Acordei com o despertador extremamente cedo para o domingo (ainda eram 9 da manhã, acredita?). Entretanto, como precisaria ir trabalhar dentro de poucas horas, resolvi pouco a pouco lutar contra a tentação e fui recobrando a consciência.
As primeiras coisas que passaram pela minha cabeça vieram do rádio, da transmissão ao vivo da Fórmula 1: Rubens Barrichello estava a 12s do Hamilton e a uns 5s do Kovalainen. “Mais um dia sem a musiquinha da Globo”, eu pensei. Aí resolvi apertar o snooze e dormir por mais 10 minutos.
Esse curto período, obviamente, foi prolongado e multiplicado por 3. Resultado: só fui abrir os olhos novamente às 9h30. Relutantemente acordei de verdade, vivi 2 minutos de ócio e então lembrei que poderia ligar a televisão. Para minha surpresa, o Rubinho estava no segundo lugar, tirando vários décimos por volta em relação ao Hamilton, líder.
Resolvi acompanhar a corrida direito, e vi o Rubinho vencer a prova. Quando ele estava para cruzar a linha de chegada, aumentei o volume da televisão. Incrível como o tema da vitória da Globo me agrada tanto. Pois bem. Comemorei o primeiro lugar do Barrichello, tomei banho, almocei e fui para o novo trabalho.
A rua estava extremamente livre, e eu aproveitava para correr e minimizar o atraso já consolidado. Assim, quando virei da República do Líbano para a Hélio Pellegrino e vi a pista livre, engatei a quarta, depois a quinta... e então vi várias bandeiras tremulando para mim.
O que eu fiz? Bom... por um momento, transformei meu Uno em um Fórmula 1 com motor Merdeces-Benz. No meu capacete, estava escrito “Mané - see you on bar soon”. Baixei o vidro, ergui o punho cerrado e festejei minha primeira vitória na Fórmula 1, no circuito urbano de São Paulo. Não houve tema da vitória, do meu carro saía som de uma banda de rock argentino. Deu para disfarçar.
Então parei no semáforo logo à frente. Uma das mulheres que tremulou a bandeira para mim na linha de chegada me entregou um panfleto publicitário de mais um prédio que estava sendo construído pelas redondezas.
Coloquei os óculos escuros para não ser reconhecido. Afinal, basta a gente ganhar uma corrida que já vão querendo empurrar apartamentos luxuosos e etc.
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segunda-feira, 24 de agosto de 2009
terça-feira, 30 de dezembro de 2008
1 é pouco e 2 são bons?
Eu não sou o tipo de cara que gosta de carros. Que sabe o modelo, o ano de fabricação, a potência do motor e tudo mais apenas ouvindo o som do tal bólido ou vendo um detalhe aparentemente irrelevante, como por exemplo a fechadura do porta-malas.
Eu, definitivamente, não gosto de carros. Nos últimos meses passei a saber diferenciar alguns modelos, mas nada muito espetacular. Um Uno alheio do meu, ou alguns tipos de Palio. Mas tudo isso era só para dizer que eu não sou fanático por carros.
Quer dizer... por carros, de uma forma geral, não. Mas tem uma parte dele que realmente me fascina: o limpador de pára-brisas. É sério. Desde pequeno, quando andava com mamãe no carro dela, achava demais o funcionamento daquele rodinho estilizado. Adorava quando chovia e eu via a palheta ir de um lado para o outro...
Aí eu percebi que era apenas o carro da mamãe que tinha um limpador de pára-brisa dianteiro. Todos os outros modelos que não o Uno tinham duas peças para o vidro. Entrei em um ferrenho jogo interno de argumentação: meu lado otimista, visionário e sonhador dizia que o modelo de palheta única era melhor. Já meu lado chato dizia o contrário, que éramos precários.
Eu explico: o lado Felipinho Held argumentava: “É bem mais legal ter só um limpador. A marca que fica no vidro é mais bonita, trata-se de um modelo único e é muito mais prático já que uma peça faz o trabalho de duas”. O lado Felipe Held, o Velho, rebatia: “Mas o outro é mais rápido, a cobertura de área do vidro é maior... e se todo mundo tem, é porque também é melhor”.
Quase todos dias eu pensava nisso indo da minha casa para a casa da minha avó e de lá para a escola. Então quase dez anos se passaram sem eu nem pensar nisso até que meu primeiro carro é justamente... tcha-ram, um Uno.
Tem vezes, no meio do trânsito, eu não tenho nada pra fazer e fico limpando o pára-brisa. Só pra ver ele funcionar – e também deixar o vidro bem transparente. Quando chove, fico mudando a cada quarteirão a velocidade do limpador. E... meu carro tem limpador de vidro traseiro, então a diversão é ainda maior! (eu pareço uma criança falando).
Mas aí teve um dia, eu peguei o carro da minha mãe e me deparei com um limpador de pára-brisas de palhetas duplas. Funcionava bem mais rápido. E eu voltei a me questionar qual a droga do tipo de limpador que era melhor.
Dia desses, indo para Barueri, estava no banco da frente de um dos carros do trabalho e estava chovendo forte. Limpador duplo. Fiquei ali olhando o funcionamento das peças por um bom tempo, vendo que o da direita era menor e ele só ajeitava a água para o outro, o da esquerda e maior, tirar do vidro.
Então o motorista do carro me olhou de rabo de olho, talvez se perguntando por que meus olhos brilhavam olhando as duas palhetas. E eu percebi que, para o meu próprio bem, era melhor eu parar de ficar perdendo tanto tempo pensando coisas tão bestas.
Eu, definitivamente, não gosto de carros. Nos últimos meses passei a saber diferenciar alguns modelos, mas nada muito espetacular. Um Uno alheio do meu, ou alguns tipos de Palio. Mas tudo isso era só para dizer que eu não sou fanático por carros.
Quer dizer... por carros, de uma forma geral, não. Mas tem uma parte dele que realmente me fascina: o limpador de pára-brisas. É sério. Desde pequeno, quando andava com mamãe no carro dela, achava demais o funcionamento daquele rodinho estilizado. Adorava quando chovia e eu via a palheta ir de um lado para o outro...
Aí eu percebi que era apenas o carro da mamãe que tinha um limpador de pára-brisa dianteiro. Todos os outros modelos que não o Uno tinham duas peças para o vidro. Entrei em um ferrenho jogo interno de argumentação: meu lado otimista, visionário e sonhador dizia que o modelo de palheta única era melhor. Já meu lado chato dizia o contrário, que éramos precários.
Eu explico: o lado Felipinho Held argumentava: “É bem mais legal ter só um limpador. A marca que fica no vidro é mais bonita, trata-se de um modelo único e é muito mais prático já que uma peça faz o trabalho de duas”. O lado Felipe Held, o Velho, rebatia: “Mas o outro é mais rápido, a cobertura de área do vidro é maior... e se todo mundo tem, é porque também é melhor”.
Quase todos dias eu pensava nisso indo da minha casa para a casa da minha avó e de lá para a escola. Então quase dez anos se passaram sem eu nem pensar nisso até que meu primeiro carro é justamente... tcha-ram, um Uno.
Tem vezes, no meio do trânsito, eu não tenho nada pra fazer e fico limpando o pára-brisa. Só pra ver ele funcionar – e também deixar o vidro bem transparente. Quando chove, fico mudando a cada quarteirão a velocidade do limpador. E... meu carro tem limpador de vidro traseiro, então a diversão é ainda maior! (eu pareço uma criança falando).
Mas aí teve um dia, eu peguei o carro da minha mãe e me deparei com um limpador de pára-brisas de palhetas duplas. Funcionava bem mais rápido. E eu voltei a me questionar qual a droga do tipo de limpador que era melhor.
Dia desses, indo para Barueri, estava no banco da frente de um dos carros do trabalho e estava chovendo forte. Limpador duplo. Fiquei ali olhando o funcionamento das peças por um bom tempo, vendo que o da direita era menor e ele só ajeitava a água para o outro, o da esquerda e maior, tirar do vidro.
Então o motorista do carro me olhou de rabo de olho, talvez se perguntando por que meus olhos brilhavam olhando as duas palhetas. E eu percebi que, para o meu próprio bem, era melhor eu parar de ficar perdendo tanto tempo pensando coisas tão bestas.
quinta-feira, 18 de dezembro de 2008
Assuntos superficiais e mal-explorados
O Campeonato Brasileiro acabou e geralmente não se tem nada para fazer no mundo do futebol. Não que se tenha normalmente, mas nesta época o noticiário é bem fraquinho.
Mas, por uma sucessão de folgas e férias na redação, fiquei a cargo do Palmeiras. Uma avalanche de boatos, muitas repetições e blablá. É legal, mas cansa um bocado. Telefone na mão, tentativa de falar com mil dirigentes... e F5 nos concorrentes para ver se não estou levando furo.
Apesar de ser muito mais fácil cobrir seu clube de coração, é meio estressante. E percebi meu estresse acumulado saindo do estacionamento, na Paulista. Percebi que havia um moleque de uns 8 anos no carro da frente virado para mim mostrando a língua.
Ficou nessa um bom tempo. Até que eu percebi que aquela língua feia era para mim e respondi bem chulamente: com o dedo do meio. Ficamos nessa por uns 10s, até que ele se escondeu. Depois voltou com a língua, e eu com o dedo.
Mostrei para o Mé, o carona do dia. Ele ameaçou me repreender: “Pô, mas é só um moleque tosco”, argumentou. Contra-argumentei: “Eu sei. Mas se ele estivesse dando um tchauzinho, sei lá, eu faria um jóia e tal. Ele sabe que mostrar a língua é feio. E este é o gesto mais feio que eu conheço”. O Mé concordou e também mostrou o dedo.
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Meu projeto deÚnico Trabalho Sério da Faculdade Trabalho de Conclusão de Curso foi aprovado sem restrição. Agora eu tenho caminho livre para começar uma biografia sem falar com a minha biografada. Faltam 11 meses para a entrega e... dá uma preguiça enorme começar.
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É extremamente engraçado quando você está no bar, sentado às mesas colocadas na calçada da Avenida Paulista, e passa um velhinho branquelo, barbudo e de cabelos e barbas brancas. Sempre tem alguém que chama a atenção de todos para a passagem do Papai Noel.
Mais engraçado ainda é quando você está no bar nas mesmas condições citadas anteriormente e o tal do Papai Noel se vira para o cara ao seu lado, quem puxou a atenção, e diz: “Pois eu tenho uma notícia bem ruim para você: o Papai Noel este ano não vai entregar presentes pra viados que nem você”.
--
Em contrapartida, é decepcionante quando você espera o ano inteiro pela cesta de natal da empresa onde você gasta 50, 60 e às vezes até 75% do seu dia. E aí, na hora de pegar a cesta, recebe um panetone com umas bolachinhas.
Mas, por uma sucessão de folgas e férias na redação, fiquei a cargo do Palmeiras. Uma avalanche de boatos, muitas repetições e blablá. É legal, mas cansa um bocado. Telefone na mão, tentativa de falar com mil dirigentes... e F5 nos concorrentes para ver se não estou levando furo.
Apesar de ser muito mais fácil cobrir seu clube de coração, é meio estressante. E percebi meu estresse acumulado saindo do estacionamento, na Paulista. Percebi que havia um moleque de uns 8 anos no carro da frente virado para mim mostrando a língua.
Ficou nessa um bom tempo. Até que eu percebi que aquela língua feia era para mim e respondi bem chulamente: com o dedo do meio. Ficamos nessa por uns 10s, até que ele se escondeu. Depois voltou com a língua, e eu com o dedo.
Mostrei para o Mé, o carona do dia. Ele ameaçou me repreender: “Pô, mas é só um moleque tosco”, argumentou. Contra-argumentei: “Eu sei. Mas se ele estivesse dando um tchauzinho, sei lá, eu faria um jóia e tal. Ele sabe que mostrar a língua é feio. E este é o gesto mais feio que eu conheço”. O Mé concordou e também mostrou o dedo.
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Meu projeto de
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É extremamente engraçado quando você está no bar, sentado às mesas colocadas na calçada da Avenida Paulista, e passa um velhinho branquelo, barbudo e de cabelos e barbas brancas. Sempre tem alguém que chama a atenção de todos para a passagem do Papai Noel.
Mais engraçado ainda é quando você está no bar nas mesmas condições citadas anteriormente e o tal do Papai Noel se vira para o cara ao seu lado, quem puxou a atenção, e diz: “Pois eu tenho uma notícia bem ruim para você: o Papai Noel este ano não vai entregar presentes pra viados que nem você”.
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Em contrapartida, é decepcionante quando você espera o ano inteiro pela cesta de natal da empresa onde você gasta 50, 60 e às vezes até 75% do seu dia. E aí, na hora de pegar a cesta, recebe um panetone com umas bolachinhas.
terça-feira, 9 de setembro de 2008
Vivendo, aprendendo...
Trânsito. Conversa.
- A minha amiga é muito tapada, Fê.
- Qual delas?
- A Carla.
- Ah, a que eu não gosto?
- Quê?
- Ops, nada não. Que tem tela?
- Sabia que ela não sabia pegar táxi e eu tive que ensinar?
- Hahahahaha. Como assim?
- A gente foi pra balada ontem e, na saída, ela fazia sinal pra todos os táxis.
- Hahaha, que mula!
- É, então. Tem 18 anos nas costas e não sabe nada nessa vida.
- Ah, claro! E você, com 17, sabe muita coisa, né?
- Pelo menos eu sei quando o táxi tá livre.
- Mas é tão simples, poxa. É só olhar dentro dele.
- Não, Fê. Eu tô falando da plaquinha de cima do táxi.
- Que tem ela?
- Ué, quando tá acesa é porque tá livre. Quando tá apagada, quer dizer que o táxi tá ocupado...
- Eu achava que ficava acesa porque era de noite...
- Não!! Você não sabia!?
- Humm... eh... ah.
- Não sabia? Hahaha, 20 anos e não sabe nem pegar um táxi.
- Humpf.
- Hahahahahaha
- ¬¬
- Confessa, vai! Fala que você não sabia.
- Humpf.
- Hahahahahahahahahahaha
- Tá, eu não sabia. Já deu, né?
- A minha amiga é muito tapada, Fê.
- Qual delas?
- A Carla.
- Ah, a que eu não gosto?
- Quê?
- Ops, nada não. Que tem tela?
- Sabia que ela não sabia pegar táxi e eu tive que ensinar?
- Hahahahaha. Como assim?
- A gente foi pra balada ontem e, na saída, ela fazia sinal pra todos os táxis.
- Hahaha, que mula!
- É, então. Tem 18 anos nas costas e não sabe nada nessa vida.
- Ah, claro! E você, com 17, sabe muita coisa, né?
- Pelo menos eu sei quando o táxi tá livre.
- Mas é tão simples, poxa. É só olhar dentro dele.
- Não, Fê. Eu tô falando da plaquinha de cima do táxi.
- Que tem ela?
- Ué, quando tá acesa é porque tá livre. Quando tá apagada, quer dizer que o táxi tá ocupado...
- Eu achava que ficava acesa porque era de noite...
- Não!! Você não sabia!?
- Humm... eh... ah.
- Não sabia? Hahaha, 20 anos e não sabe nem pegar um táxi.
- Humpf.
- Hahahahahaha
- ¬¬
- Confessa, vai! Fala que você não sabia.
- Humpf.
- Hahahahahahahahahahaha
- Tá, eu não sabia. Já deu, né?
terça-feira, 20 de maio de 2008
Sobre olhares e retrovisores
“E aí, quando você estiver dirigindo e for mudar a marcha, descansa a mão na perna dela como quem não quer nada. Se ela não se importar, mantenha: logo ela também coloca a mão dela sobre a sua perna. Você vai ver como dirigir fica ainda mais gostoso e ter um carro vira um enorme adianto com mulheres”.
Todo mundo já deve ter ouvido isso pelo menos uma vida. Pai, tio, amigo do pai ou do tio já devem ter dado tal conselho ao filho que pela primeira vez marcava de dar carona para alguma paquera. Eu mesmo já ouvi, embora nunca tenha vivido tal oportunidade. Mas um dia desses passei por uma situação semelhante, ainda que um bocado diferente.
Era um dia qualquer em que eu estava andando pela rua quando encontrei duas pessoas conhecidas próximas a uma estação de metrô: uma amiga, que na verdade fora uma das minhas grandes paixões há algum tempo, e seu irmão. Buzinei, os dois olharam e perguntei aonde iam. Não iam para o mesmo lugar que eu, mas fingi que passaria lá perto e ofereci a carona – é sempre bom conversar um pouco.
Os dois entraram, e para a minha infelicidade momentânea o irmão dela se sentou no banco do passageiro e ela, atrás de mim. Comecei a bater um papo com o irmão sobre coisas banais até que ela, depois de alguns minutos, também falou alguma coisa. Como não podia me virar e olhá-la nos olhos, dei uma olhada de relance no retrovisor e pude acompanhar também suas palavras.
Mais alguns semáforos à frente, quando o assunto já tinha esfriado, dei uma olhada no espelho para mudar de faixa e nossos olhares se cruzaram novamente. Ficamos alguns segundos nos olhando e voltei a prestar atenção no trânsito. Momentos depois, mais uma espiada – e então chegou a vez dela de desviar o olhar.
Sorrateiramente, descumpri uma das regras básicas do trânsito e ajeitei o espelho retrovisor de modo que ficasse mais fácil visualizar o rosto dela. Quando o semáforo permitia e ela não estava percebendo, aproveitava para admirar um pouco mais suas belas feições.
Ficamos nessa lengalenga de troca de olhares por alguns quilômetros. Até inventei um caminho maior para poder ter alguma desculpa de olhá-la e ser olhado, simultaneamente ou não. Ainda assim, infelizmente, chegamos ao ponto em que eles desembarcariam.
Depois que meus caronas saíram, aumentei um pouco o volume do som e retomei meu rumo. Dobrei o quarteirão, dei mais uma olhada no retrovisor e não vi mais minha antiga paixão no banco traseiro do meu carro. Seu lugar estava vazio. E eu também me senti mais vazio.
Não, não senti nenhum novo acesso de paixão por ela. Nossa história já teve seu tempo para ser escrita, mas não rendeu mais do que algumas crônicas (algumas, aliás, das que eu mais tenho orgulho). Mas foi bom matar as saudades dela, sobretudo de seus olhos.
Todo mundo já deve ter ouvido isso pelo menos uma vida. Pai, tio, amigo do pai ou do tio já devem ter dado tal conselho ao filho que pela primeira vez marcava de dar carona para alguma paquera. Eu mesmo já ouvi, embora nunca tenha vivido tal oportunidade. Mas um dia desses passei por uma situação semelhante, ainda que um bocado diferente.
Era um dia qualquer em que eu estava andando pela rua quando encontrei duas pessoas conhecidas próximas a uma estação de metrô: uma amiga, que na verdade fora uma das minhas grandes paixões há algum tempo, e seu irmão. Buzinei, os dois olharam e perguntei aonde iam. Não iam para o mesmo lugar que eu, mas fingi que passaria lá perto e ofereci a carona – é sempre bom conversar um pouco.
Os dois entraram, e para a minha infelicidade momentânea o irmão dela se sentou no banco do passageiro e ela, atrás de mim. Comecei a bater um papo com o irmão sobre coisas banais até que ela, depois de alguns minutos, também falou alguma coisa. Como não podia me virar e olhá-la nos olhos, dei uma olhada de relance no retrovisor e pude acompanhar também suas palavras.
Mais alguns semáforos à frente, quando o assunto já tinha esfriado, dei uma olhada no espelho para mudar de faixa e nossos olhares se cruzaram novamente. Ficamos alguns segundos nos olhando e voltei a prestar atenção no trânsito. Momentos depois, mais uma espiada – e então chegou a vez dela de desviar o olhar.
Sorrateiramente, descumpri uma das regras básicas do trânsito e ajeitei o espelho retrovisor de modo que ficasse mais fácil visualizar o rosto dela. Quando o semáforo permitia e ela não estava percebendo, aproveitava para admirar um pouco mais suas belas feições.
Ficamos nessa lengalenga de troca de olhares por alguns quilômetros. Até inventei um caminho maior para poder ter alguma desculpa de olhá-la e ser olhado, simultaneamente ou não. Ainda assim, infelizmente, chegamos ao ponto em que eles desembarcariam.
Depois que meus caronas saíram, aumentei um pouco o volume do som e retomei meu rumo. Dobrei o quarteirão, dei mais uma olhada no retrovisor e não vi mais minha antiga paixão no banco traseiro do meu carro. Seu lugar estava vazio. E eu também me senti mais vazio.
Não, não senti nenhum novo acesso de paixão por ela. Nossa história já teve seu tempo para ser escrita, mas não rendeu mais do que algumas crônicas (algumas, aliás, das que eu mais tenho orgulho). Mas foi bom matar as saudades dela, sobretudo de seus olhos.
sexta-feira, 25 de abril de 2008
Auto-conhecimento
Primeira vez que daria carona para alguém. Como previamente combinado, deixaria uma amiga sã e salva na porta de sua casa depois da aula na faculdade.
Tá, não vou negar que senti uma responsabilidade maior quando dei a partida e liguei os faróis. Mesmo assim, respirei fundo, liguei o toca CD e deixei todas as preocupações de lado. O trânsito, e sobretudo a integridade física da amiga, eram prioridade.
Tudo correu dentro dos conformes e chegamos inteiros à sua casa. Depois de nos despedirmos até o dia seguinte, no entanto, fiz a pergunta que mais me amedrontava naquele momento: “Como eu faço pra sair daqui agora?”. Ela foi bem didática: “Vira aqui na primeira esquerda e vai reto, até não dar mais mão. Aí você vira de novo à esquerda, segue reto a vida toda até cair num posto, e aí você vira à direita e já vai se encontrar”. “Ok”.
Tinha a certeza de que iria me perder, mas ainda assim decidi arriscar em uma sorte melhor para mim. Só que, ao virar à esquerda, achei que logo o primeiro quarteirão já não dava mais mão e voltei a contornar à esquerda. Depois fui reto a vida toda e cheguei a uma ladeira.
“Ué, acho que nunca passei por essa rua para chegar em casa... acho que tô fazendo merda, mas vamos lá”, pensei, enquanto ouvia o futebol no rádio. Até que a ladeira acabou e eu me vi no meio da favela.
“Toma, trouxa, eu bem que avisei!”, retrucou uma voz sábia dentro de mim.
Odeio essa voz sábia, com um tom até que pessimista: ela sempre acerta.
Tá, não vou negar que senti uma responsabilidade maior quando dei a partida e liguei os faróis. Mesmo assim, respirei fundo, liguei o toca CD e deixei todas as preocupações de lado. O trânsito, e sobretudo a integridade física da amiga, eram prioridade.
Tudo correu dentro dos conformes e chegamos inteiros à sua casa. Depois de nos despedirmos até o dia seguinte, no entanto, fiz a pergunta que mais me amedrontava naquele momento: “Como eu faço pra sair daqui agora?”. Ela foi bem didática: “Vira aqui na primeira esquerda e vai reto, até não dar mais mão. Aí você vira de novo à esquerda, segue reto a vida toda até cair num posto, e aí você vira à direita e já vai se encontrar”. “Ok”.
Tinha a certeza de que iria me perder, mas ainda assim decidi arriscar em uma sorte melhor para mim. Só que, ao virar à esquerda, achei que logo o primeiro quarteirão já não dava mais mão e voltei a contornar à esquerda. Depois fui reto a vida toda e cheguei a uma ladeira.
“Ué, acho que nunca passei por essa rua para chegar em casa... acho que tô fazendo merda, mas vamos lá”, pensei, enquanto ouvia o futebol no rádio. Até que a ladeira acabou e eu me vi no meio da favela.
“Toma, trouxa, eu bem que avisei!”, retrucou uma voz sábia dentro de mim.
Odeio essa voz sábia, com um tom até que pessimista: ela sempre acerta.
segunda-feira, 21 de abril de 2008
Curtas do feriado
Metafísica 1: Falam que dirigir é um tesão enorme. Tenho amigos que corroboram para essa tese e, mais do que isso, não param de falar de carro. Eu, que recentemente passei a me aventurar no trânsito caótico, não sinto nada disso. Mas não posso negar: acelerar fundo quando o semáforo está alternando do amarelo pro vermelho e furar o farol é algo transcendental.
Metafísica 2: Mesmo em um feriado, o trânsito de São Paulo não deixa de ser uma loucura - sobretudo no espaço que vai da Vila Mariana até o comecinho da Paulista. Mas não é tão difícil assim relaxar no volante: basta fechar as janelas do carro e aumentar o som do toca CD. Se estiver tocando Beatles, então... !
A primeira vez...: Tive enfim a chance de apertar o botão e retirar o tíquete em um estacionamento. Ao parar o carro diante da cancela, no entanto, tive a minha 'primeira vez' frustrada. Longe da maquininha, precisei sair do carro para apertar o botão. Droga.
Metafísica 2: Mesmo em um feriado, o trânsito de São Paulo não deixa de ser uma loucura - sobretudo no espaço que vai da Vila Mariana até o comecinho da Paulista. Mas não é tão difícil assim relaxar no volante: basta fechar as janelas do carro e aumentar o som do toca CD. Se estiver tocando Beatles, então... !
A primeira vez...: Tive enfim a chance de apertar o botão e retirar o tíquete em um estacionamento. Ao parar o carro diante da cancela, no entanto, tive a minha 'primeira vez' frustrada. Longe da maquininha, precisei sair do carro para apertar o botão. Droga.
segunda-feira, 7 de abril de 2008
Psicologia no volante
Aprendendo a dirigir, sessão dois. Sábado, comecinho da noite. Mais uma vez, uma besta ao volante – agora no carro da mamãe – e o instrutor no banco do passageiro.
Tudo levava a crer que seriam duas horas relativamente normais, com uma morridinha aqui, uma buzinadinha ali, um errinho de marcha acolá... mas não imaginei que a aula me reservaria um momento, digamos, inesperado: algo semelhante a uma sessão de terapia com um psicólogo.
Estava em um carro com freios ABS. Acostumado ao freio sabe-se lá qual do carro da auto-escola, comecei a ter alguns probleminhas com a adaptação. Bastava uma pisadinha no pedal do meio para o carro parar com tudo e ativar o cinto de segurança. Mas com o tempo eu fui dosando o pé. Ou pelo menos eu achava.
Na movimentada Avenida Indianópolis, o semáforo mudou para o vermelho e os carros à minha frente começaram a parar. Fui reduzindo a velocidade aos poucos e passei a ouvir o instrutor ao meu lado: “freia mais, freia mais.... freia mais!”. Chegando a uma distância calculada do carro da frente, parei perfeitamente. Mas não ganhei elogios.
“O freio é ABS, mas você tem que frear antes, viu?”, recomendou o instrutor.
“Ah, é?”, contestei.
“Sim. Você ta confiando muito nos freios. Eles estão funcionando bem, mas não pode confiar tanto assim. É só a primeira vez que você pega esse carro”.
“Hum... ah, beleza”.
O semáforo abriu. Taquei a primeira, saí com o carro e fui. O instrutor, então, pediu a palavra.
“Cara, posso te fazer uma pergunta?”
“Claro, cara”.
“Percebi que você dirige meio que parecido ao seu jeito de pensar. Você costuma confiar assim nas pessoas, logo de cara, apenas porque ela te passou uma segurança um pouco maior?”.
“Hum, eh... sim”.
“Conselho de amigo: já te falaram que isso não é muito bom?”.
“Sim. Humpf”.
Tudo levava a crer que seriam duas horas relativamente normais, com uma morridinha aqui, uma buzinadinha ali, um errinho de marcha acolá... mas não imaginei que a aula me reservaria um momento, digamos, inesperado: algo semelhante a uma sessão de terapia com um psicólogo.
Estava em um carro com freios ABS. Acostumado ao freio sabe-se lá qual do carro da auto-escola, comecei a ter alguns probleminhas com a adaptação. Bastava uma pisadinha no pedal do meio para o carro parar com tudo e ativar o cinto de segurança. Mas com o tempo eu fui dosando o pé. Ou pelo menos eu achava.
Na movimentada Avenida Indianópolis, o semáforo mudou para o vermelho e os carros à minha frente começaram a parar. Fui reduzindo a velocidade aos poucos e passei a ouvir o instrutor ao meu lado: “freia mais, freia mais.... freia mais!”. Chegando a uma distância calculada do carro da frente, parei perfeitamente. Mas não ganhei elogios.
“O freio é ABS, mas você tem que frear antes, viu?”, recomendou o instrutor.
“Ah, é?”, contestei.
“Sim. Você ta confiando muito nos freios. Eles estão funcionando bem, mas não pode confiar tanto assim. É só a primeira vez que você pega esse carro”.
“Hum... ah, beleza”.
O semáforo abriu. Taquei a primeira, saí com o carro e fui. O instrutor, então, pediu a palavra.
“Cara, posso te fazer uma pergunta?”
“Claro, cara”.
“Percebi que você dirige meio que parecido ao seu jeito de pensar. Você costuma confiar assim nas pessoas, logo de cara, apenas porque ela te passou uma segurança um pouco maior?”.
“Hum, eh... sim”.
“Conselho de amigo: já te falaram que isso não é muito bom?”.
“Sim. Humpf”.
sexta-feira, 4 de abril de 2008
Vencido pelo cansaço
“Chega um momento da vida em que um homem precisa ter um carro”. Era uma noite de quinta-feira, e eu estava no banco de trás de um carro de reportagem, olhando para o trânsito na Nove de Julho e com a testa apoiada no vidro, quando tive esse pensamento. Estava prestes a fazer a minha estréia profissional em estádios, com São Paulo x Figueirense no Morumbi, pela Copa Sul-americana, em agosto do ano passado.
Sentindo o peso de ter 19 anos nas costas e ter que freqüentar à noite lugares exclusivamente perto do metrô, achei que estava na hora de tomar vergonha na cara e criar coragem de encarar o trânsito caótico da capital paulistana. Claro, também tive a idéia de escrever um texto sobre a tal descoberta e colocá-lo aqui. Esperei um bocado para amadurecer essa idéia e coincidentemente nesta quinta-feira, oito meses depois, cá estamos.
...
Nove horas da manhã, um dia chuvoso e eu no volante. Um perigo para a sociedade. Mas o mesmo instrutor da auto-escola que me ensinou a passar na prova do Detran (na segunda tentativa) estava lá para não deixar que eu fosse o responsável por uma catástrofe.
“Você lembra de tudo? Aqui você arruma o banco, depois mexe nos espelhos... você sabe, né? Quando quiser pode sair. Isso, dá a seta, engata a primeira e vai”.
Esperei um carro passar, engatei a primeira, soltei o pedal do freio, pisei no acelerador e comecei a conduzir o mesmo Fox de dois anos atrás, quando tirei a minha carteira de habilitação (aquele documento que eu uso apenas como RG, já que nunca achei que precisava dirigir: “Ora, eu moro, estudo e trabalho próximo ao metrô. Por que carro?”, pensava, com certa razão).
Os 50 minutos em que eu estive no comando de um veículo motorizado passaram de forma bem rápida. Milagrosamente, não deixei o carro morrer nenhuma vez. Mesmo nas piores subidas, mesmo com vários carros atrás de mim. Mesmo com a minha atenção dividida entre o trânsito e o bate-papo bacana com o instrutor. Orgulho.
A aula, então, terminou. E eu mesmo me avaliei para o instrutor: “Putz, eu achei que estava bem pior! Mesmo fazendo um ano e meio que eu não dirigia coisa alguma, senti que estava muito melhor, mais confiante... poxa, me surpreendi, cara! E olha que eu nem saí de casa com os meus óculos”.
Claro que ainda cometia alguns errinhos básicos, como não soltar todo o acelerador na hora de trocar a marcha. Mas o mais grave mesmo era o meu tédio quando pegava uma rua um pouco maior e, por instinto, começava a mexer os braços. Os braços cujas mãos seguravam o volante. E o carro devia fazer ziguezague pelas ruas.
O saldo desse meu reencontro com o volante foi... foi neutro, ainda bem: nenhuma morte, nenhum ferido, nenhum carro amassado, nenhum acidente. Embora ainda reconheça que precise de uma aulinha ou outra pra pegar mais prática e ainda mais confiança, até que me empolguei com essa história de dirigir.
É esperar pra ver.
Sentindo o peso de ter 19 anos nas costas e ter que freqüentar à noite lugares exclusivamente perto do metrô, achei que estava na hora de tomar vergonha na cara e criar coragem de encarar o trânsito caótico da capital paulistana. Claro, também tive a idéia de escrever um texto sobre a tal descoberta e colocá-lo aqui. Esperei um bocado para amadurecer essa idéia e coincidentemente nesta quinta-feira, oito meses depois, cá estamos.
...
Nove horas da manhã, um dia chuvoso e eu no volante. Um perigo para a sociedade. Mas o mesmo instrutor da auto-escola que me ensinou a passar na prova do Detran (na segunda tentativa) estava lá para não deixar que eu fosse o responsável por uma catástrofe.
“Você lembra de tudo? Aqui você arruma o banco, depois mexe nos espelhos... você sabe, né? Quando quiser pode sair. Isso, dá a seta, engata a primeira e vai”.
Esperei um carro passar, engatei a primeira, soltei o pedal do freio, pisei no acelerador e comecei a conduzir o mesmo Fox de dois anos atrás, quando tirei a minha carteira de habilitação (aquele documento que eu uso apenas como RG, já que nunca achei que precisava dirigir: “Ora, eu moro, estudo e trabalho próximo ao metrô. Por que carro?”, pensava, com certa razão).
Os 50 minutos em que eu estive no comando de um veículo motorizado passaram de forma bem rápida. Milagrosamente, não deixei o carro morrer nenhuma vez. Mesmo nas piores subidas, mesmo com vários carros atrás de mim. Mesmo com a minha atenção dividida entre o trânsito e o bate-papo bacana com o instrutor. Orgulho.
A aula, então, terminou. E eu mesmo me avaliei para o instrutor: “Putz, eu achei que estava bem pior! Mesmo fazendo um ano e meio que eu não dirigia coisa alguma, senti que estava muito melhor, mais confiante... poxa, me surpreendi, cara! E olha que eu nem saí de casa com os meus óculos”.
Claro que ainda cometia alguns errinhos básicos, como não soltar todo o acelerador na hora de trocar a marcha. Mas o mais grave mesmo era o meu tédio quando pegava uma rua um pouco maior e, por instinto, começava a mexer os braços. Os braços cujas mãos seguravam o volante. E o carro devia fazer ziguezague pelas ruas.
O saldo desse meu reencontro com o volante foi... foi neutro, ainda bem: nenhuma morte, nenhum ferido, nenhum carro amassado, nenhum acidente. Embora ainda reconheça que precise de uma aulinha ou outra pra pegar mais prática e ainda mais confiança, até que me empolguei com essa história de dirigir.
É esperar pra ver.
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