Um dia desses eu cheguei em casa um pouco estressado. Nada de lá muito relevante, mas assim que parei meu carro na vaga na garagem, não tive muita vontade para sair de lá. Desliguei o motor, aumentei o som e me deixei ficar jogado no banco, apenas olhando o nada e pensando na vida.
Fiquei um tempo assim, quando então comecei a brincar de apertar os pedais do freio e da embreagem. A colocar as marchas, a brincar de dirigir com o carro parado na vaga. Como eu gostava de fazer com o carro da minha mãe – ironicamente, um bem parecido ao meu – quando eu tinha uns cinco anos.
Passei lá um tempinho, ouvindo a música em um volume aceitável e brincando de dirigir. Até que girei a chave, joguei uma água no vidro e ativei o limpador de pára-brisa. Fiz isso mais uma vez, e mais uma, e mais uma... Eu me divirto com o limpador de pára-brisa, para falar a verdade. Tem uns 15 anos que eu sou assim.
Em uma das vezes em que girei o contato para limpar o pára-brisa, acendi o farol e vi à minha frente um dos jardinzinhos do meu condomínio. Meus amigos e eu costumávamos correr por ali nos idos de 1997, 98, 99... quando brincávamos de esconde-esconde ou polícia-e-ladrão. Era divertido, eu tinha uns esconderijos bem legais.
Naquela época ninguém podia subir muito tarde. Todos éramos muito, muito amigos. Todos jogávamos futebol, depois conversávamos sobre a partida, depois brincávamos de esconde-esconde, conversávamos sobre novos esconderijos ou sobre aquela vez em que não-sei-quem salvou o mundo e fez tal pessoa contar mais uma vez.
Hoje ninguém mais corre por aquele jardinzinho, nem mesmo a molecada pequena. O lugar está todo bonito, com a grama bem-aparada, algumas plantas e tal. Na nossa época, no máximo tinha grama e uns galhos jogados no chão. Era divertido, a gente sempre corria por ali.
Na nossa época... na nossa época muita coisa era diferente por aqui. O parquinho não tinha grama, era todo de areia. A gente se sujava à beça, levava bronca porque estragava as meias... mas sempre valia a pena. Desbravar o esgoto (um canal que leva a água da chuva até um terreno baldio no final do condomínio) era sempre uma aventura. Legal também era quando aparecia um cachorro vira-lata por aqui, todo mundo adotava o mascote e se divertia com ele. Faz vários anos que eu não vejo um cachorro se perder por aqui.
Hoje em dia eu não vejo muita coisa por aqui, mesmo. Mal vejo meus amigos. Vários já se mudaram para outros prédios. Tem um que foi para Campinas; outro, para Botucatu... muitos outros que estão fazendo faculdade aqui em São Paulo e ainda moram no nosso condomínio, mas têm horários diferentes do meu. Quanto muito a gente se encontra para tomar uma cerveja na sexta à noite. Era mais legal quando a gente fazia vaquinha e comprava esfiha para comer na pracinha.
Muita coisa mudou. Sinto falta de viver tudo aquilo de novo, uma época em que não tínhamos preocupação alguma. E... bom, eu estava ali, jogado no banco do meu carro esperando o mundo acabar em barrancos.
Por sorte, o mundo não acabou. E ainda virou alguns dias até chegar hoje. É 30 de setembro, 2008 e tal. Faz 16 anos, eu estava em um quarto de hospital com minha avó, meu avô e meu tio, sentado na beira da cama da minha mãe esperando para conhecer meu irmão. Aí chegou aquela coisinha mirradinha, de cabelos loirinhos e tal no colo da enfermeira. Chorão, banguela. Segurei no colo. Aquela era... meu... irmão.
Minha mãe se esbalda de rir quando conta a primeira coisa que eu disse ao ser apresentado ao meu irmão. Como não vi os dentes dele, comentei na hora que deveríamos levá-lo urgentemente ao Doutor Acley (que era o dentista da minha mãe na época) dar um jeito no meu irmão. Eu lembro vagamente desse momento, para ser sincero.
Do último dia de setembro de 1992 até 2008, puxa, como o tempo passou. Meu condomínio mudou, os jardins daqui mudaram, a pintura dos prédios também. Meus amigos mudaram e se mudaram também.
A única coisa que não mudou muito é aquela coisa de que, sempre que eu olho para o meu irmão, vejo uma coisinha mirradinha de cabelos loiros (mesmo ele já estando quase do meu tamanho). Ele sempre vai ser meio chorão, aos meus olhos. E tarraqueta, azedo, manhoso. Ainda mais quando ele está no banco da frente do meu carro quando estamos indo à dentista.
Hoje vou ver meu irmão com 16 anos. Quando entrar em casa, me desvencilhar do cachorro que fará festa ao me ver e eu olhar meu irmão, acho que vou ver novamente aquela coisinha tarraqueta banguela. Acho que essa sensação não vai mudar.
Ainda bem.
terça-feira, 30 de setembro de 2008
segunda-feira, 29 de setembro de 2008
Resposta ao internauta
Faz uns dias, o Feedburner me mostrou que uma pessoa qualquer acessou o Cavaleiro com Solitária em busca de informações sobre como chamar uma garota para sair. Ele digitou “como chama uma garota pra sai” e voilá, caiu aqui de pára-quedas, já que o Google aponta meu blog como a quarta opção de busca para uma pergunta esdrúxula como esta.
Seja lá como for, não é raro que buscas assim resultem em acessos estranhos neste espaço. Toda semana tem uma ou outra pessoa que aparece por aqui a fim de receber a fórmula para alguma das coisas mais difíceis desse mundo. Se eu soubesse como chamar exatamente uma garota para sair, não acharia que sou um cara tão mal-resolvido como às vezes penso. Mas... vou tentar responder à sua dúvida, caro garoto de 12 anos que não sabe algo que eu também não sei.
Chamar uma garota para sair requer uma boa conversa, uma boa desculpa e, acima de tudo, muita paciência. Nunca diga exatamente que você a está chamando para sair, porque ela simplesmente lhe dará alguma desculpa furada e você passará o sabadão à noite vendo Zorra Total. Tente ser misterioso, se conseguir. Mas eu sei que não rola.
Para falar a verdade, chamar uma garota para sair nunca é uma boa solução para conseguir sair com a tal garota. Elas sempre têm um arsenal incrível de coisas para fazer no exato momento em que você a convida para fazer algo. Eu, por exemplo, já recebi respostas do tipo “vou ao enterro da minha tia” ou “a minha avó acabou de quebrar a perna e eu tenho que ir para lá”. E você, panaca como eu, continua insistindo.
Mas calma, o mundo não vai acabar apenas porque é praticamente impossível chamar uma garota para sair. Há uma solução, e apenas uma, para você conseguir sair com quem você realmente quer: não chame. É sério. A melhor coisa a fazer é a egípcia e, simplesmente, esperar ela chamar. O máximo que pode acontecer é ela nunca fazer isso e vocês nunca mais se falarem, mas é um risco que se corre.
Digo isso por experiência própria. Parando para pensar, acho que nunca consegui trocar um beijo com alguma garota que eu chamei pra sair (ok, pode achar que o titio aqui é um fracasso com o sexo frágil). Algumas até toparam sair, mas... não, nunca rola.
O melhor mesmo é esperar um convite. Ele sempre vem, basta saber aguardar e dar as brechas certas para que isso aconteça (gostar de café é uma boa se você já tiver mais de 18 anos... mas como você deve ter no máximo 15, contente-se com um milk-shake de Ovomaltine do Bob’s).
É estranho, mas é a mais pura verdade. Esse mundão doido em que a gente vive está com os valores completamente invertidos. Agora, são as garotas que têm que nos chamar para sair. É a vida, mas... ah, e não é que sempre vale a pena esperar?
Seja lá como for, não é raro que buscas assim resultem em acessos estranhos neste espaço. Toda semana tem uma ou outra pessoa que aparece por aqui a fim de receber a fórmula para alguma das coisas mais difíceis desse mundo. Se eu soubesse como chamar exatamente uma garota para sair, não acharia que sou um cara tão mal-resolvido como às vezes penso. Mas... vou tentar responder à sua dúvida, caro garoto de 12 anos que não sabe algo que eu também não sei.
Chamar uma garota para sair requer uma boa conversa, uma boa desculpa e, acima de tudo, muita paciência. Nunca diga exatamente que você a está chamando para sair, porque ela simplesmente lhe dará alguma desculpa furada e você passará o sabadão à noite vendo Zorra Total. Tente ser misterioso, se conseguir. Mas eu sei que não rola.
Para falar a verdade, chamar uma garota para sair nunca é uma boa solução para conseguir sair com a tal garota. Elas sempre têm um arsenal incrível de coisas para fazer no exato momento em que você a convida para fazer algo. Eu, por exemplo, já recebi respostas do tipo “vou ao enterro da minha tia” ou “a minha avó acabou de quebrar a perna e eu tenho que ir para lá”. E você, panaca como eu, continua insistindo.
Mas calma, o mundo não vai acabar apenas porque é praticamente impossível chamar uma garota para sair. Há uma solução, e apenas uma, para você conseguir sair com quem você realmente quer: não chame. É sério. A melhor coisa a fazer é a egípcia e, simplesmente, esperar ela chamar. O máximo que pode acontecer é ela nunca fazer isso e vocês nunca mais se falarem, mas é um risco que se corre.
Digo isso por experiência própria. Parando para pensar, acho que nunca consegui trocar um beijo com alguma garota que eu chamei pra sair (ok, pode achar que o titio aqui é um fracasso com o sexo frágil). Algumas até toparam sair, mas... não, nunca rola.
O melhor mesmo é esperar um convite. Ele sempre vem, basta saber aguardar e dar as brechas certas para que isso aconteça (gostar de café é uma boa se você já tiver mais de 18 anos... mas como você deve ter no máximo 15, contente-se com um milk-shake de Ovomaltine do Bob’s).
É estranho, mas é a mais pura verdade. Esse mundão doido em que a gente vive está com os valores completamente invertidos. Agora, são as garotas que têm que nos chamar para sair. É a vida, mas... ah, e não é que sempre vale a pena esperar?
domingo, 28 de setembro de 2008
Sumiço
E se um dia eu desaparecesse da sua vida?
Assim... sumisse. Pedisse para alguém te falar que me mudei para o México, parasse de atender seus telefonemas, parasse de freqüentar os mesmos lugares que você... simplesmente fingisse que perdi também teu endereço, teu número de telefone, todas as cartas que você me mandou... e fingisse para mim mesmo que você nunca existiu?
Todos os dias eu ando pela rua e me perguntou se já está na hora de sumir não só da sua vida, mas da de várias pessoas. Eu gosto de bancar o desaparecido de vez em quando, ver se as pessoas realmente vão me procurar depois disso.
Raras são aquelas que vêm atrás de mim, pra falar a verdade. Antes eu me emburrava um pouquinho, depois com o tempo eu passei a perceber que a maioria das pessoas é apenas composta por figurantes que têm falas predefinidas e logo depois voltam para o limbo da coxia.
E você? Será que você viria atrás de mim? Iria se lembrar de mim se visse alguma coisa na rua, se ouvisse alguma música que você sabe que eu ouvia... ou se alguém te dissesse alguma coisa que eu dizia? Não sei, fico em dúvida. Eu realmente lembraria. Eu sempre lembro muita coisa, e quase todas bem inúteis. Às vezes, tenho a sensação de que a minha vida é, na verdade, um apanhado de lembranças.
Eu não sei, mas acho que você não viria me procurar, não faria um esforço maior e nem bolaria um jeito de me surpreender – tipo fazer vigília na frente do meu trabalho, ou na porta da minha casa. Melhor não, mesmo. Eu te acharia meio louca, mesmo.
E sabe o que é pior? Eu sumiria, você não me procuraria... mas eu te procuraria. Eu sempre faço isso. Por mais que eu prometa para mim mesmo que nunca mais vá atrás de uma pessoa de cuja vida eu decidi sumir, eu sempre acabo mandando um e-mail perguntando as novidades.
Humpf.
Assim... sumisse. Pedisse para alguém te falar que me mudei para o México, parasse de atender seus telefonemas, parasse de freqüentar os mesmos lugares que você... simplesmente fingisse que perdi também teu endereço, teu número de telefone, todas as cartas que você me mandou... e fingisse para mim mesmo que você nunca existiu?
Todos os dias eu ando pela rua e me perguntou se já está na hora de sumir não só da sua vida, mas da de várias pessoas. Eu gosto de bancar o desaparecido de vez em quando, ver se as pessoas realmente vão me procurar depois disso.
Raras são aquelas que vêm atrás de mim, pra falar a verdade. Antes eu me emburrava um pouquinho, depois com o tempo eu passei a perceber que a maioria das pessoas é apenas composta por figurantes que têm falas predefinidas e logo depois voltam para o limbo da coxia.
E você? Será que você viria atrás de mim? Iria se lembrar de mim se visse alguma coisa na rua, se ouvisse alguma música que você sabe que eu ouvia... ou se alguém te dissesse alguma coisa que eu dizia? Não sei, fico em dúvida. Eu realmente lembraria. Eu sempre lembro muita coisa, e quase todas bem inúteis. Às vezes, tenho a sensação de que a minha vida é, na verdade, um apanhado de lembranças.
Eu não sei, mas acho que você não viria me procurar, não faria um esforço maior e nem bolaria um jeito de me surpreender – tipo fazer vigília na frente do meu trabalho, ou na porta da minha casa. Melhor não, mesmo. Eu te acharia meio louca, mesmo.
E sabe o que é pior? Eu sumiria, você não me procuraria... mas eu te procuraria. Eu sempre faço isso. Por mais que eu prometa para mim mesmo que nunca mais vá atrás de uma pessoa de cuja vida eu decidi sumir, eu sempre acabo mandando um e-mail perguntando as novidades.
Humpf.
sábado, 27 de setembro de 2008
E-mail não enviado, um tempo atrás
Hey,
Sabe? Queria te contar uma coisa. Ou várias. Ou... sei lá, talvez sejam várias coisas resumidas em uma, não sei. E antes que você ache que eu enlouqueci de vez, deixa eu começar a explicar.
Ouvi aquela sua música pela primeira vez... ah, eu lembro exatamente o dia em que ouvi aquela sua música pela primeira vez. Eu estava lá, um pouco desconfortável e espremido em uma cama que não era a minha. Acordei com você se levantando cuidadosamente ao meu lado, passando por cima de mim e indo tomar banho.
Enquanto o chuveiro fazia barulho, eu fiquei lá deitado apoiando minha nuca sobre o travesseiro e sobre as palmas das mãos e pensando como era um homem de sorte. Depois você entrou no quarto, ligeiramente iluminado pelo sol que também se comprimia pelos buraquinhos da veneziana, e estava enrolada em uma toalha verde. Achou que eu estava dormindo, tirou a toalha, colocou um vestido (e como eu gostava daquele vestido!), calçou os chinelos e foi para a sala.
Saí do quarto não muito tempo depois. Também tomei um banho e fui para a cozinha, onde tomamos café-com-leite e comemos pizza amanhecida. Você, então, colocou o mini system com um CD que começou com o vocal calmo do Paul e um violãozinho. “Essa música diz muito de mim, sabia?”, você me disse. E cantarolou toda a música enquanto me olhava tomar café-com-leite e comer aquela pizza horrível de pêssego.
Aquela música ficou na minha cabeça por um bom tempo. Alguns meses. Todos os dias ouvia aquela música várias vezes. Geralmente quando eu devorava vários cigarros lamentando cada acorde da música e esperava o tempo de entrar no trabalho. Chegou um dia que eu decidi odiar aquela música, e simplesmente parei de ouvir.
Um tempo passou, até que um dia eu estava no meu carro indo para o cinema com uma outra garota. Estava ouvindo Ohio, do Bowling for Soup (aquela que começa tipo She said she needed a break, a little time to think. But then she went to Cleveland, with some guy named Leelan that she met at the bank). Logo depois começou a tocar aquela música, que me pegou meio desprevenido (não lembrava que tinha gravado o som naquele CD).
A garota ao meu lado disse que a música era bonitinha, perguntou de quem era. “É do Paul”, eu falei. “Paul? Que Paul?”. “Paul... McCartney”, expliquei. Ela fez uma cara de quem já tinha ouvido falar aquele nome (claro, poxa!). Tentei clarear a mente dela “Sabe? John, Paul, George, Ringo...”, elucidei. “Hum... de que banda eles são?”, ela perguntou. “Beatles!?”, respondi meio sarcástico.
Ela, então, disse algo que realmente me incomodou. “Sabia que eu nunca ouvi Beatles?”. Olhei incrédulo, soltei uma exclamação. “Como assim você nunca ouviu Beatles?”, indaguei. “Ah, nunca... nunca ouvi nenhuma música deles, acredita?”. Aquilo me chocou, de verdade. Coincidentemente ou não, aquele foi o último dia em que fomos ao cinema.
Mais um tempo se passou e, um dia desses, acordei com uma enorme vontade de ouvir essa música. Tomei banho, fui para o trabalho feliz da vida ouvindo aquela música, vivendo um outro dia. E não me lembrei de você um instante sequer.
Não lembrava mais que aquela era a sua música. Acho que a transformei na minha música.
Sabe? Queria te contar uma coisa. Ou várias. Ou... sei lá, talvez sejam várias coisas resumidas em uma, não sei. E antes que você ache que eu enlouqueci de vez, deixa eu começar a explicar.
Ouvi aquela sua música pela primeira vez... ah, eu lembro exatamente o dia em que ouvi aquela sua música pela primeira vez. Eu estava lá, um pouco desconfortável e espremido em uma cama que não era a minha. Acordei com você se levantando cuidadosamente ao meu lado, passando por cima de mim e indo tomar banho.
Enquanto o chuveiro fazia barulho, eu fiquei lá deitado apoiando minha nuca sobre o travesseiro e sobre as palmas das mãos e pensando como era um homem de sorte. Depois você entrou no quarto, ligeiramente iluminado pelo sol que também se comprimia pelos buraquinhos da veneziana, e estava enrolada em uma toalha verde. Achou que eu estava dormindo, tirou a toalha, colocou um vestido (e como eu gostava daquele vestido!), calçou os chinelos e foi para a sala.
Saí do quarto não muito tempo depois. Também tomei um banho e fui para a cozinha, onde tomamos café-com-leite e comemos pizza amanhecida. Você, então, colocou o mini system com um CD que começou com o vocal calmo do Paul e um violãozinho. “Essa música diz muito de mim, sabia?”, você me disse. E cantarolou toda a música enquanto me olhava tomar café-com-leite e comer aquela pizza horrível de pêssego.
Aquela música ficou na minha cabeça por um bom tempo. Alguns meses. Todos os dias ouvia aquela música várias vezes. Geralmente quando eu devorava vários cigarros lamentando cada acorde da música e esperava o tempo de entrar no trabalho. Chegou um dia que eu decidi odiar aquela música, e simplesmente parei de ouvir.
Um tempo passou, até que um dia eu estava no meu carro indo para o cinema com uma outra garota. Estava ouvindo Ohio, do Bowling for Soup (aquela que começa tipo She said she needed a break, a little time to think. But then she went to Cleveland, with some guy named Leelan that she met at the bank). Logo depois começou a tocar aquela música, que me pegou meio desprevenido (não lembrava que tinha gravado o som naquele CD).
A garota ao meu lado disse que a música era bonitinha, perguntou de quem era. “É do Paul”, eu falei. “Paul? Que Paul?”. “Paul... McCartney”, expliquei. Ela fez uma cara de quem já tinha ouvido falar aquele nome (claro, poxa!). Tentei clarear a mente dela “Sabe? John, Paul, George, Ringo...”, elucidei. “Hum... de que banda eles são?”, ela perguntou. “Beatles!?”, respondi meio sarcástico.
Ela, então, disse algo que realmente me incomodou. “Sabia que eu nunca ouvi Beatles?”. Olhei incrédulo, soltei uma exclamação. “Como assim você nunca ouviu Beatles?”, indaguei. “Ah, nunca... nunca ouvi nenhuma música deles, acredita?”. Aquilo me chocou, de verdade. Coincidentemente ou não, aquele foi o último dia em que fomos ao cinema.
Mais um tempo se passou e, um dia desses, acordei com uma enorme vontade de ouvir essa música. Tomei banho, fui para o trabalho feliz da vida ouvindo aquela música, vivendo um outro dia. E não me lembrei de você um instante sequer.
Não lembrava mais que aquela era a sua música. Acho que a transformei na minha música.
sexta-feira, 26 de setembro de 2008
Orgulho de ser pé-rapado
“Fanta lalanja, né?”, perguntou a dona velhinha do restaurante.
“Sim. Obrigado”, confirmou o cliente, que foi para sua mesa.
“Ah, você eu sei. Você é o djornarista, né?”, comentou a dona velhinha do self-service chinês na Santos com a Brigadeiro, agora para o cara estranho se preparando para pagar a conta do almoço. Respondi que sim, já dando minha filipeta de papel e sacando o VR do bolso.
“Você trabalha muito, né?”, ela puxou assunto. Respondi afirmativamente, apesar da minha jornada de cinco horas diárias. “Sim, eu sei. Djornarista trabalha muito. Já vi você aqui de final de semana, você não descansa, né?”. Disse a ela que folgava de vez em quando, não ia bancar o chinês mão-de-obra escrava para a tia chinesa.
“E... você escureve assim, também?”, perguntou ela, rabiscando um papel com a caneta. Falei que sim, mas que também escrevia assim (e fiz gestos de pessoas digitando). “Ah, e para onde você escureve? É... djornal, da banca?”. “Não, não. É para a internet, é ainda pior”, brinquei. Ela fez cara feia, compassiva com o meu ritmo alucinado de trabalho.
Digitei minha senha nada secreta do VR, agradeci a ela por mais um almoço delícia e barato do self-service chinês, coloquei a mochila nas costas e saí. “Ei, djornarista. Palabéns, viu? Sua porofissão é muito bonita, admiro muito quem é djornarista”, comentou.
Tive não faz muito tempo uma ferrenha discussão sobre o que me levou a fazer jornalismo e não me importar em ser um pé-rapado nos próximos 40 anos (muito embora muitos imbecis do meu colégio façam administração e tenham potencial de ganhar 10 vezes mais do que eu). Um dos meus argumentos era esse, o falso glamour que a profissão desperta, sobretudo nas pessoas mais velhas.
Saí do restaurante um pouco orgulhosinho de mim. E vim trabalhar mais animado.
“Sim. Obrigado”, confirmou o cliente, que foi para sua mesa.
“Ah, você eu sei. Você é o djornarista, né?”, comentou a dona velhinha do self-service chinês na Santos com a Brigadeiro, agora para o cara estranho se preparando para pagar a conta do almoço. Respondi que sim, já dando minha filipeta de papel e sacando o VR do bolso.
“Você trabalha muito, né?”, ela puxou assunto. Respondi afirmativamente, apesar da minha jornada de cinco horas diárias. “Sim, eu sei. Djornarista trabalha muito. Já vi você aqui de final de semana, você não descansa, né?”. Disse a ela que folgava de vez em quando, não ia bancar o chinês mão-de-obra escrava para a tia chinesa.
“E... você escureve assim, também?”, perguntou ela, rabiscando um papel com a caneta. Falei que sim, mas que também escrevia assim (e fiz gestos de pessoas digitando). “Ah, e para onde você escureve? É... djornal, da banca?”. “Não, não. É para a internet, é ainda pior”, brinquei. Ela fez cara feia, compassiva com o meu ritmo alucinado de trabalho.
Digitei minha senha nada secreta do VR, agradeci a ela por mais um almoço delícia e barato do self-service chinês, coloquei a mochila nas costas e saí. “Ei, djornarista. Palabéns, viu? Sua porofissão é muito bonita, admiro muito quem é djornarista”, comentou.
Tive não faz muito tempo uma ferrenha discussão sobre o que me levou a fazer jornalismo e não me importar em ser um pé-rapado nos próximos 40 anos (muito embora muitos imbecis do meu colégio façam administração e tenham potencial de ganhar 10 vezes mais do que eu). Um dos meus argumentos era esse, o falso glamour que a profissão desperta, sobretudo nas pessoas mais velhas.
Saí do restaurante um pouco orgulhosinho de mim. E vim trabalhar mais animado.
quinta-feira, 25 de setembro de 2008
Perdendo a viagem
Rodoviária aqui perto de casa, um dia desses. Domingo, já à noite. Um cara feliz da vida se preparava para embarcar no ônibus que o levaria de volta para casa.
Esperou para ser o último da fila. Enquanto todos os outros passageiros entravam no ônibus, despedia-se da garota que o acompanhava. Uma bela garota. Linda, eu diria.
Até que chegou a sua vez de entrar. Deu o último beijo do final de semana, pisou no primeiro degrau... desceu correndo, deu mais um beijo e voltou ainda mais feliz para o embarque.
Entregou o bilhete da passagem para o motorista, que não rasgou o tíquete. Olhou feio para o último passageiro, que por sua vez não entendeu o que estava acontecendo.
“Qual o teu problema, cara?”, perguntou o motorista.
“Como?”, indagou surpreso o cara.
“Você é trouxa ou é viado?”, emendou o motorista, elevando a voz.
“Qual o teu problema, cara?”, provocou o passageiro.
“Me diz, que porra é essa no teu bilhete?”, prosseguiu, bem nervoso, o motorista.
“O quê? Tem aí meu nome, meu telefone, meu RG...”, enumerou.
“Aqui, ô babaca! Nas observações, diz ‘te amo, gostosinho’. Que merda é essa?”.
“Ah, aqui? Ah! Hahahahahaha! Não fui eu que escrevi, e...”
“Não vou te embarcar com isso. Tchau”.
O motorista entrou no ônibus, fechou as portas e deu a partida, nervoso. O quase-passageiro, com a mala nas mãos, olhou para trás. Viu a garota linda rindo, gargalhando, sentada em um banco.
“Foi você?”, ele perguntou.
“Hahaha, sim. Desculpa”, ela disse em meio às risadas.
“Mas... e agora, como eu faço? Era o último ônibus pra minha cidade, e...”.
“Relaxa, querido. Dorme em casa mais essa noite, amanhã eu prometo que deixo você ir”.
Cara de sorte.
Esperou para ser o último da fila. Enquanto todos os outros passageiros entravam no ônibus, despedia-se da garota que o acompanhava. Uma bela garota. Linda, eu diria.
Até que chegou a sua vez de entrar. Deu o último beijo do final de semana, pisou no primeiro degrau... desceu correndo, deu mais um beijo e voltou ainda mais feliz para o embarque.
Entregou o bilhete da passagem para o motorista, que não rasgou o tíquete. Olhou feio para o último passageiro, que por sua vez não entendeu o que estava acontecendo.
“Qual o teu problema, cara?”, perguntou o motorista.
“Como?”, indagou surpreso o cara.
“Você é trouxa ou é viado?”, emendou o motorista, elevando a voz.
“Qual o teu problema, cara?”, provocou o passageiro.
“Me diz, que porra é essa no teu bilhete?”, prosseguiu, bem nervoso, o motorista.
“O quê? Tem aí meu nome, meu telefone, meu RG...”, enumerou.
“Aqui, ô babaca! Nas observações, diz ‘te amo, gostosinho’. Que merda é essa?”.
“Ah, aqui? Ah! Hahahahahaha! Não fui eu que escrevi, e...”
“Não vou te embarcar com isso. Tchau”.
O motorista entrou no ônibus, fechou as portas e deu a partida, nervoso. O quase-passageiro, com a mala nas mãos, olhou para trás. Viu a garota linda rindo, gargalhando, sentada em um banco.
“Foi você?”, ele perguntou.
“Hahaha, sim. Desculpa”, ela disse em meio às risadas.
“Mas... e agora, como eu faço? Era o último ônibus pra minha cidade, e...”.
“Relaxa, querido. Dorme em casa mais essa noite, amanhã eu prometo que deixo você ir”.
Cara de sorte.
terça-feira, 23 de setembro de 2008
O mundo é dos goiabas
Ele era feio.
Sei que não sou lá grande coisa, mas... não, ele era bem, bem feio. Em tudo, inclusive no jeito de entrar no metrô. Reparei nele quando estava sentado em um banco virado para a porta, e ele pisou no vagão todo desengonçado. Não demorei para reconhecê-lo. E foi uma péssima apresentação.
Para falar a verdade, já o tinha visto umas vezes antes em umas fotos no Orkut. Nem mesmo com auxílio de luz, photoshop ou coisas do gênero ele se salvava nas imagens. Um amigo meu até comentou que ele tinha uma cara igualzinha à de alguém que teve o rosto queimado, apagado com pauladas e umedecido com limão. Uma tristeza.
O feioso também me olhou, e deve ter me reconhecido. Também já tinha olhado meu Orkut, e provavelmente tinha visto as minhas fotos. Para falar a verdade, ele era o novo casinho de uma garota que não muito tempo atrás tinha sido meu casinho. Ficamos naquele clima de quase guerra-fria por um tempo, até que chegou a estação Ana Rosa e eu desci para fazer a baldeação (além de panaca, morava longe).
Antes, claro, dei uma olhada para ele mais uma vez e constatar: puta que pariu, cara feio. Tinha cara de mulherzinha (e é sério), mas com uma barba de cachorro pelado e molhado (e barba é um dos poucos assuntos dos quais eu posso falar com orgulho). Usava aparelho fixo, e os dentes eram bem amarelados pelo cigarro.
O cabelo dele não merece designações justamente porque ele era semi-calvo (e, por maioria de votos, ultimamente passei a ver que meu cabelo não é tão caso perdido assim – ainda que eu esteja quase parecendo uma versão latina do Johnny Ramone quando saio do banho).
Cheguei não muito tempo depois no trabalho. Mesmo depois de andar um tempo pela Paulista, almoçar e tal, não consegui deixar o caso passar batido. E até comentei o indesejado encontro com o pessoal da redação, no corredor quase que inteiro de estagiários da GE.Net.
O Pedroso, um dos estagiários, rapidamente se virou e respondeu: “Relaxa, cara. O mundo é dos goiabas, você nunca percebeu?”. “Como assim?”. “Pode notar. Todos os caras que saem com uma garota depois de você não são extremamente esquisitos?”. “Hum, sim. Falei sobre com alguém esses dias”. “Então. Enquanto você, todo pomposo, tá aí... o goiaba tá lá com a tua ex”, finalizou.
Malditos goiabas.
Sei que não sou lá grande coisa, mas... não, ele era bem, bem feio. Em tudo, inclusive no jeito de entrar no metrô. Reparei nele quando estava sentado em um banco virado para a porta, e ele pisou no vagão todo desengonçado. Não demorei para reconhecê-lo. E foi uma péssima apresentação.
Para falar a verdade, já o tinha visto umas vezes antes em umas fotos no Orkut. Nem mesmo com auxílio de luz, photoshop ou coisas do gênero ele se salvava nas imagens. Um amigo meu até comentou que ele tinha uma cara igualzinha à de alguém que teve o rosto queimado, apagado com pauladas e umedecido com limão. Uma tristeza.
O feioso também me olhou, e deve ter me reconhecido. Também já tinha olhado meu Orkut, e provavelmente tinha visto as minhas fotos. Para falar a verdade, ele era o novo casinho de uma garota que não muito tempo atrás tinha sido meu casinho. Ficamos naquele clima de quase guerra-fria por um tempo, até que chegou a estação Ana Rosa e eu desci para fazer a baldeação (além de panaca, morava longe).
Antes, claro, dei uma olhada para ele mais uma vez e constatar: puta que pariu, cara feio. Tinha cara de mulherzinha (e é sério), mas com uma barba de cachorro pelado e molhado (e barba é um dos poucos assuntos dos quais eu posso falar com orgulho). Usava aparelho fixo, e os dentes eram bem amarelados pelo cigarro.
O cabelo dele não merece designações justamente porque ele era semi-calvo (e, por maioria de votos, ultimamente passei a ver que meu cabelo não é tão caso perdido assim – ainda que eu esteja quase parecendo uma versão latina do Johnny Ramone quando saio do banho).
Cheguei não muito tempo depois no trabalho. Mesmo depois de andar um tempo pela Paulista, almoçar e tal, não consegui deixar o caso passar batido. E até comentei o indesejado encontro com o pessoal da redação, no corredor quase que inteiro de estagiários da GE.Net.
O Pedroso, um dos estagiários, rapidamente se virou e respondeu: “Relaxa, cara. O mundo é dos goiabas, você nunca percebeu?”. “Como assim?”. “Pode notar. Todos os caras que saem com uma garota depois de você não são extremamente esquisitos?”. “Hum, sim. Falei sobre com alguém esses dias”. “Então. Enquanto você, todo pomposo, tá aí... o goiaba tá lá com a tua ex”, finalizou.
Malditos goiabas.
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