sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Praça de Pedra (parte III)

Qual seria a novidade que a namorada do bebaço tinha para falar?

Teria o pai dela impedido o romance pelo fato de ele ser jornalista de mídia eletrônica e ela de mídia impressa? Ou então ela estava grávida dele? Ou pior: do irmão dele? Ou... ou então desta vez não restava dúvida, e os marcianos finalmente haviam chegado?

Não perca essa e todas as outras respostas no terceiro e último capítulo da nada emocionante Praça de Pedra. *

*Se você, pára-quedista, não entendeu nada, leia o primeiro capítulo da trama clicando aqui e o segundo clicando aqui.
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CAPÍTULO FINAL

Antes de contar a novidade, ele respirou fundo.

“Ela tinha recebido uma proposta pra passar um mês em Madri como correspondente do jornal. E lá faria um curso de espanhol. Cara, até hoje eu queria ver a cara de cu que eu fiz naquela hora. Ela não percebeu, eu acho, porque me deu um beijo intenso e me agradeceu a ajuda. Eu, claro, preferi não contar a minha novidade.

“Sabia que era a oportunidade da vida dela, mas ainda assim tentei convencê-la a ficar. Falei que poderia eu mesmo ensinar espanhol pra ela...”.

“Hablas español?”, interrompi.

“Sí, pero no mucho”, brincou. “Quer dizer... quando era mais novo, fiz aula e peguei um certificado no Instituto Cervantes. Mas sabia que ela tava louca pra ir. Deixei. Ela não quis que eu fosse no aeroporto me despedir dela. E também não contou a data em que voltaria. Disse só que queria me fazer uma surpresa, chegando de repente no meu apartamento”.

“Puta, que merda. Já saquei!”, interrompi mais uma vez. “Você conheceu outra garota nesse meio tempo, levou pro seu apartamento e aí a sua namorada chegou do nada. E aí vocês terminaram. Puts... e a nova mulher era a melhor amiga dela, por acaso?”, perguntei.

“Não. Isso é a história de um livro que eu já li. E, pelo visto, você também, né?”, perguntou. Dei um sorriso amarelo confirmando. “Minha vida não é um livro, chapa. Mas agora me deixa continuar.

“Naquele mês em que ela foi pra Espanha, eu não saí de casa esperando algum sinal. Adorava quando ela me mandava uma carta ou um cartão-postal e dizia que estava com saudades. Mas isso aconteceu só nas três primeiras semanas. Depois ela não me mandou mais nada. Na minha cabeça, isso queria dizer que ela estava pra voltar.

“Então eu passei a comprar pizza todo dia, pra não correr o risco de fazer compras no mercado ou sair pra jantar, ela chegar em casa e não me encontrar. Até que um dia tocou a campainha. Fui atender correndo. Era a vizinha do 111. Ela tinha um envelope na mão e dizia que era meu. Que o número do apartamento estava errado na correspondência, mas o meu nome estava como destinatário. Agradeci, fechei a porta e comecei a ler”.

“Era dela?”, chutei.

“Sim. E na hora percebi que era alguma merda. Primeiro, porque ela tinha esquecido o número da minha casa, que é tão fácil de decorar: 123. Depois entendi melhor. Ela dizia que não ia voltar. Que se deu tão bem no curso que foi contratada por um jornal espanhol. Ficaria por lá. E que um dia, quando eu conseguisse férias na tevê, era para eu ir visitá-la. Ou seja: isso ia levar pelo menos um ano.

“Você foi?”, perguntei.

“Não. Descobri meses depois que ela arranjou um namorado em uma viagem que fez pra Valencia. E a gente não se falou mais. Durante 13 anos”.

Ele não falou nada. Eu também não. Ficamos uns momentos em silêncio.

“Até hoje de manhã. Antes de eu sair pro trabalho, a minha vizinha do 111 me entregou mais uma carta da minha namorada. Ela tinha escrito que estava voltando. Casada, com três filhos. O marido – aquele namorado valenciano – queria conhecer o Brasil. E ela queria me apresentar pra ele e pros filhos (o mais velho tem o meu nome, acredita? E o mais novo tem o nome do pai). Ela pediu por favor para a gente se encontrar. Que ia ser muito especial, que blábláblá, o caralho”.

Mais alguns momentos de silêncio.

“Eu não deveria ir. Aliás, eu não quero ir!”, raciocinou.

...

“Mas o idiota aqui vai!", emendou, um pouco resignado. "Por quê? Porque eu ainda quero ver o rosto dela mais uma vez. Porque... ah, cara, eu ainda amo aquela mulher! Que bosta!”

Ele se levantou e foi embora, ainda cambaleando.

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Eu prefiro as curvas...

Itu (SP) - Não sou do tipo de pessoa que pode ser considerada conhecedora do mundo. Do alto dos meus 19 anos e alguns quebrados, olho para trás e sinto que poderia ter viajado um pouco mais.

Só que não. Pelas minhas contas, até hoje, dormi sob outro céu que não o paulistano apenas cinco vezes . Mas vale lembrar que não tenho me dado bem com os números de uns tempos para cá – desde que comecei a faculdade, para ser mais exato (para se ter uma idéia, uns dias atrás errei uma conta de 8–2).

Minha primeira viagem foi aos nove anos, em uma excursão para Águas de São Pedro com os amiguinhos da escola em um hotel fazenda. Sensacional, apesar de ter durado apenas dois dias. Mas senti uma saudade brutal da minha mãe, do meu irmão, da minha casa...

A minha segunda vez foi no começo de 2001, quando fui para o Guarujá com a minha mãe e meu irmão. Foi quando eu descobri que os limites do mar iam além dos limites da tela da TV. Com quase 13 anos, fui a pessoa mais velha a conhecer a praia no meu senso comum. C’est la vie.

Depois me aventurei no pico do inverno de julho na Praia Grande, já em 2004, passando uma semana na casa de praia de um melhor amigo. Foi uma semana incrível, com histórias engraçadas que vou carregar por muitos anos.

Em 2005 vivi meu ápice turístico, deixando a capital em duas oportunidades num espaço de 12 meses. Nos primeiros dias do ano, fui para Campos do Jordão com minha mãe e meu irmão. Em outubro, andei pela primeira (e única) vez de avião, rumo a Porto Seguro.

Minha última viagem foi no ano passado, para Registro, para a reunião dos Jovens Unidos Contra a Aids, o Juca-2006. E nunca mais. Meses depois comecei a trabalhar, e o expediente nos finais de semana e feriados passou a fazer parte da minha rotina – diferentemente das viagens. (Ou seja, foram seis as minhas viagens até então. Isso só comprova que, em 15 meses, desaprendi 17 anos de matemática).

Mas hoje, ainda que a trabalho, revivi uma das melhores sensações que um viajante pode ter. Hoje, 7h48, subi em uma Parati na Avenida Paulista e fui cobrir o treino do Botafogo em Itu, onde o time treina antes do clássico de domingo contra o Vasco.

Entrar em um carro e partir para uma viagem é uma das melhores sensações que há. Estranhamente, as nuvens somem do céu, o sol brilha um pouco mais e o vento começa a soprar de uma maneira agradabilíssima na janela do passageiro.

Incrível como em uma viagem de ida, o asfalto brilha um pouco mais e todas as conversas são mais engraçadas. Os animais na beira da estrada parecem sorrir para os carros que atravessam as rodovias com os vidros abertos. É tão bom que sempre bate um sono após determinado quilômetro de viagem e, inevitavelmente, você dorme.

Bom, o treino acabou. Agora tenho que parar por aqui para pegar as entrevistas e depois volto para São Paulo.

Mas isso já não interessa. Os retornos não são nem um pouco legais, como todo mundo sabe. Não é nada mais do que uma longa jornada em um carro quente. E não adianta abrir os vidros para refrescar: sempre chove. E então a única coisa pra fazer é passar a viagem inteira com a cabeça apoiada no vidro, com um olhar perdido para os carros do outro lado da estrada e para as luzes das cidades ao redor.

Por falar nisso, o céu sobre a Castelo Branco no sentido São Paulo está escuro. Parece que vai chover. Se eu continuasse a viagem em direção a Porto Feliz (sugestivo o nome, não?), teria pela frente um céu completamente azul, sem uma nuvem sequer.

Incrível.

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Memórias

Às vezes tenho raiva da minha memória tão boa para certas datas. E todo dia me pergunto por que diabos não faço uso de tal advento para algo prático, como por exemplo decorar o ano de nascimento dos principais jogadores do futebol mundial (o que me pouparia vários acessos diários à Wikipedia). Mas não é o caso.

Deitado na minha cama na vã tentativa de dormir relativamente cedo, lembrei que dentro de dez dias completará dois anos que encontrei uma melhor amiga pela última vez. Eu estava com conjuntivite e ligeiramente deprimido. Ela precisava bater um papo com alguém e veio no meu prédio me visitar. Conversamos. Rimos. Bebemos um pouco. Avançamos alguns sinais que jamais deveriam ter sido avançados. Demos um abraço e nos despedimos. Não para todo o sempre, mas foi o que acabou acontecendo.

Ainda tentamos conversar depois de então. Nos dias que se sucederam ao nosso último encontro, ela me ligou algumas vezes. Não tínhamos muito assunto. Talvez fosse melhor o tempo nos reaproximar.

Uma vez, no meu primeiro dia de trabalho, fui a um show e por um leve instante achei que ela estaria por lá. Andei por quase todo o lugar e, para minha sorte, tinha me enganado. Quer dizer, mais ou menos. Algum tempo depois, ela me disse que estava lá. Enfim. Continuamos sem ter o mesmo contato de antes.

No entanto, uns meses atrás, em uma sexta-feira de feriado, me lembrei dela ao sair do trabalho. Enrolei alguns minutos até tomar coragem de ligar para ela e convidá-la para, sei lá, tomar um café. Coisa besta. Colocar os assuntos em dia. Tinha várias coisas para contar para ela, que ao mesmo tempo teria várias coisas para me contar.

Naquele dia ela não pôde sair e me pediu para ligar no seguinte, mas um ‘compromisso inadiável’ por parte dela melou o nosso compromisso. Ainda liguei alguns meses depois e marcamos de nos encontrar em uma segunda-feira. Eu sabia que ela não iria aparecer. E não apareceu. Apaguei o telefone dela da minha agenda e esperei um dia ela me ligar.

Claro que não ligou.

Ela não deve se lembrar de que 20 de outubro de 2005 foi uma quinta-feira ensolarada até as 16h30, mas que esfriou em menos de meia hora. Também não deve sequer ter idéia de que foi a última vez em que nos vimos.

Mas não a culpo. Até porque, pensando bem, não me lembro mais do rosto dela. A única recordação que me resta é uma data.

domingo, 7 de outubro de 2007

Trilhas sonoras

Se existe alguma invenção que vai revolucionar a vida em sociedade, os tocadores de MP3 são os mais cotados para causarem uma mudança no mínimo considerável entre as pessoas de uma cidade grande. E desde já os aparelhos mostram esse potencial.

Pequenos, finos, portáteis e com capacidade para armazenar muitas dezenas, talvez centenas e, alguns até milhares de sons. Fenomenal. Antes, era complicado selecionar duas dezenas de músicas para gravar em um CD e ter que se contentar com o repeat e o repeat all. Isso sem falar na economia na hora de comprar os discos graváveis, regraváveis ou originais absolutamente caros.

Mas isso não é tudo. A coisa mais legal proporcionada pelos tocadores de MP3 foi transformar a vida de seus donos em um filme musical. Eu, por exemplo, sou prova viva disso. Revivo muitos momentos especiais quando ouço algumas músicas. Ou então me lembro de alguma banda quando chega determinada época do ano.

Por exemplo: Bowling for Soup me remete ao fim do meu último namoro. Los Hermanos faz com que eu me lembre dos meus últimos meses no colegial, enquanto Radiohead tem a ver com as minhas primeiras semanas na faculdade. Minhas entrevistas na Gazeta foram ao som do esquisitão do Daloco, enquanto as minhas lembranças das primeiras semanas como estagiário são relembradas graças a Stereophonics.

Muitos livros que eu li também ficaram marcados na minha memória não só pela história envolvente, mas também pelos sons que eu ouvia enquanto os lia. Alguns livros do Luís Fernando Veríssimo e do Charles Bukowski foram lidos enquanto Head Automatica comandava meus fones de ouvido. Marcelo Rubens Paiva também lembra Stereophonics, enquanto Saramago tem um pouco a ver com Smashing Pumpkins. Já o fascinante Olhai os lírios do campo se mistura invariavelmente com Shout out Louds.

O melhor exemplo disso tudo, porém, é Beatles. Na medida em que o fim do ano se aproxima, músicas como Blackbird, When I’m 64, Penny Lane, Strawberry Fields Forever se confundem com as canções natalinas, com a chegada das férias e com as noites abafadas e enfeitadas com papais noéis e lampadinhas piscantes. É incrível.

Outra coisa bem legal da revolução causada pela popularização dos aparelhinhos é a reação de outras pessoas que vivem com um fone enfiado nos ouvidos. Eu, tímido, sou mais comedido e fico apenas com a marcação de ritmo com um pé ou então tamborilando os dedos no joelho, na capa do livro ou na porta do metrô (às vezes me pergunto se tem alguém que sabe o que eu estou ouvindo apenas pela marcação de tempo...)

Enfim. Muitas pessoas não têm o mesmo tipo de reação quando toca uma música interessante no MP3. Já cansei de ver, em plena seis da manhã, pessoas entrando no metrô cantando muito, mas muito alto alguns sons. Até dançam, às vezes. Só que as demais pessoas que compartilham o vagão com o cantor de banheiro não reclamam. É como se isso já fosse normal. Esquisito sou eu, que olho para as pessoas às vezes segurando o riso e sou repreendido pelos demais. Mas vale a pena.

Posso estar pagando o alto preço disso tudo, ficando gradativamente mais surdo. O fato é que, pelo menos para mim, a poluição sonora é coisa do passado. Praticamente não ouço mais carros com escapamentos furados, motoristas enraivecidos, aviões e buzinas nas ruas (talvez um dia eu seja atropelado por causa disso também) e nem algumas desculpas furadas de certos pedintes do metrô.

É como se o mundo ficasse mais tranqüilo. Ou pelo menos aparentemente.

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Flor de Lótus

Tinha uns cinco anos de idade quando ouvi falar em amor à primeira vista. Não acreditei, e mantive minha opinião firme até alguns dias atrás. Até rever um velho amigo.

Shakedown 1979, cool kids never have the time

Estava no metrô quando me deparei com ele, que costumava andar meio cabisbaixo pelas ruas e com as mãos nos bolsos, mas desta vez tinha estranhamente a cabeça erguida. Os ombros postos transmitiam um ar de altivez. Os olhos, que possuíam um brilho intenso, combinavam com o sorriso bobo nos lábios.

On a live wire right up off the street

Tirei um dos fones que ele tinha aos ouvidos e coloquei em um dos meus. Tocava uma música cadenciada, bem trabalhada, cujo clipe eu vira algumas vezes na MTV uns cinco anos atrás. Era um som de que, na época, eu não gostava muito.

You and I should meet

Troquei algumas palavras com o meu amigo até enfim perguntar o que de fato se passava. Ele me respondeu com frases de efeito que, possivelmente, ganhariam espaço em qualquer livro de auto-ajuda.

June bug skipping like a stone

“Gostar de uma pequena, cara, é muito estranho. No começo, você quer falar isso para o mundo, mas esconde seu segredo amoroso de todos. Depois você quer esconder seu mistério de todas as pessoas, mas acaba contando para elas. E se sente bem fazendo isso”.

With the headlights pointed at the dawn

“Gostar de uma mulher, meu amigo, é muito bom. Quando ela liga no seu celular, você se sente a pessoa mais importante do mundo. Mas, quando está junto dela, chega a ter a sensação de ser a pessoa menos útil do planeta. Ao contrário dela, que atrai todas as atenções possíveis”.

We were sure we'd never see an end to it all

“Gostar de uma garota, meu caro, muda a sua vida em todos os sentidos. Você passa a ter certeza absoluta de uma dúvida antiga, e ao mesmo tempo começa a duvidar de todas as suas certezas”.

And I don't even care to shake these zipper blues

“Aliás, estar apaixonado é mudar de humor bruscamente. É ir da felicidade extrema à depressão profunda e depois retornar em menos de duas horas”.

And we don't know just where our bones will rest

Antes de ele verbalizar o pensamento seguinte, perguntei quem era a tal pequena por quem ele tinha se interessado. E qual não foi minha surpresa quando ele, que não suporta baladas, me respondeu: “Uma que eu conheci em uma balada”.

To dust, I guess

Pedi explicações. Ele disse que estava na festa como convidado, mas não conhecia nenhuma das músicas que estavam tocando. Até que começou a tocar uma outra cuja seqüência de acordes ele conhecia. A letra também. A batida, porém, era diferente: tratava-se da versão remix.

Forgotten and absorbed into the earth below

“Comecei a cantarolar o som, ainda me perdendo por causa do ritmo aumentado em semifuseta, com repetição em tercina no refrão e...” – ah, esqueci de falar: meu amigo, um dia, foi músico.

We don't even care, as restless as we are

“Aí eu vi uma garota linda que também estava gostando do som. Dançava, cantava e parecia conhecer a música. Pensei que havíamos nascido um para o outro. Tínhamos o mesmo gosto, mas com algumas diferenças”.

We feel the pull in the land of a thousand guilts

Como assim?, perguntei.

And poured cement, lamented and assured

“Gostávamos da mesma música, mas não da mesma maneira. Eu conhecia a versão clássica; ela, a remix”, respondeu, como se fosse a resposta mais óbvia do mundo.

To the lights and towns below

Achei bacana a comparação que ele fez. No mesmo instante, duas dúvidas vieram à minha mente. Fi-las ao mesmo tempo.

Faster than the speed of sound

“Qual o nome dela? Ah, e... então quer dizer que você superou aquele trauma da outra garota também?”

Faster than we thought we'd go, beneath the sound of hope

E qual não foi a minha surpresa quando ele respondeu:

No apologies ever need be made

“Não, não. É ela mesma”.

I know you better than you fake it, to see

Fiz cara de interrogação. Ele deu uma curta gargalhada, me deu três tapas no ombro e disse:

The street heats the urgency of sound

“Você tem esse problema de ser curioso e até impaciente, meu amigo, e não me deixou terminar a explicação. Gostar profundamente de uma garota é esquecer para sempre aquela mulher que um dia sem querer te causou uma despaixão e, então, conhecê-la novamente. E se apaixonar à primeira nova vista”.

As you can see there's no one around

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Contramão

Era para ser meu dia de folga. Era, porque o desembarque da seleção brasileira feminina de futebol mudou a minha escala. Quando fui informado disso, na segunda-feira quase à noitinha, vi meus planos da terça-feira livre ruírem, desmoronarem, tombarem, desabarem...

Ah, sim, meus planos. Meu planejamento era mais ou menos assim: acordar às 11h30, ficar jogado na cama durante mais meia hora, sair de casa, almoçar qualquer coisa na padaria do outro lado da rua, voltar para a cama e ficar nela até as 19 horas. Então eu levantaria, tomaria banho e voltaria à cama até o sono bater.

Mas não foi o que aconteceu. Levantei às 6h30, tomei banho, fiz a barba. Vi o telejornal matinal, peguei o metrô lotado, atravessei a rua correndo e tomei um café grande antes de bater o cartão às 8h56.

Só que se engana quem pensa que eu reclamei. Pelo contrário. Apesar de estar em uma fase de questionar o sentido da vida, tive a prova de que, de fato, Deus ajuda quem cedo madruga. Minha mãe me dizia isso todo dia quando eu tinha cinco anos e eu não entendia direito. Sempre acabava pensando no Seu Madruga.

Revivendo o clima de trabalhar de manhã, percebi que estava em um ritmo alucinante, muito superior ao que eu costumo apresentar no período vespertino. Isso só fez com que eu batesse o cartão na saída dando risada. Não por ir embora, mas por ter tido um dia expediente. Vai entender.

O dia estava tão bom que eu não pensei em voltar para casa. Almocei e logo depois me sentei no mesmo lugar de sempre para ler mais algumas páginas do livro. Depois decidi ir ao cinema. Comprei o bilhete, tomei mais um pouco de café e entrei na sala, vazia, com apenas três velhinhas conversando sobre cozinha. Geralmente cinema sozinho é deprimente. Hoje foi sensacional.

Poderia ter voltado para casa quando o filme acabou. Mas tinha gostado tanto da história que preferi fazer planos para a minha vida. Pensei em aprender um novo idioma durante as férias. Ou pelo menos tentar.

Enquanto pensava, saí andando por uma avenida, em um ritmo lento e tranqüilo, sem me importar com o trânsito, com os motoristas, com nada. Enquanto os carros iam para um lado, eu andava na contramão até virar em uma alameda, depois em outra... e andar por ruas estreitas que subiam, desciam, viravam à direita e depois à esquerda.

Seguindo-as, caí em uma praça que jamais pensei que existiria em São Paulo. Com bancos confortáveis, grandes, espaçosos. Muitos bancos. Neles, pessoas sentavam enquanto viam os cachorros correrem, brincando com os outros cachorros. E conversavam sobre as notícias do jornal. Davam risada.

Reabri meu livro e mergulhei na história. Depois de muito tempo, percebi que havia ficado escuro e todas as pessoas que brincavam com os cachorros haviam ido embora. Também me levantei e parti.

Atravessei a rua, percebi um bar vazio e com uma televisão ligada. Ainda tinha o gosto do café do cinema na boca. Comprei mais uma xícara e tomei, vendo alguma reprise de futebol europeu. Foi no terceiro café que eu percebi que, se tem uma pessoa que já foi feliz na face da Terra, essa pessoa trabalhava meio expediente durante a manhã.

Entendi isso hoje, depois de muitas semanas trabalhando todos os dias das 14 às 19 horas.. E pensar que, durante os oito meses em que eu entrava bem cedo, não tinha me dado conta do quanto poderia ter aproveitado.

É sempre assim.

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Show da vida

Era o show da minha vida. Havia passado as últimas semanas ensaiando incansavelmente. Quando tinha tempo livre, ouvia o repertório e tentava captar alguma nota musical que eu não havia captado, ou alguma variação na batida que eu não havia percebido. Estava ligeiramente paranóico.

Chamei muita gente. Vários amigos do prédio, muitos do colégio, algumas garotas de outros lugares, minha mãe e a garota por quem eu era apaixonado e de quem já tinha ouvido um não meses antes. Havia feito um convite especial, sincero. Talvez tenha sido meu ápice de sinceridade. Ela não confirmou presença.

Acordei meio nervoso, tomei banho, fiz a barba, peguei a guitarra, os cabos, a pedaleira, enrolei alguns esparadrapos na mão direita... e saí correndo de casa, sem sequer falar bom dia para a minha mãe. Fui para a casa de um amigo, fiquei nervoso e liguei para a tal garota. Ela disse que estava saindo de casa, que estava vindo. Meu coração deu um sobressalto. Ou dois, até.

Alguns amigos foram chegando e perguntavam como eu estava. Eu fazia algumas piadas, mas estava muito nervoso. Muito. A impaciência só melhorou quando peguei a guitarra, coloquei nas costas e fomos para o show. Não era nada de mais, apenas um festival de bandas no colégio em frente à minha casa. Mas era especial.

Atravessei a rua, cheguei ao lugar do show e encontrei algumas pessoas por lá, que eu nem imaginava que iriam. Passei por uma pequena multidão e encontrei a tal garota, com os braços cruzados e também um pouco impaciente. Dei-lhe um abraço, agradeci do fundo do meu coração por ter ido. Tinha gostado mesmo. Então logo depois nos chamaram e fomos para o palco arrumar os instrumentos.

Afinei a minha guitarra e da outra garota que iria tocar comigo. Ela estava nervosa, mas eu disse que não tinha problema, que ela precisava se acalmar... que qualquer coisa era só olhar para mim que eu soprava o acorde seguinte. Ela ouviu, mas não sei se ajudou muito... tanto que pediu para que eu fizesse o solo da quarta música.

Tocamos a primeira música, e minha tensão talvez tenha chegado ao máximo. Tanto que apareceu um cara atrás do palco falando que eu tinha regulado errado o som. Respirei fundo e o mandei aos lugares mais obscuros que os palavrões permitem. E com o microfone ligado. Então tudo melhorou.

Tocamos mais algumas músicas e eu já estava mais tranqüilo, fazendo as mesmas palhaçadas que costumava fazer no palco (apesar de muito tímido, nunca fui fechado nos palcos, com uma guitarra na mão... estranho). Terminamos a quarta música e, antes de começarmos a quinta (e última). Respirei fundo. Tomei o microfone. Liguei a chave. Ouvi o ruído da microfonia e comecei a falar, meio sem jeito.

“Bom, antes de começarmos a última música... queria falar algumas palavras bonitinhas. Afinal, hoje é dia 11 de junho, véspera do dia dos namorados e... bom. Hoje é um dia bastante especial, e queria falar algo especial para uma pessoa mais especial ainda. Alguém que é muito importante pra mim, mas com quem não pude falar nos últimos dias. Mesmo assim, sem ela não estaria aqui, com tanta vontade de tocar. E nem tão nervoso, pra falar a verdade. E ela bem sabe disso, porque só ela sabe o quanto atormentei para que viesse hoje aqui. É alguém que eu... que eu amo de verdade. E queria que todo mundo soubesse disso, e...”

Alguns amigos meus, até os mais próximos, se surpreenderam e voltaram para trás, olhando para a garota por quem eu era apaixonado. Ela olhou para mim, ficou vermelha, ajeitou o cabelo e deu um sorriso e um passo à frente. Meu coração deu três sobressaltos. Respirei fundo. Continuei.

“E... e hoje é aniversário dela. Parabéns, mãe!”.

Minha mãe se assustou. Todo mundo começou a cantar parabéns automaticamente. Ela me deu um abraço e chorou. Disse que era o melhor presente que eu poderia ter dado a ela. Que tinha sido pega de surpresa. Olhou para mim. Riu, chorou, me deu mais um abraço. Uma lágrima minha caiu nos ombros dela também.

O show acabou logo depois. Nossos amigos (eram mais ou menos 100, se somar os amigos de todos da banda) vieram nos cumprimentar. A garota me deu um abraço forte, disse que eu estava demais e tinha tocado muito (mentira dela!). Disse em seu ouvido que o que eu disse para minha mãe era, no fundo, para ela também. Ela me deu um sorriso sincero, iluminado, que eu nunca havia visto antes.

Às vezes vejo a fita daquele show em uma gravação bem mal feita. Sempre vejo um detalhe novo, algo de que tinha me esquecido. E, enquanto assisto à fita, lembro daquele sorriso. Que me valeu mais do que o beijo que a gente nunca trocou.