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quinta-feira, 22 de julho de 2010

Fé sem taxa de entrega

Estava no trânsito da Avenida Domingos de Moraes na hora do rush na semana passada quando, parado em um congestionamento, olhei para o lado e vi um cidadão na rua com um cartaz escrito qualquer coisa. Virei, então, o pescoço um pouco mais para a direita e me deparei com dois mais jovens segurando uma outra faixa, apontando para dentro da Igreja da Santa Cruz.

Apertei um pouco mais os olhos para conseguir ler no breu da avenida não lá tão bem iluminada e me surpreendi quando decifrei as letras em vermelho no fundo branco: “drive-tru de orações”, mostrava o cartaz, com uma seta apontando para um corredor no território da igreja.

Drive-tru de orações. É algo no mínimo... bizarro, que jamais ouvi alguém falar sobre as mudanças que o futuro proporcionaria. Nem nos Jetsons. Talvez, quem sabe, um confessionário via Skype, em que o fiel liga para o padre, aciona sua webcam, ajoelha-se e relata todos os seus pecados e depois reza não sei quantas orações previamente decoradas enquanto espera a absolvição divina. Mas nada como um

Infelizmente, achando estar atrasado para o meu compromisso (alguns quarteirões para a frente lembrei que havia combinado não às 20h30, como eu tinha certeza, mas às 21 horas), não pude jogar meu carro na frente de outros veículos parados para entrar e testar o curioso drive-tru. Mas fiquei curioso para saber o que era.

Será que o fiel embica seu veículo ali, relata previamente seus pecados diante de um jovem padre, pega uma notinha e volta para casa ciente do que precisa fazer para conseguir o perdão? Ou será que reza ali mesmo o terço, enquanto o outro veículo da fila aguarda pacientemente a sua vez? E... não poderia, então, haver um espaço reservado para a pessoa estacionar o carro e orar ali mesmo por vários minutos?

Há também a possibilidade de o fiel, que não pôde comparecer à missa dominical, rezar ali mesmo e comungar, não? Quem sabe até que todos os motoristas ali aguardando não deixam seus carros (com a chave no contato, mesmo - afinal, quem roubaria dentro de uma igreja?), dão as mãos e discursam ali um Pai Nosso?

Esse negócio de orações drive-tru, apesar da bizarrice aparente, faz lá seu sentido. Eu, quando bem mais novinho e tinha um temor divino maior infinitamente maior que a memória de um iPhone, precisava aguardar todos os primeiros domingos do mês para a confissão comunitária na igreja aqui perto de casa. Nada de relatar os pecados, eu precisava apenas mentalizar meus erros e ser perdoado sem dizer um A. E depois comungava com a consciência tranqüila.

Em um mundo moderno e imediatista, porém... agora, parece que basta embicar seu carro ali na Igreja da Santa Cruz em um dia qualquer (ou quem sabe numa quinta-feira de trânsito antes da rodada do Campeonato Brasileiro) e fazer a sua oração. E melhor: não é preciso nem pagar a taxa de entrega.

Querendo ou não, é mais saudável que um drive-tru do McDonald’s, né?

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Zona Sul de São Paulo, campeã do mundo

Ao menos àqueles que não fugiram das aulas de geografia no colégio, não é nenhum absurdo dizer que São Paulo é a cidade com maior população da América do Sul. Pois bem. São dez subdivisões, que, juntas, reúnem cerca de 11 milhões de habitantes. A mais populosa dessas áreas é a Sul, com 2,3 milhões – se unida à Centro-Sul, passaremos por pouco o total de 3 milhões de pessoas.

Essas duas regiões, por sua vez, são subdivididas em nove subdistritos: Capela do Socorro, Cidade Ademar, Campo Limpo, Parelheiros, M’Boi Mirim, Santo Amaro, Vila Mariana e o Jabaquara, onde costumo viver há 22 anos.

Até aí ok, eu não precisaria falar toda essa baboseira: a Wikipedia ensina melhor do que eu, apenas com uma tabela maneira. Mas não é esse meu ponto, e sim sugerir a estúpida proposta: já pensou se reunirmos toda a população nascida nesses bairros, escolher a dedo os melhores boleiros de 18 a 35 anos e formar uma seleção de futebol. Disputar as Eliminatórias, buscar uma vaga para a Copa do Mundo... e ser campeão. Estúpido, improvável e impossível, não é?

Não necessariamente. Basta olharmos para a atual Copa do Mundo para vermos o Uruguai, país que tem somente 3,3 milhões de habitantes que quase chegou até a final. Pois é: a população uruguaia é apenas 1,7% da brasileira, de 190 milhões. E nossos vizinhos sulistas quase chegaram
lá, na final do torneio.

Tudo bem, não levemos em consideração o caminho não muito difícil da seleção uruguaia até a as semis – eles não enfrentaram nenhuma grande força mundial (a França, nos últimos dois anos, só coloca medo no próprio torcedor francês). Mas, de qualquer maneira, não é algo notável para a nação liderada pelo presidente José “Pepe” Mujica (que se elegeu no ano passado com uma música de campanha estilo rock Ultraje a Rigor)?

O mais impressionante nisso tudo, além de ver o Uruguai firme e forte lutando por um título conquistado pela última vez há 60 anos (no nosso Maracanã, diga-se), é pensar no seguinte fato: em números de Copas, eles quase chegaram ao tri - igual à Alemanha e atrás apenas de Brasil e Itália... e por pouco não relegaram a bicampeã Argentina à terceira força do continente. Rá!

sábado, 3 de julho de 2010

Sobre a decepção

Antes era assim: eu não parava de acompanhar os e-mails para ter novidades e dar um sorrisinho quando notava alguma mensagem não-lida. Quando notava algum progresso, então, ria sozinho.

Houve um tempo em que tudo estava... bem ruim, para falar a verdade. Mas eu seguia sonhando, algo em mim dizia para acreditar. Achava sempre que seria possível dar um passo aqui, outro lá, fazer um progresso acolá. Tanta esperança deu certo. Muito certo, de uma hora para outra.

Foi nessa época em que minha caixa de entradas ficava aberta 24 horas por dia. Quando ela persistia em ficar lá, parada, eu insistia. A tecla do F5 do meu teclado quase se apagou, de tanto suor vazava dos poros da falange do indicador. E pensar que tudo começou de uma maneira despretensiosa...

Dizem que é impossível ser perfeito, e foi da maneira mais cruel que essa máxima se fez real para mim. Quando o melhor momento estava a uma distância ínfima de mim, a apenas um degrau, tudo desandou.

Não sei lidar com momentos de aperto. Meu instinto, errado eu sei, é abandonar. Deixar de lado, bloquear dos meus pensamentos. Assim o fiz, tentava não me culpar por ter apostado errado em certos momentos.

Só que da fase mais turbulenta surge um insignificante sinal de esperança. Alguma novidade, algum e-mail animador para os últimos instantes. Só que... talvez seja muito tarde. É o erro de se confiar cegamente onde sempre houve uma ponta de desconfiança e notar que não há de onde resgatar alguma força para reagir. Não depois de tanta energia gasta no princípio.

Conformar-se? Talvez seja essa a saída. Tentar não viver o verso seguinte ao da febre, da hemoptise, da dispnéia e dos suores noturnos. Não pensar naquilo tudo que poderia ter sido e não foi. Mas é difícil, quando se faz planos. Tantos planos.

O que sobra? Uma ironia.

Obrigado a todos aqueles de camisa amarela que conseguiram estragar minha chance de ganhar 50 pontos, assumir a liderança de um bolão que pagaria R$ 4 mil ao vencedor entre 200 competidores e me derrubar para o quarto lugar. A uma posição da zona de premiação financeira, o que já me renderia uma bolada de uns R$ 600.

E olha que não estou nem falando da decepção de quatro anos...

domingo, 27 de junho de 2010

A Copa do Mundo atrasada

Investe-se uma grana tremenda desenvolvendo-se novas tecnologias para que a televisão se torne moderna. Interferência, chuvisco, falta de sintonia e bombril na antena são coisas que eu convivia na infância, há 15 anos, e nunca mais ouvi. Aí veio o SAP acompanhado do PAL-M e do NTSC. Depois, o cabo. Tela plana. Trocentas polegadas. O sinal digital. Som stereo, mono, surround. Plasma. HD. Led, 3D e por aí vai.

Uma novidade melhor que a outra, dando a impressão de que o Faustão está de fato na nossa sala, que o Julio Baptista não chutou aquela bola nas arquibancadas mas em nós vuvuzeleiros na câmera + da Globo. A sensação de que as garras do Wolverine estão saindo da tela e aparando nossas barbas. Tudo, tudo. Só esqueceram de uma coisa, bem simples: o tempo que o sinal leva para chegar às nossas telas.

E é esse maldito delay (vulgo "atraso de merda") que vem arruinando com um momento que eu ansiei cada vez mais nos últimos anos: a Copa do Mundo. E o torneio sul-africano tem se tornado cada dia mais decepcionante, ao menos para mim (o nível técnico do futebol não está no mérito), já que me incomodo demais com isso e valorizo mais a surpresa. Mas é impossível a surpresa com tanta tecnologia ao meu redor.

Os televisores com os quais convivo têm cabo com sinal digital, têm tela plana e muitas, muitas polegadas. Toda essa parafernalha apenas intensifica a decepção. Basta um jogador armar o chute na minha tela que já tem gente gritando gol. E agora me diga: qual a graça, cara-pálida?

Vivi isso (mais intensamente) com Brasil x Costa do Marfim. O Luís Fabiano ajeitou a bola na mão pela primeira vez, os vizinhos do prédio já pulavam e se abraçavam gritando gol. Resumindo: o gol mais bonito das últimas Copas foi uma frustração sem tamanho. Chapéu aqui, lençol acolá... e já sabia o final: caixa. Broxante.

O que mais me deixa inconformado é ver o pessoal no boteco de quinta e esquina do outro lado da rua, com bombril na antena, mostrar o gol antes do mundo inteiro. Obrigado, tecnologia, Net, satélites e delay, por estragarem a minha Copa. E por perceberem que como se joga dinheiro no lixo.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Gênesis de um clima copeiro

Eu já era um precoce fracasso com as garotas em 2002 e acabei chegando ao Dia dos Namorados novamente sozinho. Nenhuma novidade, mas naquele ano a proximidade daquela data realmente me chateou: eu havia acabado de levar um pé na bunda da minha maior paixonite até então.

Um dia, quando saí do colégio, resolvi atravessar a rua e dar uma passada no shopping. Estava chegando perto do aniversário de uma amiga minha e pensei em gastar os poucos trocados que tinha para comprar um presente. Passei na Siciliano (ou seria Saraiva?) para dar uma olhada nos CDs e um lançamento em particular me chamou a atenção.

Era o International Superhits!, que o Green Day havia lançado oficialmente havia uns seis meses. Como na época a grana era curta (um pouquinho mais do que agora) e eu não teria condições de comprar de uma só vez os melhores álbuns da banda, aquele parecia o melhor custo-benefício da história da música (até que em Buenos Aires eu encontrei um CD do Shout out Louds por 20 pesos há dois anos). Minha amiga que me desculpasse, eu iria comprar aquele disco!

Eu passava dias seguidos ouvindo meus novos CDs naquela época, e maio e junho de 2002 acabaram sendo marcados por Maria, Basket Case, Warning e Macy’s Day Parade. E esse período coincidiu também com a Copa do Mundo de 2002 e a primeira vez que tomei cerveja e não achei amargo. Eu tinha 14 anos, e até hoje lembro com carinho daquela data. Muito, muito mais até do que da primeira frustração amorosa.

E como meus ciclos musicais vão e voltam (Beatles, por exemplo, é uma ótima pedida entre novembro e janeiro – nunca em março), tive sensação parecida quatro anos depois. Em 2006, aproveitei para resgatar o disco e coloca-lo sempre no meu discman e viver novamente aquela sensação. Quando a Copa acabou em 1º de julho no gol do Henry sobre o Dida, estava tudo programado para que em 2010 o International Superhits! voltasse a fazer parte da minha vida.

Mas, claro, sempre tem algum idiota para atrapalhar com a nossa vida. No meu caso, um ladrão (bem burro, por sinal) que arrombou meu carro para levar o som e, sem encontrá-lo, surrupiou um óculos de sol quebrado, um par de tênis furado e meu porta CDs – com os dois melhores investimentos do mundo musical: International Superhits! e o disco de Buenos Aires do Shout out Louds.

Claro que o segundo pensamento que veio em minha cabeça foi comprar no dia seguinte o International Superhits! Atormentei minha namorada ao repetir n vezes que precisava comprar um CD novo porque, caso contrário, a Copa do Mundo não varia sentido. Até que ela me deu o álbum de aniversário, e a África do Sul realmente ficou logo ali.

Estava entrando hoje no meu carro indo para o primeiro dia do plantão da Copa, às 3h27 da madrugada, quando lembrei de voltar para casa para pegar o International Superhits! e colocar o disco para tocar pela primeira vez. Quando estava voltando pra casa, às 12h23, senti uma necessidade absurda de aumentar o volume do som no caminho de volta para casa.

A Copa do Mundo está só começando.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

06/05/2010

Eu tive medo que o mundo acabasse em 1999. Saiu na tevê, só se falava disso na época. E, com meus 11 anos, era difícil entender que tinha muita groselha em rede nacional. Então, na véspera, queria a todo custo ficar em casa, protegido. Escola à tarde? Mas nem pensar! Se fosse pra acabar o mundo, que fosse jogando International Superstar Soccer no meu Nintendo 64.

Meu pai me tranqüilizou. Disse que o mundo não acabaria, por mais que o livro de Nostradamus dissesse – eu já tinha passado a acreditar no Nostradamus porque meu próprio pai havia dito que muito do que ele escreveu era verdade. Então, naquele dia de 1999, eu imaginei que, na pior das hipóteses, nasceria o Anticristo. Vai saber. Mais 11 anos se passaram e aqui estamos nós.

Só que esses dias entrei pela primeira vez no Half Past Human.com (um site que faz previsões a partir do sistema web bot – ou seja, a partir de palavras-chaves que circulam na internet) e lá havia a seguinte mensagem: “A terceira guerra mundial está aqui” (não lá no site, imagino, mas entre nós).

Era bem de madrugada quando me dei conta de que, se fosse realmente verdade (e deveria ser: o History Channel, na viciante série Efeito Nostradamus, mostrou que o web bot havia acertado desde o 11 de Setembro até a crise financeira, passando pelo Katrina em Nova Orleans), o fim estava realmente próximo. E o primeiro advento aconteceria... dia 6 de maio. De 2010, claro.

É bem no final do texto: “A nova temporada de guerra começa em 6 de maio... fique ligado. Como o Lobo e os outros slogans de Blitzers dizem, “assista, e então escolha. É, afinal, suas mentiras e sua terrível escolha”. Tenebroso, né?

Pois então contei os dias até 6 de maio, esperando algum sinal. Até que, vejam, só, a Grécia entrou em bancarrota, um grupo paquistanês organizou um atentando em Nova York... precisava de mais? Sem contar que Wolf (lobo) Blitzers é um jornalista alemão/norte-americano da CNN. Tenso, imagino.

Agora são 3 horas da manhã do primeiro dia do resto de nossas vidas, segundo o Half Past Human, e nada aconteceu - exceto a eliminação do Corinthians na Libertadores (haha). Realmente não consegui dormir. Medo? Talvez seja. Pena não poder faltar à aula (ao trabalho, no caso) amanhã. E que meu 64 esteja no armário, empoeirado.

Ao menos vai dar tempo de completar meu álbum da Copa e vão me deixar ver os jogos da África do Sul entre junho e julho. E talvez ainda dê tempo de ver o museu do Loco Abreu, quem sabe?

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Happy Hour

Pode ser uma rotina pesada, daquelas que te fazem voltar para casa quando as ruas estão desertas, os semáforos funcionam somente piscando a luz amarela sugerindo atenção e homens ficam de lingerie nas esquinas do caminho de casa – maldita Indianópolis.

Ainda assim, quando há algo interessante para se fazer enquanto descarrega suas baterias em busca do sono (que geralmente vem com o nascer do sol), o dia-a-dia (para não dizer a vida) ganha um significado.

Foi assim comigo nessas duas últimas semanas. Meu irmão aproveitou um vale-presente que havia recebido de Natal e comprou o box da primeira temporada de The Big Bang Theory. Um seriado que, vez ou outra, eu havia tentado assistir com ele em algumas manhãs de domingo antes de ir para o trabalho, mas que nunca havia conseguido entender bulhufas.

Sem nada para fazer em um dos meus últimos dias de folga, vi um, mais um e um terceiro episódio e acabei gostando. Vimos a primeira temporada inteira em menos de uma semana. Peguei com ele os outros episódios da segunda e da terceira temporada e devorei todos: 23 episódios da segunda temporada, mais 12 da terceira.

Acabei de terminar o 35º episódio. Já não sentia tanta graça em certos momentos, fui menos surpreendido do que nas vezes em que estava começando a me ambientar com o seriado. Mesmo assim, continuei assistindo. Dois, três, às vezes quatro episódios por madrugada.

Até que chegou o inevitável momento: terminei. Não há mais episódios inéditos para eu me empanturrar durante as madrugadas. Coincidentemente, também está acabando o Aberto da Austrália de tênis, que ajudavam a preencher – e muito bem – minhas madrugadas e manhãs de insônia.

Agora, os canais esportivos reprisam os jogos que eu acompanhei por cima durante o expediente – nem passam mais os torneios de pôquer. Sinto um vazio. Tenho a impressão de que minha vida após a meia-noite não tem mais sentido. Terei que me contentar com o fato de assistir a um episódio de The Big Bang Theory por semana – algo em torno de 5% do que eu estava fazendo.

Costumava ter essa sensação quando esperava um ano inteiro pelos livros do Harry Potter durante a adolescência; então, após o Natal, submergia na história por uma ou duas semanas e então precisava esperar mais 12 meses pela continuação. O mundo é cruel, não?

Mas vou me preocupar com isso dentro de 19 minutos. Por sorte, consegui achar na internet o 13º episódio da terceira temporada de The Big Bang Theory. Depois, retornarei à insignificância de minha existência entre 1h e 5h da manhã.



Bazinga!

A Fox ainda passa Simpsons entre 0h e 3h.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Voz do tênis

Eu estava extremamente nervoso. Era uma manhã de quinta-feira, bem ensolarada. Mãos suavam, eu parecia mais principiante do que já sou. Estava prestes a fazer a minha primeira entrevista para o estafante TCC ao qual me propus solitariamente: recontar a vida da Maria Esther Bueno.

O meu entrevistado seria um jornalista especialista em tênis, que cobriu bastante o esporte durante a época áurea da Maria Esther. Bem gentil, me convidou para uma conversa pela manhã em seu apartamento, no Itaim. Tomei um café na padaria da esquina enquanto rabiscava, nas costas das minhas pesquisas, umas perguntas que faria a ele.

Às 10h55, paguei a conta, atravessei a rua e segui para o prédio. Tirei os óculos escuros antes de me identificar ao porteiro e subi. O jornalista – um senhor de muito boa aparência, olhos claros, cabelos brancos e uma cicatriz no lábio superior – me recepcionou muito bem, uma casa extremamente bem cuidada e gostosa de morar. Não sei se ele notou minha insegurança, mas me deixou bem à vontade.

Começamos a papear sobre Maria Esther Bueno. Ao fim de duas horas, acabei não o entrevistando. Conversamos bastante, e tive uma sutil impressão de que conhecia aquela voz. Ele ficou impressionado com a minha “vasta” pesquisa para o TCC, as 15 páginas com histórias que eu havia apurado em duas semanas de buscas. E, também, ficou maravilhado com uma edição de colecionador de uma revista que eu havia descolado nessas apurações.

“Infelizmente eu não vou poder ajudar em nada, Felipe. Você, definitivamente, sabe muito mais sobre a Maria Esther do que eu. Estou aprendendo demais contigo”, ele dizia. Depois de algumas dezenas de minutos de conversa, notei o quanto aqueles elogios. O Rui Viotti, dentre outras coisas, foi o narrador das finais do Guga em Roland Garros.

“Quero muito que você me convide para a sua banca de TCC, faço questão de ir para aprender mais com você”, disse o Seu Rui quando nos despedimos. Foi um incentivo e tanto para não desistir, muito embora a personagem principal do meu trabalho não tenha colaborado em nada.

Hoje, desligando o computador, vi no twitter do Sílvio Luiz que o Rui Viotti faleceu nesta segunda-feira, aos 79 anos, após passar dias internado. Teve uma infecção generalizada, não resistiu. Obviamente, fiquei chocado e estarrecido com a notícia inesperada.

Entretanto, vou dormir sem peso na consciência ou arrependimento por um motivo: vendo como ele ficou interessadíssimo com aquela revista de colecionador, tirei uma cópia de todas as páginas e enviei para ele, como um mero presente pela hospitalidade.

Nem sei se recebeu, na verdade. Prefiro pensar que sim, e que gostou. E que tenha, de fato, podido aprender um pouquinho com um moleque nervoso certo tempo atrás.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

A cabeleira do Zezé

Coisas estranhas acontecem todo o tempo, e não ia demorar que algo de... ahn, bizarro se passasse comigo depois que resolvi dar liberdade à minha cabeça e deixar o cabelo ganhar alguns centímetros. Seguindo a tradição da família, os fios cresceram de forma nada sutil, porém lisa. Daqueles que esvoaçam com o vento – se o jornalismo não der certo, posso até tirar a barba e fazer comerciais de xampus, já que não uso condicionador.

Chega de besteira.

Estava dando um pulo no carro para pegar um papel que precisava ser enviado ao UOL para que eu ganhasse meu salário quando encontrei nas escadas uma vizinha velhinha do andar de cima. Gentil, segurei a porta para ela sair, embora quisesse me livrar de um possível papo o mais rápido possível.

Meu sorriso forçado, porém cativante (aham!), não deu certo. A velhinha quis saber com quantos anos eu estava (quase falei 19) e piriri. Aí disse que eu estava muito, muito bonito (algo me diz que a visão dela está afetada) e parecia muito mais jovem (definitivamente, estava afetada). Entre esses elogios, passou a mão no meu cabelo.

Fui para o carro com uma sensação estranha. Até porque, horas antes, eu estava andando pela Paulista após uma agradabilíssima manhã estafante na faculdade (esse negócio de mudar de período dá um trabalho!) quando uma mulher, já de boa idade, veio em minha direção. Ao chegar perto de mim, esticou as mãos e escorreu pelos meus cabelos e falou alguma coisa que eu, juro, não entendi. As pessoas em volta olharam espantadas, e eu mais ainda.

Estava prestes a afirmar que odeio que as pessoas passem a mão no meu cabelo e decretar que tal ato estava temporariamente proibido quando passou um flashback de cinco anos atrás. Eu estava completamente perdido em uma balada, tentando xavecar uma amiga minha extremamente gracinha, quando resolvi passar a mão no cabelo dela como uma aproximação e ela fechou a cara. Saiu de perto, até!

Dias depois, ela explicou a atitude que teve dizendo que tinha pavor que passassem a mão no cabelo dela. É óbvio que a gente nunca teve nada de mais, eu acabei começando um namoro meses depois e perdemos o contato. Um ano depois ela tinha admitido que era apaixonada por mim à época, eu tentei uma nova aproximação (sem mãos no cabelo) e fui novamente dispensado – sorte minha que, recentemente, uma amiga minha disse que ela tinha embarangado geral.

Cabelo é uma coisa estranha. E o meu, seguindo a família, não deve cair. Vai continuar, por muitos e muitos anos, cozinhar minha cabeça. Isso não deve fazer bem.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Linha de chegada

Acordei com o despertador extremamente cedo para o domingo (ainda eram 9 da manhã, acredita?). Entretanto, como precisaria ir trabalhar dentro de poucas horas, resolvi pouco a pouco lutar contra a tentação e fui recobrando a consciência.

As primeiras coisas que passaram pela minha cabeça vieram do rádio, da transmissão ao vivo da Fórmula 1: Rubens Barrichello estava a 12s do Hamilton e a uns 5s do Kovalainen. “Mais um dia sem a musiquinha da Globo”, eu pensei. Aí resolvi apertar o snooze e dormir por mais 10 minutos.

Esse curto período, obviamente, foi prolongado e multiplicado por 3. Resultado: só fui abrir os olhos novamente às 9h30. Relutantemente acordei de verdade, vivi 2 minutos de ócio e então lembrei que poderia ligar a televisão. Para minha surpresa, o Rubinho estava no segundo lugar, tirando vários décimos por volta em relação ao Hamilton, líder.

Resolvi acompanhar a corrida direito, e vi o Rubinho vencer a prova. Quando ele estava para cruzar a linha de chegada, aumentei o volume da televisão. Incrível como o tema da vitória da Globo me agrada tanto. Pois bem. Comemorei o primeiro lugar do Barrichello, tomei banho, almocei e fui para o novo trabalho.

A rua estava extremamente livre, e eu aproveitava para correr e minimizar o atraso já consolidado. Assim, quando virei da República do Líbano para a Hélio Pellegrino e vi a pista livre, engatei a quarta, depois a quinta... e então vi várias bandeiras tremulando para mim.

O que eu fiz? Bom... por um momento, transformei meu Uno em um Fórmula 1 com motor Merdeces-Benz. No meu capacete, estava escrito “Mané - see you on bar soon”. Baixei o vidro, ergui o punho cerrado e festejei minha primeira vitória na Fórmula 1, no circuito urbano de São Paulo. Não houve tema da vitória, do meu carro saía som de uma banda de rock argentino. Deu para disfarçar.

Então parei no semáforo logo à frente. Uma das mulheres que tremulou a bandeira para mim na linha de chegada me entregou um panfleto publicitário de mais um prédio que estava sendo construído pelas redondezas.

Coloquei os óculos escuros para não ser reconhecido. Afinal, basta a gente ganhar uma corrida que já vão querendo empurrar apartamentos luxuosos e etc.

terça-feira, 14 de julho de 2009

A casa 32

Faz pouco mais de um ano, relatei aqui e aqui também um dos episódios mais tristes dos meus últimos anos. Para quem teve preguiça de clicar nos dois links, vou ser bem legal e fazer um resumão nas linhas a seguir.

Eu tinha uma antiga paixão argentina de infância que morou no meu condomínio há sete anos, até que um dia ela resolveu voltar para Buenos Aires. Ela voltou para o Brasil mais uma vez depois desse meio tempo, mas justamente no dia que tirou para me fazer uma surpresa e me visitar em casa, o gênio aqui estava em uma gandaia miada.  

Aí ano passado eu fui para Buenos Aires tirar as minhas primeiras férias do trabalho. Sabia de cor o endereço dela e, no meu segundo dia na capital argentina, peguei um ônibus e fui explorar Olivos, a cidade onde ela morava – na região metropolitana portenha. Detalhe que nos bolsos eu tinha nada além de uma grana curta e um Boletim de Ocorrência relatando meu assalto bisonho em frente à Casa Rosada naquela manhã (!!!). 

Então eu desci do ônibus, andei como um condenado até o número 32 da tal calle para constatar que nunca houve por lá um número 32. Voltei para o albergue, no centro de Buenos Aires, frustrado. Contei meu relato loser aos paraibanos que conheci por lá, ninguém acreditou. Talvez toda aquela gente arretada tenha ficado com dó de mim. Fato é que eu passei a imaginar que a antiga paixão argentina de infância nunca existiu. 

Mas um ano se passou até algumas semanas atrás, quando eu resolvi fazer uma limpeza geral no meu quarto – algo que eu não fazia há uns quatro anos. Joguei fora sacolas e sacolas de papéis, dentre outras coisas. Aí então puxei a última gaveta e encontrei lá um papel candidatíssimo à reciclagem. 

Olhei melhor aquela folha meio amassada e vi uns números de telefones anotados. Dos quase 50 números que tinha lá, acho que não falo com 40 daquelas pessoas. Estava prestes a fazer uma bolinha de papel quando olhei o verso: Antiga paixão argentina de infância – Roma, 662, Olivos. 

662. Maldito 662. Isso significava que eu tinha passado duas vezes na frente da casa da menina. E por que diabos eu tinha achado que o número da casa era 32? Simples: o CEP terminava em 32. Se minha memória fosse algo concreto, eu juro que a teria atirado da minha janela – não que o estrago de uma queda do primeiro andar fosse lá muito grande.

Não joguei fora aquele papel. E, novamente de férias do trabalho, não me arrisquei a ir para Buenos Aires. Faz de conta que a minha antiga paixão argentina de infância nunca existiu, mesmo. Assim eu me sinto menos idiota, também.

segunda-feira, 9 de março de 2009

A vida, um Yakult

Tenho uma dificuldade enorme em me adaptar a mudanças revolucionárias ou qualquer tipo de inovação que praticamente despreza a base anterior. Maior prova disso eu tive ainda na minha infância, quando a Pantera Cor-de-rosa, o Tom e o Jerry começaram a falar. Sem falar no novo design no Pica-Pau, ou outras inovações nos desenhos animados.

O problema é que nos últimos quase 21 anos, muita coisa mudou – não necessariamente para melhor. Até no meu trabalho venho passando por alterações gigantescas, mas isso não vem ao caso neste momento. Por mais retrógrado que possa parecer, venho percebendo ultimamente que me dou muito, mas muito melhor com o padrão original das coisas.

Se dependesse de mim, o Pica-Pau não seria aquele bicho aloprado dos últimos desenhos. O Doug Funny não teria tanta cara de babaca depois que foi comprado pela Disney. E a Pantera Cor-de-rosa nunca, nunca falaria. O máximo de voz ficaria pelos inaudíveis balbucios do cara narigudo e de bigode. Aquilo sim é que era desenho animado bom.

Não suporto mudanças drásticas, para falar a verdade. Minha adaptação custa um esforço enorme, paciência e blábláblá. Dá um trabalho enorme e, por mais que eu tenha a intenção de aceitar essas novas diferenças, fica aquela sensação de que o antigo ainda era mais legal.

A mais firme, interessante e leal prova de que as mudanças não estão com nada é o Yakult. Se não me engano, nos últimos 21 anos, o potinho de Yakult continua minúsculo, com a mesma tampa de papel alumino, e segue vendido em 6 unidades. A única alteração foi no formato da embalagem: antes, com duas filas e três copinhos, agora é apenas uma fileira. Mas isso não muda quase nada.

Dia desses, mudando de supermercado aqui perto de casa, acabei vendo uma promoção de Yakult – ainda estava mais caro do que Chamito ou qualquer imitação menos cara – e decidi levar pra casa. E não é que nem o sabor gostoso pra caramba do leite fermentado com lactobacilos vivos Casei Shirota mudou? Isso sim é que é estratégia de marketing: conservar o que está dando certo.

Todo mundo, inclusive eu, sonha com uma garrata pet de 2L de Yakult. Mas se a fórmula das garrafinhas com pouquíssimos e contados mL está dando certo, por que mudar? Deixa assim (até eu mesmo me contento e me adapto, fazendo um minúsculo furinho no papel para aproveitar ao máximo), que o Yakult vai ter vida longa. E sem nem precisar de publicidade – faz anos que eu não vejo um comercial na televisão.

Tudo deveria ser como um Yakult.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

A nova voz do Chaves

Faz um tempo, cheguei em casa numa sexta-feira à noite e me decepcionei com a versão dublada de O show de Truman – um filme que eu cansei de ver com o áudio original e com legendas em português, espanhol e sem legendas. Dentre outras coisas, fiquei reclamando do fato de que era complicado ver as mesmas coisas de sempre com outro ‘tempero’ (no caso, voz).

Blábláblás à parte, esses dias fiquei sabendo que as Lojas Americanas estava fazendo uma baita promoção fenomenal de DVDs do Chaves e do Chapolin. Depois de muito ter vontade de ir ver o que eu poderia conseguir para alimentar meu vício de infância com a série mexicana, acabei comprando duas coletâneas – ambas do Chapolin, já que vira e mexe o SBT resolve tirar o Polegar Vermelho do ar sabe-se lá porquê.

Voltei para casa feliz da vida com as minhas novas aquisições e com a chance de ver episódios como os impagáveis como os da corneta paralisadora, dos aerólitos, do mini-disco-voador, do vazamento de gás e da o honorável cobrador da companhia elétrica. Foi o melhor negócio que eu poderia ter feito, com apenas 25 pratas desembolsadas. E já estava até pensando em voltar lá nas Americanas para comprar todos os outros DVDs à venda.

Ao colocar o primeiro disco para rodar, percebi que poderia conferir algo ainda mais incrível: a possibilidade de ver os episódios com o áudio original, em castelhano. Para mim, que acabei me interessando extremamente por portunhol depois de passar uns dias em Buenos Aires, teria uma chance e tanto de entender o sotaque mexicano.

Mas... mas... mas coloquei o disco e, assim que rodou a primeira cena, a maior decepção dos últimos tempos: todos os personagens tinham a mesma voz da dublagem original, mas... justamente o Chapolin... não. Nada daquela voz característica do Chaves e do Polegar, que guiou a minha infância, adolescência e início de fase adulta, mas... não. A voz era aquela do desenho animado do Chaves, uma voz... que... não tem nada a ver com o Chaves. Urgh.

É difícil entender, sou muito conservador nesse sentido. As piadas são as mesmas geniais de sempre, mas... sem a voz original do Chaves, fica tão difícil ter o mesmo prazer intenso em assistir aos episódios originalmente dublados pelo Marcelo Gastaldi – dono da Versão Maga e que morreu há 14 anos, tendo no currículo a voz, também, do Charlie Brown no Snoopy e da música final da dublagem de A vida de Brian.

A voz do Chaves feita pelo Gastaldi era única, sabe-se. Mas tem uma coisa: o cara morreu em 1995 e... até hoje, ninguém nunca conseguiu imitar a voz do Chaves? Em toda esquina se encontra um imitador do Sílvio Santos, em todo bairro tem três ou quatro arremedando a Dercy Gonçalves... e ninguém como Gastaldi? E pior, me colocam uma outra voz no melhor seriado de todos os tempos? Não me entra na cabeça.

E... ok, passou meu momento de indignação. Mas passei a ter essa sensação: alguém que saiba imitar perfeitamente o Chaves e fizer um curso de dublagem ganharia rios de dinheiro dublando no lugar do atual dublador original. Que, convenhamos, é um vexame.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

O amigo do meu pai

O Moura é um cara gente fina, não tenho como negar. Conheci o tal Moura quando eu ainda era bem pequenino, tinha acho que uns cinco ou seis anos. Mas nunca tinha reparado nos últimos 15 anos o quanto ele pode ser... útil? Talvez seja isso.

Perguntei uma vez para o meu pai quem era o Moura, e ele logo respondeu que era um grande amigo. Curioso pra danar, perguntei também o que o Moura fazia da vida, e o meu pai logo disse que era um famoso oculista. Ou oftalmologista, sei lá. Alguém que cuidava dos olhos.

Eu, para falar a verdade, não gostava do Moura. Era bem desagradável meu contato com ele, embora fosse grande amigo do meu pai. Tamanho era meu desagrado com o tal Moura que nunca tive muito contato com ele, ainda bem, nos anos que se passaram.

Até que vários anos se passaram, eu ganhei barba na cara e uma rinite que derrubaria até um rinoceronte selvagem. Uma rinite que resolveu me atacar em pleno final de semana de folga, quando eu estava no meu canto jogado no sofá da sala vendo tevê e esperando o mundo acabar em barranco para eu morrer encostado (notei ultimamente que tenho usado muitas gírias da minha avó, por sinal).

Se não me engano, nunca tive um ataque tão forte de rinite. Meu nariz doía, minha garganta arranhava, meus ouvidos reclamavam e, por fim, meus olhos coçavam como nunca. E eu, que nunca fui lá de conter minhas vontades, não parava de coçar os olhos. Uma besta, eu sei.

Depois de um sábado espirrento, o domingo chegou ainda pior. Até que, à noite, eu mal conseguia abrir o olho direito. Foi horrível dirigir voltando para casa com um olho meio fechado e o outro coçando absurdos. Mas deu certo, cheguei aqui em casa e minha rinite deu uma trégua. Mas meus olhos, que já não coçavam mais, agora ardiam. Demais.

Nem mesmo uma noite de sono, com algumas horas além do esperado, salvaram meus olhos. Acordei segunda-feira com o olho direito roxo, coçando e ardendo. Pouco tempo depois, o esquerdo apresentou os mesmos sintomas. E eu já não sabia mais o que fazer.

Então saí do banho, abri o armário secreto no espelho em cima da pia e lembrei do Moura. Peguei o colírio que meu pai deve usar há uns 50 anos (não o mesmo frasco, imagino), chequei a data de validade... e pinguei uma gota do Moura Brasil em cada olho. Meia hora depois eu já não tinha mais nada – só uma coceirinha bem leve, pra falar a verdade.

Estou indo dormir e passei mais uma dose de colírio Moura Brasil em cada olho, que não me incomodam mais e não possuem um vaso saltado em vermelho. Meu pai estava certo: o Moura era um cara bem legal. E grande amigo meu, também.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Voltei a jogar xadrez

Não xadrez, aquele jogo tradicionalíssimo em que se senta em uma cadeira dura em frente a um tabuleiro quadriculado com peças de madeira e passa minutos movendo peça para cá e para lá, batendo dama ou cavalo com certa força sobre a mesa e dizendo xeque.

Voltei a jogar xadrez, mas web-xadrez. Lembrei que tinha comprado o Chessmaster em uma pechincha, por apenas 29 pratas, e que não havia instalado neste computador, e resolvi jogar. Não é aquela mística do estilo tradicional, com alguém do outro lado da mesa pensando tanto quanto você, mas... já é alguma coisa.

É legal ver como o jogo estimula sua forma de pensar e sua atuação no tabuleiro reflete seu momento pessoal. Já joguei xadrez caindo de sono ou antes de acordar e levei um pau do computador. Já pratiquei bem acordado, depois de alguns cafés, e consegui vitórias incríveis. Mas não é só isso, e eu explico a seguir.

É até assustador ver como certos detalhes da minha personalidade influenciam, sempre negativamente, meu jogo. Quase nunca consigo esconder um ataque, assim como raramente meus planos mirabolantes sempre são sacados por alguém antes mesmo de eu pô-los em prática. Sem falar nas atitudes pouco arquitetadas ou pensadas, que eu tomo no tabuleiro assim como na vida real e muitas vezes me estrepo.

Blábláblá à parte, estou voltando a adquirir a boa forma no xadrez. Ainda não estou nem perto do ritmo que eu tinha em 1999, quando aprendi a jogar, fazia aula, conhecia várias aberturas, táticas, macetes e até ganhei a medalha de ouro nas olimpíadas inter-escolares. Mas é bom perceber que, aos poucos, estou pegando o jeito novamente.

Sempre gostei desse Chessmaster, jogo que eu conheci justamente quando fazia aulas. É bom, prático, eu sempre tenho com quem jogar, posso encontrar adversários no computador de diferentes níveis e estilos. Alguns mais rápidos, outros mais pensativos, estratégicos, impulsivos... é bem diversificado.

Mas... não sei. Sinto falta de bater a peça com forma na mesa e falar xeque. Ou colocá-la suavemente na casa e não comentar nada, esperando a outra pessoa perceber o xeque e perdendo tempo enquanto não percebe. Falando em tempo, sinto falta de fazer um movimento e bater rapidamente no relógio de tempo. E de enganar o adversário, batendo suavemente sem que ele percebesse. Para reforçar, eu ainda fingia pensar mil vezes em um movimento fajuto. Confesso, cansei de fazer isso quando tinha 11 anos.

Sinto falta do barulho que eu fazia com as peças quando capturava as do rival. Em Buenos Aires, joguei xadrez com um alemão diretor de cinema e ele fez questão de aprender esse estilo de chocar uma peça com a outra.

Humm... para falar a verdade, sinto falta de um xadrez de verdade.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Inversão de valores

Uma coisa que realmente me incomoda é você ter a sorte grande de encontrar um espaço no meio-fio onde seu carro se encaixa e, basta você desligar o motor, aparece um cara com boné e bigode ralo fazendo um jóia com a mão e prometendo dar a vida pelo veículo. Tudo, é claro, em troca de algum trocado assim que você sair de perto. Do contrário, ele mesmo será o primeiro a destruir sua lataria e amaldiçoar você e suas próximas oito gerações.

Fico bem de cara em dar as moedas. Olhando por certo ponto, não deixa de ser um assalto. Amigável, mas um assalto. Mesmo assim, acabei cedendo e até deixei algumas moedas no meu carro já para ter algum troco à mão na hora de parar meu carro na rua. Mas pouco disso realmente interessa em relação ao que vem pela frente.

Acontece que parei meu carro na sexta-feira em um canto da Praça Roosevelt para tomar algumas limonadas em um dos bares mais legais da cidade – o tal do Papo, Pinga e Petisco. Antes mesmo de estacionar, um tal cara de boné e bigode ralo já fez sinal de que protegeria meu carro até da chuva que estava por vir e eu apenas concordei.

Então saí do carro e ouvi os termos do contrato: “Cinco conto e tá beleza”, ele disse. Respondi que acertaríamos na volta e ele não aceitou. “É que eu vou comer um dog enquanto olho seu carro, patrão”. Argumentei que não tinha trocado ali na hora (o que era verdade), mas deveria ter umas duas pratas no carro (eu deveria ter mais, talvez os cinco) e depois completava o resto. Ele concordou, eu peguei umas quatro moedas e entreguei a ele.

Então, assim que acionei o alarme do meu carro, o tal do guardião por uma noite tentou ser simpático comigo. “Você é gente fina. Burguês, mas é gente fina”. Não dei muita atenção, mas... parando para pensar, não entendi patavinas do que ele disse. Quer dizer... ao pé da letra, não.

Quando eu estava no colégio, na sétima série o professor de História explicou o que era um burguês: aquele que detinha os meios de produção do seu trabalho. E eu... bom, no meu trabalho, eu não tenho o domínio de um site, não faço os reparos técnicos, não uso o meu próprio computador e nem me sento à minha cadeira. Eu seria burguês se tivesse tudo isso, e não só as canetas que uso para fazer rabiscos e anotações durante o expediente.

Na verdade, o burguês da conversa era ele mesmo. Mas é claro, oras. Uma vez que o serviço dele é guardar carros, ele só precisa dele mesmo para realizar o serviço. Outro meio de produção que ele pode usar é o colete verde-água, que... ele mesmo comprou. E depois ele iria comer o hot-dog com o meu dinheiro, em alguma barraquinha de um burguês – dono do pão, da salsicha, dos condimentos e da própria van.

Pensando bem, ele era o burguês da história. Mas é tão mais simples dizer que alguém em uma condição financeira melhor é ‘burguês’ que o real sentido da expressão já é perdido por aí. Ele chamaria de burguês um fazendeiro – que, na tal designação histórica, seria o produtor rural.

Mas quem sou eu para explicar a ele tudo isso? Sou apenas o mero proletário. Que nem dorme de meias para ser burguês...

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Obelisco de Buenos Aires (una mula, II)

Uma vez eu estava num táxi andando pela Avenida Corrientes, lá em Buenos Aires, andando por uma região que era tipo o centro financeiro da Argentina. Era de tarde, umas 16 horas, o céu estava azul bem clarinho e o sol, brilhando. Um dia bem bonito.

Do táxi na Corrientes eu vi, lá no final da rua, o Obelisco. Aquela torre branca, fininha, que é um dos pontos turísticos de Buenos Aires. A cor do monumento contrastou bem com aquela tarde, e eu fiquei olhando bem o aproximar do edifício histórico. Então, passando pelo Obelisco, vi que não era nada de mais. Só um monte de cimento.

Tudo bem, o Obelisco portenho é bonito. Mas notei alguma coisa bem estranha meses depois, dirigindo pela 23 de Maio em um dia ensolarado. Olhei uma hora lá para o fim da avenida e lá estava o Obelisco do Ibirapuera. E eu me senti em Buenos Aires.

É um tanto estranho. Eu passava várias vezes em frente ao Obelisco aqui de São Paulo todas as semanas, quando ia ao Ibirapuera com meu pai aos sábados no começo da década de 1990. Lembro que até entrei para ver o que tinha lá dentro: vários túmulos. O monumento era bonito por fora, trágico por dentro.

Estou enrolando, eu sei, sendo que no fundo eu queria entender só por que, toda vez que passo pelo Obelisco, eu me sinto em Buenos Aires. E não por que diabos eu não me senti em São Paulo passando por monumento parecido na Argentina.

Pensando bem, acho que é porque eu não consigo ver São Paulo como uma cidade turística. Tive até uma conversa sobre isso em Buenos Aires com o dono do meu albergue: ele dizia que os argentinos exploravam mal o turismo e que o Brasil era incrível. Eu, claro, tinha opinião totalmente contrária.

Não consigo ver a minha cidade como ponto atrativo para turistas. É apenas uma cidade gigantesca, sem nada de lá muito sedutor: uns parques, umas avenidas... e só. Sei que em São Paulo o que pega é o turismo financeiro, mas... sei lá. No fundo no fundo, acho que sei qual é a minha: apenas falta de criatividade. Porque moro em uma cidade gigantesca e com mil coisas para fazer... e chega sábado à noite e nunca sei para onde ir.

E sim, eu sou uma mula.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Ainda não é verão

Mas é final de ano. E final de ano é uma delícia. Mesmo. Novembro e dezembro são, de longe, os meses dos quais eu mais gosto em todos os anos. Mais até do que abril, o mês que eu elegia como o me favorito quando pequeno pelo simples fato de que... eu faço aniversário em abril.

Mas abril não é legal. É um mês de outono, no meio do semestre... é aliás o meio do semestre. Depois de agosto, acho que abril é o mês mais chato do ano. Sério. E isso é uma pena, porque... eu faço aniversário em abril, lembra? Humpf.

Só que... não vamos falar de abril, ele está lá distante. Vamos falar do atual momento do ano, esse do início de dezembro. De verdade, é quando eu tenho os melhores motivos para sair de casa, respirar fundo e sentir que o mundo não está perdido. Simplesmente por causa da umidade do ar, que fica também com um cheiro diferente. Ah, eu adoro essa época do ano!

Outra coisa bem interessante de se fazer neste início de dezembro é sair do trabalho às 7 da noite. É mais do que revigorante sair na rua e ver o dia ainda claro, por causa do horário de verão, e quente. Tem vezes em que ainda tem sol, e tal. Sem contar que não tem aula na faculdade. Dá mais do que vontade de parar no bar e tomar uma cerveja com os amigos depois do expediente.

As primeiras horas da manhã também são bem bacanas neste finalzinho do ano. Os dias são tão mais claros do que o normal, o sol fica mais brilhante do que o normal e não necessariamente quente, até pelo menos umas 11 horas. Eu, que normalmente estou acostumado a acordar mesmo lá pelas 11h30, fico bem a fim de levantar mais cedo só pra ficar deitado na cama, com a janela aberta e vendo desenhos animados na televisão, pegando sol e vivendo por osmose.

Adoro ainda passear pela cidade à noite, lá pelas 8 ou 9 da noite. Sair de carro com a minha mãe para ver os enfeites de Natal pelas ruas. Eu adoro enfeites de Natal, e me entristece um tanto ver que o final de ano não é mais tão animado como uns dez anos atrás. Gosto também de ficar em casa, com calor, tomando picolé de limão com o ventilador ligado. Delícia.

Chega essa parte do ano, eu até tenho vontade de ir para a praia. Não tenho nenhuma relação muito afetuosa com a praia (tanto que só fui conhecer o mar ao vivo e a cores com quase 13 anos), mas tem dias em que eu penso que seria bem agradável acordar às 10 da manhã, ficar bebendo na praia até umas 5 da tarde... parar, descansar um pouquinho e voltar pra andar no calçadão de noite e tomar um sorvete.

Mas sei lá. Algo que foi bem, bem bom mesmo foi esse meu primeiro domingo de ‘férias’ da faculdade. Tinha acabado o futebol na televisão, eu fiquei jogado aqui na cama com a televisão ligada... até que tocou a musiquinha do Fantástico uma hora e não bateu aquele frio na barriga de que ‘amanhã começa tudo de novo’.

Amanhã, de fato, começa tudo de novo no trabalho. Completo até 2 anos de redação neste 1º de dezembro, embora desta vez não tenha pique de fazer um texto especial como no ano passado (suspiro). Só que ouvir a trilha do Fantástico e ficar tranqüilo é algo mais do que revigorante e animador.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Deve ser difícil fazer amigos se você mora no Kuwait

Quer dizer, talvez seja fácil fazer amizades com vários Mohammed Al-alguma-coisa que moram no mesmo país que você. Mas fiquei com essa impressão de que kuwaitianos são pessoas solitárias quando conheci o primeiro Mohammed Al-alguma-coisa, recentemente.

Eu estava lá, no cantinho do Pacaembu, enchendo a cara de Red Bull um dia desses. Tinha um bloco na mão esperando o Edgar Davids aparecer por milagre na minha frente e um papel, com a lista dos países participantes do tal evento de futebol freestyle que eu fui cobrir semana passada.

Estava quietinho no meu canto quando um moleque de 1,60m, pele cor-de-barata, narigão (acho que ele se identificou comigo), uma camisa de Portugal e um bigodinho veio gesticular pra mim. Falou só “I from” e apontou para a bandeira do Kuwait.

Arrisquei um inglês: “Oh, man, you are from Kuwait?”. Ele sorriu, fez com a cabeça que sim e ficou lá esperando para ser entrevistado por um brasileiro estagiário de jornalismo. Por que não? Nunca tinha falado com kuwaitianos, mesmo...

Só que foi extremamente difícil conversar com o Mohammed Al-alguma-coisa. Ele não falava patavinas de inglês e nem entendia o que eu falava. “Hablas español?”, arrisquei. Ele respondeu negativamente. Tentei o mais sobrenatural possível, em inglês: “Bom... você está com a camiseta de Portugal... fala português?”. É claro que ele disse que não.

Mas fiquei lá, tentando bater um papo com o moleque do Kuwait – que disse ter 16 anos, embora aparentasse ter quase uns 30. Entendi só o que eu já esperava ouvir: que o cara jogava bola na rua, não tinha onde praticar, sonhava em jogar na Europa e ser um novo Cristiano Ronaldo da vida. Mas precisei de uns belos 20 minutos de inglês slow-motion e muita mímica pra compreender.

O kuwaitiano pediu uma folha de papel e a minha caneta. Entreguei para ele, que rabiscou várias letras e depois rasurou, até me devolver uma versão final do e-mail dele: Mohammed Al-alguma-coisa@hotmail.com. Fiquei constrangido, não saberia adicioná-lo no MSN ou então enviar um e-mail pra ele, ainda mais... se ele não entendia nada de inglês. “Hi, Maomé, I Felipe. Jornalist, New York Times, Al-Jazeera. I from Brazil. Braaaazil. Pelé, Ronaldinho, Robinho, Carnival, Samba...”.

Por via das dúvidas, para fingir uma solicitude e me eximir da responsabilidade, dei um papel para ele com o meu e-mail também. Não o do MSN, que tem uma passagem em hebraico (judeus, muçulmanos... sacou?), mas sim o do trabalho. “Feel free to send me an e-mail, man”. Me despedi, ofereci minha mão para ser cumprimentado. Ele exitou, mas acabou aceitando o cumprimento ocidental.

O Mohammed Al-alguma-coisa, que não tinha feito amigos e sequer falado com ninguém no evento (os chicos da América Latina estavam todos contando piadas, os europeus batiam um papo animado e o negão sul-africano tinha até conseguido se agarrar com uma loirinha holandesa por lá), voltou para seu lugar nenhum para ficar sozinho brincando com a bola. Sem amigos.

Deve ser chato ser kuwaitiano. E, mais do que isso, deve ser chato não ter amigos. E as poucas pessoas de quem você tenta ser amigo... acabam te menosprezando, como eu sem querer acabei fazendo com o tal do Mohammed Al-alguma-coisa.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Não mais do que isso

A day in the life é a primeira música que toca no CD que eu mais coloco para rodar no meu carro. Realmente gosto desse som, que na primeira estrofe tem uns versinhos do tipo “Well I just had to laugh, I saw the photograph”...

E era verdade, eu realmente vi as fotos. Algumas novas que eu nunca tinha visto. Você estava com um penteado diferente, com o cabelo maior e da cor natural. Tinha feições diferentes no seu rosto. Tinha até o piercing que você recolocou no nariz porque sabia que eu gostava de noserings.

Eu vi as fotos, e eu tinha apenas que dar risada. Na verdade... bom, na verdade eu não dei risada. Foi algo até pior do que isso. Eu vi suas fotos, suas várias fotos, e a reação imediata que eu tinha em todas elas era um pensamento estranho, que me incomodava: “Mas peraí, é... só isso?”

Por muito, muito tempo, eu tinha de você a imagem da mulher mais perfeita do mundo. Até seus defeitinhos eram os mais lindos para mim. Eu realmente te fiz a garota ideal na minha cabeça. Fantasia que por um bom tempo me incomodou, me chateou, me causou uma série de danos, vamos dizer assim.

Fiz da nossa história, nossa curta história, a história da minha vida. Gostava de contá-la por aí e tudo mais. E aí, um dia, eu olho para suas fotos e não consigo pensar outra coisa do tipo “Mas é só isso?”. Não te desmerecendo e tal, só que... era só isso, mesmo.

Senti alguma coisa semelhante àquele som orquestral no meio de A day in the life. Um barulho perturbador, até, que separa a parte monótona e non-sense da música em uma outra, agitadinha e bonitinha. “Woke up, fell out of bed, dragged a comb across my head; found my way downstairs and drank a cup; and looking up I noticed I was late”.

Humm… pois é. Percebi que eu deixei me atrasar por um bom tempo. Mas agora que... ahn, talvez eu esteja mais ‘acordado’, vou lá fora viver um pouquinho. Enquanto isso, você... fica bem. Talvez um dia a gente se encontre por aí, tome um café e bata um papo como bons amigos.

E só isso.