segunda-feira, 16 de julho de 2007

Ídolo de um país carente

- Filho. Filho, tô indo na padaria, tá?
- Ahn? Ah... tá, vai lá, mãe.
- Você tá cansado, dorme mais um pouco.
- Uhum...

Antes de dormir um pouco mais, olhei no relógio. Eram 16 horas e alguns minutos. Rodei entre os três canais do Sportv e ia começar a luta do Diogo Silva, na final do taekwondo no Pan. Decidi ver e dormir mais tarde. Talvez à noite.

Achei bacana o cara ganhar, faturar o primeiro ouro do país na competição e blábláblá. Também achei legal pra caramba ouvir o hino pela primeira vez, ver a medalha dourada pintando na tela da tevê e, claro, foi emocionante ver o cara chorando quando começou a tocar o hino.

Depois, as entrevistas. E todos os jornalistas que estavam no Riocentro se matavam pra ouvir as primeiras palavras do grande campeão. Do primeiro campeão do Brasil no Rio-2007, do primeiro taekwondista verde e amarelo campeão pan-americano do século e essas coisas. Mas ele não falou nada de mais.

Hoje, porém, acordei cedo. Cheguei na redação, liguei a tevê e ouvi, ao longo de cinco horas, umas mil entrevistas iguais com o Diogo. A história dele foi repetida um milhão de vezes, a luta decisiva – com a narração do chato do Lucas Pereira – foi reprisada dois milhões. Nada novo.

Agora à noite, consegui fazer com que a televisão daqui de casa voltasse a ter sinal. Sintonizei a Record e estava passando uma especial sobre a vida do Diogo. Foram à academia onde ele começou a treinar, entrevistaram alguns amigos (que logicamente estavam emocionados)... Minutos depois, o Jornal Nacional mostrava o primeiro passeio do campeão fora da Vila Pan-americana. A festa que a galera fazia na praia, as fotos que pediam para tirar do cara e tudo mais.

Por incrível que pareça, a matéria do Diogo durou mais tempo do que a repercussão do título da seleção na Copa América. Mais que o futebol! Tamanha a importância do primeiro campeão do Brasil no Pan do Brasil. Tá certo que convinha não deixar tanto tempo no ar o Dunga, que era criticado pelo Galvão Bueno e por toda a trupe de comentaristas da Globosat, como o grande vencedor. Era mais interessante ver alguém desconhecido, sugar dele tudo o que ele tinha para falar.

Mas não é aí onde eu quero chegar. O fato de o Diogo estar no ar durante tanto tempo tem a ver com o fato de o povo brasileiro não ter motivos para sorrir todos os dias. O esporte, por mais precário que esteja, é um dos motivos de identificação da população. Já havia pensado nisso há alguns meses, quando o Felipe Massa ganhou o GP do Brasil no final do ano passado.

Ver um atleta brasileiro no degrau mais alto do pódio é bacana. Todo mundo se identifica pra caramba com isso. Um cara próximo da gente, que nasceu pobre, via o Casseta & Planeta às terças-feiras, via as videocassetadas no Domingão do Faustão e sentia o trauma da segunda-feira com a musiquinha do Fantástico... a gente fica com a sensação de que pelo menos um teco daquele ouro é nosso.

E acho que até todo mundo tem o direito de pensar isso. Menos o Faustão. Enquanto o Diogo ganhava o ouro e alguns brasileiros vibravam, ele passava o divertidíssimo Circo do Faustão. Ninguém acreditava que o negão ia ganhar, né? Afinal, taekwondo... Pois é, deu no que deu.

O problema é que, daqui uma semana, vão esquecer do Diogo e do taekwondo. Tá, pode ser que a Natália Falavigna consiga alguma coisa amanhã, mas isso não faz com que o imediatismo do esporte saia de cena. Todas as matérias especiais que toda a imprensa fez vão ser esquecidas em agosto. E o Diogo, quando sair nas ruas, com certeza vai ser reconhecido pela galera. Não como o dono do primeiro ouro do Brasil no Pan, mas como o Seu Jorge. Ou como o Falcão.

Digo isso porque, hoje, lembrei de uma coisa que aconteceu quatro anos atrás. No dia 5 de agosto de 2003, o Hudson de Souza surpreendeu e conseguiu o primeiro ouro do Brasil no Pan de Santo Domingo-2003, nos 5.000m masculino. Choveram matérias com ele. Entrevistas e tal. E isso aumentou ainda mais quando ele ganhou também a prova dos 1.500m. O Hudson irá competir o Pan do Rio este ano. E ninguém se lembra do cara e nem da história de vida dele. Nem eu, claro.

É bem provável que o mesmo aconteça com o Diogo, e ninguém se lembre dele nas Olimpíadas de Pequim-2008 ou no Pan de Guadalajara-2011. Talvez, ninguém irá se lembrar dele depois de sair o próximo ouro do Brasil no Rio-2007. A conquista dele foi sensacional, mas... a fila vai andar.

Somos um país carente. Não temos nenhum ídolo de quem possamos nos orgulhar a não ser do esporte. O cara que proclamou nossa independência virou rei de Portugal anos depois. Carmen Miranda, assim que ficou famosa, foi para os Estados Unidos. Não temos nenhum líder político como a Rainha, Eva Perón, Gandhi, Josip Broz Tito, Trostky, Lênin, Che. Temos o Pelé. Em compensação, os times brasileiros não têm mais ídolos....

Assim, só nos resta esperar mais um ouro. E mais um ídolo-mor do país. Durante uma semana. Igual àquela música dos Titãs.

sábado, 14 de julho de 2007

Rapidinhas do Pan (de um estagiário na redação)

Abaixo, apenas algumas das trapalhadas que marcaram o primeiro dia oficial dos Jogos Pan-americanos do Rio de Janeiro 2007. E pensar que ainda faltam mais 15...

Hein?: O brilhante assessor de imprensa da Confederação Brasileira de Remo havia jurado que a prova do dois sem feminino havia sido cancelada por falta de quorum. Os EUA haviam desistido da prova e apenas quatro barcos iriam competir. A Federação Internacional não deixa e, assim, a prova foi cortada do cronograma. No entanto, a disputa aconteceu. Com quatro barcos apenas, incluindo as norte-americanas. Quem não participou foram as brasileiras. Isso pode? “Parece que agora pode. Tá uma zona isso”, garantiu um dos técnicos. Tô vendo...

Não, não desculpo o transtorno: A previsão era de que o site do Co-Rio tivesse todos os resultados de todas as provas a partir de 15 minutos do término das provas. Desde o começo da competição, no entanto, ninguém sabe onde foram parar as listas de resultados. Alguns links davam erros, outros travavam o computador e outros sequer existiam. Era tudo o que um estagiário precisava às 8 da manhã de um sábado!

Vai, vai, vai!: Os metros finais da maratona aquática feminina foram demais. A brasileira e a norte-americana brigaram braçada a braçada. Enquanto isso, eu abria mão do relato da prova e torcia para a nadadora nacional. Se ela tivesse ganhado, juro que teria parado uma faixa da Paulista para comemorar, dada a intensidade da torcida minha e do Ótio.

Quem ganhou eu não sei, mas o brasileiro ganhou o bronze: Foi assim a maratona aquática masculina. Em uma pataquada sensacional, o Co-Rio divulgou inicialmente que o campeão da prova tinha sido o venezuelano Ricardo Monastério. Minutos depois, uma errata: o ouro havia ficado com o norte-americano Fran Crippen. Nos minutos seguintes, mais um comunicado: não sabemos quem ganhou. A prova está sob análise. Mas o bronze é do Allan do Carmo. Aeee!

Nem no pódio: Primeiro campeão pan-americano da maratona aquática a ser destituído do pódio, Ricardo Monastério não ficou nem no pódio. O campeão da maratona masculina havia sido o Crippen, na verdade. O norte-americano foi seguido pelo compatriota Charles Peterson. E o brasileiro ficou mesmo com o bronze. Agora me diz: é difícil ver quem bateu antes na bóia? Pro Co-Rio, sim.

Boa, campeã!: A brasileira Valdirene Ferreira vencia a sua primeira luta no taekwondo, categoria até 49 kg por 1 a 0 contra a argentina Laura López. A adversária virou a luta e fez 2 a 1 a 36s do final do combate. Val, porém, apenas ficou pulando até o soar do gongo e sequer atacou a rival. Depois da eliminação, a reclamação: “Eu olhei no placar e vi errado. Achei que eu estava ganhando. A luta estava fácil para mim”, jurou. É assim mesmo que se faz!

Virar homem? Por quê?: Na final do taekwondo, na categoria masculina até 58 kg, o brasileiro Márcio Wenceslau Ferreira chegou na final e iria enfrentar o dominicano Gabriel Mercedes. O centro-americano começou com tudo, fez 4 a 0 no final do segundo round e ficou perto do ouro. O brasileiro reagiu, fez seu primeiro ponto e o cubano perdeu dois por causa das faltas que cometeu. A 5s do final do último round, o placar estava 2 a 1. O brasileiro foi pro tudo ou nada para empatar a luta, mas o Mercedes saiu correndo do ringue. Literalmente. O juiz ficou puto, tirou um ponto do dominicano, e a decisão foi para o ponto de ouro. Novo empate, e a medalha seria decidida pelos juízes. Após a votação, ouro para o Mercedes, mesmo com a cena bizarra que ele protagonizou. Às vezes, ser covarde vale alguma coisa.

Marcel? Não, não existe Marcel: Nunca tinha ouvido falar direito em taekwondo até os meses que antecederam ao Pan. Mesmo assim, descobri que, em 2003, o dominicano que faturou o ouro na categoria até 58 kg masculino havia ganhado do brasileiro Marcel Ferreira nas quartas-de-final em Santo Domingo. Marcel Ferreira? O taekwondista deste ano era o Márcio Ferreira. Será que era o mesmo? Liguei para o chefe da delegação brasileira para checar. “Não, não existe Marcel. É só o Márcio”. Momentos depois, a confirmação veio por alguém da redação que entende um bocado mais da modalidade: “O Marcel é irmão do Márcio”. Agora a dúvida: e como o cabeçudo do dirigente não sabia disso?

Ai, minha dor de dente: Levantamento de peso, categoria até 49 kg, feminino. Uma das favoritas a pelo menos o bronze era a brasileira Aline Campeiro. Na primeira chance do arranco, ela levantou 70 kg e ficou com o segundo lugar, atrás apenas da mexicana Carolina Valencia, que ergueu 78 kg e quebrou o recorde pan-americano. Tudo indicava que Aline seria a primeira levantadora do país a conseguir uma medalha no Pan. No entanto, contudo, porém, todavia e entretanto, ela decidiu comemorar com o técnico a marca no arranco. Pulou no colo do Dragus Stanica, machucou o joelho e não pôde competir no arremesso (a medalha é para quem levantar mais na soma das duas modalidades). Conseqüência: perdeu a medalha. Buuuh!

Canal campeoníssimo: Parece perseguição, mas não é. O Sportv continua se superando e vem tornando suas transmissões cada vez pior. E o Pan não fica fora disso, claro. Apesar dos três canais que a emissora conseguiu com a Globosat, engana-se aquele que imaginou que veríamos de tudo no Rio-2007, desde badminton até o arremesso de martelo. Um exemplo é o que aconteceu durante a final do taekwondo masculino: eles interromperam a transmissão dos três canais para mostrar a luta. Tá certo que era um brasileiro e tudo mais, mas... pra quê parar os três canais, sendo que quem tem acesso a um tem a acesso aos outros dois? Vai entender...

Jura que não tava no cronograma?: A disputa feminina da ginástica artística por equipes mal começou e a comentarista foi dar seus pitacos sobre a apresentação da canadense que se apresentava na trave. Estilo Neto: “Tá aí a canadense, fazendo alguns movimentos que fazem parte da rotina obrigatória... vai fazendo muito bem. E... eh, agora ela caiu. Isso não fazia parte do cronograma”. E pensar que eu poderia ser comentarista...

terça-feira, 10 de julho de 2007

Os sobrenomes mais legais (ou nem tanto assim)

Em mais uma das minhas fantásticas abstrações que sempre me acometem no caminho de casa, não sei bem por que comecei a lembrar de uma besteira bem grande que eu costumava repetir por aí quando era pequeno. Ouvi não sei de quem, mas achei o maior bacana. Lá vai.

A Holanda era um país pacato até o século XVII. Enquanto Napoleão Bonaparte expandia seu império ao longo da Europa, as pessoas nos Países Baixos se preocupavam apenas em cultivar laranjas, construir diques para evitar o avanço da água e dançar com tamancos. Uma beleza.

Até que Napoleão resolveu tocar o puteiro também na Holanda. O povo neerlandês, muito pacífico, não resistiu. E até pareceu aceitar de boa o que a França queria. Até que os invasores decidiram avacalhar e impuseram a criação de sobrenomes para os dutchman. Besteira. Pra quê?

Revoltados, os holandeses iniciaram um manifesto pacífico. E bem humorado, claro. Como acharam que a invasão napoleônica seria coisa passageira, decidiram criar sobrenomes engraçados. Aquela coisa que só os holandeses sabem se dar mal, mas de um jeito bacana. Eles inventaram sobrenomes bacanas e patéticos. Uma ótima idéia.

Assim, a partir de 1820 (ou coisa do tipo), a Holanda passou a ser habitada por um bando de pessoas com nomes um tanto quanto bizarros: Martin Rotmensen, Richard Ergst, Julietta Zwartehond, Pieter Piest, John de Timmerman, entre outros. Mas era só temporário, os holandeses imaginavam.

Ledo engano. As tropas napoleônicas curtiram aquele clima de Países Baixos e decidiram ficar por lá mais tempo. Muito tempo. Assim, o Martin Gente Podre começou a ter filhos, assim como o Richard Malvadão, a Julieta Cachorro Preto, o Pieter Mijado, o ‘Jonas, o Carpinteiro’. Problema: os sobrenomes teriam que passar de geração para geração. E a Holanda passou a ser habitada por um monte de gente com o nome tosco, que se reproduziam e mantinham os nomes toscos.

E isso continua até hoje. É claro que alguns pais mais empáticos com os filhos decidiram bolar alguns sobrenomes normais e que não tivessem significados como os já citados. No entanto, teve aquela galera que quis manter a tradição familiar e as novas gerações continuavam a receber tais nomes.

Hoje, não é raro você se deparar com algum holandês que tenha um nome tosco. O mais difícil, creio eu, é você se deparar com algum holandês. Pelo menos se você mora em São Paulo, ou em algum lugar que não seja perto de Bélgica, Alemanha, Suíça, Estados Unidos, Canadá, Suriname, Guiana ou coisa do tipo.

Só que, depois de um enfadonho levantamento de personalidades holandesas, acabei encontrando alguns sobrenomes bacanas. Vale o destaque:

Johannes van der Broek (Johannes de calças), um arquiteto

Rem Koolhaas (Rem repolho-de-lebre), arquiteto que projetou a Casa da Música, na Cidade do Porto

Gerrit Dietveld (Gerrit da plantação de cana), um cara que projetava cadeiras

Jan de Bont (Ian, o peludo), um cineasta

Tim Kliphuis (Tim da casa trancada), um músico

Paul Haarhuis (Paul na casa dela), ex-tenista, tricampeão de Roland Garros e uma vez campeão de Wimbledon e dos abertos de EUA e Austrália (em duplas)

Jaap Spaanderman (Jaap chateado-com-a-humanidade), outro músico. Que não é o Homem Aranha.

Sebald de Weert (Sebald fique-longe-daqui), um explorador

Ronald Koeman (Ronald homem-vaca), ex-jogador de futebol e atual técnico do PSV

Talitha de Groot (Talitha, a grande), jogadora de tênis, atualmente na milésima vigésima oitava colocação do ranking de entradas da WTA

Frank e Ronald de Boer (Frank e Ronald , o fazendeiro), irmãos gêmeos e jogadores de futebol, que participaram das Copas de 1994 e 1998

Robert Doornbos (Robert pedra-no-sapato), piloto que disputou a F1 em 2006

Hendrik-Jan Held (Hendrik-Jan Herói), jogador de vôlei campeão olímpico em 1996

Um adendo sobre o campeão olímpico. Ele não foi um destaque da equipe prata em Barcelona ou ouro em Atlanta. Ele não era o levantadador e muito menos o maior pontuador. Também não era o líbero, porque naquela época não existia isso no vôlei. Ele não era um grande sacador e nem um grande defensor. Não foi dele o ponto da vitória e nem a cagada que deu o ouro para o Brasil em 92.

Sinceramente, não sei de onde ele surgiu. Até porque o Held mais famoso de toda a história do País Baixo era herdeiro do trono. E iria se tornar rei em algum ano que eu não sei dizer qual.

Ele tinha tudo para ser coroado e governar toda aquela parada. Para isso, tinha apenas que se casar com uma princesa cujo nome eu também não lembro. Held, porém, renunciou ao trono e fugiu com a sua amada (dá para ver que o mal já é de família). Passou por pela Prússia e desembarcou no Brasil, antes de viver feliz para sempre.

Claro, não sem se esquecer de deixar descendentes. Que não têm nada o que fazer em uma noite de terça-feira e acabam perdendo um bom tempo de descanso fazendo algo absolutamente inútil.

Mas holandeses gostam do Brasil, não sei por quê.

segunda-feira, 9 de julho de 2007

Para honrar a segunda

O relógio despertou às 6 horas com tudo, nem parecia feriado. Só lembrei que hoje era nove de julho quando fui tomar banho e deixei o rádio ligado para ouvir o que tava rolando por aí.

Abri a porta de casa às 7 horas, e a do prédio dois minutos depois. Coloquei o fone no ouvido e aumentei o volume, mas o Jimmy Eat World não tinha o impacto que tinha semana passada. Passei por Bowling for Soup e Shout out Louds. Nada. Deveria ter tentado Stereophonics, mas só agora pensei nisso.

Desliguei o som e fui andando pela rua para o metrô. A avenida, mais vazia do que de madrugada, não oferecia nenhum perigo na hora de o pedestre atravessar. Sem graça. Assim como a Avenida Paulista, que, em um dia normal, estaria cheia de gente no ponto de ônibus, no farol da Brigadeiro e por todos os cantos. Nada.

Nada também na travessa com a Joaquim Eugênio. Vazia. O farol estava vermelho para mim, mas olhei para os dois lados (ainda que seja mão única) antes de atravessar. Poderia ter atravessado a rua arriscando um Moonwalker que nem uma bola de feno me impediria. Chato.

Entrei no elevador e apertei o 3. Precisava tomar um café. A porta abriu, mas o terceiro andar estava escuro, vazio e inóspito. Feriado. Apertei correndo o botão de todos os dias, passei o cartão e comecei a imaginar uma luta contra o sono nas cinco horas que se seguiriam.

Fiz o mesmo caminho de volta às 13 e pouquinho. O escadão continuava vazio, assim como todas as esquinas. A Paulista vazia. Uma droga. A Paulista vazia, não sei por que, me deprime. Sempre. Mas deixa pra lá.

Acabei voltando direto pra casa. Sem tirar os fones de ouvido da mochila.

O dia pelo menos estava mais bacana. Um pouco mais de sol, de calor. Sei lá. Pelo menos estava assim na ruela onde fica a estação do metrô. Continuei andando rumo à minha casa. Pensando um bocado na vida ou em nada, não me lembro direito.

Prestes a virar a esquina, um All-Star. Uma saia, uma camiseta preta, um cabelo tingido de vermelho. Um segundo de clima chato, um desvio de olhares e uma mudança intencional de calçadas. Por parte dela.

Depois de virar a esquina, algumas lembranças. Seis meses de intensa paixão, outros seis de uma indiferença em uma sala de inglês e mais 12 sem cada um lembrar da existência do outro. Hoje, no entanto, um encontro forçado. Dias antes de completarmos dois anos da primeira vez em que trocamos algumas palavras pela primeira vez.

A segunda-feira, que já tinha o ar mais abafado, as ruas mais vazias e o tédio no ar, ficou mais cinza. Como uma segunda-feira deve ser.

sexta-feira, 6 de julho de 2007

Canal campeão

Wimbledon está acabando e, assim, também chega ao fim a transmissão pífia do Sportv do torneio. Ainda bem.

Embora o Globo Esporte da TV a cabo tenha os comentaristas de mais renome no apagado tênis brasileiro, a transmissão foi simplesmente um lixo.

Eles (o canal) conseguiram fazer a maior besteira de transmitir como ao vivo um jogo emocionante da Martina Hingis, mas que já tinha terminado meia hora antes. Eles passaram um jogo completamente irrelevante entre Tim Henman e Carlos Moyá enquanto comia o pau nos jogos de Federer, Roddick, Henin, Serena Williams e Jankovic. Eles fizeram com que um torneio que tem a tendência inglesa de ser chatinho se tornasse ainda pior. Conseguiram.

É claro que Roland Garros teve uns vacilos de transmissão da ESPN, mas a cobertura foi simplesmente show. Sempre que possível, os dois canais mostravam os jogos de grande parte dos favoritos e das favoritas. Muito bom.

Um mês depois, na Inglaterra, a Globosat se limitou a algumas horinhas de transmissão de Wimbledon no Sportv 2. E olhe lá. Com a transmissão de muitos jogos pouco importantes em relação aos que aconteciam ao mesmo tempo. Sem falar nas muitas reprises enquanto partidas ao vivo aconteciam.

Além disso, sempre por volta das 10 horas da manhã, podia estar acontecendo qualquer coisa no jogo de quem quer que fosse, mas o som da transmissão era cortado. Isso porque entrava no ar Maria Esther Bueno, que, diretamente do All England Club, fazia comentários que até eu poderia fazer do alto da Avenida Paulista. Ou do sofá da minha casa. E juro que não cobraria mais do que R$ 10 por dia para fazer isso. Com todo respeito à Maria Esther Bueno.

Mas essa não é a primeira vez que a rede do dono da antiga Águas Espraiadas faz a festa para acabar com as coisas legais da televisão no Brasil. Basta ver o que fizeram com Pica Pau e Simpsons.

Pica Pau era o Chaves matinal do SBT. Se não tinha o que passar, era só colocar o passarinho cínico de penacho vermelho no ar que a audiência gostava. Sou prova viva disso. A Globo pegou o Pica Pau do Cenoura e colocou meia hora no ar durante dois meses. Depois, nunca mais.

Hoje (agora, pra falar a verdade), a Record passa o Pica Pau entre 19h15 e 20 horas. Uma pena.

Com Simpsons também foi uma pena o que fizeram. Eles simplesmente tiraram o segundo principal programa do horário nobre adolescente (a hora do almoço durante os dias úteis) e colocaram para o final da manhã no sábado (quando o mundo normal ainda dorme), espremido entre a TV Bobinho e o SPTV. Isso quando algum evento tosco não tira a galera de Springfield do ar, como algum Mundialito de futebol de areia, que tem, por definição, o Brasil entre um dos finalistas.

Isso sem falar com o que fizeram com a F1 em abril. O Massa se matando pra ganhar no Bahrein e a Globo cortando a transmissão no meio pra mostrar a missa do Papa, que já era transmitida em 8.927 canais da televisão aberta. Aos panacas que acordaram no domingo cedinho pra ver o GP, restou o Teo José na Jovem Pan. Palhaçada.

Pelo menos Chaves fica no SBT.
Amém.

Reflexão sem sentido: Marcelo Melo e André Sá chegaram às semifinais da chave de duplas de Wimbledon. Se eles forem para a final, será que algum canal irá mostrar ao vivo a partida? Creio que não. A Globosat não iria quebrar o protocolo da TV britânica e também não permitiria que outra emissora transmitisse a partida.

quinta-feira, 5 de julho de 2007

As férias de inverno de 2004

Andando hoje pela Vila Mariana, vi, do outro lado da rua, dois moleques com mais ou menos 16 anos sentados, escondidinhos, em uma praça. Eles tiravam da mochila, com todo o cuidado do mundo, uma garrafa de 51 e despejavam o conteúdo dentro de uma garrafa de 2L de Coca Cola.

Na primeira olhada, achei engraçado ver os dois moleques sem jeito para colocar a pinga no refrigerante. Alguns instantes depois, lembrei que, três anos atrás, era eu quem fazia o mesmo. Não naquela praça, mas no mesmo bairro. E do mesmo jeito.

Julho de 2004 foi legal. Foi o mês de férias mais intenso que eu já tive até hoje. Lembro que eram raros os dias que eu passava sóbrio ou em casa. E mais raros ainda os dias que eu passava sóbrio e em casa.

Quase todo dia, o ritual era o mesmo. Uma garrafa de 51 comprada a um valor muito alto (tipo uns R$ 7) em algum boteco (os caras de botecos faturam pra caramba vendendo pinga pra molecada), algum refrigerante (barato demais, se possível). Tudo era colocado dentro de uma mochila (geralmente a minha) e procurávamos um lugar mais vazio.

Misturávamos tudo em uma rua escondida perto do Shopping Santa Cruz e bebíamos escondidos. Afinal, a molecada não passava dos 16 anos e era perigoso algum pai aparecer do nada. Que ridículo, quem apareceria em uma rua escondida nas profundezas da Vila Mariana? E por que tinha que ser justamente o pai de algum de nós, sendo que nenhum de nós morava por lá? Que besteira! Mas era legal. Pra caralho.

As pessoas com quem fazia isso eram diferentes a cada dia. Apenas um moleque era o mesmo todos os dias. Era o meu melhor amigo da época, cujo nome não interessa agora. Passávamos os dias bêbados, falando sobre nada, falando sobre garotas. Ou com garotas.

Naquela época, tínhamos uma facilidade tremenda para chamar garotas para ir ao shopping beber. Mesmo as que não bebiam. Elas iam, a gente passava horas de porre e depois íamos embora. Nunca passava de uma tarde no shopping bebendo pinga com refrigerante. Mas se quer saber, era divertido pra caralho. Todos os dias.

O moleque ainda tem uma facilidade tremenda para chamar garotas para ir ao shopping ou para onde quiser. Mas não acho que ele faz mais isso. Nossa amizade começou a ficar abalada depois do último show do Fonzie em São Paulo, que rolou em primeiro de outubro daquele ano.

Não tem um motivo óbvio, mas senti que dali pra frente tudo ficou mais desgastado. Continuamos amigos intensos até, sei lá, janeiro de 2005. Depois eu comecei o terceiro colegial, ele se cansou de tomar porre de pinga com refrigerante e a gente foi, pouco a pouco, perdendo contato.

Recentemente, ouvi boatos de que ele se mudou para Minas Gerais e está namorando uma das garotas que bebia com a gente nas férias. Na verdade, era eu em quem chamava essa garota para ir, porque sempre achava que poderia rolar alguma coisa com ela. Não deu, e isso eu percebi duas semanas depois de as férias terminarem. Mas... acontece. Agora ela também está em Minas, acho que se mudou há uns dez meses.

Mas faz quase dois anos que nenhum de nós tem contato com o outro. Eu, o amigo, a garota... e quase ninguém daquela época. Acontece.

Mas, depois de 2004, acho que por um bom tempo vou lembrar de julho não como o mês mais frio do ano ou como sei lá o que, mas como aquele, algum ano no passado, eu tive as férias mais intensas que um adolescente de 16 anos pode ter.

Foram fantásticas aquelas férias e, é claro, é impossível repeti-las. Até porque agora eu tenho 19 anos e não consigo beber muita pinga como antes, infelizmente (algo como meia garrafa e continuar em pé, sabendo o caminho de casa). Pra falar a verdade, o meu eu de três anos atrás me chamaria hoje de mocinha que não agüenta beber pinga.

Ou não. Talvez ele nem fosse me reconhecer. Afinal, hoje não tenho mais os cabelos ligeiramente compridos como naquela época. Tenho barba, em contrapartida. Não tenho mais aparelho fixo, nem sisos e nem freio da língua. Não uso mais um tênis barato comprado na Galeria do Rock e nem um blusão de moletom do MxPx, oriundo do mesmo lugar. Isso sem falar que agora eu tenho cabelos brancos (achei três fios só na última semana. Se continuar nessa média, o que vai acontecer no final do ano?).

E o principal: talvez o garoto de 16 anos não entenderia como alguém em sã consciência trabalharia em julho, o mês mais legal para tirar férias (depois de dezembro, evidentemente).

Puxa!

terça-feira, 3 de julho de 2007

As piores propagandas do mundo nos últimos 15 dias

Faço jornalismo. Trabalho como jornalista. Logo, não entendo muita coisa sobre publicidade (ou quase nada, pra falar a verdade). Mas ainda assim vale o registro de todas as baboseiras que andei vendo pela Avenida Paulista e arredores nas duas últimas semanas.

A primeira não foi bem na Paulista. Foi quando pegava o metrô para ir para a avenida. Não importa, o conteúdo publicitário é tão imbecil que compensa o resto. Eu explico:

Era um dia em que meu ipod tinha ficado em casa se recuperando de uma semana sem que este que vos escreve pensasse em recarregar a bateria da caixinha de sol ambulante. Assim, meus olhos estavam mais atentos para tudo o que acontecia em volta. Assim que entrei no vagão do metrô, olhei para a propaganda. Sustain. Nome de farinha láctea, embora a grafia não fosse da farinha láctea.

Enfim. Depois de muito olhar pro potinho escrito Sustain, fui ver o anúncio em si. “Quer que seu filho seja assim? Dê Sustain pra ele”. O ‘assim’ era um molequinho ligeiramente pançudo com um fraldão de sumô. Que idiota quer ter um filho gorducho que veste um fraldão e luta sumô? E o pior: quem foi o idiota que pensou em tal propaganda?

A segunda foi no Metrô Brigadeiro. Após um mês de leituras incessantes de “IBTA: um prédio que se destaca mesmo na Avenida Paulista” (ou algo parecido), vi que tinha um anúncio novo. A primeira coisa que eu li foi impactante: Nós também damos aula.

A tal propaganda da IBTA e o anúncio principal era esse. Uma faculdade que, além de outras coisas (que não se sabe o que), dá aula. Puxa!

Parei por alguns segundos na frente do indoor (esse deve ser o nome de um outdoor interno) pra ver se entendia o que eles queriam dizer. Só depois de uns dois ou três segundos que eu li o que tava em cima do destaque:

Em matéria de localização
Nós também damos aula

Ah, saquei. Mas que diabos de propaganda imbecil é essa? Será que eles dão aula de publicidade lá?

A que eu conto agora aconteceu na Paulista mesmo, enquanto estava no bar de sexta-feira. Momentos depois de comprar Drink no bunker, de Ricardo Carlaccio (o mesmo autor de Blues Escarlate), me apareceu uma mulher vendendo uma revista. Toda descolada.

“Oi, galera, posso apresentar essa revista pra vocês? Meu, essa é uma das principais revistas do país, é muito conhecida. Ela é muito legal, é muito show. Gente, olha essa diagramação que show! Olha, e ainda tem uma entrevista com o Gustavo! Ele é cientista! Eu tô vendendo essa revista, vocês querem?”

“Não, valeu”.

Reflexões de minuto:
1. Eu, por mais que não passe de um mero estudante de jornalismo, deveria conhecer a capa e o nome de uma das principais revistas do país se visse uma na minha frente.
2. Tirei 9,5 de diagramação neste bimestre (uau!), não achei nada de ousado naquela diagramação.
3. Que porra de Gustavo é aquele? E que me importa se ele é cientista?
4. Quem deu o emprego praquela maluca divulgar a revista?

Agora, mais duas propagandas que, sinceramente, eu não faria. A primeira atasanou a minha tarde. A droga da Uninove decidiu entrar no mundo do MSN. Basta você passar o mouse na parte de baixo da tela pra aparecer o vídeo do Bernardinho incentivando aquela garota no trem (que vai pra São Caetano, aliás) a fazer Uninove (pô, Bernardinho!).

E a segunda é a brilhante idéia da seleção brasileira de softbol em divulgar o esporte antes dos Jogos Pan-americanos. É um catálogo com fotos de sete das 19 atletas da equipe nacional. Algumas são belas garotas, mas vale o destaque esdrúxulo do Globo Esporte.com

Mas dessa eu falo amanhã. Ou depois. Posso mudar de idéia ainda.