quarta-feira, 25 de abril de 2007

Almodóvar, meu amigo

De tantos e-mails que eu deixo estacionado na minha caixa de entradas, um dos meus preferidos é uma resposta automática da Football Administration and Management Enviroment, que aceitou as minhas justificativas e acabou me credenciando junto à Union of European Football Associations. E agora eu sou mais um dos que se importam com a contagem regressiva. Hoje, 408 days, 22 hours, 52 mins and some secs to go.

Pra quê? Não sei. Talvez para que eu possa viajar da Basiléia a Viena e tenha fotos que na verdade não são fotos, apenas alguns pixels que não existem, mas mostram um lugar que talvez exista. E para que, daqui 59 anos, eu esteja em uma praça jogando baralho com meus amigos de mesa falando sobre as minhas desventuras por não saber mais do que dizer ‘não’ em alemão.

Um dia, talvez, eu esteja nessa praça e meus amigos não estejam mais lá. Em todo caso, será um domingo de manhã e eu tenha saído de casa para ler o jornal sob o sol, mas com uma boina e com um casaco para não me resfriar – cuidados vitais a um ancião de 78 anos. Meus amigos não estarão lá porque preferiam ficar em casa com seus filhos e netos, sem falar nos amigos dos filhos e nos amigos dos netos.

Estarei na praça, lendo um jornal, quando um jovem talvez venha me pedir para devolver a bola. Dependendo do jovem, talvez ele sente ao meu lado no banco para amarrar o tênis. E aí eu puxaria algum assunto sobre futebol e ele falaria sobre o time que torce e qualquer coisa. Talvez até critique o técnico.

“Na minha época, tinha um técnico chamado Felipão, e foi um dos melhores que eu já vi. Falei com ele uma vez, quando viajei da Basiléia a Viena. Eu não tinha muito mais do que a sua idade, na época em tinha 19 anos”. Ele se interessaria pela conversa e eu deixaria as notícias – sempre mal feitas – de lado para contar a minha história, como eu sempre faço a qualquer pessoa. “Não sabe como foi divertido. Foi meio difícil porque eu sabia apenas dizer ‘Eu não sei’ em Alemão, porque eram palavras bem parecidas com Holandês (na verdade, ‘não’ em Alemão quer dizer ‘prima’ em Holandês). Tive que imitar animais para comer e tive que desenhar para conseguir me hospedar em um hotel”. E provavelmente inventaria alguma coisa que fizesse o garoto rir e prestar atenção no que eu tivesse para falar. Até porque, daqui 59 anos, o Alemão será a língua-padrão do mundo e o moleque ia me achar um velho gagá por não saber alemão. Nicht, Ich weiß nicht.

Chegariam mais alguns moleques para ouvir o que o velho gagá de boina, meia de lã e olhos cansados teria para falar. Muitos dariam risada de tudo o que eu iria contar (e todas verdadeiras) e levariam o outro embora. Talvez porque eu iria dizer que já falei com sei lá quem e que já tinha entrevistado outro. Sei lá. As pessoas não iriam acreditar em um velho cansado, e ainda mais sozinho em um domingo de outono, em abril. Dia 22, talvez.

E eu não ia poder fazer nada, até porque 59 anos antes eu não acreditei que um cara era amigo íntimo do Almodóvar. E nem que hoje ele iria para a Europa para se encontrar com ele.

Talvez a 'Torre de Pizza', como ele disse, seja mesmo apenas uma torre que a gente nem percebe que seja torta. E talvez ele tenha remado em Veneza, e quando pediu para o guia parar o barco, o barco realmente parou.

Talvez aquele Portunhol arrastado seja mesmo Italiano.

2 comentários:

Lia disse...

Fheld,
porque você não acreditou que ele realmente foi para a Itália?
E se ele sonhou que foi? E foi um buta sonho nítido?
não se pode dizer que, ele conheceu mais aquele país do que ue alguém que foi para lá e permaneceu drogado a viagem inteira?

ahahahahaha!
viva Pizza! A torre que você sobe e nem parece que ela é torta!
ahahah

beijos

Karina Tambellini disse...

De volta!!!

ÊÊÊ!!!Que bom!

Mas ei, amigo do Almodóvar?!
Sempre acredite nesse tipo de coisa! hahah vai que rende um caldo!

bjs =*