Tardes quentes de domingos me fazem ficar em casa quando estou de folga, apenas esparramado sobre o sofá em busca de algo na televisão que não seja tão corrosivo para a minha cabeça. Desta vez, sem futebol na televisão por causa das eleições, encontrei Escola de Rock em um dos Telecines. Maravilha.
Acho que foi a quarta vez que vi Escola de Rock, e, como sempre, tive aquela sensação de tirar minha guitarra e meu amplificador de cima do armário e arriscar alguns acordes. Mas, além disso, acabei me lembrando de um dos meus shows mais incríveis. Como nunca falei dele, vamos lá.
Era uma manhã de final de maio ou começo de junho, sexta-feira. Meus amigos de sala e eu, já no terceiro colegial, tínhamos resolvido nos inscrever no show de talentos da semana olímpica da escola. Depois de muitas idéias e desavenças quanto ao nosso repertório (todos eram metaleiros, menos eu), chegamos a um meio-termo que pudesse agradar não só ao pessoal da banda como aos jurados. Iríamos tocar duas músicas do Mamonas Assassinas e, por fim, Rock and roll all nite, do Kiss.
Apareci no colégio logo cedo, umas 7 da manhã, com a minha guitarra nas costas. Andei pelo ginásio praticamente vazio e subi para a sala de aula, onde estavam algumas amigas minhas – uma delas era minha grande paixonite da época, mas não estávamos nos falando já tinha algumas semanas. Depois o resto da banda chegou, assim como as meninas que iriam nos maquiar (parece coisa de viado, eu sei) e fomos para o salão nobre. Vazio, vazio.
Subimos para a coxia e lá começou toda a produção. Desenho aqui, tinta branca ali e acolá, mais tinta branca, pintura preta... peruca (eu era o único que não tinha cabelo comprido), batom (peraí, eu não vou passar batom! Vai, Held, o Chitão também passou. Tá bom, tá bom)... cabo, pedaleira, fonte da pedaleira... guitarra desafinada, afinação… palhetas, onde estão as minhas malditas palhetas puta que o pariu? Ok, uma aqui, uma ali... ok, achei minhas três palhetas. Esparadrapo nos dedos da mão direita (eu sempre me ferro tocando guitarra)… vocês são a próxima banda, vamos lá.
Achei que o salão estaria vazio, já que era manhã de sexta-feira e a presença dos alunos não era obrigatória na semana olímpica. Mas, assim que pisei no palco, vi o salão completamente tomado. Quanta gente tinha ali? 200? 300? Eu chutaria 300, tinha bastante gente em pé. Logo na primeira fila, no entanto, estava aquela tal paixonite. Do alto do palco tentei disfarçar, mas... ok, ela estava na minha frente.
Começamos a tocar, com muito pouca iluminação. Chopis Centi e Jumento Celestino correram bem, sem erros crassos ou acontecimentos fantásticos. Até que as luzes todas se apagaram por completo, o baterista fez a introdução, as guitarras entraram... as luzes piscaram e todos viram que estávamos vestidos de Kiss, tocando Kiss. Uh-la-lá.
Eu, na época, era bem tímido. Muito, muito mesmo. Mas perdia por completo a timidez quando estava em cima de um palco e com a minha guitarra pendurada. E, naquele momento, não tinha resquício algum de timidez ou insegurança. Tanto que, quando estávamos para chegar ao refrão, sugeri por meio de sinais para o restante da banda que ninguém cantasse ou tocasse, exceto o baterista. Deu certo, e o salão inteiro levantou e começou a cantar com a gente. Eu me senti um rock star.
Pouco depois chegou o meu solo. Dei alguns passos para a frente, fui para a beirada do palco e, quando vi, estava pertinho da minha paixonite. Tentei não errar, consegui. Ouvi um elogio da paixonite, dei um sorriso. Putz! Depois o show infelizmente acabou, recebemos aplausos e mais aplausos. Voltei para a coxia, tirei a peruca, limpei o rosto e saí do salão. Em êxtase, ainda.
Nunca fui lá muito popular no meu colégio, admito. Mas naquele dia foi incrível como tanta gente me reconheceu. Até uma menina da oitava série por quem eu tinha uma paixãozinha platônica me parou, perguntou “você era aquele cara que tocou Kiss agora há pouco, né?”. Respondi que sim e ela logo emendou “nossa, você tocou muito, adorei. Parabéns”. Era meu auge, eu estava no topo do mundo e da cadeia alimentar. Eu era um fenômeno.
Curti um pouco meus 15 minutos de fama e voltei para casa. Feliz, feliz da vida. Tínhamos ficado em segundo lugar no show de talentos e fomos convidados para nos apresentarmos na apoteose. Mas a essa segunda apresentação a paixonite não pôde ir. E eu, particularmente, não me senti tanto rock star.
domingo, 26 de outubro de 2008
quarta-feira, 22 de outubro de 2008
Reaprendizado
Eram parceiros de almoço, os dois amigos. Todos os dias, no mesmo horário, se encontravam no mesmo lugar de sempre para irem almoçar e depois entrarem no trabalho.
Um dia, um dos amigos não apareceu. Era quinta-feira, fim de verão. O outro parceiro estranhou. Pegou o celular, caçou o número do outro na agenda e ligou, quase que preocupado, para saber o que havia se passado. Três toques depois, uma resposta.
“Opa. Fala, cara! Você não vem almoçar hoje?”.
“Ih, cara... foi mal, já almocei”.
“Beleza. Já tá vindo pro trabalho, onde você tá?”.
“No shopping”.
“Onde?”
“Muito, mas muito longe”.
“Onde fica isso?”
“Pega a Marginal, depois você vai na saída da Ayrton Senna. Anda uns 100 km e você chega”.
“Como assim, cara?”
“Tô de folga, velho. Vim viver um pouco”.
Um estalo de beijo.
”Bom, ela saiu do banheiro. Tô indo pro cinema, bom trabalho aí”.
“Parabéns, cara, hahaha! Aproveita!”.
Um dia, um dos amigos não apareceu. Era quinta-feira, fim de verão. O outro parceiro estranhou. Pegou o celular, caçou o número do outro na agenda e ligou, quase que preocupado, para saber o que havia se passado. Três toques depois, uma resposta.
“Opa. Fala, cara! Você não vem almoçar hoje?”.
“Ih, cara... foi mal, já almocei”.
“Beleza. Já tá vindo pro trabalho, onde você tá?”.
“No shopping”.
“Onde?”
“Muito, mas muito longe”.
“Onde fica isso?”
“Pega a Marginal, depois você vai na saída da Ayrton Senna. Anda uns 100 km e você chega”.
“Como assim, cara?”
“Tô de folga, velho. Vim viver um pouco”.
Um estalo de beijo.
”Bom, ela saiu do banheiro. Tô indo pro cinema, bom trabalho aí”.
“Parabéns, cara, hahaha! Aproveita!”.
domingo, 19 de outubro de 2008
Horário de verão
Um dos posts mais non-senses já escrito por aqui dizia respeito à mudança do horário de verão para o horário convencional. Besteiras à parte, sinto inveja quando releio meu relato sobre o ‘dia das 25 horas’ e percebo como eu estava com idéias de sobra para escrever bobagens – ainda mais em uma época de vacas magérrimas deste blog.
Mesmo assim, faço um parto forçado para relatar uma singela experiência sobre o outro solstício artificial criado pela estranha humanidade – aquele do dia mais curto do ano, quando adiantamos nossos relógios em uma hora para, teoricamente, gastarmos menos energia elétrica.
Era noite de sábado, eu tinha saído da redação, peguei o carro no estacionamento. Dirigir alguns quarteirões e fui até a Bela Cintra, onde teria o aniversário de uma grande, grande amiga. Eu, tolo, imaginei que encontraria vagas a torto e a direito nas alamedas do Jardins próximas à Paulista e perto do bar, mas sequer pensei que seria impossível encontrar um espaçozinho sequer para o meu singelo bólido.
Rodei várias vezes por vários quarteirões em busca de uma vaga, mas nada. Acabei me rendendo a um estacionamento Estapar na Haddock Lobo, a uma quadra do bar ao qual eu iria. E, acostumado ao Estapar 24 horas ao lado do trabalho, apenas entreguei a chave ao manobrista e peguei o comprovante. Até que ele me avisou.
- Senhor, fechamos às 3 horas, ok?
- Humm, acho que não vou ficar tanto tempo assim no bar, mas... ih, me explica. Vocês fecham às 3 horas do horário de hoje ou às 3 horas de amanhã?
- Nós fechamos às 3 hora da manhã, senhor.
- Sim, sim. Mas em relação a que horário?
- Ao horário... como assim, senhor?
- É porque daqui uma hora vai entrar o horário de verão. E eu imagino que não vai ser muito legal eu chegar aqui às 3 horas do horário de hoje, que seriam 4 da manhã, e não ter mais carro pra voltar pra casa por causa do horário.
- Ih, agora eu já não sei.
- Bom, e eu menos.
- E agora?
- Você pode checar para mim?
O manobrista foi checar com o cara que parecia ser o gerente responsável pelo estacionamento. O cara, é claro, também não sabia. Disse apenas que o estacionamento funcionava de acordo com a cantina ao lado. “E...?”, eu tive vontade de perguntar.
Acabou que o segurança da cantina, bem informado, explicou que o horário de verão seria adotado pelos estabelecimentos comercias apenas na manhã de domingo. Ou seja, eu poderia ficar tranqüilo no bar até as 3h30 (de verão) que eu não correria risco algum de voltar a pé para casa.
Enfim. O horário de verão começou. Eu simplesmente adoro o horário de verão, aquela coisa de sair do trabalho às 19 horas e ainda ter um solzinho convidativo para uma cerveja e umas risadas.
O único problema do horário de verão é que o dia mais curto do ano se torna incrivelmente curto. E o tempo... humpf, o tempo voa.
Mesmo assim, faço um parto forçado para relatar uma singela experiência sobre o outro solstício artificial criado pela estranha humanidade – aquele do dia mais curto do ano, quando adiantamos nossos relógios em uma hora para, teoricamente, gastarmos menos energia elétrica.
Era noite de sábado, eu tinha saído da redação, peguei o carro no estacionamento. Dirigir alguns quarteirões e fui até a Bela Cintra, onde teria o aniversário de uma grande, grande amiga. Eu, tolo, imaginei que encontraria vagas a torto e a direito nas alamedas do Jardins próximas à Paulista e perto do bar, mas sequer pensei que seria impossível encontrar um espaçozinho sequer para o meu singelo bólido.
Rodei várias vezes por vários quarteirões em busca de uma vaga, mas nada. Acabei me rendendo a um estacionamento Estapar na Haddock Lobo, a uma quadra do bar ao qual eu iria. E, acostumado ao Estapar 24 horas ao lado do trabalho, apenas entreguei a chave ao manobrista e peguei o comprovante. Até que ele me avisou.
- Senhor, fechamos às 3 horas, ok?
- Humm, acho que não vou ficar tanto tempo assim no bar, mas... ih, me explica. Vocês fecham às 3 horas do horário de hoje ou às 3 horas de amanhã?
- Nós fechamos às 3 hora da manhã, senhor.
- Sim, sim. Mas em relação a que horário?
- Ao horário... como assim, senhor?
- É porque daqui uma hora vai entrar o horário de verão. E eu imagino que não vai ser muito legal eu chegar aqui às 3 horas do horário de hoje, que seriam 4 da manhã, e não ter mais carro pra voltar pra casa por causa do horário.
- Ih, agora eu já não sei.
- Bom, e eu menos.
- E agora?
- Você pode checar para mim?
O manobrista foi checar com o cara que parecia ser o gerente responsável pelo estacionamento. O cara, é claro, também não sabia. Disse apenas que o estacionamento funcionava de acordo com a cantina ao lado. “E...?”, eu tive vontade de perguntar.
Acabou que o segurança da cantina, bem informado, explicou que o horário de verão seria adotado pelos estabelecimentos comercias apenas na manhã de domingo. Ou seja, eu poderia ficar tranqüilo no bar até as 3h30 (de verão) que eu não correria risco algum de voltar a pé para casa.
Enfim. O horário de verão começou. Eu simplesmente adoro o horário de verão, aquela coisa de sair do trabalho às 19 horas e ainda ter um solzinho convidativo para uma cerveja e umas risadas.
O único problema do horário de verão é que o dia mais curto do ano se torna incrivelmente curto. E o tempo... humpf, o tempo voa.
terça-feira, 14 de outubro de 2008
Filo: Arthropoda
Faz um tempo, almocei com a Bonie antes de entrarmos nos respectivos trabalhos. No restaurante, tinha uma bandejinha com camarões à nossa frente, e ela perguntou se eu gostava de camarões. “Humm... ah, até gosto”, respondi. Ela disse que não gostava, que eram nojentos. E eu passei a observar melhor os tais dos crustáceos.
Semanas e meses se passaram, e no self-service chinês que eu adotei como restaurante oficial para meus almoços antes do trabalho sempre tem um empanado de alguma verdura com um camarãozinho em cima. Todos os dias eu tiro o camarão de cima, como a tal da verdura misteriosa e fico olhando pro coitado do bicho. Ele não olha de volta para mim porque já teve a cabeça decepada. Ainda bem.
Mas comecei a ter alguns pensamentos sobre o camarão. Realmente é algo nojento. É aquela coisinha espichada, com uma casquinha por fora e uma carne branca por dentro. Para não correr o risco de... sei lá, um dia pegar um bichinho que não esteja totalmente limpo e ver alguma organela lá no meio, sempre coloco o camarão inteiro na boca e mastigo.
Só que... humm, sempre que mastigo um camarão, sinto as casquinhas das patas do bicho passeando pela minha boca. Não é muito, ahn, limpinho e tal, mas eu continuei todos os dias comendo o camarãozinho que enfeitava o tal do empanado.
Não entendo. Durante as Olimpíadas de Pequim, cansei de ver reportagens na televisão sobre as comidas exóticas da China. Em uma delas, na ESPN Brasil, o Marcelo Duarte entrevistou um cara que dizia que comer um escorpião era igual a comer um camarão: uma casquinha crocante por fora, uma carninha salgada por dentro. Isso ficou na minha cabeça.
Aí um dia desses saí do trabalho, parei no supermercado para fazer as compras da semana e vi que o camarão estava em oferta. Comprei uma bandeja por módicos R$ 4 e vim para casa pronto para fazer alguma gororoba com os crustáceos. Lavei minha janta, joguei um tempero, misturei com uns palmitos e joguei tudo para cozinhar.
Não sou nada fã da comida que eu mesmo faço, mas aqueles camarões pareciam até que saborosos. Coloquei tudo no prato, joguei um pouco de mostarda por cima para tirar o gosto ruim que minha comida tem e comecei a comer. As primeiras garfadas foram até que normais, e tal.
Aí uma hora vi um olhinho de camarão no prato. Ele começou a me encarar, e eu olhei para os outros crustáceos no prato. Várias perninhas, e lombos sem cabeça... casquinhas crocantes. Putz, certeza de que por ali deveria ter alguma organela perdida.
Continuei jantando, comendo dois camarões de uma vez para terminar logo. Lembrei do escorpião, e da barata que eu havia matado na véspera. Perninhas, casquinhas crocantes... organelas, urgh. Óbvio que não terminei a janta, os poucos camarões que sobraram foram para o lixo.
Ok, boa parte dessa minha sensação desagradável foi motivada pelo fato de ser a minha comida ali no prato. Mas não, os camarões são realmente desagradáveis. Crustáceos, do filo dos artrópodes (que também enquadra insetos)... putz, eu me sentia comendo insetos aquáticos. Lembrei daquele episódio do Chaves, em que todos da Vila comem os ‘inseptos’ com gasolina (a genialidade do melhor seriado já produzido pode ser encontrada aqui, aqui e aqui). Não, não deu.
Talvez amanhã eu acorde e nem me lembre mais do trauma dos camarões. Mas há também o risco de o camarão entrar para a lista de coisas que eu não como mas nem a pau, ao lado de melancia e pimentão.
Semanas e meses se passaram, e no self-service chinês que eu adotei como restaurante oficial para meus almoços antes do trabalho sempre tem um empanado de alguma verdura com um camarãozinho em cima. Todos os dias eu tiro o camarão de cima, como a tal da verdura misteriosa e fico olhando pro coitado do bicho. Ele não olha de volta para mim porque já teve a cabeça decepada. Ainda bem.
Mas comecei a ter alguns pensamentos sobre o camarão. Realmente é algo nojento. É aquela coisinha espichada, com uma casquinha por fora e uma carne branca por dentro. Para não correr o risco de... sei lá, um dia pegar um bichinho que não esteja totalmente limpo e ver alguma organela lá no meio, sempre coloco o camarão inteiro na boca e mastigo.
Só que... humm, sempre que mastigo um camarão, sinto as casquinhas das patas do bicho passeando pela minha boca. Não é muito, ahn, limpinho e tal, mas eu continuei todos os dias comendo o camarãozinho que enfeitava o tal do empanado.
Não entendo. Durante as Olimpíadas de Pequim, cansei de ver reportagens na televisão sobre as comidas exóticas da China. Em uma delas, na ESPN Brasil, o Marcelo Duarte entrevistou um cara que dizia que comer um escorpião era igual a comer um camarão: uma casquinha crocante por fora, uma carninha salgada por dentro. Isso ficou na minha cabeça.
Aí um dia desses saí do trabalho, parei no supermercado para fazer as compras da semana e vi que o camarão estava em oferta. Comprei uma bandeja por módicos R$ 4 e vim para casa pronto para fazer alguma gororoba com os crustáceos. Lavei minha janta, joguei um tempero, misturei com uns palmitos e joguei tudo para cozinhar.
Não sou nada fã da comida que eu mesmo faço, mas aqueles camarões pareciam até que saborosos. Coloquei tudo no prato, joguei um pouco de mostarda por cima para tirar o gosto ruim que minha comida tem e comecei a comer. As primeiras garfadas foram até que normais, e tal.
Aí uma hora vi um olhinho de camarão no prato. Ele começou a me encarar, e eu olhei para os outros crustáceos no prato. Várias perninhas, e lombos sem cabeça... casquinhas crocantes. Putz, certeza de que por ali deveria ter alguma organela perdida.
Continuei jantando, comendo dois camarões de uma vez para terminar logo. Lembrei do escorpião, e da barata que eu havia matado na véspera. Perninhas, casquinhas crocantes... organelas, urgh. Óbvio que não terminei a janta, os poucos camarões que sobraram foram para o lixo.
Ok, boa parte dessa minha sensação desagradável foi motivada pelo fato de ser a minha comida ali no prato. Mas não, os camarões são realmente desagradáveis. Crustáceos, do filo dos artrópodes (que também enquadra insetos)... putz, eu me sentia comendo insetos aquáticos. Lembrei daquele episódio do Chaves, em que todos da Vila comem os ‘inseptos’ com gasolina (a genialidade do melhor seriado já produzido pode ser encontrada aqui, aqui e aqui). Não, não deu.
Talvez amanhã eu acorde e nem me lembre mais do trauma dos camarões. Mas há também o risco de o camarão entrar para a lista de coisas que eu não como mas nem a pau, ao lado de melancia e pimentão.
segunda-feira, 13 de outubro de 2008
Atrocidades
Acendi a luz e ela já estava lá, imóvel, olhando para mim. Já estava esperando por isso, mas não naquele momento. Tanto que ficou um bocado zonza quando o clarão da lâmpada piscou pela primeira vez.
Não estava esperando por aquele encontro. Tentei fazer de conta que tinha sido tudo mentira, coisa da minha imaginação. Apaguei a luz, dei um passo para trás... voltei à frente e liguei o interruptor novamente. Queria estar bêbado e ter fantasiado aquele encontro, mas não: ela continuava ali.
Eu... eu não tinha medo dela. Seria idiota ter medo de algo tão insignificante. Era apenas... preguiça. Minha vida naqueles cinco minutos subseqüentes seria muito mais fácil se ela nunca tivesse existido. Nem ela e nem toda a sua prole.
Mas... ela estava lá, e era melhor enfrentá-la. Eu sabia que tinha algumas alternativas, só que nem todas funcionariam. Ou seriam fáceis. Era um trabalho... não complicado, mas no mínimo desagradável.
Eu poderia gritar alto falando para ela ir embora. Seria a forma mais ineficiente, eu sabia que deveria ser mais incisivo. Isso, mais enérgico. Violência física? Hum, também. Só que... e depois? Faria uma sujeira e tanto, sangue (ou seja lá o que for aquela coisa) espalhado por todo lugar. Não.
Acabaram me restando duas saídas opostas. A primeira, ignorá-la e me retirar. Sabia que ela se cansaria de ficar ali por muito tempo e logo em seguida iria embora – sabe-se lá para onde. Ou então... é, eu poderia... sim, cometer um... um... assassinato.
“Enérgico, lembra?”, pensei comigo mesmo. Escolhi a segunda opção. E eu sabia o que escolher para isso: morte lenta, a pior de todas. Ela ficaria desesperada, tonta, asfixiada... estrebucharia, agonizaria... tudo isso até chegar ao seu triste fim.
Abri o armário. Lá no fundo, peguei o frasco que seria mortal. Me aproximei e ela percebeu o que iria acontecer. Tentou se afastar lentamente, mas não conseguiu. Estava condenada.
Um leve esguicho e lá estava ela: tonta e desesperada, desesperada e asfixiada. Bateu com a cabeça na parede, começou a estrebuchar. Estava agonizando. Eu, assistindo a tudo isso, me deleitava. Na verdade era um misto de culpa e satisfação. Um deleite diferente.
Passaram-se cinco minutos e a agonia estava terminada. Ela, imóvel. Eu, com a ficha criminal suja. Mas com a casa limpa.
Baratas invadindo sua cozinha em uma noite quente não é uma coisa legal.
Não estava esperando por aquele encontro. Tentei fazer de conta que tinha sido tudo mentira, coisa da minha imaginação. Apaguei a luz, dei um passo para trás... voltei à frente e liguei o interruptor novamente. Queria estar bêbado e ter fantasiado aquele encontro, mas não: ela continuava ali.
Eu... eu não tinha medo dela. Seria idiota ter medo de algo tão insignificante. Era apenas... preguiça. Minha vida naqueles cinco minutos subseqüentes seria muito mais fácil se ela nunca tivesse existido. Nem ela e nem toda a sua prole.
Mas... ela estava lá, e era melhor enfrentá-la. Eu sabia que tinha algumas alternativas, só que nem todas funcionariam. Ou seriam fáceis. Era um trabalho... não complicado, mas no mínimo desagradável.
Eu poderia gritar alto falando para ela ir embora. Seria a forma mais ineficiente, eu sabia que deveria ser mais incisivo. Isso, mais enérgico. Violência física? Hum, também. Só que... e depois? Faria uma sujeira e tanto, sangue (ou seja lá o que for aquela coisa) espalhado por todo lugar. Não.
Acabaram me restando duas saídas opostas. A primeira, ignorá-la e me retirar. Sabia que ela se cansaria de ficar ali por muito tempo e logo em seguida iria embora – sabe-se lá para onde. Ou então... é, eu poderia... sim, cometer um... um... assassinato.
“Enérgico, lembra?”, pensei comigo mesmo. Escolhi a segunda opção. E eu sabia o que escolher para isso: morte lenta, a pior de todas. Ela ficaria desesperada, tonta, asfixiada... estrebucharia, agonizaria... tudo isso até chegar ao seu triste fim.
Abri o armário. Lá no fundo, peguei o frasco que seria mortal. Me aproximei e ela percebeu o que iria acontecer. Tentou se afastar lentamente, mas não conseguiu. Estava condenada.
Um leve esguicho e lá estava ela: tonta e desesperada, desesperada e asfixiada. Bateu com a cabeça na parede, começou a estrebuchar. Estava agonizando. Eu, assistindo a tudo isso, me deleitava. Na verdade era um misto de culpa e satisfação. Um deleite diferente.
Passaram-se cinco minutos e a agonia estava terminada. Ela, imóvel. Eu, com a ficha criminal suja. Mas com a casa limpa.
Baratas invadindo sua cozinha em uma noite quente não é uma coisa legal.
domingo, 12 de outubro de 2008
Cosmopolitan e uísque
A mesa era para dois. Ela puxou uma cadeira, colocou a blusa sobre o recosto e se sentou. Ele não quis se sentar à frente dela, com uma mesa de distância para ela; colocou sua cadeira quase que ao lado da garota.
O garçom ofereceu o cardápio. Ela nem olhou e pediu um cosmopolitan. Vodca, sucos de limão e morango... drink de mulher. Ele, fazendo pose uma perna pousada sobre a outra, convocou um uísque. “On the rocks”, explicou.
Enquanto o garçom saía com os pedidos, ele esticou o braço e o apoiou nas costas da cadeira da garota. Estava desconfortável, mas à espera de um sinal por parte dela. Ela notou, mas não teve reação. Nem pediu para que ele tirasse o braço, nem se apoiou firmemente na cadeira para ser abraçada... nada.
As bebidas chegaram. Bebiam enquanto conversavam efemeridades. Um virado para o outro, ele desconfortável com o braço na cadeira dela e ela impassível. Ficaram nessa situação de não-chove-e-não-molha por um bom tempo. Algumas horas. Pediram mais drinks – os mesmos –, e nada. Só saíram quando o garçom avisou que o bar ia fechar.
A conta veio, ele olhou o valor e tirou o cartão do bolso para pagar. Ela relutou, falou em dividir... ele não deixou, reiterou que bancaria. “Você já foi a minha companhia, tenho que compensar”. Ela ainda tentou um “mas você não precisa pagar pela minha companhia”, mas não adiantou.
Levantaram-se. Ele tropeçou na própria cadeira, mas conseguiu sair vivo do bar. Vivo, mas não abraçando a garota. E com um saldo bem menor na conta.
O garçom ofereceu o cardápio. Ela nem olhou e pediu um cosmopolitan. Vodca, sucos de limão e morango... drink de mulher. Ele, fazendo pose uma perna pousada sobre a outra, convocou um uísque. “On the rocks”, explicou.
Enquanto o garçom saía com os pedidos, ele esticou o braço e o apoiou nas costas da cadeira da garota. Estava desconfortável, mas à espera de um sinal por parte dela. Ela notou, mas não teve reação. Nem pediu para que ele tirasse o braço, nem se apoiou firmemente na cadeira para ser abraçada... nada.
As bebidas chegaram. Bebiam enquanto conversavam efemeridades. Um virado para o outro, ele desconfortável com o braço na cadeira dela e ela impassível. Ficaram nessa situação de não-chove-e-não-molha por um bom tempo. Algumas horas. Pediram mais drinks – os mesmos –, e nada. Só saíram quando o garçom avisou que o bar ia fechar.
A conta veio, ele olhou o valor e tirou o cartão do bolso para pagar. Ela relutou, falou em dividir... ele não deixou, reiterou que bancaria. “Você já foi a minha companhia, tenho que compensar”. Ela ainda tentou um “mas você não precisa pagar pela minha companhia”, mas não adiantou.
Levantaram-se. Ele tropeçou na própria cadeira, mas conseguiu sair vivo do bar. Vivo, mas não abraçando a garota. E com um saldo bem menor na conta.
quarta-feira, 8 de outubro de 2008
Cinza
O mundo não parava de girar. Fazia tempo que ele ouvira isso, ainda era uma criança quando aprendeu que a Terra estava sempre em movimento. Nunca tinha duvidado, até sentir muitos anos depois que... tudo tinha parado. Tudo, tudo mesmo.
Na verdade, não era bem assim. Nem tudo havia parado. As coisas ao seu redor se moviam de uma forma incrivelmente rápida. Apenas as coisas que o envolviam estavam... paradas. Religiosamente paradas. Caoticamente paradas. Sacalmente paradas. Insuportavelmente paradas. Uma calmaria terrível.
Até que... até que um dia acordou, já não era cedo. Era bem tarde, para falar a verdade. Saiu da cama, colocou uma calça e uma camiseta, ligou a televisão e se deixou cair sobre o sofá. A programação da televisão seguia a mesma toada da calmaria. Nada de espetacular àquela hora da manhã, perto do almoço.
Deu alguns passos, foi para a cozinha e não achou nada de interessante na geladeira. Olhou pela janela, viu um dia cinza. Cinza, nada atraente. Mas resolveu desafiar aquele dia de aparente marasmo, correu a porta e foi para a varanda. Sentiu um bafo quente bater em seu rosto e chacoalhar seus cabelos. Deu um sorriso.
Apoiou-se no parapeito e aspirou o ar fundo. Novo sorriso. Estranho como estava dando sorrisos assim, a esmo. Apalpou os bolsos, viu que ainda havia um cigarro solitário no maço já amassado - bem amassado. Caçou um isqueiro em um outro bolso, deu a primeira tragada. Acompanhou o desenrolar da fumaça no ar. Abriu as feições, já estava sorrindo descontroladamente.
De lá de cima, forçou os olhos e viu todos aqueles carros parados muitos andares abaixo. Freavam, paravam quando todos os semáforos se avermelhavam ao mesmo tempo. Voltavam a andar quando o verde piscava e lentamente desapareciam de vista. Os pedestres, nas calçadas, marchavam em um ritmo ainda mais calmo. Era uma calmaria generalizada.
Ele também percebeu que vivia uma calmaria naquele momento. Mas apenas naquele momento. Ficou tonto quando percebeu que, na verdade, tudo estava girando. Tinha voltado a girar com o resto do mundo. Não sorriu desta vez, mas gargalhou. Havia deixado a calmaria – temporariamente ou não; ele não se importava com o tempo.
Olhou mais uma vez para cima. O céu continuava acinzentado, aparentemente triste. Não para ele, que vivia aquele momento como se fosse o mais ensolarado dos dias. Lembrou das aulas de Literatura do colégio, que o ensinaram a cor-local. Ironizou a cor-local. Riu da cor-local.
Perguntava-se: quem disse que um dia nublado não pode ser estonteantemente bom?
Na verdade, não era bem assim. Nem tudo havia parado. As coisas ao seu redor se moviam de uma forma incrivelmente rápida. Apenas as coisas que o envolviam estavam... paradas. Religiosamente paradas. Caoticamente paradas. Sacalmente paradas. Insuportavelmente paradas. Uma calmaria terrível.
Até que... até que um dia acordou, já não era cedo. Era bem tarde, para falar a verdade. Saiu da cama, colocou uma calça e uma camiseta, ligou a televisão e se deixou cair sobre o sofá. A programação da televisão seguia a mesma toada da calmaria. Nada de espetacular àquela hora da manhã, perto do almoço.
Deu alguns passos, foi para a cozinha e não achou nada de interessante na geladeira. Olhou pela janela, viu um dia cinza. Cinza, nada atraente. Mas resolveu desafiar aquele dia de aparente marasmo, correu a porta e foi para a varanda. Sentiu um bafo quente bater em seu rosto e chacoalhar seus cabelos. Deu um sorriso.
Apoiou-se no parapeito e aspirou o ar fundo. Novo sorriso. Estranho como estava dando sorrisos assim, a esmo. Apalpou os bolsos, viu que ainda havia um cigarro solitário no maço já amassado - bem amassado. Caçou um isqueiro em um outro bolso, deu a primeira tragada. Acompanhou o desenrolar da fumaça no ar. Abriu as feições, já estava sorrindo descontroladamente.
De lá de cima, forçou os olhos e viu todos aqueles carros parados muitos andares abaixo. Freavam, paravam quando todos os semáforos se avermelhavam ao mesmo tempo. Voltavam a andar quando o verde piscava e lentamente desapareciam de vista. Os pedestres, nas calçadas, marchavam em um ritmo ainda mais calmo. Era uma calmaria generalizada.
Ele também percebeu que vivia uma calmaria naquele momento. Mas apenas naquele momento. Ficou tonto quando percebeu que, na verdade, tudo estava girando. Tinha voltado a girar com o resto do mundo. Não sorriu desta vez, mas gargalhou. Havia deixado a calmaria – temporariamente ou não; ele não se importava com o tempo.
Olhou mais uma vez para cima. O céu continuava acinzentado, aparentemente triste. Não para ele, que vivia aquele momento como se fosse o mais ensolarado dos dias. Lembrou das aulas de Literatura do colégio, que o ensinaram a cor-local. Ironizou a cor-local. Riu da cor-local.
Perguntava-se: quem disse que um dia nublado não pode ser estonteantemente bom?
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