terça-feira, 18 de setembro de 2007

Desejos doentes

O mundo tem ouvido incessantemente aquele som que parece ser nada mais do que o jingle do comercial do Fiat Punto – prova quase viva disso é o aumento de quase 100% dos membros na comunidade do Shout out Louds no orkut, saltando de 88 membros em 13 de agosto para 165 até as 1h29 de 17 de setembro. Só faltou aparecer um artigo em português na Wikipedia.

Mas enquanto Shut your eyes toca a cada 30 segundos nas televisões brasileiras, a banda sueca sai em turnê para divulgar seu segundo disco: Our ill wills, que foge um pouco ao estilo animadinho do Howl Howl Gaff Gaff, o álbum de estréia da banda.

Our ill wills já havia sido lançado há um certo tempo na Escandinávia, tendo chegado às lojas em 25 de abril deste ano. Pouco mais de um mês depois, em 21 de maio, cruzou o Estreito de Kattgatt (vulgo ‘Buraco de Gato’, no mais puro sueco das periferias de Estocolmo) e chegou à Dinamarca. Quatro dias depois, espalhou-se por Alemanha, Áustria e Suíça, e em pouco já estava em toda a Europa Ocidental. Em 11 de setembro, chegou aos Estados Unidos.

Ao primeiro play é estranho. Não bate, não combina. Não parece ser aquela banda de riffs simples de guitarra porém animados, que cantava canções de um jeito diferente em relação a grande parte das bandas de indie. As novas músicas do Shout out Louds lembram irritantemente, tanto nos arranjos como na voz de Adam Olenius, Robert Smith.

É preciso uma certa insistência ouvindo o CD para se familiarizar ao novo estilo do Shout out Louds. Depois de um tempo, os toques de violino, o aumento dos backing vocals femininos de Bebban Stenborg em relação ao Howl Howl Gaff Gaff, as melodias mais ritmadas e sobretudo as letras revelam um som mais maduro. Claro, com uma forte influência do The Cure.

O primeiro single do novo álbum do Shout out Louds é da faixa número um do CD: Tonight I have to leave it. Dá pra ver que não foi só o som que ficou diferente). O clipe é muito mais bacana do que aquela máquina de lavar que revelava um novo mundo para as pessoas em Shut your eyes.

Os novos sons da banda, no entanto, perdem em relação aos antigos não só porque ficaram ‘menos originais’, como já ouvi dizer. Faz um pouco de falta os solos ligeiramente desconexos no meio das músicas.

Para os poucos que conhecem Shout out Louds, uma má notícia: o lugar mais perto que a turnê de Our ill wills irá passar em relação ao continente sul-americano é a cidade de Austin, Texas. Ou pelo menos essa é a programação até o final de novembro. Uma pena.

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Maravilhas virtuais

Depois que descobri as maravilhas de ter um leitor RSS no meu computador, disponibilizei as assinaturas para feed aqui no blog e fui encaminhado para um site que mostrava informações sobre as pessoas que acessavam esta página.

Na hora não me empolguei e imaginei que seria apenas mais um contador de acessos, mas depois de alguns dias percebi que o serviço grátis detectava como os internautas chegavam a este blog e também de onde são. Confesso que achei um bocado estranho quando apareceram por aqui pessoas de Apoti, Carnaxide, Campo Magro, Conselheiro Lafaiete, Engenho da Rainha, Erechim, Mato Dentro, Muzambinho, Pomerode e Viamão, além das estrangeiras Aguiló (Espanha), Hobolici (Croácia), Norfolk e Sheffield (Inglaterra), Park Leeuwenberg (Holanda), Quinta do Anjo (Portugal) e Södra Transbodarna (Suécia).

A segunda coisa que mais me surpreendeu foi ver quantas pessoas entram aqui. Eu, que imaginava ser lido por no máximo sete ou dez pessoas por semana (um número muito além das expectativas para alguém que começou escrevendo sem público), percebi que cerca de 35 pessoas diferentes acessam essa bagaça diariamente. E que, depois dos paulistanos, meus leitores mais fiéis são de Brasília e Rio de Janeiro.

Apesar de os números terem superado a minha expectativa, ficou bem claro que grande parte dos acessos (65% deles) provém de sites de busca. Engraçado ver como algumas pessoas sem noção chegam a este blog – muitos deles, depravados virtuais que digitam no Google algo do tipo “putaria sexo loira gostosa peituda vídeo download grátis silvia saint” em busca de mais um site de pornografia sem pagar nada.

Depois de dez dias de estatísticas, elenquei os resultados mais bizarros que trouxeram pára-quedistas a este blog sem qualquer utilidade pública por meio de um site de busca. Curioso, decidi checar para ver se as pesquisas virtuais apontavam este blog entre os resultados. Incrível como sim – e muitos deles na primeira posição. Tudo isso porque muita gente não aprendeu que, para uma busca refinada (e, provavelmente, sem blogs) basta digitar os termos compostos entre aspas.

E isso serve de alerta também àquelas pessoas que acreditam que o Google é o principal invento da humanidade depois da banda larga. Seguem as jóias raras:

- Blusa com gola de palhaço
- Boné azul sem nada com aba vermelha
- Fazendo assalto
- Sonhar com solitária
- Aids tudo sobre ela (e tem também a variante Ai Aids Mal)
- Missa do canal de tv 2 mostra a transmissão
- Tatuagem do Flávio Saretta
- Eu quero saber como era o Gama antes só que eu quero ver fotos
- Acabou o namoro vai para net video
- Professora de putaria
- Filho a foder com mãe
- Eu já fui preso e ainda não peguei a reservista
- Como conversar com uma garota por telefone

É bom provável que mais pára-quedistas apareçam nos meses a seguir. E, dependendo do conteúdo, talvez este post tenha mais e mais edições.

Sobre o assunto: Não sou o único privilegiado pela ação dos pára-quedistas. Muitos blogs muito (e bota muito nisso) mais acessados do que este já trataram o tema. Além da explicação bem humorada feita pelo André, o Alexandre Inagaki explica com números o fenômeno em questão. E os dois textos ficam ainda mais engraçados depois que se descobre as alegrias que o Google já deu ao Rafael Galvão.

Atualizado (15/09): O Google pode não acertar todas, mas pelo menos uma coisa foi interessante de perceber. Já experimentou digitar Vergonha Nacional no maior site de buscas da rede? Olha só:

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Legitimação

Filas de banco no quinto dia útil do mês são um excelente convite àquelas pessoas que vivem em um mundo paralelo onde a meta do dia é passar horas para pagar uma conta. Para os outros 6,8 bilhões de habitantes da Terra, é mais um motivo de stress.

Por exemplo: a velhinha que se demora no mesmo caixa por mais de dez minutos. E, assim que as oito operações são concluídas, passa quase o dobro do tempo pedindo informações para a atendente. O cara que quiser obter legitimidade precisa apenas reclamar com o cara da frente da fila reclamando e ensaiando um “Vai cozinhar, vovó!”.

Só que o mais importante vem a seguir. Quando quatro ou cinco pessoas começam a conversar e reclamar do atendimento, o cara entra na conversa e toma a palavra. “O país não tem jeito mesmo. Sabe o que tem que fazer pra que tudo isso seja mais rápido? Tem é que botar fogo na agência!”. Os interlocutores se assustam, mas o catastrófico se explica. Era o que faltava para ser eleito o líder da tribo.

“O ano é 1986”, inicia o cara de 50 anos, passando as mãos no cabelo acaju e desabotoando mais um botão da camisa. “Nessa época eu estava em Paris. Oui, oui. O governo francês decidiu aumentar em 17 centavos de franco (naquela época não existia o euro ainda) do bandeijão dos universitários. O almoço não custava muito, mas iam aumentar em 17 centavos de franco pela primeira vez na história. Os estudantes puseram fogo no restaurante. O preço aumentou?”, terminou, olhando em volta e, pomposo, fazendo sinais negativos com a mão.

Enquanto isso, as outras pessoas da fila olham para o sujeito e parecem refletir a situação. É hora de dar mais um exemplo. “Em Lisboa foi assim. Eu estava lá quando isso aconteceu também. Foi em 1990, quando o governo português decidiu aumentar a passagem de ônibus depois de sete anos sem reajuste. Sabe o que a população fez? Incendiou oito ônibus. E o preço aumentou? Negativo”, prosseguiu.

Foi o bastante para que todos concordassem com o ponto de vista do companheiro de fila. Então chegava o momento de consolidar a tese recém formulada. “É por isso que eu digo que o Brasil não vai pra frente enquanto a população não se unir e incendiar o congresso. Se isso não acontecer, a gente nunca vai ver evolução alguma. E os senadores vão continuar sendo absolvidos”, emendou. Nesse momento, a caixa chamou o próximo da fila. O líder da tribo sacou o bolo de notas de R$ 1.000 em notas de R$ 50, deu uma contada rápida e se dirigiu para o atendimento.

Depois de efetuar os pagamentos, despediu-se da fila. Deu tapinhas nos ombros de uns cinco. Outros disseram “a gente se vê, amigão!”. Juro que ouvi alguns aplausos também.

São poucas as pessoas que são legitimadas em uma fila de banco em uma manhã de segunda-feira.

Atualizado (12/09): E não é que o cara tava certo mesmo quando disse dos senadores?

sábado, 8 de setembro de 2007

Desaproveitamento

Noite de sexta-feira, a mesma praça dos últimos 12 anos.

Dois amigos e duas latas de cerveja. Não discutiam um método de curar o câncer, sobre a política econômica do governo e nem sobre mulheres. Também não falavam sobre futebol. Na verdade, não falavam nada. Olhavam fixamente cada um para um lado.

Um deles quebrou o silêncio, que já durava uns 30 segundos.

– O ano já acabou, cara.
– E ontem mesmo tava todo mundo aqui comemorando o reveillon.
– Puts, é verdade. Parece que foi ontem mesmo.
– É complicado. Olha isso: eu vou fazer 20 anos no mês que vem.
– Você, 20... caramba, é verdade! E no ano que vem é a minha vez...
– 20 anos, cara, você sabe o que é isso?
– Mais ou menos. Quando a gente tinha uns dez anos, eu imaginava como seria a minha vida com 20.
– Como era?
– Eu teria dois carros. Um deles importado, claro. E dois apartamentos: um aqui e um na praia... isso sem falar no meu sítio. Ah, também tem que eu iria trabalhar todo dia de terno e gravata, já estaria casado e com uns dois filhos.
– Não vou rir porque eu imaginava alguma coisa assim também.
– Quando a gente tinha dez anos, chegar aos 20 significava independência. E dinheiro. E também eu imaginava que seria mais alto que todo mundo.
– Eu também. E agora você vê: meu irmão tem 15 anos e está mais alto do que eu.
– E do que eu também.
– Lembra quando a gente fazia o maior esforço pra se pendurar no travessão da quadra?
– A gente tinha que dar pezinho um pro outro...
– Hahahahaha. É verdade. E todo mundo tinha medo de soltar e cair com tudo, de tão alto que era.
– Naquela época, a gente não podia ficar na rua até essa hora.
– Todo mundo subia às 17h30.
– Era perigoso ficar fora de casa à noite.
– E a gente ia pra casa sempre reclamando por ser tão novo e não poder fazer nada.
– A gente queria ter 18 anos pra poder ser independente.
– Hoje, eu queria estar em casa todo dia às 17h30. E jantar com a minha família, conversar sobre o dia de todo mundo.
– Ninguém gostava de fazer isso. E todo mundo deve sentir falta.

Mais uns 30 segundos de silêncio.

– Cara, a gente reclamava sem motivo.
– Foi a melhor fase das nossas vidas. E muitas vezes a gente perdeu tempo reclamando à toa.

sexta-feira, 7 de setembro de 2007

Filme velho

É incrível como todos os feriados são sempre iguais.

A data ociosa vem se aproximando e, uma semana antes, planejo umas cinco viagens diferentes para fazer. Penso em várias partes do Brasil, mas com a dor no coração de saber que não posso viajar para Buenos Aires porque não tenho um passaporte. Nem mesmo um falso. Um absurdo.

Fico planejando as viagens, vejo em alguns sites as passagens aéreas mais baratas, alguns hotéis, pousadas.... coisas assim. Fico com tudo em mente até dois dias antes do feriado, quando percebo que acabou ficando muito em cima da hora para fazer uma viagem ligeiramente longa e adio para a próxima folga.

Sem viagens, imagino coisas para fazer pela cidade. Várias. Parques, cinemas, teatro, bares, chopes... alguma coisa perdida. Sempre tem alguma coisa interessante para fazer. E fico com algumas em mente.

Chega a véspera do feriado. O dia amanhece com cara de véspera de feriado. Você se lamenta por ter que ir trabalhar na véspera de um feriado e imagina o quão legal deve ser tirar uma folga antes. E ter um feriado ainda maior.

O expediente na véspera de feriado é devagar. Mas, quando você sai, sente-se em um mundo paralelo. É feriado, afinal. E vai ter alguma coisa para fazer, certamente. Não só porque tem seis dvds em sua mochila, selecionados a dedo na locadora.

Então começa o feriado oficialmente. E aí cai a ficha de que a única coisa a ser feita é ficar em casa sem fazer nada.

Talvez o mundo fosse mais divertido antes dos oito anos. Foi quando eu entendi metade do sentido da vida ao ouvir a minha mãe dizer que o mais legal da festa é esperar por ela.

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Orgulho

O orgulho é um sentimento esquisito, prejudicial para uma boa vida em sociedade por motivos lógicos. Muitas vezes, ele é o responsável pelo fim de amizades (que muitas vezes já estão estremecidas), de relacionamentos promissores e pelo acontecimento até de alguns crimes. Basta pegar alguma edição do extinto Notícias Populares, que vai conter pelo menos algum assassinato causado pela soberba.

Mas sempre tem um outro lado. Não que seja muito bom armazenar o orgulho, mas é um sentimento que às vezes pode protagonizar algumas situações engraçadas. A que vem a seguir, por exemplo, não é tão impossível de acontecer por aí. Não mesmo. Embora se trate de um puro devaneio causado de madrugada depois de quase uma semana sem internet.

Conheciam-se há pouco mais de um ano. Tinham algumas coisas em comum, como o curso universitário que faziam na mesma faculdade, mas em períodos distintos. Tiveram o primeiro contato de uma forma talvez normal, na biblioteca. Ele procurava esclarecimento em Sócrates, enquanto ela era mais adepta aos clássicos de Goethe. Acabaram se esbarrando em um meio-termo, na estante com livros do Bandeira.

Passaram meses intensos, trocando mensagens diárias e vendo-se pelo menos uma vez a cada 15 dias. O cara tinha um jeito bacana de se comunicar timidamente, enquanto a garota tinha um estilo engraçado aos olhos do rapaz. Até que um dia pararam de se comunicar, sem um motivo que fosse lá muito relevante. Ficaram talvez oito meses sem se encontrarem, sem se esbarrarem acidentalmente. Apenas uma vez, no mesmo lugar onde se conheceram, durante um dia das férias. Ele devolvia um livro do Dostoievski, enquanto ela procurava por explicações em Pierre Bourdieu. Haviam trocado de interesses. Mas foi um encontro casual, e os dois e cumprimentaram apenas por obrigação social. E continuaram sem se falar. Apenas pensavam um no outro quando o tédio parecia bater. E só.

Voltaram a ter contato apenas seis meses depois do encontro na biblioteca. Acidentalmente, a garota atravessara a rua correndo ao mesmo tempo em que o rapaz jogava conversa fora com alguns amigos esperando o semáforo abrir do outro lado da calçada. Ele não estava muito entretido no assunto com os amigos, tanto que elogiou a roupa que a garota usava e se desvencilhou do grupo para trocar algumas palavras com a antiga amiga. Ela achou estranho o contato, mas deixou que a conversa fluísse.

Depois de umas duas horas de conversa, despediram-se e prometeram se encontrar algum dia novamente em algum lugar incomum para as ‘pessoas normais’, mas comum aos dois.

Como não podia ser diferente aos dois, cruzaram-se na fila do caixa de uma livraria. Ela levava um livro do Marcelo Rubens Paiva, enquanto ele esperava para pagar um do Érico Veríssimo. Era junho, dia do aniversário dela. Ele lembrou, deu os parabéns e lhe pagou um almoço. E conversaram por mais duas horas.

Perceberam que tinham muita coisa em comum e combinaram de se encontrar mais uma vez, desta vez em um lugar comum para todos, mas incomum para eles. Foram para um bar. Passaram muito mais do que duas horas conversando, bebendo, conversando e bebendo. Em plena segunda-feira. Contaram histórias íntimas e se sentiam mais próximos do que o normal a cada palavra, a cada troca de olhar, a cada sorriso. Ela disse que um dia mostraria fotos da infância para ele, que propôs que o encontro acontecesse em sua casa. Bastava manterem o contato depois disso – algo que não era impossível, visto que trocavam pelo menos 20 e-mails por dia.

Despediram-se e não prometeram se ver novamente: tudo já estava marcado para um próximo encontro. Bastava alguém tomar iniciativa e combinar o dia, o horário, a marca da bebida... Não seria nem um pouco complicado.

Mas aconteceu que nada aconteceu durante os dois meses que se seguiram. Todos os dias ele abria as suas cinco caixas de e-mail esperando encontrar o nome da garota, enquanto ela mantinha viva a esperança de receber uma mensagem a qualquer momento. Fosse por carta, e-mail, mensagem de celular. Qualquer coisa, mas ele deveria tomar a iniciativa e se comunicar.

Como não se falaram, acabaram perdendo contato mais uma vez e vieram se encontrar de mais um modo incomum. Meio sonolento em um sábado de manhã, ele decidiu parar em uma cafeteria de esquina, comprar um café grande e acordar de vez. Mas sequer precisou comprar coisa alguma, pois despertou ao ver um borrão amarelo enquanto revirava a carteira para pegar o dinheiro trocado e pagar a xícara de café. Sismado, colocou o óculos e percebeu que o borrão amarelo se tratava de um casaco. No corpo da garota.

O coração dele teve um leve disparo. A taquicardia só foi contida com um movimento da mão esquerda, que aumentou o volume da música que tocava em nos fones de ouvido. Descordenado, colocou no máximo. E então ele passou a disfarçar o olhar, fingiu um bocejo, fingiu mexer as pernas no ritmo da música. A esse tempo ela já o havia percebido. Então, pegou espelho e arrumou a franja do cabelo para ter alguma coisa para fazer. Até porque a franja já estava arrumada.

Ficaram nesse fingimento mal feito durante dois minutos. Foi quando ele passou por ela e simulou um esbarrão na senhora da mesa ao lado para poder fingir que não viu a amiga. Ela, por sua vez, chamou o garçom e pediu mais um café. A xícara que chegou à mesa dela no momento em que o rapaz atravessava a rua meio aturdido, olhando para os dois lados várias vezes.

Quando os dois chegaram em casa, ligaram os computadores e abriram suas caixa de e-mail. Os dois clicaram na opção para criar uma nova mensagem. Os dois digitaram uma mensagem bastante longa. Os dois leram três vezes a mensagem antes de editar algumas partes. Os dois saíram nas janelas de seus respectivos apartamentos antes de enviarem as mensagens (ela acendeu um cigarro nesse meio-tempo e ele procurou um até se lembrar de que não fumava). Os dois voltaram para os computadores e digitaram mais algumas linhas.

Até que os dois, impulsivamente, desligaram os computadores sem enviar as mensagens.

E ficaram pelo menos mais um ano sem se encontrar.

sábado, 1 de setembro de 2007

Durcheinander

Algum dia do mês retrasado, em um restaurante por quilo da Avenida Paulista.

Fila do caixa, 15h30.

Deu R$17,30, moça disse a caixa.
Hum? interrogou a cliente, uma loira de 1,80m, olhos verdes e talvez uns 25 anos.
R$ 17,30 respondeu a funcionária.
I’m sorry, but I can't understand you. I don’t speak Portuguese justificou-se a loira.

O gerente é chamado.

Essa moça disse um negócio estranho. Acho que ela é estrangeira apontou a caixa.
Boa tarde? cumprimentou o gerente.
I am from Germany. I don’t speak Portuguese explicou.
Ela disse que é da Alemanha e não fala português, Rosa traduziu o gerente, direcionando-se à caixa.
Nossa, que chique! Fala pra ela que deu R$ 17,30, Gerson exclamou Rosa.
The bill is seventeen reais and thirty cents. You are a tourist? perguntou Gerson, que não lembrou das regras gramaticais do Inglês.
Yeah, yeah. I’m here with my sister. She, Nadja disse a alemã, apontando para a uma garota morena, de pele clara, olhos azuis e talvez uns 21 anos, que vinha em terceiro lugar na fila.
And you are liking São Paulo? prosseguiu o gerente.
Yeah, very much. This is a fantastic city! Really nice! elogiou a loirona, tirando uma nota de R$ 50 da carteira e entregando à caixa.
Gerson, fala pra ela que ela é muito simpática e que eu gostei muito dela pediu Rosa, com o rosto ganhando uma tonalidade avermelhada.
She said... she said you are very… very… very nice gaguejou o gerente.
Oh, thank you! You too agradeceu a alemã, recebendo o troco e dando um sorriso gentil.

E então chegou a minha vez de ser atendido. Coloquei o prato na balança.

R$ 10,55 disse a caixa, enquanto eu me distraía vendo as luzes vermelhas na balança.
Hum? perguntei, voltando à Terra.
Ele não fala português, Rosa, presta atenção! Ele deve ser o namorado da loira disse o gerente, inconformado com o erro da funcionária.
Ai, é verdade. Que cabeça a minha! Mas como fala esse valor? desculpou-se a caixa.
Ten reais and fifty five cents, mister ensinou o gerente.

Paguei com o vale refeição e tirei a bandeja da balança.

Ao mesmo tempo, o gerente dizia para a caixa, crente que eu não entenderia:

Que cara rabudo! Queria nascer na Alemanha para ter sorte que nem ele!