práticas pra tirar habilitação. Contou que ia prestar não sei quantos vestibulares para medicina, que desta vez iria passar e... e essas coisas. E perguntou como eu estava.

Contei que estava trabalhando e estudando, que só voltava para casa para dormir e que quase nunca dormia mais do que seis horas por dia. Ela não pareceu se comover. Reclamou que tinha aula de redação aos sábados de manhã. Contei que eu trabalhava sábados e domingos sem muito horário definido. Às vezes muito cedo, às vezes até muito tarde. “Pelo menos você faz o que gosta”, redargüiu, da mesma forma que as pessoas que ainda não entraram na faculdade ou que ainda não trabalham costumam responder.

Trocamos mais algumas palavras sem muita intensidade. Ela falou que o pessoal da sala precisava se reunir, que não via muita gente há muito tempo. Coisas assim. Tentei puxar alguns outros assuntos sobre nada, que ela respondia sem muita intensidade. Até que chegou a estação em que ela sempre descia e nos despedimos. Ela deu a bochecha para eu beijar. Virei o rosto o quanto pude e, em vez de beijar-lhe as bochechas, fiz com que elas se chocassem. Sem beijos, sem nada. Desta vez não arrisquei um abraço.

As portas se fecharam e a gente não se viu mais. E me arrependi por ter tentado falar tantas coisas a troco de nada: havia operado a língua três dias atrás e, a cada palavra que eu dizia, sentia dores incríveis. Deveria ter me calado.

...

Hoje estava indo para o trabalho à tarde, pouco depois da hora do almoço. Havia almoçado em casa, algo que não costumo fazer desde que comecei a trabalhar. Não sei por que, mas senti que estava com preguiça de encarar o self service.

Quando fiz baldeação para a linha verde, me encostei na porta do vagão, que só se abriria novamente quando eu chegasse ao meu destino. Reabri o livro e voltei a ler, sem a vontade de ser incomodado. Li algumas linhas até que o trem abriu as portas na estação seguinte e ficou abarrotado de gente. Levantei a cabeça, olhei para um lado, para o outro e voltei ao livro.

No segundo seguinte, voltei a olhar para uma garota de roupa branca e cabelos castanhos, talvez pretos, sem um brilho estonteante, mas cujo rosto me pareceu estranhamente familiar. Olhei uma vez, olhei duas vezes, olhei três vezes. Olhei umas cinco vezes. Ela olhou para mim uma vez e desviou o olhar. Olhou duas, três, quatro vezes e deu um sorriso. Fechei o livro e me aproximei.

Não era uma paixão antiga e nem uma velha amiga. Era apenas uma garota, amiga de um amigo meu, com quem eu me encontrei ocasionalmente umas duas ou três vezes três anos atrás. Não nos víamos desde então e não havia sonhado com ela nos últimos 19 anos.

Assim que cheguei perto dela, retribuí o sorriso. Ela se levantou e me deu um abraço. Não falei muito da minha vida e ela não contou muito da dela. Mesmo assim, conversamos bastante em três estações de metrô. E poderíamos ter conversado muito mais se eu não tivesse percebido que já havia passado pela estação em que eu desceria e fui uma para frente. Percebi isso e comecei a me despedir. Ela se levantou e me deu mais um abraço. Falei em seu ouvido que aquele cara engraçado que estava ao lado dela havia sido meu professor de química no colegial. Ela deu risada. Eu também. E enfim nos despedimos.

Talvez não nos vejamos novamente. Ou talvez nos vejamos novamente daqui uns 15 ou 20 anos, na fila do supermercado ou na porta da escola de nossos filhos. Não sei. Mas desta vez não me arrependi, como aconteceu com a paixão antiga.

Incrível como encontros completamente ocasionais são mais divertidos do que aqueles que você sente que vão acontecer.

E incrível como uma demonstração de afeto, como um abraço, faz tanta diferença.

Um comentário:

Túlio disse...

Ótimo texto.