sexta-feira, 4 de maio de 2007

Sobre a sanidade

Depois de completar 19 anos andando de metrô por São Paulo, percebi que, de uns tempos pra cá, um porrada de mendigos, loucos ou mendigos-loucos tem se aglomerado nas portas de quase todas as estações da cidade, de todas as linhas e em todas as zonas da cidade.

Eles sempre ficam lá, sentados em um canto, sozinhos, geralmente com os olhos presos na escada rolante ou no final da rua, como se estivessem esperando alguma coisa. Ou alguém, como todo mundo já fez um dia.

Há alguns anos, quando eu tinha meus 16 e marcava encontros com 'amigas' da minha idade, sempre fazíamos da porta do metrô o nosso ponto de encontro na tarde de sábado – ou às vezes de domingo, se a garota conseguia me tirar da rotina de nunca fazer nada no pior dia da semana.

Enfim, eu sempre chegava um bocado mais cedo do que o planejado e ficava lá olhando fixo, mas sem pensar em nada, para a escada rolante ou até mesmo para o final da rua (quando eu tentava disfarçar).

Nunca gostei de ficar esperando as pessoas na porta do metrô, até porque muitas vezes elas simplesmente não apareciam e nem ligavam para dar explicação. E muitas vezes eu ficava por lá, que nem um idiota, esperando por uma ou duas horas. Ou até mais, se a garota conseguia me tirar da rotina de nunca fazer nada no pior dia da semana e depois arranjava alguma coisa melhor para fazer.

Quando ela simplesmente arranjava alguma coisa melhor pra fazer, saía do metrô ligeiramente puto, mas gostava de passar no supermercado e comprar pelo menos uma lata de cerveja (da mais barata, para a auto-flagelação ter sentido) para ficar sentado em algum lugar, olhando para o nada. E depois, por mais que eu não quisesse, acabava ligando para a garota e combinando algum outro dia para sairmos. Com 16 anos, uma lata de Kaiser (geralmente quente. Auto-flagelação, lembra?) fazia um puta efeito efeito.

Algumas vezes também elas apareciam, mas a maioria das tardes era aquém do que eu planejava. Muitas vezes. E então restava apenas tentar esperar alguma outra pessoa na porta do metrô em algum outra tarde de sábado. Ou domingo, se a garota conseguia me tirar de nunca fazer nada no pior dia da semana. Às vezes conseguia, mas só de vez em quando.

Seja lá como for, fico imaginando o que os mendigos, loucos e mendigos-loucos ficam esperando todos os dias na porta do metrô, sempre com um olhar fixo. Alguns apenas se abrigam do frio da noite e do sereno e fazem de lá um quarto quente, mas tem aqueles que ficam dias sem sair de lá, sentados na mesma posição e olhando para o mesmo nada.

Talvez eles esperem por uma sanidade que nunca aparece. Ficam semanas lá esperando, até que um dia ela resolve dar as caras. Depois eles acabam vendo que estar com ela é terrivelmente chato e a dispensam. Em seguida se deprimem e tomam uma pinga para ter em que pensar e acabam querendo a sanidade de volta.

E continuam esperando.

3 comentários:

Dee disse...

Oi Fe! surpreso em me ver por aqui!?!? ahuiaohauihaiu
nha, ta foda da gente se falar esses dias neh... aih passei aqui pra dar uma olhadinha.. como sempre, curti mto esse texto..
é isso aí..
=*

Maira disse...

Helda, esse seu texto ficou MTO bom. A parte final ficou foda...gostei bastante =]
E eh bem isso aih mesmo neh. Quem diz q mendigo eh bebado pq eh vagabundo, nunca vai passar perto de tentar entender as agonias desses loucos, semi-loucos, ou enfim. Desses homens q jah se esqueceram (ou querem esquecer) do que são.

Bjos!

Lia disse...

eles esperam a sanidade, ou curtem ela (com tod a fixação desse mundo)?
e nós é que corremos atrás dela na nossa rotina frenética como-quem-não-pára-nunca e busca-algo.

beijos fe

saudades e é bom ver que voltou a escrever =]
depois me conta o que aconteceu de mudança