quarta-feira, 30 de abril de 2008

Temporada de caça aos ursos polares

Conversa de ICQ, uns quatro anos atrás:

Hugo: Tô indo viajar, falou!
Eu: Viajar? Pra onde?
Hugo: Meu sítio, em Tatuí.
Eu: Putz, e o que tem pra fazer lá?
Hugo: Vestir chinelos havaianas e sair pra caçar ursos polares

Nunca falei dele por aqui, mas o Hugo faz parte do top 2 do meu (restrito, vai) rol de melhores amigos. E, pelo longo tempo que nos conhecemos, certamente ganha posição destacada. Se não me engano, conheci o magrelo de óculos em 1996 e quase saí na porrada com ele naquele dia (eu nunca tive uma boa impressão das pessoas que um dia viriam a se tornar grandes amizades minhas).

Com ele vivi momentos sensacionais: tivemos algumas bandas, fizemos show (inclusive este), fomos a muitos outros shows, passamos vergonha, passamos por perrengues, bebemos, fizemos passeios de casais (cada qual com sua garota, é bom esclarecer), trocamos conselhos... e por aí vai. Mas nunca viajamos juntos.

Conversa de Outlook, um dia atrás:

Eu: Saio do trabalho hoje às 19 horas e só volto na segunda, às 14. E aí?
Hugo: Poooouta, aí vejo uma pá de vantagens. E aí, mané, bora pra onde?
Eu: Então, praia é um negócio que sempre rende alguma coisa, mas também fiquei sabendo que foi aberta a temporada de caça a ursos polares para caçadores com havaianas. E melhor: ganhei um par de havaianas no aniversário, depois de 'perder' meu par antigo.

Ficou decidido: minha décima viagem será para Tatoo-ih, com direito a pit stop(s) por Sorocaba. A primeira com amigos que conheço há mais de 12 anos: Mersão, Luiz, Frango, Hugo e eu.

Sendo assim, este blog fará uma pausa e retomará suas atividades (a)normais dentro de cinco dias. Bom feriado para quem fica.

Nota da redação: com 28 postagens em 30 dias, abril se tornou o mês mais abastado de atualizações do Cavaleiro com Solitária – superando outubro de 2007, que teve 26 em 31 dias.

Por se tratar de um mês especial, fica uma rápida retrospectiva: 'mudei' de nome, decidi dirigir com freqüência, vivi momentos engraçados no trânsito, reencontrei uma antiga amiga de São Caetano, dei início à saga do TCC, vi mudanças editoriais na redação, ganhei jabá da Adidas e um 'prêmio' no trabalho, conheci Sorocaba e cobri a Copa Davis (até entrevistei o Guga!).

Também passei vergonha no metrô diante de uma menina bonitinha, tive um sonho bizarro e gratas lembranças de dois antigos casinhos (minha primeira ex-namorada e uma outra paixonite), completei 20 anos de vida, comemorei o aniversário com grandes 42 amigos, recebi presentes misteriosos e palavras profundas, estreei na Virada Cultural e, como consta neste post, organizei minha décima viagem.

Até maio.

terça-feira, 29 de abril de 2008

Aquela que matou o gato

Sou um curioso nato. Desde pequeno, sempre quis saber de todos os detalhes de tudo o que me cercava – o que, no fundo, não é um negócio lá muito bom: a intensidade da vida é muito maior quando não se sabe de muitos detalhes. Mas isso é história para outros posts num futuro talvez não muito distante.

Com o passar do tempo consegui largar mão de muito da minha curiosidade. No entanto, admito: até hoje sou bastante curioso. E assumo que muitos dos comentários anônimos que aparecem por aqui de vez em quando me instigam um pouco.

No final do ano passado, por exemplo, recebi um comentário anônimo quando relatei aqui meu retorno ao Círculo Militar – meu segundo clube do coração, perdendo apenas para um localizado perto da Avenida Antártica. Era assim: "Oi Held! Muitas lembranças da minha infância tb estão no Círculo Militar. Saudade desse tempo. A gente deve ter se cruzado por lá quando pequenos. Bjos".

Ora, ora. Uma leitora (creio eu) deste humilde blog também era sócia do mesmo clube que eu? E o fato de ela não ter se identificado me deixou extremamente curioso por cerca de uma semana.

Não muito tempo depois, em fevereiro deste ano, uma série de comentários anônimos me chamou a atenção. Ao que tudo indica, uma garota da mesma faculdade que eu passou a ler e a se identificar com meus relatos. Durante cerca de um mês comentou quase que diariamente, sempre mostrando ter uma certa proximidade comigo. Depois deste post, no entanto, desapareceu. E o curioso aqui tentava imaginar quem seria.

Outro comentário que me chamou muito a atenção no mesmo período veio neste post. Na época em que entrava de cabeça em uma paixão ao som de Beatles, uma anônima assinou sob o heterônimo de Eleanor Rigby, nome da música em que o quarteto de Liverpool exalta pessoas extremamente solitárias (inclusive pelo verso "aaaah, look at all the lonely people").

Digo tudo isso para provar, talvez até para mim mesmo, que continuo sendo um cara deveras curioso – embora tenha decidido deixar para trás muito dessa característica. Mas não precisava: bastou acordar hoje de manhã para receber mais uma mostra de que a minha bisbilhotice me tocava um bocado.

Havia um pacote sobre a mesa da sala endereçado a mim. Abri o envelope e qual não foi minha surpresa ao ver um DVD do show Music for Montserrat, gravado em setembro de 1997 a fim de arrecadar uma grana para as vítimas da ilha caribenha Montserrat, que há 19 anos fora assolada por uma série de erupções vulcânicas.

Olhei a parte de trás da caixinha sem muita esperança, mas me surpreendi com o repertório: o genial Mark Knopfler; a animadíssima Hot, hot, hot; Sting, Eric Clapton e, por fim... Paul McCartney! Olhei novamente o envelope: não havia remetente.

Um presente mais do que bacana para alguém que fez aniversário há exatamente uma semana. Mas quem havia me enviado? Quem sabia que aos 14 anos era viciado em Dire Straits (a banda do Knopfler) e sou fã inveterado de Beatles? E por que diabos não havia se identificado?

A curiosidade, meus caros, persiste aqui dentro.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Sobre o remorso

Cometi muitas bobagens (não lá muito relevantes, diga-se) de uns tempos para cá, mas fazia um tempo danado que eu não me arrependia de algo – e o remorso, todo mundo sabe, é um dos piores inimigos do sono. Assim, tenho vivido como uma criancinha: deito na cama já nas altas horas da madrugada e começo a dormir sem muita enrolação.

Mas senti um arrependimento um bocado forte no último final de semana. Sem nada para fazer na manhã de sábado, peguei o jornal na guarita do prédio lá pelas 11 horas e fui ler alguma coisa interessante na pracinha do meu condomínio para fazer o tempo passar mais rapidamente até ir para o trabalho.

Após devorar a sempre genial coluna do Marcelo Rubens Paiva e me deliciar com as tirinhas de Calvin e Snoopy, ainda passei pelas páginas de esportes e pelo caderno principal. Até que senti que não tinha mais nada de muito relevante para extrair daquele monte de papel e simplesmente deitei no banco para olhar o céu. Foi quando o remorso bateu.

“Arrependimento de quê, cara-pálida?”, vocês se perguntam. E eu respondo de bate-pronto. Acontece que, justamente em uma manhã de sábado e também deitado naquele mesmo banco há pouco menos de quatro anos, vivi talvez o meu primeiro instante de paixão verdadeira na minha vida.

A cena é bonitinha. Estava bastante preocupado com as entregas de trabalhos escolares e não conseguia pensar em outra coisa que não fosse o sistema urinário, tema do trabalho de biologia. Naquela manhã ensolarada de novembro, todavia, decidi fazer uma pausa nos estudos para passar algumas rápidas horinhas (duas, no máximo) com a garota com quem estava saindo – que, naquele exato dia, se tornou a minha primeira namorada.

Estava reclamando para ela sobre a complexidade do trabalho de biologia e ela, um ano mais nova do que eu, não tinha muito o que me explicar sobre o tema. Mesmo com apenas 15 anos (eu tinha 16, é bom citar), ela tomou a decisão mais sábia naquele momento: ofereceu seu colo para que eu apoiasse a minha cabeça.

Não hesitei e apoiei a cabeça sobre as coxas da garota. Tive uma sensação mais do que aconchegante, esqueci de todos os meus problemas e, pela primeira vez, pude contemplar sua beleza de outro ângulo. Até o piercing de argola que ela tinha no nariz parecia reluzir mais.

Se eu havia achado que a Terra tinha quase parado quando trocamos nosso primeiro beijo, naquele momento o mundo certamente parara de girar. Não lembrei do trabalho sobre néfrons, rins e todo o resto e deixei tudo para depois, para quando o planeta voltasse ao normal. Foi a melhor decisão que eu poderia tomar.

E por que o arrependimento quase quatro anos depois? Porque eu que terminei o namoro com a garota por motivos que não vêm ao caso no momento. E porque, neste sábado de 2008, eu estava deitado naquele mesmo banco, em um dia parecido, e com a cabeça apoiada no concreto duro do banco. Nada do colo quente da garota e nada de suas mãos fazendo festa no meu cabelo.

Não foi saudade, não foi carência. Foi apenas a recordação de um dos top 5 dos meus momentos mais bacanas da minha vida amorosa.

E as piores recordações são aquelas acompanhadas de um pensamento do tipo “Toma! Pra você aprender a largar a mão de ser idiota”.

Para os curiosos: A tal garota já fora lembrada por mim em duas oportunidades neste blog: aqui e aqui.

domingo, 27 de abril de 2008

Toca Raul!

Podem falar o que for, mas Raul Seixas é fora de série (uso o tempo presente, aliás, para explicitar a importância das músicas do Raulzito atualmente, ainda que em 2008 complete 19 anos que o cara bateu as botas).

Já é mais do que comum ouvir em qualquer show alguém proferindo a velha máxima de ‘Toca Raul!’. Não adianta: todo mundo já clamou por alguma música do baiano psicodélico – até mesmo eu e um dos meus dois fiéis leitores (digo isso porque não consigo imaginar a minha mãe pedindo sons do Maluco Beleza). Enfim.

Não sou o maior fã do Raul Seixas e nem estou na minha fase mais intensa de ouvir as suas famigeradas canções, quase que hinos do rock brasileiro. Ontem, no entanto, tive mais uma prova de que, no fundo, não tem quem não goste de pelo menos uma música do cara.

Tudo começou quando estava fazendo musculação no volante para realizar uma baliza em uma das ruas do meu condomínio e encontrei alguns amigos. Todos iriam para a a micareta do Zé Ramalho na Virada Cultural e me convidaram. Eu, cansado depois de um plantão sabatino, respondi um simples ‘Ah, cara, vou ver’, crente de que não iria.

Acontece que quando cheguei em casa, percebi que não teria nada para fazer até cair no sono. Entre ficar em casa mofando sobre a cama e sair para algum lugar com pessoas divertidas e com quem certamente daria várias risadas, optei pela segunda opção – ainda que, confesso, não conheça quase nada do Zé Ramalho. E, quando dei por mim, já estava tomando cerveja em frente a referências marcantes do centro velho da cidade.

Um pouco breaco depois de algumas latinhas geladas (e baratas, até!) e outros tantos goles de vinho ruim, percebi que todo o público da Av. São João levantou quando o Zé Ramalho começou a tocar Trem das sete. “Ah, essa eu sei inteira. É Raul!”. E o público, antes bem parado, se animou a cantar os famosos versos “Quem vai choraaaaar, quem vai sorriiir? Quem vai ficaaaaaar, quem vai partiiir?”.

Foi o que bastou para que todos se empolgassem para o restante do show. Até um tiozão bem do pançudo apareceu sem camisa na janela, começou a agitar o barrigão desnudo para a galera e se tornou celebridade do centro da cidade em plena madrugada.

Na hora tive vontade de ouvir mais Raul. Coloquei um dos meus CDs do Raulzito hoje de manhã na mochila vindo para o trabalho, me peguei parado em um semáforo no caminho para a Paulista cantando o refrão de Tente outra vez: “Teeeente, levante sua mão sedenta e recomece a andaaar. Não pense que a cabeça agüenta se você paraaaaar; nãão, não, não, não, não, não!!”.

Só parei porque olhei para o lado e vi a mulher do carro ao lado olhando de uma forma esquisita pra mim. Sorri sem graça e ouvi dela, que sorria de leve, um “Relaxa, Raul é bom mesmo”.

É. Muito.

sábado, 26 de abril de 2008

Frases esparsas de aniversário

Não suporto dar parabéns às pessoas de um modo geral. Não consigo fugir do senso-comum de oferecer tudo de bom, felicidades e todas essas coisas de praxe. É sempre a mesma coisa, e muitas vezes se diz isso apenas da boca para fora.

Até que terça-feira passada comemorei 20 anos. Para evitar receber várias frases feitas de pessoas que sequer lembram da minha existência nos demais dias do ano, retirei a data do meu aniversário do meu perfil do Orkut – atitude que eu já planejava, mas foi motivada ainda mais após ler este texto do André.

A experiência deu certo, e pude ver algumas das pessoas que realmente se lembraram do meu aniversário e, como não têm um contato diário comigo, acabaram me deixando um recado verdadeiro. Mesmo recebendo alguns dos clichês por ali, eximi as pessoas de qualquer crítica: elas realmente se lembraram do meu aniversário. Demais!

Alguns amigos mais próximos não me deixaram recados no Orkut, mas me desejaram parabéns pessoalmente. Outros até me escreveram algumas coisas bacanas, que tiveram um valor bem grande para mim.

Abaixo, as melhores palavras para se receber em um momento de transição, que marca o fim da segunda década de vida e o início da terceira.

“Para que o Cavaleiro com Solitária seja menos solitário”, desejou o Mané, na dedicatória do livro que me deu de presente.

“A voz das palavras mudas, enfim, só pode ser ouvida por aqueles que se deixam ser tocados”, filosofou o Bronzatto, também em dedicatória do livro que me deu de presente.

“Sei que você tem um coração enorme e desejo de todo o meu coração que você seja feliz. Sou capaz de dar a volta ao mundo por um amigo como você”, me surpreendeu a Pri, em carta recebida em companhia de um livro que me deu de presente (foi um aniversário abastado de livros, uma economia e tanto!).

“Parabéns, seu sumido”, disse a Sílvia, uma das minhas maiores paixões dos últimos 20 anos (já citada aqui e aqui), que se lembrou do meu aniversário mesmo sem a gente se falar diariamente (ou mensalmente, até) desde a metade do terceiro colegial.

“Tô longe, mas tô contigo sempre”, destacou o Caio Mamão, amigo há mais de 13 anos, mas que há três mora na Espanha.

E, por fim, duas bem simples, porém as mais profundas por alguns motivos óbvios e outros nem tanto.

“Na sua listinha, faltou acrescentar ‘ser o melhor amigo da minha mãe’”, contou a minha mãe.

“Feliz aniversário”, disse o meu pai, com um sorriso entre o bigode e um abraço para me dar.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Auto-conhecimento

Primeira vez que daria carona para alguém. Como previamente combinado, deixaria uma amiga sã e salva na porta de sua casa depois da aula na faculdade.

Tá, não vou negar que senti uma responsabilidade maior quando dei a partida e liguei os faróis. Mesmo assim, respirei fundo, liguei o toca CD e deixei todas as preocupações de lado. O trânsito, e sobretudo a integridade física da amiga, eram prioridade.

Tudo correu dentro dos conformes e chegamos inteiros à sua casa. Depois de nos despedirmos até o dia seguinte, no entanto, fiz a pergunta que mais me amedrontava naquele momento: “Como eu faço pra sair daqui agora?”. Ela foi bem didática: “Vira aqui na primeira esquerda e vai reto, até não dar mais mão. Aí você vira de novo à esquerda, segue reto a vida toda até cair num posto, e aí você vira à direita e já vai se encontrar”. “Ok”.

Tinha a certeza de que iria me perder, mas ainda assim decidi arriscar em uma sorte melhor para mim. Só que, ao virar à esquerda, achei que logo o primeiro quarteirão já não dava mais mão e voltei a contornar à esquerda. Depois fui reto a vida toda e cheguei a uma ladeira.

“Ué, acho que nunca passei por essa rua para chegar em casa... acho que tô fazendo merda, mas vamos lá”, pensei, enquanto ouvia o futebol no rádio. Até que a ladeira acabou e eu me vi no meio da favela.

“Toma, trouxa, eu bem que avisei!”, retrucou uma voz sábia dentro de mim.

Odeio essa voz sábia, com um tom até que pessimista: ela sempre acerta.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Boas ações para quem não quer recebê-las – o retorno

Lembro como se fosse hoje da primeira vez que dei lugar a uma velhinha no metrô. Era um dia de manhã e eu estava indo para mais um dia na sexta série (ou será que era sétima?). A senhorinha de cabelos brancos e dificuldade de locomoção entrou no trem, as pessoas no banco cinza sequer esboçaram alguma reação e eu, todo bondoso e um pouco inseguro, guardei o Lance! na mochila e cedi meu lugar.

Naquele momento, senti um misto de satisfação pela boa ação realizada e, também, um tanto de raiva com relação aos demais passageiros do vagão, que em momento algum esboçaram algum gesto para com a velhinha. E pior: ainda ficaram me olhando por um bom tempo quando eu cedi meu lugar.

Os anos se passaram (e como passaram!), e um dia desses eu estava indo para o trabalho, novamente de metrô, mas já na hora do almoço. Notei que havia entrado uma garotinha um tanto quanto charmosa, com piercing de argolinha no nariz e tudo, na Praça da Árvore, e havia ficado à minha frente. Bom... era apenas mais alguma garotinha bonita que cruzava a minha vida no metrô, e por isso não dei muita bola.

Eh, eu admito, pensei até em alguma abordagenzinha esquisita, do tipo oferecer o meu lugar para ela sentar. Mas o tempo continua passando e a gente vê que muitas das nossas ações singelas e sinceras são mal-interpretadas. E também tem que cavalheirismo grátis, convenhamos, não está com nada. Preferi continuar lendo Mário Prata (valeu, Mané!).

Até que na Vila Mariana entrou um velhinho. Cabelos acaju, nitidamente pintados, roupa elegante e um andar cansado, difícil. Passou pelo meu banco, olhou, passou por mais alguns bancos, olhou, e voltou a ficar na frente do meu banco. Ao ver que o pessoal do assento cinza não deixaria o conforto de fazer uma viagem sentado, terminei de ler a crônica, levantei-me e chamei-lhe a atenção.

“Por favor, senhor. Pode sentar ali”. Ele deu um sorriso sem graça e não aceitou. “Não, não... pode sentar. Eu vou descer na próxima”, rebateu. “Não, mas eu também vou sentar na próxima. Por favor”, insisti. “Não, eu vou descer na próxima”, recusou novamente, mas não sem antes encarar a capa do meu livro e depois me olhar um bocado feio. Não entendi, e arrisquei um: “Pode sentar, senhor, por favor. Eu já estou descendo, não vou mais sentar”. “Eu também não”, finalizou.

Só me restou, então, abrir o livro e começar a leitura de uma nova crônica. Em um momento, parei a leitura e olhei para trás: nem a garotinha bonita de piercing de argola havia sentado no banco. Quem se sentou, sem muito pestanejar, foi uma mulher com lá seus 30 anos estilo piriguete.

Todo o meu esforço fora em vão. Droga.