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domingo, 29 de abril de 2012

Prefácio de um livro inexistente

Quando percebi que era você que eu queria para mim durante os próximos dois, cinco ou 50 anos, talvez 70, senti que, mais do que nunca, deveria escrever. Não sabia se as minhas crônicas pueris seriam o suficiente para nós, então deixei de lado a minha aspiração a cronista. Passei a escrever e-mails, mensagens de celular, conversas pela internet...

Hoje, no entanto, acordei com a certeza de que toda essa minha escrita simples e pessoal com você nos últimos intensos e insanos dias não eram mais o bastante. E nem o suficiente. Hoje, em uma manhã fria de domingo, com um bloco virgem e uma caneta nova, decidi que escreveria um livro sobre nós. Um livro para que eu leia daqui uns dois, cinco, 50 ou talvez 70 anos e me recorde de você.

Ou para que eu tenha a certeza de que eu ainda não me esqueci de você, não sei. Até porque, como eu já lhe tinha falado uma ou 100 vezes, não dá para levar uma vida normal depois de ver o seu sorriso iluminar o meu mundo.

Antes que eu esqueça, queria te falar uma coisa: mudei a estrutura do nosso livro. O prefácio não será a nossa pré-história (ou seja, a nossa história antes do primeiro encontro). E ah, esse livro terá um fim, como já se sabe (e não será, como havíamos combinado antes, um relato que seria concluído apenas por nossos filhos).

Espero que não se importe de ver a nossa história exposta aqui, assim tão real, aos olhos de tanta gente. E espero que, assim como eu, ainda guarde lembranças boas de nossa vida juntos.

Sinceramente e com carinho;

sábado, 3 de julho de 2010

Sobre a decepção

Antes era assim: eu não parava de acompanhar os e-mails para ter novidades e dar um sorrisinho quando notava alguma mensagem não-lida. Quando notava algum progresso, então, ria sozinho.

Houve um tempo em que tudo estava... bem ruim, para falar a verdade. Mas eu seguia sonhando, algo em mim dizia para acreditar. Achava sempre que seria possível dar um passo aqui, outro lá, fazer um progresso acolá. Tanta esperança deu certo. Muito certo, de uma hora para outra.

Foi nessa época em que minha caixa de entradas ficava aberta 24 horas por dia. Quando ela persistia em ficar lá, parada, eu insistia. A tecla do F5 do meu teclado quase se apagou, de tanto suor vazava dos poros da falange do indicador. E pensar que tudo começou de uma maneira despretensiosa...

Dizem que é impossível ser perfeito, e foi da maneira mais cruel que essa máxima se fez real para mim. Quando o melhor momento estava a uma distância ínfima de mim, a apenas um degrau, tudo desandou.

Não sei lidar com momentos de aperto. Meu instinto, errado eu sei, é abandonar. Deixar de lado, bloquear dos meus pensamentos. Assim o fiz, tentava não me culpar por ter apostado errado em certos momentos.

Só que da fase mais turbulenta surge um insignificante sinal de esperança. Alguma novidade, algum e-mail animador para os últimos instantes. Só que... talvez seja muito tarde. É o erro de se confiar cegamente onde sempre houve uma ponta de desconfiança e notar que não há de onde resgatar alguma força para reagir. Não depois de tanta energia gasta no princípio.

Conformar-se? Talvez seja essa a saída. Tentar não viver o verso seguinte ao da febre, da hemoptise, da dispnéia e dos suores noturnos. Não pensar naquilo tudo que poderia ter sido e não foi. Mas é difícil, quando se faz planos. Tantos planos.

O que sobra? Uma ironia.

Obrigado a todos aqueles de camisa amarela que conseguiram estragar minha chance de ganhar 50 pontos, assumir a liderança de um bolão que pagaria R$ 4 mil ao vencedor entre 200 competidores e me derrubar para o quarto lugar. A uma posição da zona de premiação financeira, o que já me renderia uma bolada de uns R$ 600.

E olha que não estou nem falando da decepção de quatro anos...

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Decisão

É quando a ansiedade se mistura e agrava a angústia que inflama. As pernas tremem, enquanto a taquicardia faz com que o coração bombeie mais e mais sangue para o cérebro, impedido de interromper seu funcionamento pelos intermináveis estímulos elétricos dos neurônios. Os dentes rangem. A espera, amigo, aflige.

Num momento desses, tudo, exatamente tudo dos últimos anos passa pela retina: todas as boas imagens, a felicidade recente que levará um tempo amargo para sumir da memória, como também todos os percalços – insignificantes diante de um evento daquela magnitude.

A confiança tenta surgir, mas divide no peito uma imponente insegurança. Medo? Algumas vezes. Todas essas sensações se liquefazem em um suor expelido pelas mãos. Geladas, tensas.

Aquele instante, que mostra o quanto o infinito pode ser curto, tem lá sua utilidade. Muito provavelmente, os conflitos que antecediam este momento decisivo se estenderiam de uma maneira insuportável, resultando em um marasmo sufocante. Resta, então, decidir o futuro em um tempo injustamente pequeno para tudo o que fora construído até então.

Já ouvi especialistas chamarem o período de loteria. Discordo. Trata-se de uma batalha de nervos que será vencida por quem souber lidar melhor com a compressão de um mundo inteiro sobre uma cabeça – muitas vezes despreparada para uma situação como aquela.

O erro, embora ganhe um caráter fatal, é tolerado – o outro lado certamente cometerá uma ou outra falha, ainda que imperceptível. Os acertos, porém, não são dignos de festejos. Tudo pode mudar no passo seguinte dessa caminhada limitada.

Ao final de tudo, a derrota deveria dar o direito de viver a vida de cabeça erguida – afinal, lutou-se o máximo que pôde, até o verdadeiro fim. Mas a decepção é tamanha que aquele estigma perseguirá por toda a vida. A vitória, por outro lado, infla os pulmões de uma confiança assustadora. Não há lógica, eu sei.

Mas é por isso, justamente por ser ilógica e brilhante, que uma disputa de pênalti é tão incrível.

domingo, 27 de junho de 2010

A Copa do Mundo atrasada

Investe-se uma grana tremenda desenvolvendo-se novas tecnologias para que a televisão se torne moderna. Interferência, chuvisco, falta de sintonia e bombril na antena são coisas que eu convivia na infância, há 15 anos, e nunca mais ouvi. Aí veio o SAP acompanhado do PAL-M e do NTSC. Depois, o cabo. Tela plana. Trocentas polegadas. O sinal digital. Som stereo, mono, surround. Plasma. HD. Led, 3D e por aí vai.

Uma novidade melhor que a outra, dando a impressão de que o Faustão está de fato na nossa sala, que o Julio Baptista não chutou aquela bola nas arquibancadas mas em nós vuvuzeleiros na câmera + da Globo. A sensação de que as garras do Wolverine estão saindo da tela e aparando nossas barbas. Tudo, tudo. Só esqueceram de uma coisa, bem simples: o tempo que o sinal leva para chegar às nossas telas.

E é esse maldito delay (vulgo "atraso de merda") que vem arruinando com um momento que eu ansiei cada vez mais nos últimos anos: a Copa do Mundo. E o torneio sul-africano tem se tornado cada dia mais decepcionante, ao menos para mim (o nível técnico do futebol não está no mérito), já que me incomodo demais com isso e valorizo mais a surpresa. Mas é impossível a surpresa com tanta tecnologia ao meu redor.

Os televisores com os quais convivo têm cabo com sinal digital, têm tela plana e muitas, muitas polegadas. Toda essa parafernalha apenas intensifica a decepção. Basta um jogador armar o chute na minha tela que já tem gente gritando gol. E agora me diga: qual a graça, cara-pálida?

Vivi isso (mais intensamente) com Brasil x Costa do Marfim. O Luís Fabiano ajeitou a bola na mão pela primeira vez, os vizinhos do prédio já pulavam e se abraçavam gritando gol. Resumindo: o gol mais bonito das últimas Copas foi uma frustração sem tamanho. Chapéu aqui, lençol acolá... e já sabia o final: caixa. Broxante.

O que mais me deixa inconformado é ver o pessoal no boteco de quinta e esquina do outro lado da rua, com bombril na antena, mostrar o gol antes do mundo inteiro. Obrigado, tecnologia, Net, satélites e delay, por estragarem a minha Copa. E por perceberem que como se joga dinheiro no lixo.

sábado, 26 de junho de 2010

Discussão de relacionamento no século 21

Seu avatar ainda está no meu Wii Sports. Faço bem em mantê-lo por lá?

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Tcha Tcha da Hyundai

Tentando reviver este espaço, aproveitando a rara folga e o clima de Copa do Mundo, vamos tentar entender a lógica do comercial da Hyundai, que bombardeia o tal do “Tcha Tcha” na nossa cabeça a cada instante – falo isso quando uma redação inteira começa a repetir o maldito “Tcha Tcha” a todo o momento.

Não sou publicitário e nem tenho cacife para comentar sobre o caso, mas... cá entre nós? A Copa do Mundo inspira tantos comerciais bacanas –como os de Nike, Pepsi e Ekol com o desespero para cortar o pelo argentino – e me vem uma multinacional com um inovador... Tcha Tcha.

Sim, a droga do slogan realmente fica na cabeça. Mas... poxa vida, não tinha maneira mais legal de se fazer um comercial? A começar pelo fato de como começa a saga: um tiozinho que mais parece o Cléber Machado depois da feijoada jogadão na poltrona em uma sala escura tira motivação do nada para não apenas levantar os braços, como saltar do sofá e pular como um idiota e gritar “Tcha Tcha”.

O gesto do gordinho realmente motivou o universo a se unir em torno do Tcha Tcha. Pessoas em ruas da Europa, provavelmente nos Estados Unidos e até em algum deserto deixam seus camelos de lado para sacudirem a roupitcha branca com os braços esticados a troco... de nada! Eles, certamente, não estavam vendo algum jogo e comemoravam algum gol.

O que mais me chama a atenção (após a cena do gordinho, claro) é o nível de ânimo de uma moça vestida com a camisa do Brasil e uma calça preta na metade do comercial, no canto direito da tela. Ela é a pessoa que mais expressa vergonha alheia naquele filme. Aí, para terminar de vez com essa palhaçada, um meteoro da Hyundai cai do céu, é perseguido por vários molequinhos doentes e une o mundo inteiro em turno do quê? Do “Tcha Tcha”!

Acho que há poucas maneiras mais eficientes de queimar o filme de uma empresa do que com o Tcha Tcha. Se eles resolvessem fazer o nível 1 da publicidade exibindo o logotipo da empresa por 30s o impacto seria mais positivo. Ou então... sei lá. Será que eles não teriam o contato do gênio do “Quer pagar quanto?”. Sairia mais barato, imagino...

A saga do Tcha Tcha vai se confudir com a série de pataquadas que virá em breve nas coberturas e transmissões da Copa do Mundo. O narrador e o comentarista do Sportv que cansaram de chamar o Van Persie de “Fan Pierce” no amistoso contra o México não contam...

De qualquer maneira, veja o lado bom do comercial da Hyundai. Provavelmente, quando estiver alcoolizado durante a estreia do Brasil na Copa do Mundo, eu me lembre de erguer os braços para o alto e gritar Tcha Tcha, parecendo um H saltitante como todas as figuras daquele comercial.

Taí. Talvez seja essa a intenção dos sul-coreanos. Só falharam em deixar o tema de “Um jeito novo de torcer na Copa do Mundo; vibre com a Hyundai” para “Um jeito novo de ser um mala na Copa do Mundo; fique de porre com a Hyundai”.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

06/05/2010

Eu tive medo que o mundo acabasse em 1999. Saiu na tevê, só se falava disso na época. E, com meus 11 anos, era difícil entender que tinha muita groselha em rede nacional. Então, na véspera, queria a todo custo ficar em casa, protegido. Escola à tarde? Mas nem pensar! Se fosse pra acabar o mundo, que fosse jogando International Superstar Soccer no meu Nintendo 64.

Meu pai me tranqüilizou. Disse que o mundo não acabaria, por mais que o livro de Nostradamus dissesse – eu já tinha passado a acreditar no Nostradamus porque meu próprio pai havia dito que muito do que ele escreveu era verdade. Então, naquele dia de 1999, eu imaginei que, na pior das hipóteses, nasceria o Anticristo. Vai saber. Mais 11 anos se passaram e aqui estamos nós.

Só que esses dias entrei pela primeira vez no Half Past Human.com (um site que faz previsões a partir do sistema web bot – ou seja, a partir de palavras-chaves que circulam na internet) e lá havia a seguinte mensagem: “A terceira guerra mundial está aqui” (não lá no site, imagino, mas entre nós).

Era bem de madrugada quando me dei conta de que, se fosse realmente verdade (e deveria ser: o History Channel, na viciante série Efeito Nostradamus, mostrou que o web bot havia acertado desde o 11 de Setembro até a crise financeira, passando pelo Katrina em Nova Orleans), o fim estava realmente próximo. E o primeiro advento aconteceria... dia 6 de maio. De 2010, claro.

É bem no final do texto: “A nova temporada de guerra começa em 6 de maio... fique ligado. Como o Lobo e os outros slogans de Blitzers dizem, “assista, e então escolha. É, afinal, suas mentiras e sua terrível escolha”. Tenebroso, né?

Pois então contei os dias até 6 de maio, esperando algum sinal. Até que, vejam, só, a Grécia entrou em bancarrota, um grupo paquistanês organizou um atentando em Nova York... precisava de mais? Sem contar que Wolf (lobo) Blitzers é um jornalista alemão/norte-americano da CNN. Tenso, imagino.

Agora são 3 horas da manhã do primeiro dia do resto de nossas vidas, segundo o Half Past Human, e nada aconteceu - exceto a eliminação do Corinthians na Libertadores (haha). Realmente não consegui dormir. Medo? Talvez seja. Pena não poder faltar à aula (ao trabalho, no caso) amanhã. E que meu 64 esteja no armário, empoeirado.

Ao menos vai dar tempo de completar meu álbum da Copa e vão me deixar ver os jogos da África do Sul entre junho e julho. E talvez ainda dê tempo de ver o museu do Loco Abreu, quem sabe?

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Happy Hour

Pode ser uma rotina pesada, daquelas que te fazem voltar para casa quando as ruas estão desertas, os semáforos funcionam somente piscando a luz amarela sugerindo atenção e homens ficam de lingerie nas esquinas do caminho de casa – maldita Indianópolis.

Ainda assim, quando há algo interessante para se fazer enquanto descarrega suas baterias em busca do sono (que geralmente vem com o nascer do sol), o dia-a-dia (para não dizer a vida) ganha um significado.

Foi assim comigo nessas duas últimas semanas. Meu irmão aproveitou um vale-presente que havia recebido de Natal e comprou o box da primeira temporada de The Big Bang Theory. Um seriado que, vez ou outra, eu havia tentado assistir com ele em algumas manhãs de domingo antes de ir para o trabalho, mas que nunca havia conseguido entender bulhufas.

Sem nada para fazer em um dos meus últimos dias de folga, vi um, mais um e um terceiro episódio e acabei gostando. Vimos a primeira temporada inteira em menos de uma semana. Peguei com ele os outros episódios da segunda e da terceira temporada e devorei todos: 23 episódios da segunda temporada, mais 12 da terceira.

Acabei de terminar o 35º episódio. Já não sentia tanta graça em certos momentos, fui menos surpreendido do que nas vezes em que estava começando a me ambientar com o seriado. Mesmo assim, continuei assistindo. Dois, três, às vezes quatro episódios por madrugada.

Até que chegou o inevitável momento: terminei. Não há mais episódios inéditos para eu me empanturrar durante as madrugadas. Coincidentemente, também está acabando o Aberto da Austrália de tênis, que ajudavam a preencher – e muito bem – minhas madrugadas e manhãs de insônia.

Agora, os canais esportivos reprisam os jogos que eu acompanhei por cima durante o expediente – nem passam mais os torneios de pôquer. Sinto um vazio. Tenho a impressão de que minha vida após a meia-noite não tem mais sentido. Terei que me contentar com o fato de assistir a um episódio de The Big Bang Theory por semana – algo em torno de 5% do que eu estava fazendo.

Costumava ter essa sensação quando esperava um ano inteiro pelos livros do Harry Potter durante a adolescência; então, após o Natal, submergia na história por uma ou duas semanas e então precisava esperar mais 12 meses pela continuação. O mundo é cruel, não?

Mas vou me preocupar com isso dentro de 19 minutos. Por sorte, consegui achar na internet o 13º episódio da terceira temporada de The Big Bang Theory. Depois, retornarei à insignificância de minha existência entre 1h e 5h da manhã.



Bazinga!

A Fox ainda passa Simpsons entre 0h e 3h.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

A cabeleira do Zezé

Coisas estranhas acontecem todo o tempo, e não ia demorar que algo de... ahn, bizarro se passasse comigo depois que resolvi dar liberdade à minha cabeça e deixar o cabelo ganhar alguns centímetros. Seguindo a tradição da família, os fios cresceram de forma nada sutil, porém lisa. Daqueles que esvoaçam com o vento – se o jornalismo não der certo, posso até tirar a barba e fazer comerciais de xampus, já que não uso condicionador.

Chega de besteira.

Estava dando um pulo no carro para pegar um papel que precisava ser enviado ao UOL para que eu ganhasse meu salário quando encontrei nas escadas uma vizinha velhinha do andar de cima. Gentil, segurei a porta para ela sair, embora quisesse me livrar de um possível papo o mais rápido possível.

Meu sorriso forçado, porém cativante (aham!), não deu certo. A velhinha quis saber com quantos anos eu estava (quase falei 19) e piriri. Aí disse que eu estava muito, muito bonito (algo me diz que a visão dela está afetada) e parecia muito mais jovem (definitivamente, estava afetada). Entre esses elogios, passou a mão no meu cabelo.

Fui para o carro com uma sensação estranha. Até porque, horas antes, eu estava andando pela Paulista após uma agradabilíssima manhã estafante na faculdade (esse negócio de mudar de período dá um trabalho!) quando uma mulher, já de boa idade, veio em minha direção. Ao chegar perto de mim, esticou as mãos e escorreu pelos meus cabelos e falou alguma coisa que eu, juro, não entendi. As pessoas em volta olharam espantadas, e eu mais ainda.

Estava prestes a afirmar que odeio que as pessoas passem a mão no meu cabelo e decretar que tal ato estava temporariamente proibido quando passou um flashback de cinco anos atrás. Eu estava completamente perdido em uma balada, tentando xavecar uma amiga minha extremamente gracinha, quando resolvi passar a mão no cabelo dela como uma aproximação e ela fechou a cara. Saiu de perto, até!

Dias depois, ela explicou a atitude que teve dizendo que tinha pavor que passassem a mão no cabelo dela. É óbvio que a gente nunca teve nada de mais, eu acabei começando um namoro meses depois e perdemos o contato. Um ano depois ela tinha admitido que era apaixonada por mim à época, eu tentei uma nova aproximação (sem mãos no cabelo) e fui novamente dispensado – sorte minha que, recentemente, uma amiga minha disse que ela tinha embarangado geral.

Cabelo é uma coisa estranha. E o meu, seguindo a família, não deve cair. Vai continuar, por muitos e muitos anos, cozinhar minha cabeça. Isso não deve fazer bem.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Linha de chegada

Acordei com o despertador extremamente cedo para o domingo (ainda eram 9 da manhã, acredita?). Entretanto, como precisaria ir trabalhar dentro de poucas horas, resolvi pouco a pouco lutar contra a tentação e fui recobrando a consciência.

As primeiras coisas que passaram pela minha cabeça vieram do rádio, da transmissão ao vivo da Fórmula 1: Rubens Barrichello estava a 12s do Hamilton e a uns 5s do Kovalainen. “Mais um dia sem a musiquinha da Globo”, eu pensei. Aí resolvi apertar o snooze e dormir por mais 10 minutos.

Esse curto período, obviamente, foi prolongado e multiplicado por 3. Resultado: só fui abrir os olhos novamente às 9h30. Relutantemente acordei de verdade, vivi 2 minutos de ócio e então lembrei que poderia ligar a televisão. Para minha surpresa, o Rubinho estava no segundo lugar, tirando vários décimos por volta em relação ao Hamilton, líder.

Resolvi acompanhar a corrida direito, e vi o Rubinho vencer a prova. Quando ele estava para cruzar a linha de chegada, aumentei o volume da televisão. Incrível como o tema da vitória da Globo me agrada tanto. Pois bem. Comemorei o primeiro lugar do Barrichello, tomei banho, almocei e fui para o novo trabalho.

A rua estava extremamente livre, e eu aproveitava para correr e minimizar o atraso já consolidado. Assim, quando virei da República do Líbano para a Hélio Pellegrino e vi a pista livre, engatei a quarta, depois a quinta... e então vi várias bandeiras tremulando para mim.

O que eu fiz? Bom... por um momento, transformei meu Uno em um Fórmula 1 com motor Merdeces-Benz. No meu capacete, estava escrito “Mané - see you on bar soon”. Baixei o vidro, ergui o punho cerrado e festejei minha primeira vitória na Fórmula 1, no circuito urbano de São Paulo. Não houve tema da vitória, do meu carro saía som de uma banda de rock argentino. Deu para disfarçar.

Então parei no semáforo logo à frente. Uma das mulheres que tremulou a bandeira para mim na linha de chegada me entregou um panfleto publicitário de mais um prédio que estava sendo construído pelas redondezas.

Coloquei os óculos escuros para não ser reconhecido. Afinal, basta a gente ganhar uma corrida que já vão querendo empurrar apartamentos luxuosos e etc.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Branco

Essa página em branco me assusta.

Ainda bem que eu sei separar muito bem o pessoal do profissional. No trabalho, preciso de uma dezena de minutos para fazer um tá-tá-tá com os 10 dedos das mãos e preenchê-la. Escrevo tudo antes mesmo de digitar, fica tudo mais fácil. Piloto automático. A notícia vai para o ar, eu apago tudo e recomeço o tá-tá-tá. Em um dia cheio de expediente, venço o vácuo da folha do Word umas 20 vezes, até mais.

O problema é quando eu chego em casa, deito na cama e abro novamente essa página em branco. O conteúdo da página é o mesmo que dos meus pensamentos. Às vezes até tento quebrar o gelo e batucar um parágrafo. Não consigo ter continuidade. Paro, tento outro assunto. Nada.

Não gosto de inspiração, nunca acreditei muito nisso. É apenas falta de disposição, com o perdão da rima. Acho que isso se chama marasmo de idéias. Frescura, um ou outro diria. Preguiça, eu tenho enganar. Apenas não consigo.

Aqui em casa, quase 5 da manhã, meus pés sem meias estão gelados. Minhas pernas tremem entre a calça de moletom, assim como o resto do corpo, sob uma camiseta de manga curta. Deve fazer uns 7ºC lá fora, talvez seja o frio. Mas eu não estava tremendo assim antes de começar a escrever. Ou o vento derrubou a temperatura em uns 20 graus ou... sei lá.

Bom ou não, algumas idéias ameaçam surgir. Nada lá muito relevante, também. Imagino o que quero contar, mas não desenvolvo. Se um dia na vida eu achei que poderia fazer bico de escritor, acho que sou um péssimo produtor de idéias – que apenas viveu uma boa fase recentemente.

Houston, we have a problem.

segunda-feira, 9 de março de 2009

A vida, um Yakult

Tenho uma dificuldade enorme em me adaptar a mudanças revolucionárias ou qualquer tipo de inovação que praticamente despreza a base anterior. Maior prova disso eu tive ainda na minha infância, quando a Pantera Cor-de-rosa, o Tom e o Jerry começaram a falar. Sem falar no novo design no Pica-Pau, ou outras inovações nos desenhos animados.

O problema é que nos últimos quase 21 anos, muita coisa mudou – não necessariamente para melhor. Até no meu trabalho venho passando por alterações gigantescas, mas isso não vem ao caso neste momento. Por mais retrógrado que possa parecer, venho percebendo ultimamente que me dou muito, mas muito melhor com o padrão original das coisas.

Se dependesse de mim, o Pica-Pau não seria aquele bicho aloprado dos últimos desenhos. O Doug Funny não teria tanta cara de babaca depois que foi comprado pela Disney. E a Pantera Cor-de-rosa nunca, nunca falaria. O máximo de voz ficaria pelos inaudíveis balbucios do cara narigudo e de bigode. Aquilo sim é que era desenho animado bom.

Não suporto mudanças drásticas, para falar a verdade. Minha adaptação custa um esforço enorme, paciência e blábláblá. Dá um trabalho enorme e, por mais que eu tenha a intenção de aceitar essas novas diferenças, fica aquela sensação de que o antigo ainda era mais legal.

A mais firme, interessante e leal prova de que as mudanças não estão com nada é o Yakult. Se não me engano, nos últimos 21 anos, o potinho de Yakult continua minúsculo, com a mesma tampa de papel alumino, e segue vendido em 6 unidades. A única alteração foi no formato da embalagem: antes, com duas filas e três copinhos, agora é apenas uma fileira. Mas isso não muda quase nada.

Dia desses, mudando de supermercado aqui perto de casa, acabei vendo uma promoção de Yakult – ainda estava mais caro do que Chamito ou qualquer imitação menos cara – e decidi levar pra casa. E não é que nem o sabor gostoso pra caramba do leite fermentado com lactobacilos vivos Casei Shirota mudou? Isso sim é que é estratégia de marketing: conservar o que está dando certo.

Todo mundo, inclusive eu, sonha com uma garrata pet de 2L de Yakult. Mas se a fórmula das garrafinhas com pouquíssimos e contados mL está dando certo, por que mudar? Deixa assim (até eu mesmo me contento e me adapto, fazendo um minúsculo furinho no papel para aproveitar ao máximo), que o Yakult vai ter vida longa. E sem nem precisar de publicidade – faz anos que eu não vejo um comercial na televisão.

Tudo deveria ser como um Yakult.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Latrocínio de carros

Depois de quase um ano dirigindo meu humilde carro com o maior cuidado do mundo, não sei de onde apareceram nele hoje os dois primeiros riscos na lataria. Percebi pela manhã, saindo do clube após dar uma corrida (mal-sucedida) pelo Ibirapuera.

Parei em frente aos arranhões com um grande penar quando o flanelinha desdentado apareceu perguntando o que tinha acontecido. “Putz, apareceram dois riscos aqui do lado esquerdo, não sei de onde”. O cara se sentiu o maior ofendido da história (e não eu, que tive meu patrimônio depredado) e começou a argumentar de todas as maneiras possíveis. E me lançou essa:

“Olha, eu fui chamado aqui pelo presidente do clube e pelo general do exército (meu clube fica próximo a um quartel militar) pra tomar conta dos carros, porque aqui tava rolando um alto número de latrocínio de carros”, argumentou o cara, que, segundo ele próprio, foi soldado-alvo (atiravam nele?), tenente, faixa marrom em caratê, professor de alguma coisa, amigo dos manos e mais outra patavina que não me lembro (a única coisa que ele não conseguiu ser, a meu visto, era cliente assíduo de dentista).

Não entendo como um local próximo a um quartel militar e à Assembléia Legislativa possa ter sido, alguma vez, região visada para ladrões de carros. Mas o mérito da questão não é essa, mas sim o fato de um novo crime assolar a região: latrocínio de carros. Na hora, entendi que o meliante roubava o automóvel e, no afã de fugir, deixava o veículo morrer. Ou fazia questão de fazer o motor morrer. Aí sim seria um latrocínio de carros.

Entendo que o flanelinha tenha querido mostrar erudição, fazendo uso de palavras bonitas para me convencer. Velho recurso, este, que em muitos casos funciona. Mas latrocínio de carros é algo que não me entra na cabeça. Enfim.

Esse papo me lembrou, também, da zona que rolou no final de semana por causa das confusões entre as torcidas no clássico de São Paulo e Corinthians de domingo. Depois que o pau comeu mesmo nos arredores do Morumbi, o promotor público Paulo Castilho apareceu para dar entrevistas com um discurso todo empolado.

Entre termo bonito pra cá e discurso pronto pra lá, um termo que não parava de aparecer era o celeuma quando tentava eufemizar a palavra ‘treta feia’. Celeuma, até onde eu sei, é usado para designar uma confusão que não tenha porrada, mas sim uns... desentendimentos, uma discussão mais acalorada.

Mas enfim, celeuma é uma palavra que me remete muito aos tempos de colégio (três anos atrás, não é tanto tempo assim). Sempre que ouço essa palavra, me recordo das aulas de biologia, quando tentava decorar o que era um celoma (termo de biologia embrionária que dá origem a uma boa parte do nosso corpo). Ou, então, os xilemas das aulas de botânica (vasos condutores de seiva, rivais dos floemas).

Celeuma me lembra celoma, e não confusão. Mas é mais bonito de usar em discursos e tal. Latrocínio de carros me remete a um ladrão que não sabe dirigir. E os riscos no meu carro devem ter sido obra de algum belo filho da puta que não tem mais o que fazer da vida. =/

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Páprica

Descobri que não como páprica. Quer dizer... não que eu tenha descoberto algo que vá mudar a minha vida ou tenha percebido que não posso mais comer a coisa mais gostosa do mundo.

Pra falar a verdade, acho que nunca comi páprica. Sabia que isso, popularmente conhecido como tempero, existia por meio da televisão. O Beakman, por exemplo, sempre usava o pozinho vermelho meio alaranjado em algumas experiências malucas, ou então o Jerry sempre fazia o Tom espirrar com a tal da páprica.

O máximo de contato cara-a-cara que tive com a páprica foi tê-la visto uma vez em um vidrinho de temperos da minha mãe. Até abri e cheirei um pouquinho achando que espirraria feito um condenado, mas não. A páprica ficou na dela e eu, na minha.

Nem lembrava mais que existia páprica até esta sexta-feira, quando fui a um restaurante alemão com a Bonie, em alguma quebrada maluca de São Paulo. O lugar era bem legalzinho e comemos lá algum schdruwaitkenstiennitzer com hufflepuff, ou alguma coisa semelhante. Tudo bem gostoso e tal, até que... até que...

Até que tínhamos terminado nossos pratos e eu decidi pegar aquela tirinha de tomate que enfeitava os bifes de schweinsteigernitzer para experimentar. Coloquei na boca e engoli por obrigação, já que não senti um gosto muito bom nas mastigadas. E então segue o diálogo que antecede a tragédia.

“Nossa, Bo, os tomates na Alemanha têm gosto de salsinha”, eu disse.
“Mas isso não é tomate, Fe, é cenoura”, ela respondeu, mostrando outra tirinha.

“Claro que não, isso aqui é vermelho. E olha, tem a parte mais vermelha, da casca, e a menos vermelha, do miolo do tomate”.
“Não, cabeção, isso é laranja e é uma cenoura. Olha só”, ela sugeriu.

Olhei bem e vi que a tirinha de vegetal era mais laranja do que vermelha e... bom, poderia até ser uma cenoura. Chegou então o garçom alemão, perguntou se havíamos gostado do jantar e eu disse que sim. Mas, claro, não consegui segurar a dúvida.

“Eu só não descobri se isso é tomate ou cenoura”, comentei.
“Non, isso ér paprikka”, explicou o oba (garçom em alemão)

“Ah, isso é uma páprica? Nunca parei pra pensar, mas se bobear eu achava que a páprica era produzida já em pozinho na natureza”.
“Non, non... paprikka ér... ér… como se diz aqui em Brasil? Pimentão, isso”, e saiu.

Ou seja, eu tinha acabado de comer pimentão – um dos três ingredientes que eu mais odeio, ao lado de melancia e peixe cozido. Cheguei em casa e vi que páprica nada mais é do que um pimentão seco e ralado...

...urgh, odeio páprica.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

O amigo do meu pai

O Moura é um cara gente fina, não tenho como negar. Conheci o tal Moura quando eu ainda era bem pequenino, tinha acho que uns cinco ou seis anos. Mas nunca tinha reparado nos últimos 15 anos o quanto ele pode ser... útil? Talvez seja isso.

Perguntei uma vez para o meu pai quem era o Moura, e ele logo respondeu que era um grande amigo. Curioso pra danar, perguntei também o que o Moura fazia da vida, e o meu pai logo disse que era um famoso oculista. Ou oftalmologista, sei lá. Alguém que cuidava dos olhos.

Eu, para falar a verdade, não gostava do Moura. Era bem desagradável meu contato com ele, embora fosse grande amigo do meu pai. Tamanho era meu desagrado com o tal Moura que nunca tive muito contato com ele, ainda bem, nos anos que se passaram.

Até que vários anos se passaram, eu ganhei barba na cara e uma rinite que derrubaria até um rinoceronte selvagem. Uma rinite que resolveu me atacar em pleno final de semana de folga, quando eu estava no meu canto jogado no sofá da sala vendo tevê e esperando o mundo acabar em barranco para eu morrer encostado (notei ultimamente que tenho usado muitas gírias da minha avó, por sinal).

Se não me engano, nunca tive um ataque tão forte de rinite. Meu nariz doía, minha garganta arranhava, meus ouvidos reclamavam e, por fim, meus olhos coçavam como nunca. E eu, que nunca fui lá de conter minhas vontades, não parava de coçar os olhos. Uma besta, eu sei.

Depois de um sábado espirrento, o domingo chegou ainda pior. Até que, à noite, eu mal conseguia abrir o olho direito. Foi horrível dirigir voltando para casa com um olho meio fechado e o outro coçando absurdos. Mas deu certo, cheguei aqui em casa e minha rinite deu uma trégua. Mas meus olhos, que já não coçavam mais, agora ardiam. Demais.

Nem mesmo uma noite de sono, com algumas horas além do esperado, salvaram meus olhos. Acordei segunda-feira com o olho direito roxo, coçando e ardendo. Pouco tempo depois, o esquerdo apresentou os mesmos sintomas. E eu já não sabia mais o que fazer.

Então saí do banho, abri o armário secreto no espelho em cima da pia e lembrei do Moura. Peguei o colírio que meu pai deve usar há uns 50 anos (não o mesmo frasco, imagino), chequei a data de validade... e pinguei uma gota do Moura Brasil em cada olho. Meia hora depois eu já não tinha mais nada – só uma coceirinha bem leve, pra falar a verdade.

Estou indo dormir e passei mais uma dose de colírio Moura Brasil em cada olho, que não me incomodam mais e não possuem um vaso saltado em vermelho. Meu pai estava certo: o Moura era um cara bem legal. E grande amigo meu, também.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Voltei a jogar xadrez

Não xadrez, aquele jogo tradicionalíssimo em que se senta em uma cadeira dura em frente a um tabuleiro quadriculado com peças de madeira e passa minutos movendo peça para cá e para lá, batendo dama ou cavalo com certa força sobre a mesa e dizendo xeque.

Voltei a jogar xadrez, mas web-xadrez. Lembrei que tinha comprado o Chessmaster em uma pechincha, por apenas 29 pratas, e que não havia instalado neste computador, e resolvi jogar. Não é aquela mística do estilo tradicional, com alguém do outro lado da mesa pensando tanto quanto você, mas... já é alguma coisa.

É legal ver como o jogo estimula sua forma de pensar e sua atuação no tabuleiro reflete seu momento pessoal. Já joguei xadrez caindo de sono ou antes de acordar e levei um pau do computador. Já pratiquei bem acordado, depois de alguns cafés, e consegui vitórias incríveis. Mas não é só isso, e eu explico a seguir.

É até assustador ver como certos detalhes da minha personalidade influenciam, sempre negativamente, meu jogo. Quase nunca consigo esconder um ataque, assim como raramente meus planos mirabolantes sempre são sacados por alguém antes mesmo de eu pô-los em prática. Sem falar nas atitudes pouco arquitetadas ou pensadas, que eu tomo no tabuleiro assim como na vida real e muitas vezes me estrepo.

Blábláblá à parte, estou voltando a adquirir a boa forma no xadrez. Ainda não estou nem perto do ritmo que eu tinha em 1999, quando aprendi a jogar, fazia aula, conhecia várias aberturas, táticas, macetes e até ganhei a medalha de ouro nas olimpíadas inter-escolares. Mas é bom perceber que, aos poucos, estou pegando o jeito novamente.

Sempre gostei desse Chessmaster, jogo que eu conheci justamente quando fazia aulas. É bom, prático, eu sempre tenho com quem jogar, posso encontrar adversários no computador de diferentes níveis e estilos. Alguns mais rápidos, outros mais pensativos, estratégicos, impulsivos... é bem diversificado.

Mas... não sei. Sinto falta de bater a peça com forma na mesa e falar xeque. Ou colocá-la suavemente na casa e não comentar nada, esperando a outra pessoa perceber o xeque e perdendo tempo enquanto não percebe. Falando em tempo, sinto falta de fazer um movimento e bater rapidamente no relógio de tempo. E de enganar o adversário, batendo suavemente sem que ele percebesse. Para reforçar, eu ainda fingia pensar mil vezes em um movimento fajuto. Confesso, cansei de fazer isso quando tinha 11 anos.

Sinto falta do barulho que eu fazia com as peças quando capturava as do rival. Em Buenos Aires, joguei xadrez com um alemão diretor de cinema e ele fez questão de aprender esse estilo de chocar uma peça com a outra.

Humm... para falar a verdade, sinto falta de um xadrez de verdade.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Inversão de valores

Uma coisa que realmente me incomoda é você ter a sorte grande de encontrar um espaço no meio-fio onde seu carro se encaixa e, basta você desligar o motor, aparece um cara com boné e bigode ralo fazendo um jóia com a mão e prometendo dar a vida pelo veículo. Tudo, é claro, em troca de algum trocado assim que você sair de perto. Do contrário, ele mesmo será o primeiro a destruir sua lataria e amaldiçoar você e suas próximas oito gerações.

Fico bem de cara em dar as moedas. Olhando por certo ponto, não deixa de ser um assalto. Amigável, mas um assalto. Mesmo assim, acabei cedendo e até deixei algumas moedas no meu carro já para ter algum troco à mão na hora de parar meu carro na rua. Mas pouco disso realmente interessa em relação ao que vem pela frente.

Acontece que parei meu carro na sexta-feira em um canto da Praça Roosevelt para tomar algumas limonadas em um dos bares mais legais da cidade – o tal do Papo, Pinga e Petisco. Antes mesmo de estacionar, um tal cara de boné e bigode ralo já fez sinal de que protegeria meu carro até da chuva que estava por vir e eu apenas concordei.

Então saí do carro e ouvi os termos do contrato: “Cinco conto e tá beleza”, ele disse. Respondi que acertaríamos na volta e ele não aceitou. “É que eu vou comer um dog enquanto olho seu carro, patrão”. Argumentei que não tinha trocado ali na hora (o que era verdade), mas deveria ter umas duas pratas no carro (eu deveria ter mais, talvez os cinco) e depois completava o resto. Ele concordou, eu peguei umas quatro moedas e entreguei a ele.

Então, assim que acionei o alarme do meu carro, o tal do guardião por uma noite tentou ser simpático comigo. “Você é gente fina. Burguês, mas é gente fina”. Não dei muita atenção, mas... parando para pensar, não entendi patavinas do que ele disse. Quer dizer... ao pé da letra, não.

Quando eu estava no colégio, na sétima série o professor de História explicou o que era um burguês: aquele que detinha os meios de produção do seu trabalho. E eu... bom, no meu trabalho, eu não tenho o domínio de um site, não faço os reparos técnicos, não uso o meu próprio computador e nem me sento à minha cadeira. Eu seria burguês se tivesse tudo isso, e não só as canetas que uso para fazer rabiscos e anotações durante o expediente.

Na verdade, o burguês da conversa era ele mesmo. Mas é claro, oras. Uma vez que o serviço dele é guardar carros, ele só precisa dele mesmo para realizar o serviço. Outro meio de produção que ele pode usar é o colete verde-água, que... ele mesmo comprou. E depois ele iria comer o hot-dog com o meu dinheiro, em alguma barraquinha de um burguês – dono do pão, da salsicha, dos condimentos e da própria van.

Pensando bem, ele era o burguês da história. Mas é tão mais simples dizer que alguém em uma condição financeira melhor é ‘burguês’ que o real sentido da expressão já é perdido por aí. Ele chamaria de burguês um fazendeiro – que, na tal designação histórica, seria o produtor rural.

Mas quem sou eu para explicar a ele tudo isso? Sou apenas o mero proletário. Que nem dorme de meias para ser burguês...

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Obelisco de Buenos Aires (una mula, II)

Uma vez eu estava num táxi andando pela Avenida Corrientes, lá em Buenos Aires, andando por uma região que era tipo o centro financeiro da Argentina. Era de tarde, umas 16 horas, o céu estava azul bem clarinho e o sol, brilhando. Um dia bem bonito.

Do táxi na Corrientes eu vi, lá no final da rua, o Obelisco. Aquela torre branca, fininha, que é um dos pontos turísticos de Buenos Aires. A cor do monumento contrastou bem com aquela tarde, e eu fiquei olhando bem o aproximar do edifício histórico. Então, passando pelo Obelisco, vi que não era nada de mais. Só um monte de cimento.

Tudo bem, o Obelisco portenho é bonito. Mas notei alguma coisa bem estranha meses depois, dirigindo pela 23 de Maio em um dia ensolarado. Olhei uma hora lá para o fim da avenida e lá estava o Obelisco do Ibirapuera. E eu me senti em Buenos Aires.

É um tanto estranho. Eu passava várias vezes em frente ao Obelisco aqui de São Paulo todas as semanas, quando ia ao Ibirapuera com meu pai aos sábados no começo da década de 1990. Lembro que até entrei para ver o que tinha lá dentro: vários túmulos. O monumento era bonito por fora, trágico por dentro.

Estou enrolando, eu sei, sendo que no fundo eu queria entender só por que, toda vez que passo pelo Obelisco, eu me sinto em Buenos Aires. E não por que diabos eu não me senti em São Paulo passando por monumento parecido na Argentina.

Pensando bem, acho que é porque eu não consigo ver São Paulo como uma cidade turística. Tive até uma conversa sobre isso em Buenos Aires com o dono do meu albergue: ele dizia que os argentinos exploravam mal o turismo e que o Brasil era incrível. Eu, claro, tinha opinião totalmente contrária.

Não consigo ver a minha cidade como ponto atrativo para turistas. É apenas uma cidade gigantesca, sem nada de lá muito sedutor: uns parques, umas avenidas... e só. Sei que em São Paulo o que pega é o turismo financeiro, mas... sei lá. No fundo no fundo, acho que sei qual é a minha: apenas falta de criatividade. Porque moro em uma cidade gigantesca e com mil coisas para fazer... e chega sábado à noite e nunca sei para onde ir.

E sim, eu sou uma mula.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

1 é pouco e 2 são bons?

Eu não sou o tipo de cara que gosta de carros. Que sabe o modelo, o ano de fabricação, a potência do motor e tudo mais apenas ouvindo o som do tal bólido ou vendo um detalhe aparentemente irrelevante, como por exemplo a fechadura do porta-malas.

Eu, definitivamente, não gosto de carros. Nos últimos meses passei a saber diferenciar alguns modelos, mas nada muito espetacular. Um Uno alheio do meu, ou alguns tipos de Palio. Mas tudo isso era só para dizer que eu não sou fanático por carros.

Quer dizer... por carros, de uma forma geral, não. Mas tem uma parte dele que realmente me fascina: o limpador de pára-brisas. É sério. Desde pequeno, quando andava com mamãe no carro dela, achava demais o funcionamento daquele rodinho estilizado. Adorava quando chovia e eu via a palheta ir de um lado para o outro...

Aí eu percebi que era apenas o carro da mamãe que tinha um limpador de pára-brisa dianteiro. Todos os outros modelos que não o Uno tinham duas peças para o vidro. Entrei em um ferrenho jogo interno de argumentação: meu lado otimista, visionário e sonhador dizia que o modelo de palheta única era melhor. Já meu lado chato dizia o contrário, que éramos precários.

Eu explico: o lado Felipinho Held argumentava: “É bem mais legal ter só um limpador. A marca que fica no vidro é mais bonita, trata-se de um modelo único e é muito mais prático já que uma peça faz o trabalho de duas”. O lado Felipe Held, o Velho, rebatia: “Mas o outro é mais rápido, a cobertura de área do vidro é maior... e se todo mundo tem, é porque também é melhor”.

Quase todos dias eu pensava nisso indo da minha casa para a casa da minha avó e de lá para a escola. Então quase dez anos se passaram sem eu nem pensar nisso até que meu primeiro carro é justamente... tcha-ram, um Uno.

Tem vezes, no meio do trânsito, eu não tenho nada pra fazer e fico limpando o pára-brisa. Só pra ver ele funcionar – e também deixar o vidro bem transparente. Quando chove, fico mudando a cada quarteirão a velocidade do limpador. E... meu carro tem limpador de vidro traseiro, então a diversão é ainda maior! (eu pareço uma criança falando).

Mas aí teve um dia, eu peguei o carro da minha mãe e me deparei com um limpador de pára-brisas de palhetas duplas. Funcionava bem mais rápido. E eu voltei a me questionar qual a droga do tipo de limpador que era melhor.

Dia desses, indo para Barueri, estava no banco da frente de um dos carros do trabalho e estava chovendo forte. Limpador duplo. Fiquei ali olhando o funcionamento das peças por um bom tempo, vendo que o da direita era menor e ele só ajeitava a água para o outro, o da esquerda e maior, tirar do vidro.

Então o motorista do carro me olhou de rabo de olho, talvez se perguntando por que meus olhos brilhavam olhando as duas palhetas. E eu percebi que, para o meu próprio bem, era melhor eu parar de ficar perdendo tanto tempo pensando coisas tão bestas.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Assuntos superficiais e mal-explorados

O Campeonato Brasileiro acabou e geralmente não se tem nada para fazer no mundo do futebol. Não que se tenha normalmente, mas nesta época o noticiário é bem fraquinho.

Mas, por uma sucessão de folgas e férias na redação, fiquei a cargo do Palmeiras. Uma avalanche de boatos, muitas repetições e blablá. É legal, mas cansa um bocado. Telefone na mão, tentativa de falar com mil dirigentes... e F5 nos concorrentes para ver se não estou levando furo.

Apesar de ser muito mais fácil cobrir seu clube de coração, é meio estressante. E percebi meu estresse acumulado saindo do estacionamento, na Paulista. Percebi que havia um moleque de uns 8 anos no carro da frente virado para mim mostrando a língua.

Ficou nessa um bom tempo. Até que eu percebi que aquela língua feia era para mim e respondi bem chulamente: com o dedo do meio. Ficamos nessa por uns 10s, até que ele se escondeu. Depois voltou com a língua, e eu com o dedo.

Mostrei para o Mé, o carona do dia. Ele ameaçou me repreender: “Pô, mas é só um moleque tosco”, argumentou. Contra-argumentei: “Eu sei. Mas se ele estivesse dando um tchauzinho, sei lá, eu faria um jóia e tal. Ele sabe que mostrar a língua é feio. E este é o gesto mais feio que eu conheço”. O Mé concordou e também mostrou o dedo.

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Meu projeto de Único Trabalho Sério da Faculdade Trabalho de Conclusão de Curso foi aprovado sem restrição. Agora eu tenho caminho livre para começar uma biografia sem falar com a minha biografada. Faltam 11 meses para a entrega e... dá uma preguiça enorme começar.

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É extremamente engraçado quando você está no bar, sentado às mesas colocadas na calçada da Avenida Paulista, e passa um velhinho branquelo, barbudo e de cabelos e barbas brancas. Sempre tem alguém que chama a atenção de todos para a passagem do Papai Noel.

Mais engraçado ainda é quando você está no bar nas mesmas condições citadas anteriormente e o tal do Papai Noel se vira para o cara ao seu lado, quem puxou a atenção, e diz: “Pois eu tenho uma notícia bem ruim para você: o Papai Noel este ano não vai entregar presentes pra viados que nem você”.

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Em contrapartida, é decepcionante quando você espera o ano inteiro pela cesta de natal da empresa onde você gasta 50, 60 e às vezes até 75% do seu dia. E aí, na hora de pegar a cesta, recebe um panetone com umas bolachinhas.