O orgulho é um sentimento esquisito, prejudicial para uma boa vida em sociedade por motivos lógicos. Muitas vezes, ele é o responsável pelo fim de amizades (que muitas vezes já estão estremecidas), de relacionamentos promissores e pelo acontecimento até de alguns crimes. Basta pegar alguma edição do extinto Notícias Populares, que vai conter pelo menos algum assassinato causado pela soberba.
Mas sempre tem um outro lado. Não que seja muito bom armazenar o orgulho, mas é um sentimento que às vezes pode protagonizar algumas situações engraçadas. A que vem a seguir, por exemplo, não é tão impossível de acontecer por aí. Não mesmo. Embora se trate de um puro devaneio causado de madrugada depois de quase uma semana sem internet.
Conheciam-se há pouco mais de um ano. Tinham algumas coisas em comum, como o curso universitário que faziam na mesma faculdade, mas em períodos distintos. Tiveram o primeiro contato de uma forma talvez normal, na biblioteca. Ele procurava esclarecimento em Sócrates, enquanto ela era mais adepta aos clássicos de Goethe. Acabaram se esbarrando em um meio-termo, na estante com livros do Bandeira.
Passaram meses intensos, trocando mensagens diárias e vendo-se pelo menos uma vez a cada 15 dias. O cara tinha um jeito bacana de se comunicar timidamente, enquanto a garota tinha um estilo engraçado aos olhos do rapaz. Até que um dia pararam de se comunicar, sem um motivo que fosse lá muito relevante. Ficaram talvez oito meses sem se encontrarem, sem se esbarrarem acidentalmente. Apenas uma vez, no mesmo lugar onde se conheceram, durante um dia das férias. Ele devolvia um livro do Dostoievski, enquanto ela procurava por explicações em Pierre Bourdieu. Haviam trocado de interesses. Mas foi um encontro casual, e os dois e cumprimentaram apenas por obrigação social. E continuaram sem se falar. Apenas pensavam um no outro quando o tédio parecia bater. E só.
Voltaram a ter contato apenas seis meses depois do encontro na biblioteca. Acidentalmente, a garota atravessara a rua correndo ao mesmo tempo em que o rapaz jogava conversa fora com alguns amigos esperando o semáforo abrir do outro lado da calçada. Ele não estava muito entretido no assunto com os amigos, tanto que elogiou a roupa que a garota usava e se desvencilhou do grupo para trocar algumas palavras com a antiga amiga. Ela achou estranho o contato, mas deixou que a conversa fluísse.
Depois de umas duas horas de conversa, despediram-se e prometeram se encontrar algum dia novamente em algum lugar incomum para as ‘pessoas normais’, mas comum aos dois.
Como não podia ser diferente aos dois, cruzaram-se na fila do caixa de uma livraria. Ela levava um livro do Marcelo Rubens Paiva, enquanto ele esperava para pagar um do Érico Veríssimo. Era junho, dia do aniversário dela. Ele lembrou, deu os parabéns e lhe pagou um almoço. E conversaram por mais duas horas.
Perceberam que tinham muita coisa em comum e combinaram de se encontrar mais uma vez, desta vez em um lugar comum para todos, mas incomum para eles. Foram para um bar. Passaram muito mais do que duas horas conversando, bebendo, conversando e bebendo. Em plena segunda-feira. Contaram histórias íntimas e se sentiam mais próximos do que o normal a cada palavra, a cada troca de olhar, a cada sorriso. Ela disse que um dia mostraria fotos da infância para ele, que propôs que o encontro acontecesse em sua casa. Bastava manterem o contato depois disso – algo que não era impossível, visto que trocavam pelo menos 20 e-mails por dia.
Despediram-se e não prometeram se ver novamente: tudo já estava marcado para um próximo encontro. Bastava alguém tomar iniciativa e combinar o dia, o horário, a marca da bebida... Não seria nem um pouco complicado.
Mas aconteceu que nada aconteceu durante os dois meses que se seguiram. Todos os dias ele abria as suas cinco caixas de e-mail esperando encontrar o nome da garota, enquanto ela mantinha viva a esperança de receber uma mensagem a qualquer momento. Fosse por carta, e-mail, mensagem de celular. Qualquer coisa, mas ele deveria tomar a iniciativa e se comunicar.
Como não se falaram, acabaram perdendo contato mais uma vez e vieram se encontrar de mais um modo incomum. Meio sonolento em um sábado de manhã, ele decidiu parar em uma cafeteria de esquina, comprar um café grande e acordar de vez. Mas sequer precisou comprar coisa alguma, pois despertou ao ver um borrão amarelo enquanto revirava a carteira para pegar o dinheiro trocado e pagar a xícara de café. Sismado, colocou o óculos e percebeu que o borrão amarelo se tratava de um casaco. No corpo da garota.
O coração dele teve um leve disparo. A taquicardia só foi contida com um movimento da mão esquerda, que aumentou o volume da música que tocava em nos fones de ouvido. Descordenado, colocou no máximo. E então ele passou a disfarçar o olhar, fingiu um bocejo, fingiu mexer as pernas no ritmo da música. A esse tempo ela já o havia percebido. Então, pegou espelho e arrumou a franja do cabelo para ter alguma coisa para fazer. Até porque a franja já estava arrumada.
Ficaram nesse fingimento mal feito durante dois minutos. Foi quando ele passou por ela e simulou um esbarrão na senhora da mesa ao lado para poder fingir que não viu a amiga. Ela, por sua vez, chamou o garçom e pediu mais um café. A xícara que chegou à mesa dela no momento em que o rapaz atravessava a rua meio aturdido, olhando para os dois lados várias vezes.
Quando os dois chegaram em casa, ligaram os computadores e abriram suas caixa de e-mail. Os dois clicaram na opção para criar uma nova mensagem. Os dois digitaram uma mensagem bastante longa. Os dois leram três vezes a mensagem antes de editar algumas partes. Os dois saíram nas janelas de seus respectivos apartamentos antes de enviarem as mensagens (ela acendeu um cigarro nesse meio-tempo e ele procurou um até se lembrar de que não fumava). Os dois voltaram para os computadores e digitaram mais algumas linhas.
Até que os dois, impulsivamente, desligaram os computadores sem enviar as mensagens.
E ficaram pelo menos mais um ano sem se encontrar.
quarta-feira, 5 de setembro de 2007
sábado, 1 de setembro de 2007
Durcheinander
Algum dia do mês retrasado, em um restaurante por quilo da Avenida Paulista.
Fila do caixa, 15h30.
– Deu R$17,30, moça – disse a caixa.
– Hum? – interrogou a cliente, uma loira de 1,80m, olhos verdes e talvez uns 25 anos.
– R$ 17,30 – respondeu a funcionária.
– I’m sorry, but I can't understand you. I don’t speak Portuguese – justificou-se a loira.
O gerente é chamado.
– Essa moça disse um negócio estranho. Acho que ela é estrangeira – apontou a caixa.
– Boa tarde? – cumprimentou o gerente.
– I am from Germany. I don’t speak Portuguese – explicou.
– Ela disse que é da Alemanha e não fala português, Rosa –traduziu o gerente, direcionando-se à caixa.
– Nossa, que chique! Fala pra ela que deu R$ 17,30, Gerson –exclamou Rosa.
– The bill is seventeen reais and thirty cents. You are a tourist? – perguntou Gerson, que não lembrou das regras gramaticais do Inglês.
– Yeah, yeah. I’m here with my sister. She, Nadja – disse a alemã, apontando para a uma garota morena, de pele clara, olhos azuis e talvez uns 21 anos, que vinha em terceiro lugar na fila.
– And you are liking São Paulo?– prosseguiu o gerente.
– Yeah, very much. This is a fantastic city! Really nice! – elogiou a loirona, tirando uma nota de R$ 50 da carteira e entregando à caixa.
– Gerson, fala pra ela que ela é muito simpática e que eu gostei muito dela – pediu Rosa, com o rosto ganhando uma tonalidade avermelhada.
– She said... she said you are very… very… very nice – gaguejou o gerente.
– Oh, thank you! You too – agradeceu a alemã, recebendo o troco e dando um sorriso gentil.
E então chegou a minha vez de ser atendido. Coloquei o prato na balança.
– R$ 10,55 – disse a caixa, enquanto eu me distraía vendo as luzes vermelhas na balança.
– Hum? –perguntei, voltando à Terra.
– Ele não fala português, Rosa, presta atenção! Ele deve ser o namorado da loira– disse o gerente, inconformado com o erro da funcionária.
– Ai, é verdade. Que cabeça a minha! Mas como fala esse valor?– desculpou-se a caixa.
– Ten reais and fifty five cents, mister– ensinou o gerente.
Paguei com o vale refeição e tirei a bandeja da balança.
Ao mesmo tempo, o gerente dizia para a caixa, crente que eu não entenderia:
– Que cara rabudo! Queria nascer na Alemanha para ter sorte que nem ele!
Fila do caixa, 15h30.
– Deu R$17,30, moça – disse a caixa.
– Hum? – interrogou a cliente, uma loira de 1,80m, olhos verdes e talvez uns 25 anos.
– R$ 17,30 – respondeu a funcionária.
– I’m sorry, but I can't understand you. I don’t speak Portuguese – justificou-se a loira.
O gerente é chamado.
– Essa moça disse um negócio estranho. Acho que ela é estrangeira – apontou a caixa.
– Boa tarde? – cumprimentou o gerente.
– I am from Germany. I don’t speak Portuguese – explicou.
– Ela disse que é da Alemanha e não fala português, Rosa –traduziu o gerente, direcionando-se à caixa.
– Nossa, que chique! Fala pra ela que deu R$ 17,30, Gerson –exclamou Rosa.
– The bill is seventeen reais and thirty cents. You are a tourist? – perguntou Gerson, que não lembrou das regras gramaticais do Inglês.
– Yeah, yeah. I’m here with my sister. She, Nadja – disse a alemã, apontando para a uma garota morena, de pele clara, olhos azuis e talvez uns 21 anos, que vinha em terceiro lugar na fila.
– And you are liking São Paulo?– prosseguiu o gerente.
– Yeah, very much. This is a fantastic city! Really nice! – elogiou a loirona, tirando uma nota de R$ 50 da carteira e entregando à caixa.
– Gerson, fala pra ela que ela é muito simpática e que eu gostei muito dela – pediu Rosa, com o rosto ganhando uma tonalidade avermelhada.
– She said... she said you are very… very… very nice – gaguejou o gerente.
– Oh, thank you! You too – agradeceu a alemã, recebendo o troco e dando um sorriso gentil.
E então chegou a minha vez de ser atendido. Coloquei o prato na balança.
– R$ 10,55 – disse a caixa, enquanto eu me distraía vendo as luzes vermelhas na balança.
– Hum? –perguntei, voltando à Terra.
– Ele não fala português, Rosa, presta atenção! Ele deve ser o namorado da loira– disse o gerente, inconformado com o erro da funcionária.
– Ai, é verdade. Que cabeça a minha! Mas como fala esse valor?– desculpou-se a caixa.
– Ten reais and fifty five cents, mister– ensinou o gerente.
Paguei com o vale refeição e tirei a bandeja da balança.
Ao mesmo tempo, o gerente dizia para a caixa, crente que eu não entenderia:
– Que cara rabudo! Queria nascer na Alemanha para ter sorte que nem ele!
quinta-feira, 30 de agosto de 2007
Outro lado
Pode não ter sido o melhor dia que você já teve.
Talvez você tenha acordado às 7 horas com o telefone tocando na sala, saído correndo do quarto pensando que poderia ser uma emergência e, ainda cambaleando de sono (afinal, fora dormir às 4 horas), bateu com o dedinho do pé esquerdo na quina rodapé. E aí você atende, fala alô três vezes e a pessoa do outro lado da linha desliga sem dar uma palavra sequer.
Quando volta para cama, o telefone volta a tocar. Você vai atender de novo e, novamente, a pessoa desliga. Nervoso, leva o aparelho e o deixa na prateleira em cima da cabeceira da cama. Pela terceira vez em menos de cinco minutos, o telefone toca e você, no afã de fazer com que aquele barulho não atrapalhasse mais o seu sono, faz um movimento brusco e o livro que também estava na prateleira cai em cima de sua cabeça.
Nervoso, grita alô e a pessoa enfim responde. “Oi, eu quero falar com o Wandeílson?”. E aí você pergunta quem quer falar. O cara diz “aqui é o Almiro!”, e você dispara: “Vai pro inferno, Almiro, e não me enche mais o saco”.
Com dor na cabeça, não consegue mais dormir. Vai tomar o café da manhã, abre a geladeira e o armário e constata que não tem mais leite. Decide, então, ir ao mercado e comprar três litros para estocar. Quando volta para casa, atravessa a avenida e uma das sacolas se rompe e uma das garrafas de leite estoura em plena via pública. Sem saber se xinga a sacola, o supermercado ou as pessoas do ônibus em volta que riem sem pensar, acaba voltando para casa.
E aí você percebe que não tem muita coisa para fazer, então fica vendo reprises de alguns programas na televisão até que dê 10 horas da manhã. Querendo apenas arranjar alguma coisa para fazer, vai ao banco pagar a conta de telefone, mas a falta de rede nos caixas eletrônicos, a fila gigante e a boa vontade dos dois caixas que se revezavam no atendimento te seguram por lá durante 1h30.
Quando enfim volta para casa, percebe que está na hora de ir para o trabalho. Depois de tomar banho, se arrumar e fazer todas as coisas de praxe, pega o metrô. Só que entre uma estação e outra, o trem pára e o condutor avisa que, por causa de uma falha técnica, a operação ficará paralisada durante 15 minutos.
Tudo volta ao normal 25 minutos depois. Contudo, no momento em que o trem chega à estação seguinte, toda a população de São Paulo se espreme dentro de um vagão e a viagem se torna terrível. Mesmo assim, chega a tempo de almoçar rapidamente em um self-service. No entanto, todos no caminho estão abarrotados de gente, então você decide ficar mesmo no restaurante do seu local de trabalho. Após comer arroz com gosto de caixa, feijão temperado com aroma de plástico e mastigar uma carne borrachuda, vai para o trabalho.
Embora trabalhe com o que mais gosta de fazer, percebe que o futebol nacional está cada dia pior [tudo isso depois de noticiar em primeira mão que o Náutico acertou a venda do craque Vanderson Amazonense ao Stal Dniprodzerzhynsk (cuidado para não inverter as letras!), da Ucrânia – o novo centro do futebol mundial].
O clima do dia não melhora quando a noite chega. Na faculdade, tem duas aulas que, certamente, não vão acrescentar nada no seu futuro. E, ao voltar para casa, a bateria de seu reprodutor de MP3 apaga na metade de uma música legal. Tudo parece conspirar para que a situação só piore.
Mas quando abre a caixinha de correio para pegar a última leva de contas do mês que você percebe que, no meio das taxas de luz, água e gás, tem um envelope escrito à mão. Com uma letra redondinha, caprichada, e com o seu nome nele.
E então, ao abrir, lembra que aquela carta que você enviou a uma amiga distante, em uma noite fria de domingo, quando estava levemente deprimido, foi respondida.
Pode não ter sido o melhor dia da sua vida. Mas, apesar de tudo o que tenha acontecido, às vezes você percebe que a vida vale a pena.
Talvez você tenha acordado às 7 horas com o telefone tocando na sala, saído correndo do quarto pensando que poderia ser uma emergência e, ainda cambaleando de sono (afinal, fora dormir às 4 horas), bateu com o dedinho do pé esquerdo na quina rodapé. E aí você atende, fala alô três vezes e a pessoa do outro lado da linha desliga sem dar uma palavra sequer.
Quando volta para cama, o telefone volta a tocar. Você vai atender de novo e, novamente, a pessoa desliga. Nervoso, leva o aparelho e o deixa na prateleira em cima da cabeceira da cama. Pela terceira vez em menos de cinco minutos, o telefone toca e você, no afã de fazer com que aquele barulho não atrapalhasse mais o seu sono, faz um movimento brusco e o livro que também estava na prateleira cai em cima de sua cabeça.
Nervoso, grita alô e a pessoa enfim responde. “Oi, eu quero falar com o Wandeílson?”. E aí você pergunta quem quer falar. O cara diz “aqui é o Almiro!”, e você dispara: “Vai pro inferno, Almiro, e não me enche mais o saco”.
Com dor na cabeça, não consegue mais dormir. Vai tomar o café da manhã, abre a geladeira e o armário e constata que não tem mais leite. Decide, então, ir ao mercado e comprar três litros para estocar. Quando volta para casa, atravessa a avenida e uma das sacolas se rompe e uma das garrafas de leite estoura em plena via pública. Sem saber se xinga a sacola, o supermercado ou as pessoas do ônibus em volta que riem sem pensar, acaba voltando para casa.
E aí você percebe que não tem muita coisa para fazer, então fica vendo reprises de alguns programas na televisão até que dê 10 horas da manhã. Querendo apenas arranjar alguma coisa para fazer, vai ao banco pagar a conta de telefone, mas a falta de rede nos caixas eletrônicos, a fila gigante e a boa vontade dos dois caixas que se revezavam no atendimento te seguram por lá durante 1h30.
Quando enfim volta para casa, percebe que está na hora de ir para o trabalho. Depois de tomar banho, se arrumar e fazer todas as coisas de praxe, pega o metrô. Só que entre uma estação e outra, o trem pára e o condutor avisa que, por causa de uma falha técnica, a operação ficará paralisada durante 15 minutos.
Tudo volta ao normal 25 minutos depois. Contudo, no momento em que o trem chega à estação seguinte, toda a população de São Paulo se espreme dentro de um vagão e a viagem se torna terrível. Mesmo assim, chega a tempo de almoçar rapidamente em um self-service. No entanto, todos no caminho estão abarrotados de gente, então você decide ficar mesmo no restaurante do seu local de trabalho. Após comer arroz com gosto de caixa, feijão temperado com aroma de plástico e mastigar uma carne borrachuda, vai para o trabalho.
Embora trabalhe com o que mais gosta de fazer, percebe que o futebol nacional está cada dia pior [tudo isso depois de noticiar em primeira mão que o Náutico acertou a venda do craque Vanderson Amazonense ao Stal Dniprodzerzhynsk (cuidado para não inverter as letras!), da Ucrânia – o novo centro do futebol mundial].
O clima do dia não melhora quando a noite chega. Na faculdade, tem duas aulas que, certamente, não vão acrescentar nada no seu futuro. E, ao voltar para casa, a bateria de seu reprodutor de MP3 apaga na metade de uma música legal. Tudo parece conspirar para que a situação só piore.
Mas quando abre a caixinha de correio para pegar a última leva de contas do mês que você percebe que, no meio das taxas de luz, água e gás, tem um envelope escrito à mão. Com uma letra redondinha, caprichada, e com o seu nome nele.
E então, ao abrir, lembra que aquela carta que você enviou a uma amiga distante, em uma noite fria de domingo, quando estava levemente deprimido, foi respondida.
Pode não ter sido o melhor dia da sua vida. Mas, apesar de tudo o que tenha acontecido, às vezes você percebe que a vida vale a pena.
terça-feira, 28 de agosto de 2007
Despaixão
Eram amigos há 21 anos, mas nos últimos dois pouco se viam, mesmo sendo vizinhos de portade uma casa geminada. Ambos tiveram suas rotinas alteradas e os horários quase nunca batiam. Com sorte, conseguiam sair juntos de vez em quando, em um sábado a cada cinco ou seis. Mas com sorte.
Em um domingo de manhã, 26 dias depois de terem tomado rapidamente um café pela última vez, acabaram se cruzando por acaso na rua. Um ia a pé comprar o jornal na banca a dois quarteirões de casa, enquanto o outro ia de carro ao mercado comprar comida para o cachorro.
O que dirigia parou no meio-fio, baixou o vidro do carro e chamou o amigo. O que andava na calçada abriu a porta e entrou no banco do passageiro, deixando de lado a idéia de comprar o jornal.
Então o motorista iniciou a conversa do mesmo jeito dos últimos dois anos:
– Quanto tempo, cara! – disse, engatando a primeira marcha.
– Verdade, né? Andei meio sumido, sabe como é... essa rotina me mata.
– A minha também. Mas... mas e o que acontece do outro lado da parede da sala?
– O mesmo de sempre, quase não dá tempo de fazer nada novo. E você?
– Não te falei, mas acho que me apaixonei.
– De novo? Digo...
– Dessa vez foi sério. Foi daquelas que fazem você andar pela rua dançando I saw her standing there, ou então chegar ao escritório dando risada às segundas de manhã.
– Sério mesmo?
– Claro. Já tinha até imaginado o que dar para ela no nosso primeiro ano de namoro.
– O quê?
– Uma viagem para a Europa. Ouvi ela dizer uma vez que nunca tinha ido à Europa. Pensei em Praga, mas já vi fotos animais de Turim também.
– E você tem essa grana toda?
– Não, mas já tinha começado a economizar.
– Foi sério mesmo, então. Quem é?
– Você não conhece. É uma pequena que entrou no trabalho no começo do ano.
– Bacana. E aí?
– Não deu certo. Percebi que a nossa relação era estritamente profissional.
– Como assim?
– Ah, deixa pra lá.
– Mas você ainda tá apaixonado, ou seja lá o que for?
– Não.
– Qual o nome dela?
– Ana Maria. Viu o jogo ontem?
Continuaram conversando, falando sobre casualidades. Até que o passageiro interrompeu o assunto bruscamente:
– Ana Maria! – disse quando o semáforo fechou – Qual a primeira imagem que veio na sua cabeça?
– A festa de 50 anos da nossa empresa, semana passada – respondeu o motorista, baixando levemente o olhar –. Todas as filiais da cidade estavam lá. Eu tinha saído para pegar um vinho para nós dois. Quando voltei, tinha um cara da sucursal do Centro falando com ela – e lançou um sorriso amarelo.
– Beijo?
– Que beijo... – suspirou, voltando a colocar o carro em movimento – Só que não foi só ele. Depois, me falaram que um outro cara da sucursal da Zona Sul também tinha conseguido.
– E você?
– Tomei os dois copos de vinho.
– Mas... mais nada?
– Ah, um cara da minha repartição falou que eu deveria tentar alguma coisa com uma amiga dela que estava lá. Mas... mas como eu poderia dançar com outra depois disso?
– E como você tá agora?
– Normal, se quer saber. A única diferença é que as coisas de que eu gostava nela agora me deixam profundamente irritado. Mas daqui um mês isso passa.
– Tem falado com ela?
– Não.
– Quer falar sobre isso?
– Muito. Mas espera acabar essa música.
Foi quando começou a tocar I saw her standing there pela terceira vez seguida.
Em um domingo de manhã, 26 dias depois de terem tomado rapidamente um café pela última vez, acabaram se cruzando por acaso na rua. Um ia a pé comprar o jornal na banca a dois quarteirões de casa, enquanto o outro ia de carro ao mercado comprar comida para o cachorro.
O que dirigia parou no meio-fio, baixou o vidro do carro e chamou o amigo. O que andava na calçada abriu a porta e entrou no banco do passageiro, deixando de lado a idéia de comprar o jornal.
Então o motorista iniciou a conversa do mesmo jeito dos últimos dois anos:
– Quanto tempo, cara! – disse, engatando a primeira marcha.
– Verdade, né? Andei meio sumido, sabe como é... essa rotina me mata.
– A minha também. Mas... mas e o que acontece do outro lado da parede da sala?
– O mesmo de sempre, quase não dá tempo de fazer nada novo. E você?
– Não te falei, mas acho que me apaixonei.
– De novo? Digo...
– Dessa vez foi sério. Foi daquelas que fazem você andar pela rua dançando I saw her standing there, ou então chegar ao escritório dando risada às segundas de manhã.
– Sério mesmo?
– Claro. Já tinha até imaginado o que dar para ela no nosso primeiro ano de namoro.
– O quê?
– Uma viagem para a Europa. Ouvi ela dizer uma vez que nunca tinha ido à Europa. Pensei em Praga, mas já vi fotos animais de Turim também.
– E você tem essa grana toda?
– Não, mas já tinha começado a economizar.
– Foi sério mesmo, então. Quem é?
– Você não conhece. É uma pequena que entrou no trabalho no começo do ano.
– Bacana. E aí?
– Não deu certo. Percebi que a nossa relação era estritamente profissional.
– Como assim?
– Ah, deixa pra lá.
– Mas você ainda tá apaixonado, ou seja lá o que for?
– Não.
– Qual o nome dela?
– Ana Maria. Viu o jogo ontem?
Continuaram conversando, falando sobre casualidades. Até que o passageiro interrompeu o assunto bruscamente:
– Ana Maria! – disse quando o semáforo fechou – Qual a primeira imagem que veio na sua cabeça?
– A festa de 50 anos da nossa empresa, semana passada – respondeu o motorista, baixando levemente o olhar –. Todas as filiais da cidade estavam lá. Eu tinha saído para pegar um vinho para nós dois. Quando voltei, tinha um cara da sucursal do Centro falando com ela – e lançou um sorriso amarelo.
– Beijo?
– Que beijo... – suspirou, voltando a colocar o carro em movimento – Só que não foi só ele. Depois, me falaram que um outro cara da sucursal da Zona Sul também tinha conseguido.
– E você?
– Tomei os dois copos de vinho.
– Mas... mais nada?
– Ah, um cara da minha repartição falou que eu deveria tentar alguma coisa com uma amiga dela que estava lá. Mas... mas como eu poderia dançar com outra depois disso?
– E como você tá agora?
– Normal, se quer saber. A única diferença é que as coisas de que eu gostava nela agora me deixam profundamente irritado. Mas daqui um mês isso passa.
– Tem falado com ela?
– Não.
– Quer falar sobre isso?
– Muito. Mas espera acabar essa música.
Foi quando começou a tocar I saw her standing there pela terceira vez seguida.
segunda-feira, 27 de agosto de 2007
Identificação nacional
Ainda me lembro da primeira vez que me dei conta de que o Brasil tinha um hino nacional. Foi em 7 de setembro de 1993 (ou seria 1992?), quando fui a um desfile que comemorava mais um ano da independência. Na frente, tinha a bandeira do país e, atrás, a cola com a letra da canção.
Achei bem legal, e em uma semana havia decorado o hino. Isso me ajudou bastante em 1994, quando todo mundo foi obrigado a aprender a cantá-lo para a formatura da pré-escola. Durante um dos ensaios, a diretora da escolinha disse para todos que o brasileiro era o hino mais lindo do mundo. Se ela disse, tava falado.
Dois anos depois me disseram a mesma coisa. Falaram que o nosso hino tinha a melodia mais gostosa do mundo, além de que a letra era bem bonita, já que falava apenas da beleza natural brasileiro e não fazia menção alguma a guerras. Acabei adotando isso como verdade absoluta.
Mas de uns tempos para cá fui tendo contato com alguns hinos de outros países e, surpresa, muitos deles eram tão bons quanto o brasileiro. E o melhor de tudo: alguns deles tinham trechos que evocavam uma emoção tremenda em quem cantava. Passei a gostar pra caramba de ouvi-los, então.
Uma coisa é bem verdade: várias canções nacionais falam de guerra. Tudo em decorrência das guerras por que passaram antes de proclamarem sua independência, para se unificarem ou para vencerem os invasores ao longo da história. E isso faz com que muitas evoquem uma unificação muito grande quando cantados.
Talvez eu não tenha ouvido mais do que 50 hinos diferentes. Mesmo assim, seis deles dificilmente mudarão o meu conceito se, porventura, um dia eu não tiver nada para fazer e decida escutar todos os hinos do mundo. São eles:
5º) Qassaman: A melodia parece alguma cena inicial de um filme de 1930. Mas a Argélia talvez tenha um dos hinos mais brutos que existem, dados os seguintes versos: “Quando falamos, ninguém nos ouviu. Então, tomamos o som da pólvora como nosso ritmo e o som dos canhões como nossa melodia”. Mesmo assim, é legal a mensagem que é dada em uma estrofe extra, às vezes cantada: a vingança que, cedo ou tarde, virá. Colonizados por franceses entre 1830 e 1962, os argelinos deixam um recado aos ex-ocupadores. “França, a era da repressão está acabada, e fechamos esse período assim como se fecha um livro. França, este é o dia da vingança. Então se prepare para receber a nossa resposta”.
4º) A Portuguesa: O hino de Portugal é bacana, e os versos das duas últimas estrofes são muito legais. Tem o “E teu braço vencedor/Deu ao mundo novos mundos”, mas os melhores mesmo são os “Raios dessa aurora forte/São como beijos de mãe/Que nos guardam, nos sustêm/Contra as injúrias da sorte”. No entanto, os tradicionais “Às armas, às armas/Contra os canhões marchar, marchar” são os responsáveis por eu gostar tanto assim.
3º) Inno di Mameli: Famoso por tocar quase todos os domingos nos pódios das corridas de Fórmula 1, o hino italiano é cativante. A melodia lembra bem uma música italiana, o jeito que os atletas cantam, abraçados, lembra a cultura italiana. Outra peculiaridade é que os versos curtos foram escritos em 1847 por Goffredo Mameli, que na época tinha apenas 20 anos, como a maioria de nós. E, mesmo assim, é um hino mais do que cativante ao ser ouvido.
2º) Hino da Independência: A parte mais famosa deste hino é o seu primeiro verso, infelizmente. O “Já podeis da pátria filho” se tornou o famigerado “Japonês tem quatro filhos”. A melodia foi composta por um sujeito com um nome muito simples: Pedro de Alcântara Francisco António João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim de Bragança e Bourbon, mas o que chama mais atenção, pelo menos para mim, é a segunda estrofe. “Houve mão mais poderosa/Houve mão mais poderosa/Zombou deles o Brasil”. Uma pena não ser o hino oficial. Para mim, é uma canção muito mais intensa do que a cantada pifiamente por aí.
1º) La Marsellaise: Aux armes, citoyens! Formez vos bataillons. Marchons, marchons! Qu'un sang impur abreuve nos sillons! E qualquer coisa que eu escrevesse além disso seria apenas para encher lingüiça.
Um site legal para alguém que estranhamente tiver esse mesmo interesse por hinos nacionais como eu tenho é este aqui. O único ruim é que, assim como em quase toda a internet, as versões do hino são em formato Midi, como se tivessem sido compostas do Guitar Player. E, claro, a letra não é cantada. Uma pena.
Goleada contra: Está redondamente enganado aquele que pensa que apenas o nosso hino nacional é vítima de uma bizarrice como esta. Já ouvi várias vezes que boa parte da população norte-americana não sabe cantar o hino dos Estados Unidos. O pior de tudo não é isso, mas sim quando o intérprete simplesmente se esquece da letra, como neste caso.
Outra coisa que pode acontecer é alguém não muito indicado cantar o hino publicamente. No Pan, o Brasil passou por isso com a Elza Soares cantando uma versão assustadora da nossa canção nacional na cerimônia de abertura dos Jogos. Os EUA não ficaram muito atrás também.
Mas nada se compara a isso, uma jóia rara do acervo do Youtube.
Achei bem legal, e em uma semana havia decorado o hino. Isso me ajudou bastante em 1994, quando todo mundo foi obrigado a aprender a cantá-lo para a formatura da pré-escola. Durante um dos ensaios, a diretora da escolinha disse para todos que o brasileiro era o hino mais lindo do mundo. Se ela disse, tava falado.
Dois anos depois me disseram a mesma coisa. Falaram que o nosso hino tinha a melodia mais gostosa do mundo, além de que a letra era bem bonita, já que falava apenas da beleza natural brasileiro e não fazia menção alguma a guerras. Acabei adotando isso como verdade absoluta.
Mas de uns tempos para cá fui tendo contato com alguns hinos de outros países e, surpresa, muitos deles eram tão bons quanto o brasileiro. E o melhor de tudo: alguns deles tinham trechos que evocavam uma emoção tremenda em quem cantava. Passei a gostar pra caramba de ouvi-los, então.
Uma coisa é bem verdade: várias canções nacionais falam de guerra. Tudo em decorrência das guerras por que passaram antes de proclamarem sua independência, para se unificarem ou para vencerem os invasores ao longo da história. E isso faz com que muitas evoquem uma unificação muito grande quando cantados.
Talvez eu não tenha ouvido mais do que 50 hinos diferentes. Mesmo assim, seis deles dificilmente mudarão o meu conceito se, porventura, um dia eu não tiver nada para fazer e decida escutar todos os hinos do mundo. São eles:
5º) Qassaman: A melodia parece alguma cena inicial de um filme de 1930. Mas a Argélia talvez tenha um dos hinos mais brutos que existem, dados os seguintes versos: “Quando falamos, ninguém nos ouviu. Então, tomamos o som da pólvora como nosso ritmo e o som dos canhões como nossa melodia”. Mesmo assim, é legal a mensagem que é dada em uma estrofe extra, às vezes cantada: a vingança que, cedo ou tarde, virá. Colonizados por franceses entre 1830 e 1962, os argelinos deixam um recado aos ex-ocupadores. “França, a era da repressão está acabada, e fechamos esse período assim como se fecha um livro. França, este é o dia da vingança. Então se prepare para receber a nossa resposta”.
4º) A Portuguesa: O hino de Portugal é bacana, e os versos das duas últimas estrofes são muito legais. Tem o “E teu braço vencedor/Deu ao mundo novos mundos”, mas os melhores mesmo são os “Raios dessa aurora forte/São como beijos de mãe/Que nos guardam, nos sustêm/Contra as injúrias da sorte”. No entanto, os tradicionais “Às armas, às armas/Contra os canhões marchar, marchar” são os responsáveis por eu gostar tanto assim.
3º) Inno di Mameli: Famoso por tocar quase todos os domingos nos pódios das corridas de Fórmula 1, o hino italiano é cativante. A melodia lembra bem uma música italiana, o jeito que os atletas cantam, abraçados, lembra a cultura italiana. Outra peculiaridade é que os versos curtos foram escritos em 1847 por Goffredo Mameli, que na época tinha apenas 20 anos, como a maioria de nós. E, mesmo assim, é um hino mais do que cativante ao ser ouvido.
2º) Hino da Independência: A parte mais famosa deste hino é o seu primeiro verso, infelizmente. O “Já podeis da pátria filho” se tornou o famigerado “Japonês tem quatro filhos”. A melodia foi composta por um sujeito com um nome muito simples: Pedro de Alcântara Francisco António João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim de Bragança e Bourbon, mas o que chama mais atenção, pelo menos para mim, é a segunda estrofe. “Houve mão mais poderosa/Houve mão mais poderosa/Zombou deles o Brasil”. Uma pena não ser o hino oficial. Para mim, é uma canção muito mais intensa do que a cantada pifiamente por aí.
1º) La Marsellaise: Aux armes, citoyens! Formez vos bataillons. Marchons, marchons! Qu'un sang impur abreuve nos sillons! E qualquer coisa que eu escrevesse além disso seria apenas para encher lingüiça.
Um site legal para alguém que estranhamente tiver esse mesmo interesse por hinos nacionais como eu tenho é este aqui. O único ruim é que, assim como em quase toda a internet, as versões do hino são em formato Midi, como se tivessem sido compostas do Guitar Player. E, claro, a letra não é cantada. Uma pena.
Goleada contra: Está redondamente enganado aquele que pensa que apenas o nosso hino nacional é vítima de uma bizarrice como esta. Já ouvi várias vezes que boa parte da população norte-americana não sabe cantar o hino dos Estados Unidos. O pior de tudo não é isso, mas sim quando o intérprete simplesmente se esquece da letra, como neste caso.
Outra coisa que pode acontecer é alguém não muito indicado cantar o hino publicamente. No Pan, o Brasil passou por isso com a Elza Soares cantando uma versão assustadora da nossa canção nacional na cerimônia de abertura dos Jogos. Os EUA não ficaram muito atrás também.
Mas nada se compara a isso, uma jóia rara do acervo do Youtube.
domingo, 26 de agosto de 2007
Mês do desgosto
Há certas coisas que são impossíveis de serem explicadas utilizando palavras. Essa sensação aumenta, pelo menos para mim, nos meses finais do ano. Só consigo perceber que a temporada está chegando ao fim captando alguns sinais que ficam no ar.
Quando acordar, por exemplo, é fácil perceber que os raios de sol que penetram pela primeira fresta a ser aberta pela janela são mais horizontais e dourados do que o comum. É uma coisa legal de perceber, embora praticamente imperceptível.
O segundo fenômeno que melhor caracteriza os últimos meses do ano acontece depois das 18 horas. As noites são mais quentes, ligeiramente abafadas, e em rápidos momentos passa uma brisa agradável pela atmosfera. É o final do ano.
No entanto, o período só era ratificado, pelo menos para mim, ouvindo certas músicas. É verdade. Apenas quando ouvia Beatles e sentia qualquer um dos outros dois sinais de final de ano que eu de fato percebia que o fim estava próximo. Estranho, eu sei, mas são coisas meio inexplicáveis. Assim como ouvir o tema da vitória em uma manhã de domingo na Rede Globo me remete às melhores sensações de infância. Não faz muito sentido, mas é isso.
Só que toda essa salada sensitiva tinha hora para acontecer: nunca antes da segunda quinzena de setembro. Nunca antes. Mas as coisas têm sido diferentes nos últimos anos.
Nos meus cinco primeiros anos de vida, já tinha algo contra agosto. Era o primeiro mês depois das férias de julho, tinha 31 dias e não havia a parada de algum feriado estratégico. Era terrível. Isso sem falar que era o mês mais propício para sediar um acontecimento negativo.
Mas é bem verdade que muita coisa vem mudando de 12 anos para cá, e com agosto não foi diferente. Ontem de manhã, por exemplo, atravessei uma alamedazinha e tive a sensação de que o ano estava mesmo acabando. Achei estranho, já que estávamos em agosto – um mês antes do normal. Fiz o teste correndo: coloquei uma música dos Beatles e ela soou como soaria em setembro, outubro ou novembro.
Estava, assim, constatado: aquele ano, que começou não faz muito tempo, chegava na sua reta final. E mais cedo do que o normal. Muito estranho. Tentei entender por que essa diferença em relação ao tradicional e a única justificativa mais ou menos plausível foi o aquecimento global. Já que quase tudo de bizarro no mundo é culpa dele, dessa vez não deve ser diferente.
No fundo, até que achei legal que a tradição estava sendo quebrada. Pela primeira vez em 19 anos, o final do ano chegara ates. Além disso, agosto havia passado muito rapidamente, praticamente imperceptível como um mês de maio, por exemplo. E o melhor: nenhum acontecimento negativo.
Só que tem coisas que nunca mudam, e agosto sempre vai ser o mês do desgosto, como ouvi minhaavó dizer durante curtos 11 anos. Mesmo que aos 35 minutos do segundo tempo.
Sempre me ensinaram para não comemorar antes do tempo.
Quando acordar, por exemplo, é fácil perceber que os raios de sol que penetram pela primeira fresta a ser aberta pela janela são mais horizontais e dourados do que o comum. É uma coisa legal de perceber, embora praticamente imperceptível.
O segundo fenômeno que melhor caracteriza os últimos meses do ano acontece depois das 18 horas. As noites são mais quentes, ligeiramente abafadas, e em rápidos momentos passa uma brisa agradável pela atmosfera. É o final do ano.
No entanto, o período só era ratificado, pelo menos para mim, ouvindo certas músicas. É verdade. Apenas quando ouvia Beatles e sentia qualquer um dos outros dois sinais de final de ano que eu de fato percebia que o fim estava próximo. Estranho, eu sei, mas são coisas meio inexplicáveis. Assim como ouvir o tema da vitória em uma manhã de domingo na Rede Globo me remete às melhores sensações de infância. Não faz muito sentido, mas é isso.
Só que toda essa salada sensitiva tinha hora para acontecer: nunca antes da segunda quinzena de setembro. Nunca antes. Mas as coisas têm sido diferentes nos últimos anos.
Nos meus cinco primeiros anos de vida, já tinha algo contra agosto. Era o primeiro mês depois das férias de julho, tinha 31 dias e não havia a parada de algum feriado estratégico. Era terrível. Isso sem falar que era o mês mais propício para sediar um acontecimento negativo.
Mas é bem verdade que muita coisa vem mudando de 12 anos para cá, e com agosto não foi diferente. Ontem de manhã, por exemplo, atravessei uma alamedazinha e tive a sensação de que o ano estava mesmo acabando. Achei estranho, já que estávamos em agosto – um mês antes do normal. Fiz o teste correndo: coloquei uma música dos Beatles e ela soou como soaria em setembro, outubro ou novembro.
Estava, assim, constatado: aquele ano, que começou não faz muito tempo, chegava na sua reta final. E mais cedo do que o normal. Muito estranho. Tentei entender por que essa diferença em relação ao tradicional e a única justificativa mais ou menos plausível foi o aquecimento global. Já que quase tudo de bizarro no mundo é culpa dele, dessa vez não deve ser diferente.
No fundo, até que achei legal que a tradição estava sendo quebrada. Pela primeira vez em 19 anos, o final do ano chegara ates. Além disso, agosto havia passado muito rapidamente, praticamente imperceptível como um mês de maio, por exemplo. E o melhor: nenhum acontecimento negativo.
Só que tem coisas que nunca mudam, e agosto sempre vai ser o mês do desgosto, como ouvi minhaavó dizer durante curtos 11 anos. Mesmo que aos 35 minutos do segundo tempo.
Sempre me ensinaram para não comemorar antes do tempo.
sábado, 25 de agosto de 2007
Reencontro
Seu relógio quebrou há alguns meses e ainda não teve tempo de consertá-lo. Talvez por isso não saiba que horas eram quando você chegou ao ponto de ônibus na Brigadeiro Luís Antônio, em frente ao Extra, aquele em que sempre fica para voltar para casa. Deveriam ser 17h30.
Mas assim que você chega ao ponto esquece o horário porque reconhece uma pessoa. Embora estivesse com o cabelo muito mais curto do que o normal e tingido de laranja, lá estava aquela sua ex-namorada com quem você terminou tempos atrás e nunca mais viu desde então. E, pelo menos nos últimos meses, teve vontade de encontrá-la para se explicar e pedir desculpas por tudo. E bem onde você menos esperava, lá estava ela.
Só que a garota não estava sozinha. Estava com muitas pessoas ao seu redor. Logo você reconheceu que eram pessoas da sala dela na faculdade. Aliás, ela não sabia que você sabia que ela fazia faculdade: já haviam se separado quando ela fora aprovada no vestibular, mas mesmo assim você fez questão de acordar cedinho quando divulgaram a primeira lista da Usp e viu que o nome dela estava lá.
Você vai falar com ela, que vira a cara e responde friamente um oi. Ela estava acompanhada com o novo namorado. Você dá os parabéns ao cara e aperta a sua mão. E nesse exato momento o ônibus dele chega e ele vai embora: restam apenas você e a sua ex.
Ela começa a descer a rua com os amigos de faculdade e você vai junto. Surpreendentemente, vocês começam a conversar. Só que ela pára no meio do caminho para falar com uma outra amiga, e você logo escuta ela dizer “acabei de terminar com o Adolfo, ele era um chato. Não tava mais agüentando”. Você finge não dar atenção, e continua andando, mas diminui o ritmo das passadas e permite que ela logo te alcance. É quando você percebe que não está mais na Brigadeiro Luís Antônio, mas naquela rua perto da casa dela, na Saúde.
Os amigos dela decidem fazer uma roda para conversar melhor. Você senta em um extremo e ela, no outro. Separados pro um diâmetro, ela te chama para sentar perto dela. Você senta na frente dela, ela passa o braço em volta do seu pescoço e você sente uma agradável sensação de conforto. Você olha para o rosto dela e percebe que o cabelo dela está lindo como era antes, longo e em um tom ruivo que reluzia ao sol. Quando percebem, estão sozinhos no lugar em que costumavam passar as tardes trocando juras de amor. Então você começa:
“Quanto tempo, né? Então... f-faz tempo que eu q-queria t-te-te falar isso. Nossa, estive ensaiando isso durante tanto tempo, mas agora não consigo começar a falar. É difícil, mas... mas eu vou tentar. S-Sabe, acho que não estava preparado para um relacionamento sério com você naquela época. É. Andei pensando nisso faz um tempo, mas só agora tudo isso pareceu ter sentido. Queria muito te falar isso. Olha, me desc...”
“Não fala nada”, ela pede, colocando um dedo em seu lábio e aproximando o rosto dela ao seu. Ela fecha os olhos, você também.
E aí passa um carro na rua e dispara uma buzina longa e estridente. Você abre os olhos e percebe que não há carro, não há rua perto da casa dela e muito menos garota. A única coisa que você percebe é que está em seu quarto, deitado em sua cama, e que a garota não está com você.
"Cara, eu sonhei tudo isso? Não pode ser", pergunta para si mesmo.
"Claro. Você não volta de ônibus pra casa, lembra?", responde uma voz dentro de sua cabeça. "Bom dia".
E o pior de tudo é que nem deu tempo de você se desculpar.
Mas assim que você chega ao ponto esquece o horário porque reconhece uma pessoa. Embora estivesse com o cabelo muito mais curto do que o normal e tingido de laranja, lá estava aquela sua ex-namorada com quem você terminou tempos atrás e nunca mais viu desde então. E, pelo menos nos últimos meses, teve vontade de encontrá-la para se explicar e pedir desculpas por tudo. E bem onde você menos esperava, lá estava ela.
Só que a garota não estava sozinha. Estava com muitas pessoas ao seu redor. Logo você reconheceu que eram pessoas da sala dela na faculdade. Aliás, ela não sabia que você sabia que ela fazia faculdade: já haviam se separado quando ela fora aprovada no vestibular, mas mesmo assim você fez questão de acordar cedinho quando divulgaram a primeira lista da Usp e viu que o nome dela estava lá.
Você vai falar com ela, que vira a cara e responde friamente um oi. Ela estava acompanhada com o novo namorado. Você dá os parabéns ao cara e aperta a sua mão. E nesse exato momento o ônibus dele chega e ele vai embora: restam apenas você e a sua ex.
Ela começa a descer a rua com os amigos de faculdade e você vai junto. Surpreendentemente, vocês começam a conversar. Só que ela pára no meio do caminho para falar com uma outra amiga, e você logo escuta ela dizer “acabei de terminar com o Adolfo, ele era um chato. Não tava mais agüentando”. Você finge não dar atenção, e continua andando, mas diminui o ritmo das passadas e permite que ela logo te alcance. É quando você percebe que não está mais na Brigadeiro Luís Antônio, mas naquela rua perto da casa dela, na Saúde.
Os amigos dela decidem fazer uma roda para conversar melhor. Você senta em um extremo e ela, no outro. Separados pro um diâmetro, ela te chama para sentar perto dela. Você senta na frente dela, ela passa o braço em volta do seu pescoço e você sente uma agradável sensação de conforto. Você olha para o rosto dela e percebe que o cabelo dela está lindo como era antes, longo e em um tom ruivo que reluzia ao sol. Quando percebem, estão sozinhos no lugar em que costumavam passar as tardes trocando juras de amor. Então você começa:
“Quanto tempo, né? Então... f-faz tempo que eu q-queria t-te-te falar isso. Nossa, estive ensaiando isso durante tanto tempo, mas agora não consigo começar a falar. É difícil, mas... mas eu vou tentar. S-Sabe, acho que não estava preparado para um relacionamento sério com você naquela época. É. Andei pensando nisso faz um tempo, mas só agora tudo isso pareceu ter sentido. Queria muito te falar isso. Olha, me desc...”
“Não fala nada”, ela pede, colocando um dedo em seu lábio e aproximando o rosto dela ao seu. Ela fecha os olhos, você também.
E aí passa um carro na rua e dispara uma buzina longa e estridente. Você abre os olhos e percebe que não há carro, não há rua perto da casa dela e muito menos garota. A única coisa que você percebe é que está em seu quarto, deitado em sua cama, e que a garota não está com você.
"Cara, eu sonhei tudo isso? Não pode ser", pergunta para si mesmo.
"Claro. Você não volta de ônibus pra casa, lembra?", responde uma voz dentro de sua cabeça. "Bom dia".
E o pior de tudo é que nem deu tempo de você se desculpar.
Assinar:
Postagens (Atom)