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domingo, 29 de abril de 2012

Prefácio de um livro inexistente

Quando percebi que era você que eu queria para mim durante os próximos dois, cinco ou 50 anos, talvez 70, senti que, mais do que nunca, deveria escrever. Não sabia se as minhas crônicas pueris seriam o suficiente para nós, então deixei de lado a minha aspiração a cronista. Passei a escrever e-mails, mensagens de celular, conversas pela internet...

Hoje, no entanto, acordei com a certeza de que toda essa minha escrita simples e pessoal com você nos últimos intensos e insanos dias não eram mais o bastante. E nem o suficiente. Hoje, em uma manhã fria de domingo, com um bloco virgem e uma caneta nova, decidi que escreveria um livro sobre nós. Um livro para que eu leia daqui uns dois, cinco, 50 ou talvez 70 anos e me recorde de você.

Ou para que eu tenha a certeza de que eu ainda não me esqueci de você, não sei. Até porque, como eu já lhe tinha falado uma ou 100 vezes, não dá para levar uma vida normal depois de ver o seu sorriso iluminar o meu mundo.

Antes que eu esqueça, queria te falar uma coisa: mudei a estrutura do nosso livro. O prefácio não será a nossa pré-história (ou seja, a nossa história antes do primeiro encontro). E ah, esse livro terá um fim, como já se sabe (e não será, como havíamos combinado antes, um relato que seria concluído apenas por nossos filhos).

Espero que não se importe de ver a nossa história exposta aqui, assim tão real, aos olhos de tanta gente. E espero que, assim como eu, ainda guarde lembranças boas de nossa vida juntos.

Sinceramente e com carinho;

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Gênesis de um clima copeiro

Eu já era um precoce fracasso com as garotas em 2002 e acabei chegando ao Dia dos Namorados novamente sozinho. Nenhuma novidade, mas naquele ano a proximidade daquela data realmente me chateou: eu havia acabado de levar um pé na bunda da minha maior paixonite até então.

Um dia, quando saí do colégio, resolvi atravessar a rua e dar uma passada no shopping. Estava chegando perto do aniversário de uma amiga minha e pensei em gastar os poucos trocados que tinha para comprar um presente. Passei na Siciliano (ou seria Saraiva?) para dar uma olhada nos CDs e um lançamento em particular me chamou a atenção.

Era o International Superhits!, que o Green Day havia lançado oficialmente havia uns seis meses. Como na época a grana era curta (um pouquinho mais do que agora) e eu não teria condições de comprar de uma só vez os melhores álbuns da banda, aquele parecia o melhor custo-benefício da história da música (até que em Buenos Aires eu encontrei um CD do Shout out Louds por 20 pesos há dois anos). Minha amiga que me desculpasse, eu iria comprar aquele disco!

Eu passava dias seguidos ouvindo meus novos CDs naquela época, e maio e junho de 2002 acabaram sendo marcados por Maria, Basket Case, Warning e Macy’s Day Parade. E esse período coincidiu também com a Copa do Mundo de 2002 e a primeira vez que tomei cerveja e não achei amargo. Eu tinha 14 anos, e até hoje lembro com carinho daquela data. Muito, muito mais até do que da primeira frustração amorosa.

E como meus ciclos musicais vão e voltam (Beatles, por exemplo, é uma ótima pedida entre novembro e janeiro – nunca em março), tive sensação parecida quatro anos depois. Em 2006, aproveitei para resgatar o disco e coloca-lo sempre no meu discman e viver novamente aquela sensação. Quando a Copa acabou em 1º de julho no gol do Henry sobre o Dida, estava tudo programado para que em 2010 o International Superhits! voltasse a fazer parte da minha vida.

Mas, claro, sempre tem algum idiota para atrapalhar com a nossa vida. No meu caso, um ladrão (bem burro, por sinal) que arrombou meu carro para levar o som e, sem encontrá-lo, surrupiou um óculos de sol quebrado, um par de tênis furado e meu porta CDs – com os dois melhores investimentos do mundo musical: International Superhits! e o disco de Buenos Aires do Shout out Louds.

Claro que o segundo pensamento que veio em minha cabeça foi comprar no dia seguinte o International Superhits! Atormentei minha namorada ao repetir n vezes que precisava comprar um CD novo porque, caso contrário, a Copa do Mundo não varia sentido. Até que ela me deu o álbum de aniversário, e a África do Sul realmente ficou logo ali.

Estava entrando hoje no meu carro indo para o primeiro dia do plantão da Copa, às 3h27 da madrugada, quando lembrei de voltar para casa para pegar o International Superhits! e colocar o disco para tocar pela primeira vez. Quando estava voltando pra casa, às 12h23, senti uma necessidade absurda de aumentar o volume do som no caminho de volta para casa.

A Copa do Mundo está só começando.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

06/05/2010

Eu tive medo que o mundo acabasse em 1999. Saiu na tevê, só se falava disso na época. E, com meus 11 anos, era difícil entender que tinha muita groselha em rede nacional. Então, na véspera, queria a todo custo ficar em casa, protegido. Escola à tarde? Mas nem pensar! Se fosse pra acabar o mundo, que fosse jogando International Superstar Soccer no meu Nintendo 64.

Meu pai me tranqüilizou. Disse que o mundo não acabaria, por mais que o livro de Nostradamus dissesse – eu já tinha passado a acreditar no Nostradamus porque meu próprio pai havia dito que muito do que ele escreveu era verdade. Então, naquele dia de 1999, eu imaginei que, na pior das hipóteses, nasceria o Anticristo. Vai saber. Mais 11 anos se passaram e aqui estamos nós.

Só que esses dias entrei pela primeira vez no Half Past Human.com (um site que faz previsões a partir do sistema web bot – ou seja, a partir de palavras-chaves que circulam na internet) e lá havia a seguinte mensagem: “A terceira guerra mundial está aqui” (não lá no site, imagino, mas entre nós).

Era bem de madrugada quando me dei conta de que, se fosse realmente verdade (e deveria ser: o History Channel, na viciante série Efeito Nostradamus, mostrou que o web bot havia acertado desde o 11 de Setembro até a crise financeira, passando pelo Katrina em Nova Orleans), o fim estava realmente próximo. E o primeiro advento aconteceria... dia 6 de maio. De 2010, claro.

É bem no final do texto: “A nova temporada de guerra começa em 6 de maio... fique ligado. Como o Lobo e os outros slogans de Blitzers dizem, “assista, e então escolha. É, afinal, suas mentiras e sua terrível escolha”. Tenebroso, né?

Pois então contei os dias até 6 de maio, esperando algum sinal. Até que, vejam, só, a Grécia entrou em bancarrota, um grupo paquistanês organizou um atentando em Nova York... precisava de mais? Sem contar que Wolf (lobo) Blitzers é um jornalista alemão/norte-americano da CNN. Tenso, imagino.

Agora são 3 horas da manhã do primeiro dia do resto de nossas vidas, segundo o Half Past Human, e nada aconteceu - exceto a eliminação do Corinthians na Libertadores (haha). Realmente não consegui dormir. Medo? Talvez seja. Pena não poder faltar à aula (ao trabalho, no caso) amanhã. E que meu 64 esteja no armário, empoeirado.

Ao menos vai dar tempo de completar meu álbum da Copa e vão me deixar ver os jogos da África do Sul entre junho e julho. E talvez ainda dê tempo de ver o museu do Loco Abreu, quem sabe?

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Back to the 90's

Não gostam quando eu escrevo sobre futebol. So sorry.

Minha mãe me ligou terça-feira e me acordou, não lembro muito bem sobre o que ela queria falar. Percebeu a minha voz de sono, perguntou se eu estava dormindo. Respondi que sim. “Mas... filho, são quase 7 da noite. Você não vai para a faculdade?”. Disse que não: “Tem jogo do Palmeiras, mãe, o mais importante do ano”. Acho que ela entendeu.

Era Palmeiras x Sport, lá no Recife, pelas oitavas-de-final (com hífen, velha língua portuguesa) da Libertadores. A Globo não ia passar o jogo, tinha Ronaldo na quarta-feira pelo Corinthians (prato cheio). Como não tenho mais televisão a cabo já tem uns dois anos, apelei para aqueles sites que transmitem jogo ao vivo. O sinal do Sportv já estava congestionado, fiquei com um em espanhol.

Depois que o Palmeiras levou o 1 a 0 no finalzinho do jogo, fiquei de mau-humor. Quase morri quando ouvi a bola na trave que o Sport meteu nos acréscimos. A partida, então, foi para os pênaltis. Assim como ia há dez anos, quando eu via o jogo no sofá da sala ao lado do meu pai – nas fases finais da Libertadores, palavrões eram liberados. Peguei a camisa que ganhei de aniversário da minha namorada e voltei a ter 11 anos, na torcida.

O Marcos, então, pegou três pênaltis e classificou meu time para a próxima fase. Acho que nem na final do Campeonato Paulista do ano passado eu fiquei tão animado com meu time. Literalmente, voltei a ter 11 anos. Gritei pela janela, li todos os relatos do jogo em todos os sites esportivos. Usei camisetas do Palmeiras até o final da semana útil. Eu, que torcia pouco, lembrei o quanto era bom vibrar com o futebol.

A vitória sufocante coincidiu com a minha leitura d' Os Dez Mais do Palmeiras, do Mauro Beting. Naquele dia, ainda estava no perfil do Julinho Botelho. A cada página, lamentava por ter apenas 20 anos e não ter visto Ademir, Dudu, Luís Pereira, Djalma Dias, Djalma Santos e as duas Academias de Futebol jogar. Hoje, porém, cheguei aos perfis de Evair e Marcos, meus dois maiores ídolos no futebol (o terceiro é o Ronaldo, mas eu não conto para ninguém).

Lendo detalhes de todos aqueles jogos que eu via, tinha uma memória agradável. Assim que terminei a brilhante parte do Marcos, resolvi digerir a leitura e fui ver uns jogos de tênis para o meu TCC – e, embora eu soubesse o resultado final do jogo, também torcia a cada ponto para a Maria Esther Bueno 50 anos atrás.

Depois, abri o YouTube para ver alguns lances da Libertadores de 1999. Nos pênaltis da final, urrava ‘uuuhh’ quando o Marcos quase alcançou as cobranças 2 e 3 do Deportivo Cali. Xinguei o Dudamel, o goleiro venezuelano que marcou o primeiro dos colombianos. Comemorei a bola na trave na quarta cobrança. Respirei aliviado quando o Euller virou na quinta cobrança do Palmeiras. Na última do Cali...

... Eu quase tive vontade de sair na janela da sala e gritar ‘É campeão!’, como fiz na madrugada de 16 para 17 de junho de 1999, antes de abraçar meu pai. Eu, fechado no meu quarto, gargalhei sozinho. Meu olho marejou, mas é por causa da irritação da rinite dessa semana.

Quando o Marcos parar de jogar, no final deste ano ou em 2011, não vou ter mais ídolos no Palmeiras. Em 4 de maio do ano passado, meio bêbado nas arquibancadas, gritei ‘Fica, Valdívia!’, para consagrar o chileno no meu imaginário. Ele foi para o Catar. Apesar de empolgado com o time do Palmeiras, não vejo um outro grande jogador além do Marcos.

Agora, pensando bem... há duas semanas entrevistei o Dudu. Hoje me arrependo por não ter pedido um autógrafo pro Velhinho...

segunda-feira, 9 de março de 2009

A vida, um Yakult

Tenho uma dificuldade enorme em me adaptar a mudanças revolucionárias ou qualquer tipo de inovação que praticamente despreza a base anterior. Maior prova disso eu tive ainda na minha infância, quando a Pantera Cor-de-rosa, o Tom e o Jerry começaram a falar. Sem falar no novo design no Pica-Pau, ou outras inovações nos desenhos animados.

O problema é que nos últimos quase 21 anos, muita coisa mudou – não necessariamente para melhor. Até no meu trabalho venho passando por alterações gigantescas, mas isso não vem ao caso neste momento. Por mais retrógrado que possa parecer, venho percebendo ultimamente que me dou muito, mas muito melhor com o padrão original das coisas.

Se dependesse de mim, o Pica-Pau não seria aquele bicho aloprado dos últimos desenhos. O Doug Funny não teria tanta cara de babaca depois que foi comprado pela Disney. E a Pantera Cor-de-rosa nunca, nunca falaria. O máximo de voz ficaria pelos inaudíveis balbucios do cara narigudo e de bigode. Aquilo sim é que era desenho animado bom.

Não suporto mudanças drásticas, para falar a verdade. Minha adaptação custa um esforço enorme, paciência e blábláblá. Dá um trabalho enorme e, por mais que eu tenha a intenção de aceitar essas novas diferenças, fica aquela sensação de que o antigo ainda era mais legal.

A mais firme, interessante e leal prova de que as mudanças não estão com nada é o Yakult. Se não me engano, nos últimos 21 anos, o potinho de Yakult continua minúsculo, com a mesma tampa de papel alumino, e segue vendido em 6 unidades. A única alteração foi no formato da embalagem: antes, com duas filas e três copinhos, agora é apenas uma fileira. Mas isso não muda quase nada.

Dia desses, mudando de supermercado aqui perto de casa, acabei vendo uma promoção de Yakult – ainda estava mais caro do que Chamito ou qualquer imitação menos cara – e decidi levar pra casa. E não é que nem o sabor gostoso pra caramba do leite fermentado com lactobacilos vivos Casei Shirota mudou? Isso sim é que é estratégia de marketing: conservar o que está dando certo.

Todo mundo, inclusive eu, sonha com uma garrata pet de 2L de Yakult. Mas se a fórmula das garrafinhas com pouquíssimos e contados mL está dando certo, por que mudar? Deixa assim (até eu mesmo me contento e me adapto, fazendo um minúsculo furinho no papel para aproveitar ao máximo), que o Yakult vai ter vida longa. E sem nem precisar de publicidade – faz anos que eu não vejo um comercial na televisão.

Tudo deveria ser como um Yakult.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

O amigo do meu pai

O Moura é um cara gente fina, não tenho como negar. Conheci o tal Moura quando eu ainda era bem pequenino, tinha acho que uns cinco ou seis anos. Mas nunca tinha reparado nos últimos 15 anos o quanto ele pode ser... útil? Talvez seja isso.

Perguntei uma vez para o meu pai quem era o Moura, e ele logo respondeu que era um grande amigo. Curioso pra danar, perguntei também o que o Moura fazia da vida, e o meu pai logo disse que era um famoso oculista. Ou oftalmologista, sei lá. Alguém que cuidava dos olhos.

Eu, para falar a verdade, não gostava do Moura. Era bem desagradável meu contato com ele, embora fosse grande amigo do meu pai. Tamanho era meu desagrado com o tal Moura que nunca tive muito contato com ele, ainda bem, nos anos que se passaram.

Até que vários anos se passaram, eu ganhei barba na cara e uma rinite que derrubaria até um rinoceronte selvagem. Uma rinite que resolveu me atacar em pleno final de semana de folga, quando eu estava no meu canto jogado no sofá da sala vendo tevê e esperando o mundo acabar em barranco para eu morrer encostado (notei ultimamente que tenho usado muitas gírias da minha avó, por sinal).

Se não me engano, nunca tive um ataque tão forte de rinite. Meu nariz doía, minha garganta arranhava, meus ouvidos reclamavam e, por fim, meus olhos coçavam como nunca. E eu, que nunca fui lá de conter minhas vontades, não parava de coçar os olhos. Uma besta, eu sei.

Depois de um sábado espirrento, o domingo chegou ainda pior. Até que, à noite, eu mal conseguia abrir o olho direito. Foi horrível dirigir voltando para casa com um olho meio fechado e o outro coçando absurdos. Mas deu certo, cheguei aqui em casa e minha rinite deu uma trégua. Mas meus olhos, que já não coçavam mais, agora ardiam. Demais.

Nem mesmo uma noite de sono, com algumas horas além do esperado, salvaram meus olhos. Acordei segunda-feira com o olho direito roxo, coçando e ardendo. Pouco tempo depois, o esquerdo apresentou os mesmos sintomas. E eu já não sabia mais o que fazer.

Então saí do banho, abri o armário secreto no espelho em cima da pia e lembrei do Moura. Peguei o colírio que meu pai deve usar há uns 50 anos (não o mesmo frasco, imagino), chequei a data de validade... e pinguei uma gota do Moura Brasil em cada olho. Meia hora depois eu já não tinha mais nada – só uma coceirinha bem leve, pra falar a verdade.

Estou indo dormir e passei mais uma dose de colírio Moura Brasil em cada olho, que não me incomodam mais e não possuem um vaso saltado em vermelho. Meu pai estava certo: o Moura era um cara bem legal. E grande amigo meu, também.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Voltei a jogar xadrez

Não xadrez, aquele jogo tradicionalíssimo em que se senta em uma cadeira dura em frente a um tabuleiro quadriculado com peças de madeira e passa minutos movendo peça para cá e para lá, batendo dama ou cavalo com certa força sobre a mesa e dizendo xeque.

Voltei a jogar xadrez, mas web-xadrez. Lembrei que tinha comprado o Chessmaster em uma pechincha, por apenas 29 pratas, e que não havia instalado neste computador, e resolvi jogar. Não é aquela mística do estilo tradicional, com alguém do outro lado da mesa pensando tanto quanto você, mas... já é alguma coisa.

É legal ver como o jogo estimula sua forma de pensar e sua atuação no tabuleiro reflete seu momento pessoal. Já joguei xadrez caindo de sono ou antes de acordar e levei um pau do computador. Já pratiquei bem acordado, depois de alguns cafés, e consegui vitórias incríveis. Mas não é só isso, e eu explico a seguir.

É até assustador ver como certos detalhes da minha personalidade influenciam, sempre negativamente, meu jogo. Quase nunca consigo esconder um ataque, assim como raramente meus planos mirabolantes sempre são sacados por alguém antes mesmo de eu pô-los em prática. Sem falar nas atitudes pouco arquitetadas ou pensadas, que eu tomo no tabuleiro assim como na vida real e muitas vezes me estrepo.

Blábláblá à parte, estou voltando a adquirir a boa forma no xadrez. Ainda não estou nem perto do ritmo que eu tinha em 1999, quando aprendi a jogar, fazia aula, conhecia várias aberturas, táticas, macetes e até ganhei a medalha de ouro nas olimpíadas inter-escolares. Mas é bom perceber que, aos poucos, estou pegando o jeito novamente.

Sempre gostei desse Chessmaster, jogo que eu conheci justamente quando fazia aulas. É bom, prático, eu sempre tenho com quem jogar, posso encontrar adversários no computador de diferentes níveis e estilos. Alguns mais rápidos, outros mais pensativos, estratégicos, impulsivos... é bem diversificado.

Mas... não sei. Sinto falta de bater a peça com forma na mesa e falar xeque. Ou colocá-la suavemente na casa e não comentar nada, esperando a outra pessoa perceber o xeque e perdendo tempo enquanto não percebe. Falando em tempo, sinto falta de fazer um movimento e bater rapidamente no relógio de tempo. E de enganar o adversário, batendo suavemente sem que ele percebesse. Para reforçar, eu ainda fingia pensar mil vezes em um movimento fajuto. Confesso, cansei de fazer isso quando tinha 11 anos.

Sinto falta do barulho que eu fazia com as peças quando capturava as do rival. Em Buenos Aires, joguei xadrez com um alemão diretor de cinema e ele fez questão de aprender esse estilo de chocar uma peça com a outra.

Humm... para falar a verdade, sinto falta de um xadrez de verdade.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Obelisco de Buenos Aires (una mula, II)

Uma vez eu estava num táxi andando pela Avenida Corrientes, lá em Buenos Aires, andando por uma região que era tipo o centro financeiro da Argentina. Era de tarde, umas 16 horas, o céu estava azul bem clarinho e o sol, brilhando. Um dia bem bonito.

Do táxi na Corrientes eu vi, lá no final da rua, o Obelisco. Aquela torre branca, fininha, que é um dos pontos turísticos de Buenos Aires. A cor do monumento contrastou bem com aquela tarde, e eu fiquei olhando bem o aproximar do edifício histórico. Então, passando pelo Obelisco, vi que não era nada de mais. Só um monte de cimento.

Tudo bem, o Obelisco portenho é bonito. Mas notei alguma coisa bem estranha meses depois, dirigindo pela 23 de Maio em um dia ensolarado. Olhei uma hora lá para o fim da avenida e lá estava o Obelisco do Ibirapuera. E eu me senti em Buenos Aires.

É um tanto estranho. Eu passava várias vezes em frente ao Obelisco aqui de São Paulo todas as semanas, quando ia ao Ibirapuera com meu pai aos sábados no começo da década de 1990. Lembro que até entrei para ver o que tinha lá dentro: vários túmulos. O monumento era bonito por fora, trágico por dentro.

Estou enrolando, eu sei, sendo que no fundo eu queria entender só por que, toda vez que passo pelo Obelisco, eu me sinto em Buenos Aires. E não por que diabos eu não me senti em São Paulo passando por monumento parecido na Argentina.

Pensando bem, acho que é porque eu não consigo ver São Paulo como uma cidade turística. Tive até uma conversa sobre isso em Buenos Aires com o dono do meu albergue: ele dizia que os argentinos exploravam mal o turismo e que o Brasil era incrível. Eu, claro, tinha opinião totalmente contrária.

Não consigo ver a minha cidade como ponto atrativo para turistas. É apenas uma cidade gigantesca, sem nada de lá muito sedutor: uns parques, umas avenidas... e só. Sei que em São Paulo o que pega é o turismo financeiro, mas... sei lá. No fundo no fundo, acho que sei qual é a minha: apenas falta de criatividade. Porque moro em uma cidade gigantesca e com mil coisas para fazer... e chega sábado à noite e nunca sei para onde ir.

E sim, eu sou uma mula.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Ainda não é verão

Mas é final de ano. E final de ano é uma delícia. Mesmo. Novembro e dezembro são, de longe, os meses dos quais eu mais gosto em todos os anos. Mais até do que abril, o mês que eu elegia como o me favorito quando pequeno pelo simples fato de que... eu faço aniversário em abril.

Mas abril não é legal. É um mês de outono, no meio do semestre... é aliás o meio do semestre. Depois de agosto, acho que abril é o mês mais chato do ano. Sério. E isso é uma pena, porque... eu faço aniversário em abril, lembra? Humpf.

Só que... não vamos falar de abril, ele está lá distante. Vamos falar do atual momento do ano, esse do início de dezembro. De verdade, é quando eu tenho os melhores motivos para sair de casa, respirar fundo e sentir que o mundo não está perdido. Simplesmente por causa da umidade do ar, que fica também com um cheiro diferente. Ah, eu adoro essa época do ano!

Outra coisa bem interessante de se fazer neste início de dezembro é sair do trabalho às 7 da noite. É mais do que revigorante sair na rua e ver o dia ainda claro, por causa do horário de verão, e quente. Tem vezes em que ainda tem sol, e tal. Sem contar que não tem aula na faculdade. Dá mais do que vontade de parar no bar e tomar uma cerveja com os amigos depois do expediente.

As primeiras horas da manhã também são bem bacanas neste finalzinho do ano. Os dias são tão mais claros do que o normal, o sol fica mais brilhante do que o normal e não necessariamente quente, até pelo menos umas 11 horas. Eu, que normalmente estou acostumado a acordar mesmo lá pelas 11h30, fico bem a fim de levantar mais cedo só pra ficar deitado na cama, com a janela aberta e vendo desenhos animados na televisão, pegando sol e vivendo por osmose.

Adoro ainda passear pela cidade à noite, lá pelas 8 ou 9 da noite. Sair de carro com a minha mãe para ver os enfeites de Natal pelas ruas. Eu adoro enfeites de Natal, e me entristece um tanto ver que o final de ano não é mais tão animado como uns dez anos atrás. Gosto também de ficar em casa, com calor, tomando picolé de limão com o ventilador ligado. Delícia.

Chega essa parte do ano, eu até tenho vontade de ir para a praia. Não tenho nenhuma relação muito afetuosa com a praia (tanto que só fui conhecer o mar ao vivo e a cores com quase 13 anos), mas tem dias em que eu penso que seria bem agradável acordar às 10 da manhã, ficar bebendo na praia até umas 5 da tarde... parar, descansar um pouquinho e voltar pra andar no calçadão de noite e tomar um sorvete.

Mas sei lá. Algo que foi bem, bem bom mesmo foi esse meu primeiro domingo de ‘férias’ da faculdade. Tinha acabado o futebol na televisão, eu fiquei jogado aqui na cama com a televisão ligada... até que tocou a musiquinha do Fantástico uma hora e não bateu aquele frio na barriga de que ‘amanhã começa tudo de novo’.

Amanhã, de fato, começa tudo de novo no trabalho. Completo até 2 anos de redação neste 1º de dezembro, embora desta vez não tenha pique de fazer um texto especial como no ano passado (suspiro). Só que ouvir a trilha do Fantástico e ficar tranqüilo é algo mais do que revigorante e animador.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Videogame novo

Tocar guitarra foi, por muitos anos, um dos meus métodos de espairecer todas as tardes e inícios de noite. Mesmo nas vésperas das provas que me assustavam mais no colégio (história e geografia, já que química, matemática e física eu tirava de letra), tocava um bom tempo de guitarra ou baixo para relaxar.

Mas o tempo passou, eu fiquei mais velho e chato e preguiçoso... e minha guitarra foi empoeirando no canto do meu quarto. Estava até desanimado em reaprender todas as músicas que eu sabia de cor, e em sonhar em ter uma banda e em fazer shows e todo esse sonho adolescente... era triste, eu sei.

Enquanto isso, meus amigos também aspirantes a músico se deliciavam com uma versão mais light e animada da guitarra: o Guitar Hero. Eu, que só tinha visto uma vez ou outra uma molecada jogando no reveillon de 2007/08 enquanto eu tomava cervejas e mais cervejas com meus amigos mais velhos aqui no prédio, não me empolgava nada. Era simples: apertar botãozinho no Playstation... bah, isso não era tocar guitarra.

Até que os meses de 2008 passaram e, não faz muito tempo, fui apresentado oficialmente ao Guitar Hero. Apesar de não ter jogado mais do que 30 minutos, admito que achei fenomenal. Eu, todo pomposo e metido a guitarrista, mal conseguia jogar no nível médio. No difícil, então, eu parecia estar na minha primeira aula de violão. Um desastre. Era um desafio virar um bom guitarrista no videogame.

Aí chegou o feriado, em que eu consegui combinar folgas da faculdade com o trabalho. Eu, enfim, tinha tempo para espairecer. E em vez de tirar minha guitarra do armário, comprei um CD do Guitar Hero e fui me meter a aprender a jogar aquela coisa.

Era quinta-feira de tarde quando eu comecei a arriscar minhas primeiras músicas. No nível fácil, tá bom, mas já era um começo. O tempo passou, o dia escureceu lá fora... e eu fiquei jogando até bem tarde. Lembrei do dia em que eu ganhei meu Super Nintendo, no Natal de... 96? É, acho que foi isso. Quando eu fiquei jogando Super Mario até altas horas da madrugada, querendo porque querendo passar de fase. Só mais uma. E mais uma. E mais uma.

Jogar Guitar Hero foi voltar uns 15 anos no tempo. Aquela coisa de ganhar um videogame novo e ficar até de madrugada entretido com o jogo. E depois acordar cedinho no dia seguinte para continuar jogando. Ter que se acostumar com os botões, os comandos... e o Winning Eleven, o único jogo de videogame em que eu me aventurava... ficou ali, quietinho no canto. E eu me empolgava com as mensagens de incentivo na tela: You rock! Pensava comigo mesmo: “Yeah, baby, I rock!”. Até me achei de novo um rockstar, veja só.

Mais do que isso, voltei a ter vontade de pegar meu violão de novo. Fazer um Sol (é a nota mais legal de fazer), uma pestana... pegar uma palheta de novo e tentar um riff famosinho. Tirar músicas antigas, músicas novas, todas que eu quiser e achar que posso tocar.

Quero voltar a tocar. Mas não hoje. Ainda falta uma prova para acabar o ano na faculdade, e... bom, já são 4 da manhã. Quem sabe na semana que vem? Até lá, me contento com o Guitar Hero.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Sábado, anos atrás

Foi estranho. Meu telefone tocou no meio da tarde, eu não estava esperando. Fui atender.

“Oi”, disse a pessoa do outro lado da linha.
“Hum, oi. Ué, você não tava brava comigo?”, perguntei.

“Sim, eu estava. Mas já passou. E aí, o que você vai fazer hoje?”, ela arriscou.
“Não sei, talvez o mesmo que eu estou fazendo agora: ficar deitado na minha cama jogando videogame”, respondi inocentemente.

“Humm, tá”, ela emendou, meio decepcionada.
“Que foi? Por quê, tem alguma sugestão?”, tentei.

“Ah, queria ir para o shopping. Vamos?”, convidou.
“Hum, pode ser. Então... 16h30, lá?”.

E tudo ficou marcado.

Tomei banho, fiz a barba duas vezes, penteei o cabelo umas quatro. Passei perfume, escolhi uma calça e uma camiseta legal. Não gostei do cabelo, coloquei um boné. Virei para trás e saí de casa.

Antes de encontrar a tal garota no shopping, comprei um Trident verde. Nunca se sabe, né? Então nos vimos na catraca do metrô, saímos andando um ao lado do outro e fomos para a cobertura do shopping. Ela também me ofereceu um chiclete, um Trident verde. Coincidências...

Ficamos conversando sobre a vida, nada de mais. Até que ela me convidou para ir ao cinema. “Tá passando Exorcista, vamos ver?”. Sem muita idéia, aceitei. Melhor do que ficar jogando videogame.

Entramos na sala. Era a sala 10, eu me lembro. Estava meio lotada, ficamos na zona do gargarejo ali na frente. Nas poltronas do canto. Assim que nos sentamos, baixei o braço que separava as nossas duas poltronas. Ela me olhou de um jeito estranho e disse um “Ah, então tá”. Eu era um idiota, admito.

O trailer começou e eu virei para a tela. Ela, então, se aproximou do meu ouvido e disse, manhosa: “Você não me abraçou mais”. Subi o braço da poltrona. Dei um sorriso e um abraço na garota. Mas não foi um abraço comum, como eu estava acostumado com as minhas amigas.

Senti algo diferente naquele abraço. Um movimento súbito e não-planejado do pescoço dela. Dei-lhe um beijo na bochecha. Mais um. Mais um. Um quarto. Já estava perto de sua boca. “Ih, então... é agora? Será que vai... será que... nossa! Mas e se ela não quiser? Bom, não vou falar nada”, conversei comigo mesmo.

O beijo seguinte não foi mais na bochecha dela. Demos um selinho e abrimos nossas bocas. Nem tive tempo de pensar se deveria colocar minha língua, a dela já estava na minha boca. “Então... isso é que... isso é que é beijar?”, eu pensava no mesmo momento.

Não falei nada para ela, que ela tinha sido responsável pelo meu primeiro beijo. Mas ela logo me disse ao pé do ouvido: “Nossa, você beija bem”. E eu ganhei meu dia, meu mês. E até a frustração das minhas paixonites passadas.

Acabei me lembrando dessa história hoje. Dia 6 de novembro foi o dia em que eu comecei a namorar aquela menina, a Ju, um certo tempo depois do nosso primeiro beijo. A gente não ficou lá muito tempo juntos, vivíamos momentos diferentes. Mas, por causa dela, já até me apaixonei por uma outra menina só porque ela tinha hálito de Trident verde.

sábado, 1 de novembro de 2008

Ticket to ride (away)

Ah,

Eu cheguei em casa esses dias um pouco cansado. Não, vai. Era bem, bem cansado. Mas ultimamente tenho andado meio eufemista, fingindo que tudo anda bem e tal. Talvez porque na verdade tudo ande realmente bem, e eu fique por aí tentando arranjar algum motivo pequeno para desestabilizar uma época bem legal.

Mas não vamos falar sobre as minhas besteiras, pode ser?

Bom, o fato é que eu estava realmente cansado e tinha chegado em casa. Esse é o nosso ponto de partida. Abri a porta de casa, acordei meu cachorro. Ele estava deitado no sofá, mas acordou e veio correndo para a porta fazer festa para mim. Dei um tapinha na cabeça dele, peguei o brinquedo da boca dele, joguei no fundo do corredor. Ele foi buscar, devolveu para mim e voltou para o sofá.

Vim para o quarto, meu irmão estava sentado na minha cama mexendo no computador. Este mesmo, que agora está no meu colo enquanto eu vivo mais uma noite de insônia com a janela aberta. Certeza de que isso não deve ser muito saudável, pegar vento às 4 da manhã.

Ih, mas olha eu fugindo do assunto de novo.

Acho que... é, acho que estou fugindo tanto para não falar que... que cheguei em casa e vi, no meu quarto, um pedaço de papel querendo cair da minha estante. Me aproximei, ele estava com as costas para cima. Todo surrado, dobrado e amassado, querendo amarelar.

Virei o tal do papel. Ele tinha me custado... ele tinha me custado R$ 15,55. Não lembro se paguei direitinho, com moedas contadas e tudo, ou se simplesmente dei uma nota de 50 para o caixa. O bilhete foi emitido às 14h22 de um sábado. Aquele sábado.

Nem lembrei que tinha comprado aquele bilhete e ido para a plataforma 7o8. Ou 758. Pode ser 708, não sei. A tinta já se apagou um tantinho, não dá para ler muita coisa naquele papel.

Apesar de que... ah, qual a diferença? Eu tenho lá minhas lembranças, minhas lembranças ruins, sempre que vejo esse papel. Deixa que ele se apague mesmo, é até melhor. Tenho muitos outros bilhetes mais interessantes guardados aqui no meu quarto. Que me trazem doces, doces lembranças.

Só me entristece um pouco o fato de não ser só a tinta do bilhete que está se apagando. Estão sumindo das minhas lembranças, aos poucos, o seu rosto, o seu olhar brilhante, o seu sorriso, a sua voz...

... não que isso seja ruim, na verdade.

domingo, 26 de outubro de 2008

Rock na escola

Tardes quentes de domingos me fazem ficar em casa quando estou de folga, apenas esparramado sobre o sofá em busca de algo na televisão que não seja tão corrosivo para a minha cabeça. Desta vez, sem futebol na televisão por causa das eleições, encontrei Escola de Rock em um dos Telecines. Maravilha.

Acho que foi a quarta vez que vi Escola de Rock, e, como sempre, tive aquela sensação de tirar minha guitarra e meu amplificador de cima do armário e arriscar alguns acordes. Mas, além disso, acabei me lembrando de um dos meus shows mais incríveis. Como nunca falei dele, vamos lá.

Era uma manhã de final de maio ou começo de junho, sexta-feira. Meus amigos de sala e eu, já no terceiro colegial, tínhamos resolvido nos inscrever no show de talentos da semana olímpica da escola. Depois de muitas idéias e desavenças quanto ao nosso repertório (todos eram metaleiros, menos eu), chegamos a um meio-termo que pudesse agradar não só ao pessoal da banda como aos jurados. Iríamos tocar duas músicas do Mamonas Assassinas e, por fim, Rock and roll all nite, do Kiss.

Apareci no colégio logo cedo, umas 7 da manhã, com a minha guitarra nas costas. Andei pelo ginásio praticamente vazio e subi para a sala de aula, onde estavam algumas amigas minhas – uma delas era minha grande paixonite da época, mas não estávamos nos falando já tinha algumas semanas. Depois o resto da banda chegou, assim como as meninas que iriam nos maquiar (parece coisa de viado, eu sei) e fomos para o salão nobre. Vazio, vazio.

Subimos para a coxia e lá começou toda a produção. Desenho aqui, tinta branca ali e acolá, mais tinta branca, pintura preta... peruca (eu era o único que não tinha cabelo comprido), batom (peraí, eu não vou passar batom! Vai, Held, o Chitão também passou. Tá bom, tá bom)... cabo, pedaleira, fonte da pedaleira... guitarra desafinada, afinação… palhetas, onde estão as minhas malditas palhetas puta que o pariu? Ok, uma aqui, uma ali... ok, achei minhas três palhetas. Esparadrapo nos dedos da mão direita (eu sempre me ferro tocando guitarra)… vocês são a próxima banda, vamos lá.

Achei que o salão estaria vazio, já que era manhã de sexta-feira e a presença dos alunos não era obrigatória na semana olímpica. Mas, assim que pisei no palco, vi o salão completamente tomado. Quanta gente tinha ali? 200? 300? Eu chutaria 300, tinha bastante gente em pé. Logo na primeira fila, no entanto, estava aquela tal paixonite. Do alto do palco tentei disfarçar, mas... ok, ela estava na minha frente.

Começamos a tocar, com muito pouca iluminação. Chopis Centi e Jumento Celestino correram bem, sem erros crassos ou acontecimentos fantásticos. Até que as luzes todas se apagaram por completo, o baterista fez a introdução, as guitarras entraram... as luzes piscaram e todos viram que estávamos vestidos de Kiss, tocando Kiss. Uh-la-lá.

Eu, na época, era bem tímido. Muito, muito mesmo. Mas perdia por completo a timidez quando estava em cima de um palco e com a minha guitarra pendurada. E, naquele momento, não tinha resquício algum de timidez ou insegurança. Tanto que, quando estávamos para chegar ao refrão, sugeri por meio de sinais para o restante da banda que ninguém cantasse ou tocasse, exceto o baterista. Deu certo, e o salão inteiro levantou e começou a cantar com a gente. Eu me senti um rock star.

Pouco depois chegou o meu solo. Dei alguns passos para a frente, fui para a beirada do palco e, quando vi, estava pertinho da minha paixonite. Tentei não errar, consegui. Ouvi um elogio da paixonite, dei um sorriso. Putz! Depois o show infelizmente acabou, recebemos aplausos e mais aplausos. Voltei para a coxia, tirei a peruca, limpei o rosto e saí do salão. Em êxtase, ainda.

Nunca fui lá muito popular no meu colégio, admito. Mas naquele dia foi incrível como tanta gente me reconheceu. Até uma menina da oitava série por quem eu tinha uma paixãozinha platônica me parou, perguntou “você era aquele cara que tocou Kiss agora há pouco, né?”. Respondi que sim e ela logo emendou “nossa, você tocou muito, adorei. Parabéns”. Era meu auge, eu estava no topo do mundo e da cadeia alimentar. Eu era um fenômeno.

Curti um pouco meus 15 minutos de fama e voltei para casa. Feliz, feliz da vida. Tínhamos ficado em segundo lugar no show de talentos e fomos convidados para nos apresentarmos na apoteose. Mas a essa segunda apresentação a paixonite não pôde ir. E eu, particularmente, não me senti tanto rock star.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Reaprendizado

Eram parceiros de almoço, os dois amigos. Todos os dias, no mesmo horário, se encontravam no mesmo lugar de sempre para irem almoçar e depois entrarem no trabalho.

Um dia, um dos amigos não apareceu. Era quinta-feira, fim de verão. O outro parceiro estranhou. Pegou o celular, caçou o número do outro na agenda e ligou, quase que preocupado, para saber o que havia se passado. Três toques depois, uma resposta.

“Opa. Fala, cara! Você não vem almoçar hoje?”.
“Ih, cara... foi mal, já almocei”.

“Beleza. Já tá vindo pro trabalho, onde você tá?”.
“No shopping”.

“Onde?”
“Muito, mas muito longe”.

“Onde fica isso?”
“Pega a Marginal, depois você vai na saída da Ayrton Senna. Anda uns 100 km e você chega”.

“Como assim, cara?”
“Tô de folga, velho. Vim viver um pouco”.

Um estalo de beijo.

”Bom, ela saiu do banheiro. Tô indo pro cinema, bom trabalho aí”.
“Parabéns, cara, hahaha! Aproveita!”.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Missa

Tem acontecimentos que não gosto de falar por aí (claro), e apenas alguns amigos mais próximos acabam sabendo de detalhes mais castos, sórdidos, bizarros ou marcantes da minha vida. Mas este... bom, confio aos dois leitores diários deste blog e aos 48 pára-quedistas que caírem aqui por meio de uma busca no Google.

Aconteceu um domingo desses, quando eu estava saindo de casa logo cedo para o trabalho. Assim que abri a porta do prédio, senti um vazio – que foi crescendo enquanto eu me aproximava do portão do condomínio. “Quando foi a última vez que eu fui à igreja? Hum... bom, já faz tempo. Tirando aquelas na Argentina, com a menina suíça porque ela queria ver a arquitetura latina... mas à missa, putz, tem tempo”.

Continuei com esse pensamento tentando me lembrar da data exata. “Acho que foi em 2005. É, isso, na Primeira Comunhão do meu irmão. Ah, mas... teve também a missa de sétimo dia do pai do meu amigo. Não, não... a última mesmo foi a missa da minha formatura, verdade”. Ou seja, quase três anos. “Bom, tá na hora de ir, não?”.

Admito que não sou lá um cara muito religioso. Já fui mais, muito mais, quando era mais novinho. Mas aí depois eu fiz a minha Primeira Comunhão, com 11 anos, e acabei desaparecendo da igreja que tem aqui do lado de casa.

Além disso, nunca fui lá de cumprir promessas: nas minhas rezas antes de dormir (antes, eu rezava um Pai Nosso, uma Ave Maria e ainda uma oraçãozinha de minuto – hoje em dia, se eu me lembro, faço um Sinal da Cruz), vez ou outra pedia alguma coisa bem idiota (do tipo passar de ano sem recuperação) e... ok, nunca cumpria.

O pensamento da igreja perdeu espaço logo depois nos meus pensamentos quando fui chegando ao trabalho. Segui minha rotina de sempre, trabalhei lá umas sete ou oito horas e decidi voltar para casa. Liguei o rádio no jogo do Palmeiras, abri a porta de casa, do meu quarto e desfaleci na cama.

Só fui acordar exatamente às 18 horas. “Putz, bem que eu poderia ir à igreja, né? É bem a essa hora que começa a missa”. Então coloquei uma calça jeans, uma camiseta branca e andei os três quarteirões até a capelinha aqui do lado. Sentei em um banco lá no fundo e fui acompanhando as falas no jornalzinho.

Comecei a olhar em volta durante os sermões e vi que até tinha bastante gente na igreja, tão apinhada como antes. Mas percebi que... bom, uma boa parte das pessoas por lá era de pessoas aparentemente pobres. Difícil achar alguém que parecia ter uma condição social melhor. Passou a impressão de que a maioria das pessoas ricas não tem por que ir à igreja, né?

Notei que algumas das músicas cantadas durante a missa eram diferentes em relação àquelas que eu ouvia há uns dez anos, quando ia para a missa das 18 horas acompanhado do meu pai. Para falar a verdade, senti um pouco a falta dele ali. Era a minha primeira missa sozinho, aliás.

Então chegou a hora da eucaristia. Fui para a fila depois de um tempinho e me lembrei da primeira vez em que recebi a hóstia. Por um momento me senti pré-adolescente de novo, mas olhei para trás e não vi meu pai lá com um sorriso contido. Estremeci.

Não sei se sou só eu, mas me sinto completamente baqueado quando coloco a hóstia na boca. Penso na vida, penso na minha avó, no meu pai... penso em tudo, menos em mim. Fiquei realmente ... realmente pensativo naquela hora. Ajoelhado, tentei extravasar o choro que tinha tentado sair na hora da fila. Não consegui. Isso me deprimiu.

A missa acabou logo depois, e eu voltei para casa. Com as mãos nos bolsos e bem, bem tranqüilo comigo mesmo.

terça-feira, 30 de setembro de 2008

30/set; 5.844 dias depois

Um dia desses eu cheguei em casa um pouco estressado. Nada de lá muito relevante, mas assim que parei meu carro na vaga na garagem, não tive muita vontade para sair de lá. Desliguei o motor, aumentei o som e me deixei ficar jogado no banco, apenas olhando o nada e pensando na vida.

Fiquei um tempo assim, quando então comecei a brincar de apertar os pedais do freio e da embreagem. A colocar as marchas, a brincar de dirigir com o carro parado na vaga. Como eu gostava de fazer com o carro da minha mãe – ironicamente, um bem parecido ao meu – quando eu tinha uns cinco anos.

Passei lá um tempinho, ouvindo a música em um volume aceitável e brincando de dirigir. Até que girei a chave, joguei uma água no vidro e ativei o limpador de pára-brisa. Fiz isso mais uma vez, e mais uma, e mais uma... Eu me divirto com o limpador de pára-brisa, para falar a verdade. Tem uns 15 anos que eu sou assim.

Em uma das vezes em que girei o contato para limpar o pára-brisa, acendi o farol e vi à minha frente um dos jardinzinhos do meu condomínio. Meus amigos e eu costumávamos correr por ali nos idos de 1997, 98, 99... quando brincávamos de esconde-esconde ou polícia-e-ladrão. Era divertido, eu tinha uns esconderijos bem legais.

Naquela época ninguém podia subir muito tarde. Todos éramos muito, muito amigos. Todos jogávamos futebol, depois conversávamos sobre a partida, depois brincávamos de esconde-esconde, conversávamos sobre novos esconderijos ou sobre aquela vez em que não-sei-quem salvou o mundo e fez tal pessoa contar mais uma vez.

Hoje ninguém mais corre por aquele jardinzinho, nem mesmo a molecada pequena. O lugar está todo bonito, com a grama bem-aparada, algumas plantas e tal. Na nossa época, no máximo tinha grama e uns galhos jogados no chão. Era divertido, a gente sempre corria por ali.

Na nossa época... na nossa época muita coisa era diferente por aqui. O parquinho não tinha grama, era todo de areia. A gente se sujava à beça, levava bronca porque estragava as meias... mas sempre valia a pena. Desbravar o esgoto (um canal que leva a água da chuva até um terreno baldio no final do condomínio) era sempre uma aventura. Legal também era quando aparecia um cachorro vira-lata por aqui, todo mundo adotava o mascote e se divertia com ele. Faz vários anos que eu não vejo um cachorro se perder por aqui.

Hoje em dia eu não vejo muita coisa por aqui, mesmo. Mal vejo meus amigos. Vários já se mudaram para outros prédios. Tem um que foi para Campinas; outro, para Botucatu... muitos outros que estão fazendo faculdade aqui em São Paulo e ainda moram no nosso condomínio, mas têm horários diferentes do meu. Quanto muito a gente se encontra para tomar uma cerveja na sexta à noite. Era mais legal quando a gente fazia vaquinha e comprava esfiha para comer na pracinha.

Muita coisa mudou. Sinto falta de viver tudo aquilo de novo, uma época em que não tínhamos preocupação alguma. E... bom, eu estava ali, jogado no banco do meu carro esperando o mundo acabar em barrancos.

Por sorte, o mundo não acabou. E ainda virou alguns dias até chegar hoje. É 30 de setembro, 2008 e tal. Faz 16 anos, eu estava em um quarto de hospital com minha avó, meu avô e meu tio, sentado na beira da cama da minha mãe esperando para conhecer meu irmão. Aí chegou aquela coisinha mirradinha, de cabelos loirinhos e tal no colo da enfermeira. Chorão, banguela. Segurei no colo. Aquela era... meu... irmão.

Minha mãe se esbalda de rir quando conta a primeira coisa que eu disse ao ser apresentado ao meu irmão. Como não vi os dentes dele, comentei na hora que deveríamos levá-lo urgentemente ao Doutor Acley (que era o dentista da minha mãe na época) dar um jeito no meu irmão. Eu lembro vagamente desse momento, para ser sincero.

Do último dia de setembro de 1992 até 2008, puxa, como o tempo passou. Meu condomínio mudou, os jardins daqui mudaram, a pintura dos prédios também. Meus amigos mudaram e se mudaram também.

A única coisa que não mudou muito é aquela coisa de que, sempre que eu olho para o meu irmão, vejo uma coisinha mirradinha de cabelos loiros (mesmo ele já estando quase do meu tamanho). Ele sempre vai ser meio chorão, aos meus olhos. E tarraqueta, azedo, manhoso. Ainda mais quando ele está no banco da frente do meu carro quando estamos indo à dentista.

Hoje vou ver meu irmão com 16 anos. Quando entrar em casa, me desvencilhar do cachorro que fará festa ao me ver e eu olhar meu irmão, acho que vou ver novamente aquela coisinha tarraqueta banguela. Acho que essa sensação não vai mudar.

Ainda bem.

sábado, 27 de setembro de 2008

E-mail não enviado, um tempo atrás

Hey,

Sabe? Queria te contar uma coisa. Ou várias. Ou... sei lá, talvez sejam várias coisas resumidas em uma, não sei. E antes que você ache que eu enlouqueci de vez, deixa eu começar a explicar.

Ouvi aquela sua música pela primeira vez... ah, eu lembro exatamente o dia em que ouvi aquela sua música pela primeira vez. Eu estava lá, um pouco desconfortável e espremido em uma cama que não era a minha. Acordei com você se levantando cuidadosamente ao meu lado, passando por cima de mim e indo tomar banho.

Enquanto o chuveiro fazia barulho, eu fiquei lá deitado apoiando minha nuca sobre o travesseiro e sobre as palmas das mãos e pensando como era um homem de sorte. Depois você entrou no quarto, ligeiramente iluminado pelo sol que também se comprimia pelos buraquinhos da veneziana, e estava enrolada em uma toalha verde. Achou que eu estava dormindo, tirou a toalha, colocou um vestido (e como eu gostava daquele vestido!), calçou os chinelos e foi para a sala.

Saí do quarto não muito tempo depois. Também tomei um banho e fui para a cozinha, onde tomamos café-com-leite e comemos pizza amanhecida. Você, então, colocou o mini system com um CD que começou com o vocal calmo do Paul e um violãozinho. “Essa música diz muito de mim, sabia?”, você me disse. E cantarolou toda a música enquanto me olhava tomar café-com-leite e comer aquela pizza horrível de pêssego.

Aquela música ficou na minha cabeça por um bom tempo. Alguns meses. Todos os dias ouvia aquela música várias vezes. Geralmente quando eu devorava vários cigarros lamentando cada acorde da música e esperava o tempo de entrar no trabalho. Chegou um dia que eu decidi odiar aquela música, e simplesmente parei de ouvir.

Um tempo passou, até que um dia eu estava no meu carro indo para o cinema com uma outra garota. Estava ouvindo Ohio, do Bowling for Soup (aquela que começa tipo She said she needed a break, a little time to think. But then she went to Cleveland, with some guy named Leelan that she met at the bank). Logo depois começou a tocar aquela música, que me pegou meio desprevenido (não lembrava que tinha gravado o som naquele CD).

A garota ao meu lado disse que a música era bonitinha, perguntou de quem era. “É do Paul”, eu falei. “Paul? Que Paul?”. “Paul... McCartney”, expliquei. Ela fez uma cara de quem já tinha ouvido falar aquele nome (claro, poxa!). Tentei clarear a mente dela “Sabe? John, Paul, George, Ringo...”, elucidei. “Hum... de que banda eles são?”, ela perguntou. “Beatles!?”, respondi meio sarcástico.

Ela, então, disse algo que realmente me incomodou. “Sabia que eu nunca ouvi Beatles?”. Olhei incrédulo, soltei uma exclamação. “Como assim você nunca ouviu Beatles?”, indaguei. “Ah, nunca... nunca ouvi nenhuma música deles, acredita?”. Aquilo me chocou, de verdade. Coincidentemente ou não, aquele foi o último dia em que fomos ao cinema.

Mais um tempo se passou e, um dia desses, acordei com uma enorme vontade de ouvir essa música. Tomei banho, fui para o trabalho feliz da vida ouvindo aquela música, vivendo um outro dia. E não me lembrei de você um instante sequer.

Não lembrava mais que aquela era a sua música. Acho que a transformei na minha música.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

45, segundo tempo

Olhou pela janela para viver aquela vista pela última vez. Aquela janela que, nos melhores dias, deixava trespassar uma luz clara, brilhante e pura do sol nas mais belas manhãs que ele já vira. Daquele sol que o esquentou quando ele deitou na cama em um domingo para se esquentar, mas nem precisou – o abraço que aconteceu naquele momento valeu muito mais do que qualquer calor.

Viu aquelas casinhas ali embaixo, tão pequenininhas. Ele sabia que nunca mais as veria. Aproximou-se do parapeito para inspirar aquele ar pela última vez. Viu, do lado de fora, um copinho de plástico com alguns tocos de cigarro lá dentro. “Ela andou fumando, que pena”, pensou.

Não quis mais olhar pela janela, e sim esquecer aquela vista para sempre – mas sabia que não conseguiria. Virou-se após respirar fundo e viu a porta aberta. A porta branca, testemunha de tudo o que se passara naquele quarto. A porta, que já não era mais puramente branca, tinha sido enfeitada com desenhos psicodélicos que não faziam sentido algum.

Queria ficar ali por mais um minuto para desvendar o que era aquilo que parecia uma lua minguante. Queria ficar ali por mais algumas horas para desvendar todos os desenhos. Queria ficar ali para sempre, mas sabia que não podia. E o choro, entalado na garganta, quase explodiu – converteu-se apenas em uma fungada e em duas lágrimas.

Antes de passar pela porta, deu a última volta por aquele quarto. Tirou uma caneta do bolso, escreveu qualquer coisa em um papel em branco que estava por lá. “Para você nunca se esquecer de que fez alguém te amar”. Ele achou que isso a tocaria daqui alguns anos. Prendeu o bilhete em um porta-recados, colocou suas tralhas nas costas e saiu.

Ainda havia mais uma porta por onde passar. A última. O último passo, o último instante, o último segundo. “... o último beijo?”, ele arriscou. “Acho melhor não”, ela recusou, fria, com os olhos baixos. “Um abraço, pelo menos?”. “Desculpa, querido, não quero te abraçar”, ela sacramentou.

Ele baixou a cabeça, mas teve forças para erguê-la mais uma vez. “Queria te dizer até logo, sabe? Queria mesmo, mas... alguma coisa me diz que... é adeus”, ele fraquejou. “É só um até logo”, ela confortou. Ele lhe de um beijo na bochecha. “É estranho te dar um beijo no rosto depois de tudo o que a gente viveu”, ele admitiu. Ela não respondeu; e ele saiu pela porta, que se fechou logo em seguida.

“Adeus”, ele sussurrou.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Manhã em 1998

Faz dez anos, eu estava jogando futebol no pátio da escola com meus amigos da quarta série. O sinal para a entrada bateu faltando cinco minutos para as oito, alertando que todos os alunos do primário tinham que formar uma fila. Era sexta-feira, dia em que a diretora apareceria por lá para cantarmos o Hino Nacional. Eu acho.

Quando o ploc-ploc do salto da Dona Hermandina ecoou no pátio, todos se calaram. A diretora da escola, o falido Ateneu Ricardo Nunes, já tinha lá seus 80 anos, mas apesar da idade bem avançada conseguia respeito total de todas as criancinhas do colégio. Sempre sisuda, com vestidos de cores fortes e apenas uma mecha branca no cabelo, bastava dar um olhar penetrante para algum de nós que todos abaixavam a cabeça.

Eu sabia que a Dona Hermandina gostava de mim. Sempre fui um bom aluno, nunca tinha dado trabalho da pré-escola até aquele dia (tirando meu primeiro dia de aula). Ela sabia que eu era um menino bonzinho, sempre me elogiava, tinha um bom relacionamento com a minha mãe e sabia que eu entrei na escolinha com quatro anos já sabendo ler e escrever.

A nossa diretora também sabia que eu era absurdamente tímido para falar que já sabia ler e escrever à professora do pré (e pensar que, se eu tivesse aberto a boca, poderia ter pulado um ano e pegaria meu diploma acadêmico dentro de três meses). Sempre gostei da Dona Hermandina, apesar de ela me botar um medo danado. Mas naquele dia... naquele dia eu olhei para ela e não baixei a cabeça novamente. Sei lá, estava meio... ahn, não sei, estava um tanto chateado e pouco me importando com as conseqüências (não, não era uma rebeldia).

Depois do Hino e do sermão semanal da dona do colégio, os alunos foram liberados para irem para as respectivas salas. Quando a quarta série estava saindo do pátio, ela me puxou pelo braço e disse que queria falar comigo. “Putz, será que eu fiz alguma besteira?”, pensei. Meus amigos pegaram o corredor e entraram para a aula, e eu fiquei lá sozinho com a Dona Hermandina.

“Não vai me dar um abraço?”, ela perguntou. Com um pouco de medo, dei um abraço tímido na diretora, que logo sentenciou: “Eu sabia, Felipe. Olhei para você hoje de manhã e vi que você, um menino cheio de alegria que todos os dias chegava feliz da vida com um olhar todo brilhante, hoje estava tristinho. E seu abraço está vazio. Que aconteceu?”.

Não sabia o que responder e tentei desconversar, falando “não, está tudo bem”. “Ora, Felipe, você nunca mentiu para mim. Eu sou sua amiga”. Relutei, reforcei que estava tudo bem. Ela não acreditou. “Está tudo bem com a sua família…?”.

Ela tocara exatamente na minha ferida. Meus pais haviam se separado há menos de um mês, e eu odiava tocar nesse assunto. Eu, com dez anos, acreditava que minha família era perfeita. Ter pais separados era... um terror. Todos os dias rezava para meus pais voltarem, e naquele dia eu tinha acordado um pouco sem esperanças.

“São seus pais, não é mesmo?”, ela perguntou. Balancei a cabeça afirmativamente, deixando uma lágrima escapar. Chorando, acabei contando tudo para ela, que ficou quase uma hora no pátio conversando comigo. Ao final, pediu um novo abraço. “Vai ficar tudo bem, querido. Mas queria conversar com você, fiquei preocupada. Mas seu abraço ficou mais feliz agora”. E sorriu para mim. Em seis anos de Ateneu, poucas vezes a tinha visto sorrir.

Dez anos se passaram e até hoje não sei como a Dona Hermandina soube que justamente naquele dia eu estava mal. Até achei que a minha professora, ou até mesmo a minha mãe tinham conversado com ela. Não sei. Às vezes, gosto de acreditar que meu olhar demonstrou mesmo a minha tristeza. Sempre fui assim, alguém além da minha mãe tinha que saber isso.

Dia desses, recebi a notícia de que a Dona Hermandina morreu este ano. Tive a mesma sensação de quando passei um dia na frente do Ateneu e vi minha primeira escola falida. Nunca tinha contado essa história para ninguém, e agora sei que nunca vou ter a chance de saber como ela soube da minha tristeza naquela manhã de sexta-feira. Ok, me entristeci lembrando esse fato. E nem precisei ver meu olhar no espelho para perceber.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Casual

Sentiu algo quente no rosto quando despertou do sono profundo. Quase se assustou, mas preferiu esperar um pouco para abrir os olhos e descobrir o que estava de fato acontecendo. Parecia ser uma manhã ligeiramente fria (seu rosto estava gelado, apesar do resto do corpo quente), e aquilo realmente lhe esquentava uma das bochechas.

Alguns segundos depois, já um tanto curioso, enfim abriu os olhos. Notou que não estava em sua cama, em seu quarto. Estava em um lugar estranho, sobre um colchão bem mole e sob cobertores bem mais finos que os seus. A decoração do quarto não era lá muito bem feita, não tinha armários e nem os pôsteres dos títulos do seu time de futebol.

Mas foi olhando para o lado que entendeu melhor o que acontecia. Viu ao seu lado uma garota, de cabelos lisos e de um castanho bem escuro, pele clarinha, bochechas rosadas, uma tatuagem no ombro direito. Dormia, ainda. Dormia com um braço encolhido que terminava com a mão no rosto dele... o outro braço, estendido, o abraçava pela cintura.

Reconstruiu os fatos, mas foi apenas o barulho do aquecedor (já soltando um vento frio) que de fato o ajudou. Nunca teve um aquecedor em seu quarto, a não ser quando viajou para lugares mais frios. Olhou para o lado, viu um par de chinelos que não eram os seus. No banheiro, acoplado, toalhas limpas e um pacotinho de sabonete ainda fechado. E a noite anterior se reconstruiu.

Tinha saído mais cedo da faculdade naquela noite extremamente gelada e a reencontrado no caminho de casa. Ela, um antigo caso mal-resolvido, também tinha saído de sua faculdade mais cedo para resolver uns problemas. Conversaram um pouco, ela o convidou para pararem em um bar e tomarem um café. Ele propôs algo melhor, uma garrafa de vinho em um outro bar. Ela topou.

Mas é claro que uma garrafa de vinho não termina de um jeito normal para dois antigos amantes. Mataram as saudades das conversas, dos papo mais quentes... acabaram matando a saudades também dos abraços apertados, do beijo ensandecido, dos amassos mais quentes... e foram parar em um motel. Só foram dormir um bom tempo depois, bem depois. Satisfeitos, felizes, quentes. Ligaram o aquecedor apenas para dormirem ouvindo um pouco de barulho.

Ela notou que ele tinha acordado. Também abriu os olhos, perguntou o que tinha acontecido. “Que horas são?”, ele perguntou. “Sei lá, querido. Dorme, ainda tá cedo”, ela respondeu ainda sonolenta. “Não sei, posso estar atrasado para o trabalho, e...”, ele argumentou. “Você e esse seu trabalho. Dorme mais, vai, você merece”, ela contra-argumentou.

Ele pensou em relutar, mas não conseguiu. Ela, a fim de evitar qualquer resposta, chegou ainda mais perto dele, pousou a cabeça sobre seu peito, deu um leve beijo em seu pescoço e pegou no sono. Ele também. E se esqueceu do trabalho, da vida, de tudo.