sábado, 22 de dezembro de 2007

Homem de negócios

Confesso que não sou um dos melhores torcedores em estádios. Prefiro muito mais sentar em algum lugar mais tranqüilo das arquibancadas e assistir ao jogo tranqüilamente a ficar no meio das torcidas organizadas gritando que nem um maluco.

Nada contra as manifestações de arquibancada: até acho algumas muito, muito boas (de outras torcidas, já que a do Palmeiras é uma das coisas mais bizarras do mundo dada a rivalidade imbecil entre uma facção e outra). Só acho que o meu grito não vai ser o fator-chave para o jogador acertar um lançamento, o time fazer um gol... esas coisas. A não ser quando tomo uma cerveja ou outra antes de entrar no estádio.

Para falar a verdade, nunca achei que poderia mudar o rumo de um time de futebol. Até uma manhã de sábado, em um dia que, assim como todos os outros do mês de dezembro, as notícias esportivas praticamente não existem.

Sozinho na redação, tinha à minha frente apenas um copo de café e uma pauta: NBA, Superliga (masculina e feminina), Campeonato Inglês e outros esportes. Antes de começar com a Liga Norte-americana de Basquete, porém, dou uma geral nos concorrentes. Em um deles, uma bomba: o Corinthians estava perto de contratar um atacante. Uau!

Deixei de lado o massacre do Boston Celtics e tentei ligar para alguns empresários envolvidos na negociação. Consigo falar com o primeiro logo de cara. Um cara bem educado para os meios futebolísticos, diga-se. Após confirmar o negócio entre Timão e jogador argentino, uma pergunta. "Você tem o telefone de algum diretor do Palmeiras?". Respondi que sim e perguntei de qual ele queria. "O que manda mais". Pensei alguns átimos de segundo. "Pode ser do Cipullo?". "Pode, pode sim".

Eu nem precisei perguntar por que o empresário queria o telefone: ele mesmo já me explicou. "É que eu vou oferecer agora um jogador pra eles". Hummm... quem?. "É o lateral-direito fulano de tal. Mas ó, não fala nada ainda que senão pode melar o negócio. Eu te ligo daqui a pouco e te falo o que rolou, combinado?". Combinado.

Ao desligar o telefone, no entanto, alguns pensamentos passam pela minha cabeça. Eu poderia noticiar que o lateral-direito fulano de tal seria oferecido ao Palmeiras. Seria o primeiro jornalista do Brasil a cravar a notícia. Os outros sites repercutiriam o caso, assim como os jornais, os programas de rádio e de televisão...

Isso faria com que o nome de Palmeiras e do tal jogador ficassem em evidência na mídia. "Por obrigação" o clube poderia contratar o atleta e eu ser um dos principais responsáveis pelo acerto. Com a camisa 2, ele poderia se tornar um dos melhores jogadores da história da equipe, conquistar títulos e mais títulos. Ganharia um ou dois bustos no Parque Antártica. E, em reconhecimento pela influência na oferta, eu poderia até conseguir uns trocados de bonificação.

Ou então... com o nome em destaque e cotado para acertar com o Palmeiras, o jogador passaria a ser assediado por outras equipes. Concorrência aberta. Cifras cada vez maiores. Um acerto milhonário. Em reconhecimento, o empresário poderia até me dar, sei lá, 1% do valor do negócio como um "muito obrigado". Certamente seria muito mais do que os meus rendimentos de um decênio somados.

Mas por outro lado... uma notícia prematura poderia melar todo o negócio com o Palmeiras. E com várias outras equipes. O jogador perderia o espaço no cenário nacional e internacional, voltaria para sua terra de origem e não teria um contrato legal. Sua família passaria por necessidades... coisas assim. Ou então o empresário poderia me culpar por ter atrapalhado a negociação e... talvez até me processasse. Pediria uma indenização milhonária, que mesmo se eu trabalhasse intensamente durante um decênio seria sanada.

O que eu fiz? Parei de pensar e fiz a notícia do tal jogo do Boston Celtics. Melhor assim: não sou bom em negócios. Além disso, parece que o Palmeiras não se interessou muito pelo tal jogador e o negócio não saiu. Melhor ainda: ele nem era tão bom assim.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Injustiça literária

O discurso não é novo: a arte de escrever, embora seja considerado por muitos uma arte, não paga contas. Ou pelo menos não a da maioria dos escritores.

Os motivos são bem simples, e o principal deles é que o Brasil não possui uma cultura de leitura de livros. Ainda mais em um mundo como o de hoje em dia, em que há televisão a cabo com 150 canais, Internet com muito mais do que 1.001 utilidades.

Por conta disso também se cai no princípio básico da economia (e o único que eu sei): quanto maior a demanda, maior é a oferta e menor é o preço. Mas se a demanda for pequena, a oferta também o será. E o preço... ah, o preço vai aumentar. E a demanda vai continuar baixa.

Da última vez em que me informei sobre o preço para o lançamento de um livro (e isso foi em 2003, por aí), era algo em torno de R$ 10 mil o milhar de exemplares, se não me engano, em uma editora chinfrim. Tenho medo de pensar o valor hoje em dia...

Mas recentemente tive mais uma prova de que o crime, digo, a escrita não compensa. Em uma rápida passagem pela Fnac, encontrei em uma pilha meio jogada um dos livros com o qual eu flertava há algum tempo: Don Quijote de la Mancha, edição comemorativa do IV Centenário da Academia Espanhola, capa dura, 1.235 páginas de história e mais 101 de prefácios. Ao que tudo indica, importada.

Um extraterrestre talvez imaginasse a fortuna que R$ 28 representariam se passasse o código de barras do livro de Cervantes no leitor ótico. Eu, que ‘ganho’ aproximadamente esse valor por dia, achei exatamente o contrário. E não pude deixar essa chance passar.

Na fila do caixa, porém, me deparei com uma outra obra – talvez um marco da literatura mundial. História para pais, filhos e netos, do Paulo Coelho. Capa mole, 304 páginas. Tudo isso pela bagatela de R$ 42. Isso mesmo: apenas 14 pratas a mais em relação ao Dom Quixote.

Fiz algumas contas rápidas. O livro do Cervantes me custaria 28 reais por 1.336 páginas. Depois da sessão ‘Regra de três, pra que te quero?’, a relação desejada: R$ 0,02/página. Dois centavos por página! O do PC, pouco menos dos que R$ 0,14/página. Sete vezes a mais do que o Dom Quixote.

Não digo que a solução deveria ser aumentar o preço da história do famoso fidalgo para, sei lá, R$ 590; mas sim baixar o valor dos demais. Até porque... nada contra o Paulo Coelho, mas é um exagero qualquer livro dele ser, em números relativos, sete vezes mais caro do que um marco da literatura mundial.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Inseguranças e alívios

Não foram muitas mulheres que nos últimos 19 anos receberam flores enviadas por mim. Tudo isso por uma série de motivos que não vem ao caso agora. Nas poucas vezes que enviei, porém, a mesma história se repetiu. As únicas coisas que eram invariavelmente diferentes eram a floricultura e o funcionário. Sempre.

O resto nunca muda. Passo dias procurando alguma floricultura perto dos lugares que eu costumo freqüentar. Alguma das minhas duas casas, colégio, faculdade, trabalho... casa de quem receberá as flores. É uma escolha complicada, feita apenas na última hora.

Antes de definir a floricultura, aliás, tenho inúmeros pensamentos de deixar tudo isso de lado e trocar as flores por um ingresso de cinema. É muito mais fácil. Já cheguei também a consultar floriculturas online e colocar algumas flores na cesta. Claro que sempre mudo de idéia antes de fazer tal bobagem.

Mas depois que escolho a loja cujas flores presentearão amiga, paquera ou mãe, me dirijo ao local. Entro na loja, começo a observar alguns arranjos ou vasos na vã tentativa de mostrar que sei exatamente o que vou pedir. Até que me atendem e a minha farsa é revelada. “Posso ajudar?”, o vendedor (ou vendedora) pergunta. E eu já deixo claro que praticamente nem sei o que estava fazendo e que queria apenas tal arranjo de flores.

O funcionário da floricultura às vezes pergunta para quem são as flores e, após ouvir a minha resposta, recomenda alguns cartões. E pede para que eu escreva a dedicatória enquanto ele (ou ela) faz a anotação burocrática do meu pedido.

Os cartões de floriculturas são extremamente cruéis para mim, uma pessoa que tem sérios problemas em passar uma mensagem em poucas palavras (vide o tamanho dos posts deste blog). Passo alguns minutos olhando profundamente o cartãozinho, a caneta (que é intimadora, pois significa que um erro é fatal) e o meu rosto no espelho até que uma idéia vem à mente. Escrevo-a rapidamente, fecho o envelope e entrego para o florista.

Pago a encomenda e saio da loja imaginando a cara de surpresa que a destinatária fará. Será que ela vai gostar? O que vai achar? E... e a família dela, será que vai pensar. Aliás, será que ela vai receber? E a mensagem que eu escrevi? Tudo isso, é claro, apenas evidencia a insegurança deste que vos escreve.

Minha paranóia textual acaba tomando conta do caso. Lembro que coloquei uma vírgula aqui ou acolá na curta mensagem. “Se ela perceber isso, pode entender tudo diferente. Pode até se zangar. Putz, e aquele verbo? Era no presente ou no pretérito perfeito do subjuntivo ? Os sentidos também podem ficar diferentes. Putz, que merda que eu fiz!”. E fico com isso na cabeça durante algumas horas.

Até que as flores são enviadas e a destinatária em questão (ou alguém muito próximo a ela e a mim) me notifica. “Adorei as flores! E o cartão, nossa, que cartão! Obrigada!”. E respiro aliviado. “Ela não percebeu aquela vírgula e nem o tempo do subjuntivo. Que sorte!”.

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Hierarquia

Uma coisa que está implícita no convício social: os lugares no carro determinam hierarquicamente quem é quem em um grupo de amigos ou até mesmo em uma família. É algo tão inerente ao ser humano que quase ninguém percebe isso hoje em dia. Ou, se nota, não dá a devida importância.

No banco do motorista sempre senta o motorista, obviamente. E, curiosamente, a pessoa que dirige é geralmente aquela mais segura de si, dos seus atos e de suas palavras. Até porque é preciso um bocado de autoconfiança para dirigir em uma cidade caótica como São Paulo.

Ao lado do condutor, no banco do passageiro, vai sempre aquele ser que possui mais afinidade com a figura principal do veículo. Esposa, marido, namorada, namorado, melhor amigo ou amiga. Sempre. E os bancos de trás ficam relegados às pessoas que, teoricamente, são os coadjuvantes do relacionamento.

Em uma família isso é bem claro: os pais ocupam os bancos da frente e os filhos vão atrás. Na ausência de um dos chefes da família, o banco da frente é geralmente assumido pelo filho mais velho. Eu, por exemplo, não me sinto nada bem vendo meu irmão mais novo no banco da frente ao lado da minha mãe. Nada de ciúme bobo ou algo do tipo, mas apenas nível hierárquico: primogênitos na frente, oras.

Em um círculo de amigos também. O dono do banco do passageiro é sempre a namorada (ou namorado) do motorista (ou da motorista). Se não há um par afetivo na história, o melhor amigo (ou amiga) assume o posto. Em muitos casos há uma amizade bastante intensa e um outro tipo de relação. Costuma-se, assim, haver um rodízio. Que muitas vezes não é combinado, faz apenas parte da intuição de cada um.

Assim também é possível perceber o quanto você está em alta com seus amigos. Se você vai na frente com relativa freqüência, parabéns. Caso haja um revezamento justo, melhor ainda: são todos bem amigos. Só que se você já está acostumado a conversar com as pessoas da frente apenas olhando pelo retrovisor, tome cuidado... seu moral não está muito alto. E se você for o dono do carro, relaxe: sempre haverá alguém para andar ao seu lado.

São raras as pessoas que fogem à regra e abrem mão de seu nível hierárquico (o que apenas reflete uma das características humanas: quem abre mão do poder?). Eu já me arrisquei a mudar de ‘posição social’ voluntariamente algumas vezes anos atrás: quando um amigo mais velho, que já dirigia, se propunha a dar carona a algumas de minhas paqueras para casa.

Muitas vezes deixava de ir na frente para fazer companhia às garotas no banco de trás. Não dava muito certo: a mudança social abrupta assustava-as, e muitas vezes achavam que eu estava profundamente apaixonado, a ponto de abrir mão do lugar de direito do carro. Um erro fatal para inocentes relacionamentos juvenis.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Relações trabalhistas

Cada pessoa tem um hábito diferente quando chega ao trabalho.

Tem alguns que chegam e fazem questão de cumprimentar um por um. Há também aqueles que apenas fazem uma saudação coletiva, enquanto ainda tem um ou outro que passa reto por todo mundo e senta no seu espaço reservado sem falar um a sequer.

Na hora de ir embora também. Tem os que vão de mesa em mesa falar até logo, alguns que dizem um tchau geral, outros só balbuciam alguma despedida aos que estão no caminho... e nem sempre os hábitos são os mesmos na hora de cumprimentar e despedir. Mas não é esse o mérito da questão.

É simples. Embora todos os funcionários tenham costumes diferentes ao saudar os companheiros de trabalho no início ou no final do expediente, uma coisa é comum a qualquer um: a pausa no trabalho para ir ao banheiro. As pessoas se tornam muito mais simpáticas... e cúmplices, talvez.

Nunca reparou? Pois preste atenção: você pode ter visto a pessoa uma, duas ou quarenta e nove vezes naquele dia. Ela pode até sentar ao seu lado e vocês conversaram o tempo todo. Mas se duas se encontram no caminho do banheiro, a reação é a mesma para qualquer outra pessoa: um levantar de sobrancelhas, um sorriso e algum comentário. Ou talvez um apelido inventado às pressas: “Opa! E aí, campeão!”. Um que está na moda, por motivos óbvios, é este: “Ê, curintia! (que tem também a variante ‘Ê, segunda!’)”

Não interessa se você já o viu durante seis horas de expediente, passou a hora do almoço com o indivíduo ou coisas do tipo. Está implícito em qualquer relação trabalhista que evitar uma saudação no caminho do banheiro é uma tremenda grosseria.

E por quê? Talvez porque muitas pessoas sejam cúmplices indo ao banheiro e essas saudações queiram apenas significar algo do tipo “É, eu também não estava com vontade de ir ao banheiro, mas precisava andar um pouco e respirar novos ares. Só não conta pro chefe”.

E se o encontro casual não acontece no caminho, mas no banheiro em si, sempre há algum assunto clássico. Algo do tipo elevador: “Calor, né?”, “Putz, tá foda hoje”. E, claro, um que está sendo bem usado nos sanitários e toaletes do mundo inteiro ultimamente é “E o Timão, hein?”.

Nunca os assuntos são profundos – até porque... quem seria o indivíduo que começaria uma densa conversa na fila da pia do banheiro. A conclusão disso tudo? Golpes de Estado, partidos políticos ou qualquer revolução são coisas que jamais podem ser iniciadas com um encontro no toalete.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Recorte de jornal

(clicando na imagem ela fica maior, a ponto de ser lida)

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Limitações

Reza a lenda que eu não tinha muito mais do que três anos recém completados quando aprendi a ler. Até hoje não sei como tudo começou, mas meus familiares têm essa história na cabeça.

Alguns meses mais tarde já sabia rabiscar algumas letras em um papel. Tudo isso sem ir para a escola – lugar que eu passei a freqüentar apenas com quatro para cinco anos.

Aprendi a falar, ler e escrever relativamente cedo. Consegui criar uma estrutura mental bacana para hoje, a alguns meses dos 20 anos, ter uma paixão enorme por pensar, criar e... coisas assim – textualmente falando. Consigo me comunicar até que bem com as pessoas, tenho um diálogo interessante com quem me interessa, às vezes tenho idéias que acho muito, muito boas (e que nem sempre são assim de fato, diga-se)...

Enfim. Sinto que tenho uma pequena inteligência dentro de mim, em algum lugar bem obscuro que ainda não foi descoberto. Talvez isso tenha um pouco a ver com o fato de a linguagem estruturar o pensamento. Coisas que Noam Chomsky, Roland Barthes e LM Sá Martino podem explicar melhor.

Só que as coisas mudam um pouquinho se fizermos uma pequena alteração: o idioma. Percebi que se a minha suposta capacidade de pensamento e comunicação me satisfaz bastante em português, em outras línguas não é bem assim. E eu me sinto bastante (e bota bastante nisso) limitado tentando me expressar utilizando algo que não a última flor do Lácio.

Mesmo eu tendo feito inglês durante um tempo até que interessante e conseguido pegar um diploma que, dizem, me permitiria cursar qualquer universidade nos Estados Unidos, Inglaterra ou outro país de língua inglesa, não me comunico como gostaria. De vez em quando, especialmente na rua, tento pensar algumas coisas em inglês. Não é tão difícil, mas também não é tão fácil como em português.

E ultimamente tentei enviar um e-mail para um grande amigo que foi para Londres há alguns dias. Enquanto digitava, constatei algo: meu vocabulário para criar é algo muito mais do que restrito. O que é estranho, porque consigo entender livros, reportagens e textos em geral em inglês, além de filmes... Mas se estava acostumado a ter conversas bastante filosóficas e profundas com esse amigo, notei que em inglês não iríamos muito além do papo esporte-mulher-esporte-mulher-trabalho.

Em espanhol as coisas não são muito diferentes. Senti que tenho mais dificuldades ainda em castelhano do que em inglês quando fui bater um papo com um dirigente da Real Federação Espanhola de Tênis. Conseguimos ter um pouco de conversa. Entendia tudo o que ele me dizia, mas tinha extrema dificuldade para formular frases. E olha que as línguas são parecidas; e eu também não tenho dificuldade alguma em ler e entender textos e conversas em castelhano.

A conclusão disso tudo? Se em português consigo pensar algumas coisas e ter algumas idéias que nem toda a população tem, se vivesse em países como Espanha, Inglaterra, Chile ou Escócia talvez apenas me comunicasse precariamente. Na Holanda e na Bélgica, com meu nível ‘alfabetizando’ em holandês, talvez tivesse a capacidade de apenas sobreviver. Enquanto isso, em países como Alemanha, França, Suécia, Rússia, Japão e China, eu seria tão comunicativo como um arbusto.