segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Inversão de valores

Uma coisa que realmente me incomoda é você ter a sorte grande de encontrar um espaço no meio-fio onde seu carro se encaixa e, basta você desligar o motor, aparece um cara com boné e bigode ralo fazendo um jóia com a mão e prometendo dar a vida pelo veículo. Tudo, é claro, em troca de algum trocado assim que você sair de perto. Do contrário, ele mesmo será o primeiro a destruir sua lataria e amaldiçoar você e suas próximas oito gerações.

Fico bem de cara em dar as moedas. Olhando por certo ponto, não deixa de ser um assalto. Amigável, mas um assalto. Mesmo assim, acabei cedendo e até deixei algumas moedas no meu carro já para ter algum troco à mão na hora de parar meu carro na rua. Mas pouco disso realmente interessa em relação ao que vem pela frente.

Acontece que parei meu carro na sexta-feira em um canto da Praça Roosevelt para tomar algumas limonadas em um dos bares mais legais da cidade – o tal do Papo, Pinga e Petisco. Antes mesmo de estacionar, um tal cara de boné e bigode ralo já fez sinal de que protegeria meu carro até da chuva que estava por vir e eu apenas concordei.

Então saí do carro e ouvi os termos do contrato: “Cinco conto e tá beleza”, ele disse. Respondi que acertaríamos na volta e ele não aceitou. “É que eu vou comer um dog enquanto olho seu carro, patrão”. Argumentei que não tinha trocado ali na hora (o que era verdade), mas deveria ter umas duas pratas no carro (eu deveria ter mais, talvez os cinco) e depois completava o resto. Ele concordou, eu peguei umas quatro moedas e entreguei a ele.

Então, assim que acionei o alarme do meu carro, o tal do guardião por uma noite tentou ser simpático comigo. “Você é gente fina. Burguês, mas é gente fina”. Não dei muita atenção, mas... parando para pensar, não entendi patavinas do que ele disse. Quer dizer... ao pé da letra, não.

Quando eu estava no colégio, na sétima série o professor de História explicou o que era um burguês: aquele que detinha os meios de produção do seu trabalho. E eu... bom, no meu trabalho, eu não tenho o domínio de um site, não faço os reparos técnicos, não uso o meu próprio computador e nem me sento à minha cadeira. Eu seria burguês se tivesse tudo isso, e não só as canetas que uso para fazer rabiscos e anotações durante o expediente.

Na verdade, o burguês da conversa era ele mesmo. Mas é claro, oras. Uma vez que o serviço dele é guardar carros, ele só precisa dele mesmo para realizar o serviço. Outro meio de produção que ele pode usar é o colete verde-água, que... ele mesmo comprou. E depois ele iria comer o hot-dog com o meu dinheiro, em alguma barraquinha de um burguês – dono do pão, da salsicha, dos condimentos e da própria van.

Pensando bem, ele era o burguês da história. Mas é tão mais simples dizer que alguém em uma condição financeira melhor é ‘burguês’ que o real sentido da expressão já é perdido por aí. Ele chamaria de burguês um fazendeiro – que, na tal designação histórica, seria o produtor rural.

Mas quem sou eu para explicar a ele tudo isso? Sou apenas o mero proletário. Que nem dorme de meias para ser burguês...

2 comentários:

Bonie disse...

Ah, o mané era mó simpático, vai. Você deixou de lado as coisas mais importantes da conversa.

Tipo a parte de que tava chovendo, e que ele só toma banho quando chove.

Imagina só, com os dois reais que você deu pra ele (já que ele não esperou pra receber o resto), ele teve comida E banho na mesma noite. Não é o máximo?

Ele deve ter se sentido O burguês.

Mané, desempregado, disse...

Sim, o Mané era mó simpático mesmo. :)

Mas, pessoalmente, eu abomino essa raça chamada flanelinha. O que eles fazem é um misto de mendicância com coação. Não fazem porra nenhuma pelo seu carro, e ainda ameaçam destruí-lo se você não pagar o preço que eles pedem. Sim, eles cobram!

Digo isso porque, aqui em Prudente, tive meu carro atacado por um desses putos. Estacionei perto de uma balada e saí; quando voltei, o carro estava riscado (vai ficar uns 200 paus, assim que o funileiro tomar vergonha na cara e pegar o carro pra arrumar) e o merda do flanelinha nem sequer apareceu para cobrar.

Sério, eis uma categoria que eu espero que seja extinta por lei. Tá mais do que na hora de os estabelecimentos se responsabilizarem pelo carro dos seus freqüentadores.

O pior, no seu caso, é você pagar CINCO REAIS ao flanelinha que disse que ia comer enquanto olha o seu carro. Tá, enquanto isso, quem cuida do patrimônio?