sábado, 30 de agosto de 2008

Noite de sábado

Hoje é sábado. Está de noite. Já tem duas horas que passou da meia-noite e você continua aí, deitado no sofá de casa dividindo espaço com o cachorro. Está encolhido, para falar a verdade – o cachorro, folgado, dorme esparramado em uma das três almofadas, com a cabeça apoiada sobre suas canelas. Mesmo com cãibras você não pode se mexer, pois acordaria o coitado do bicho.

Mas o sono do mascote é o que menos te preocupa neste momento. Você está zapeando os canais em busca de algo interessante para assistir e tentar não se lembrar que ela está lá e você não. E não está porque... simplesmente não quis. Ela está lá fazendo sabe lá o que você está aí, fazendo simplesmente nada.

Hoje é a formatura dela. Ela te chamou para ir, disse que abriria mão de um dos convites da família para que você fosse. Mas você, anti-social, cuidadoso e até certo ponto medroso recusou. Era muita pressão, não saberia lidar com isso. Poderia pôr tudo a perder em uma noite. Poderia perder em uma noite aquilo que levou meses para conseguir.

Neste exato momento, considera-se um perfeito idiota por não ter ido. Poderia estar lá, bêbado, inventando passos de dança ao lado dela. Poderia estar sóbrio, vendo-a dançar já bêbada e se declarando e se insinuando para você a cada batida da música. Poderiam estar os dois sóbrios tentando conversar. Mas não. Você está aí, com cãibras nas pernas e passando frio no sofá (a janela da varanda ficou aberta, mas você não pode ir lá fechar porque acordaria o cachorro, lembra?).

Você está pensando nela, mas... será que ela está pensando em você? Será que enquanto se despede de todas as amigas com quem aprendeu a ser bacharel em direito (só vai ser advogada depois que passar na prova da OAB), ela sente sua falta? Será que vai beber um pouco mais e te ligar bêbada, dizendo que viu um cara igualzinho a você na formatura e achou que era você fazendo surpresa?

Você pensa um pouco nisso e começa a se preocupar: e se ela realmente encontrar um cara lá parecido com você, não resolver falar nada e já agarrar o cara achando que era você? Sua cabeça dói (não só pelas cervejas que tomou com os amigos durante o jogo de futebol no estádio naquela tarde, mas por medo). Seu coração dispara. Melhor não pensar.

Mas ao mesmo tempo algo lhe diz que fez bem em não ter ido. Era muito cedo para que você conhecesse a família dela. E se passasse uma impressão ruim? E se o padrinho dela bebesse além da conta e dissesse que não foi com a tua cara? E se a mãe dela perguntar o que você faz da vida e o pai dela não gostar da tua profissão? E se... e se a avó dela começasse a falar do ex-namorado dela e trocasse os nomes? E pior: e se o ex-namorado dela estiver lá?

Você vai ficar aí no sofá com um medo tremendo até conseguir, com muita sorte, pegar no sono. Então vai acordar no dia seguinte com ela te ligando já durante o Faustão dizendo que encheu a cara mesmo na festa e viu um cara lá parecido com você. Que foi até falar com ele, mas o cara jurou que não se chamava Leonardo, mas sim Guilherme. E que ela passou a noite inteira pensando em você.

E aí você vai perceber que acordou mesmo às 4 da manhã, ainda no sofá, e ver que sonhou com a ligação dela. E não vai conseguir dormir, com medo de o tal do Guilherme resolver se chamar Leonardo.

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Mentiras e contradições

Não faz muito tempo, admito que tomei um fora. A garota com quem estava saindo algumas semanas atrás de uma hora para outra, ou quase isso, resolveu terminar comigo. Mas não foi nada traumático, pelo contrário. Tive uma certa vontade de rir quando ela chegou para mim e disse, mais ou menos assim:

“Fê, você é um cara fora do comum e eu queria me dar uma chance para ficar com um cara legal que nem você. Poxa, você é querido, inteligente (?), engraçado (??), bonito (???) e não me arrependo de nada que aconteceu entre a gente. Só que eu percebi que a tua amizade é mais importante para mim do que o que estava acontecendo entre nós. Eu te considero um grande amigo e jamais quero perder o contato com você, sabe?”.

Parei alguns segundos para refletir e deixei escapar: “Humm... olha, eu até te entendo, fulana, mas... você parou pra pensar que antes de a gente se reaproximar nas últimas semanas fazia três anos que a gente não se via? Desculpe, mas eu não te considero minha amiga”. Pareceu meio grosso, embora não tenha sido essa a minha intenção.

“Ah, é que eu não me apaixonei por você e estava me sentindo mal com isso, sabe?”. Foi então que eu entendi qual era a dela, e me antecipei: “Olha, eu não estou apaixonado por você, viu? E... ah, confesso que estava até me sentindo mal comigo mesmo por não conseguir gostar de você, por mais que eu tentasse”.

“Ah, você não estava apaixonado por mim?”, perguntou, meio incrédula. “Nah”, respondi sinceramente. “Fico mais tranqüila assim. É que na verdade eu conheci um cara na minha viagem no final de semana e me apaixonei perdidamente por ele”, confessou. “Mas não queria perder contato com você de jeito nenhum”, continuou.

É claro que eu tinha uma superstição meio pessimista de que algo assim tinha acontecido (traumas pessoais sobre Campos do Jordão, vale um post especial daqui uns anos), e para mim foi até... ahn, melhor. Pelo menos não fui eu quem teve que terminar o que nem tinha começado, e isso me deixou aliviado. Só que... bom, não nos falamos mais desde então.

Mas no fundo essa conversa me fez perceber o quão é engraçado receber um fora de uma garota. Quer dizer... não, não é nada divertido (e eu já me deprimi muito outrora por alguns tocos recebidos), mas... é interessante ver como as garotas se sentem extremamente culpadas por falarem um não sob alguma desculpa-clichê.

Há uns três meses, deparei-me no metrô uma das minhas seis grandes ex-paixões dos últimos 20 anos. O encontro casual aconteceu na baldeação da linha verde para a azul, e pude perceber a fisionomia constrangida que tomou conta do rosto da garota, que hoje deve ter lá seus 18 anos (na época de minha paixão platônica eu tinha 17 anos e ela, 15). Sim, ela havia me reconhecido mesmo com barba e um cabelo... ahn, diferente.

Descemos praticamente juntos à plataforma de embarque. Eu, com as mãos nos bolsos, assobiando a música que tocava nos meus ouvidos. Ela, tentando fingir que não me via. Mas eu tinha uma vontade enorme de conversar com ela, saber o que estava fazendo da vida e até se estava namorando.

Chegamos à plataforma, e cada um foi para um lado. Teoricamente deveríamos ficar de costas um para o outro esperando nossos respectivos trens, mas ela continuou me olhando. Quando eu me virava para olhá-la, ela disfarçava e virava o rosto. Ficamos nesse empate por 0 a 0 bem engraçado durante uns cinco minutos, até que o trem dela chegou e ela foi embora. Ainda me olhando.

Fiquei bem curioso para falar com ela e perguntar sobre a tia que ela matou para não sair comigo em uma sexta-feira e da avó cujo fêmur ela quebrou para evitar um encontro comigo em um sábado. Claro que deixaria essas ironias apenas para os momentos finais, mas... ela não parecia estar nada à vontade perto de mim. Constrangida, essa é a palavra certa.

E é engraçado o fato de ela estar assim enquanto eu estava numa boa. Uma mentira de uma mulher pode retumbar muito mal para um homem, quando este descobre a verdade. Mas que é bem engraçado ver uma mulher constrangida por cair em contradição, isso é.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Auto-(des)conhecimento

Não sei me definir muito bem, mas quem sabe?

Não sei exatamente se sou tímido exagerado ou moderado. Se sou extrovertido nos momentos oportunos ou um cara que dá sorte quando tenta uma tirada de humor. Pra falar a verdade, também não sei se sou divertido ou um mala que banca o engraçadinho.

Outra coisa que eu não sei é se sou um cara meio sozinho ou que apenas gosta de passar grande parte do tempo consigo mesmo. E nem sei se sou um bom observador ou se dou sorte com alguma idéia que atormenta a minha cabeça.

Tsc. O que eu estou falando? Não sei nem dizer se sou ligeiramente depressivo ou se não sei aproveitar muito bem os momentos mais alegres. Às vezes fico em dúvida se sou um sonhador ou um inocente. Ou se sou pessimista ou azarado. Bah, não sei nem se me sinto melhor com ou sem barba.

Acho que tenho todas essas incertezas porque... sei lá, tenho uma facilidade enorme de mudar de humor em pouquíssimo tempo. Consigo ficar extremamente chateado e de péssimo humor por algum motivo idiota, me animar instantaneamente a ponto de quase explodir a troco de algo não lá muito significativo... e depois ver qualquer coisa que me deprime de novo. E deixar o ciclo se reiniciar. Todos os dias por mais 20 anos.

Esses ciclos são engraçados, até (seriam mais se não tivessem acontecido comigo, claro). Já houve uma vez em que consegui sair de uma das minhas fases mais obscuras e, em pouquíssimo tempo, viver talvez o momento mais empolgante até hoje. Também já consegui viver o feriado mais insano e intenso, que também se tornou o mais deprimente. Histórias.

Nos últimos momentos, também não soube se queria mesmo continuar escrevendo toda essa baboseira ou se isso estava realmente interessante. Sei lá, continuo até o próximo lapso.

Não sei por que diabos tenho uma intuição que às vezes me diz “não faça isso, idiota, vai ser melhor”. Mas eu não a ouço, banco o teimoso e... e acabo percebendo que tenho uma ótima intuição.

E então...

... e então eu me pergunto se sou mesmo um fracasso com o sexo feminino ou se apenas escolho as mulheres erradas.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Platônico

Vira-a mais detalhadamente pela primeira vez já tinha um certo tempo, alguns meses atrás. Era quase meia-noite quando ele deixava o trabalho e ia para um bar para ver o final do jogo e ela estava na porta do prédio esperando a carona. Só que no mesmo instante em que passava por trás dela o tal carro chegou, e ela entrou e cumprimentou o motorista com um beijo nos lábios.

Ele, que antes tinha visto a tal garota de relance algumas vezes pelos corredores do trabalho, passou a observá-la com mais atenção. Aquele negócio de que homem só dá valor a uma mulher quando a vê com um outro, sabe? Pois então.

Passaram-se alguns meses até que ele foi promovido no trabalho. Deixou de ser o estagiário que escrevia o horóscopo e assinou seu primeiro contrato profissional. Também deixaria os 12 símbolos do zodíaco para escrever reportagens sobre música (agora sim seria gente, ele pensava).

Com o novo cargo, abandonou o antigo computador branco com Windows 1998 e um mouse que não funcionava e assumiu um daqueles pretos de última geração, com monitor fino de tela plana e mouse ótico.

Mas a agilidade da nova máquina não foi o ponto máximo de sua promoção. E nem a conta no banco, que melhoraria um pouco a partir do próximo dia 5. O que ele mais gostou nessa história toda foi o fato de a sua nova baia ficar virada para o corredor. Não porque via o movimento e escapava da cegueira de final de tarde com o pôr do sol, e sim porque percebeu que trabalhava no mesmo andar que ela.

Inicialmente pensou que ela estava apenas visitando o andar. Vendo-a por uma semana inteira todos os dias, constatou que ela trabalhava na redação ao lado, na parte de crítica cinematográfica. Isso não era um bom sinal – ele entendia tanto de filmes como um homem solteiro sabe trocar uma fralda. E as semanas e os meses rolaram...

Ele começou a perceber algumas peculiaridades naquela garota, que não estamparia uma capa de revista de beleza (não era loira, não tinha olhos claros, não tinha um peitão siliconado ou algo do gênero). Achava-se um cara sortudo por causa disso – talvez a concorrência não fosse desleal. E a cada dia gostava mais e mais dos cabelos pretos e ensaiadamente desajeitados da menina. De sua pele clara, que deixava transparecer vez ou outra uma olheira sob os olhos castanhos. Além disso, ela se vestia de uma forma extremamente... estilosa? Era o que ele dizia.

Passou a imaginar qual seria o nome de sua admirada (não tão secretamente, pois ele gostava de dar uma olhada nos olhos dela quando ela passava à sua frente no corredor). Carla? Não, muito sério. Alessandra? Não, muito menininha. E se ela tivesse um nome exótico, do tipo... Jelena? Hum, ela tinha cara de ter um nome exótico, mesmo. Tentou arranjar um jeito de descobrir.

Não pensou em um plano mirabolante para descobrir o nome dela. Sabia que poderia tentar uma abordagem quando desse sorte e cruzasse com ela no elevador. Poderia tentar alguma palavra bem-humorada, arrancar um sorriso dela e iniciar uma conversa. Não se preocupou, sabia que tinha apenas de esperar.

Até que um dia, não demorou muito tempo, eles se encontraram. Ele tinha acabado de sair do elevador e ela, deixando a redação, saía para fazer a hora do almoço. Pensou em segurar o elevador, mas seria cavalheirismo demais visto que ela ainda passava pela porta. Começaram a andar um na direção do outro e ele pensou em falar um “boa tarde”, mas seria formal e velho demais.

De tanto pensar, percebeu que era melhor não falar nada. Orgulhoso, fingiu que não viu aquela linda garota que passava de óculos escuros e fone nos ouvidos ao seu lado. Tentou se fazer de difícil. E ela nem percebeu nada.

Ela, para falar a verdade, nem sabia da existência daquele colega de redação.

domingo, 24 de agosto de 2008

Rapidinhas olímpicas (Festa de encerramento)

Foram exatos 20 dias seguidos de expediente olímpico, com uma carga horária média de 7h30 por dia (50% a mais do que meu expediente normal, de 5 horas diárias). Foram em média 15 notícias por dia, cada uma com média de 1.500 caracteres cada. Vamos às contas.

No total, pode-se dizer que foram 150 horas de trabalho, 300 notícias e 450 mil caracteres (para se ter uma idéia, a minha faculdade exige que um livro-reportagem de Trabalho de Conclusão de Curso tenha, no mínimo, 150 mil caracteres). Esse número realmente me assustou – eu poderia ter escrito um livro, ou até dois.

Mas os números não são a melhor maneira de exemplificar o quão paranóico foi a cobertura dos Jogos Olímpicos de Pequim para a minha pessoa. Não fiz as contas, mas sinto que passei mais tempo trabalhando do que dormindo. Além disso, acaba ficando mais ou menos obrigado a escolher: sono ou almoço. Optava pelo sono, eram 30 minutos sagrados.

Tive pouquíssimas aparições sociais nesse meio-tempo. Em 20 dias, o máximo que consegui foram três horas totais de bar, um almoço com uma amiga, um jantar de aniversário de outra amiga e um ou outro compromisso de última hora. Deixei de responder muitos e-mails ou outras mensagens pessoais. Poderia me considerar em um mosteiro, se não trabalhasse em uma redação.

Em quase três semanas, aumentei consideravelmente a quantidade de café consumida. Necessário para ficar acordado. Minha alimentação foi sem dúvida para o beleléu com coisas rápidas compradas pela Paulista para não chegar (ainda mais) atrasado. Nos raros momentos de almoço ao pé da letra, vibrava comendo espinafre, brócolis ou alface.

Vida saudável não foi mesmo a minha máxima durante as Olimpíadas, mas consegui até bater umas raquetadas nesse período. Muito pouco, é claro. Acordar cedo? Bom, na maioria dos dias eu dormia com o sol raiando. Ok, vamos mudar de assunto – não quero comentar sobre as minhas olheiras.

Mas o pior mesmo nesse período foi o aspecto psicológico. Tive alterações homéricas de humor. Andei estressado. Cerca de 90% dos meus assuntos era esporte. Atendia o telefone pensando em falar o nome da empresa (e algumas vezes falando), trocava o nome de pessoas, confundia os dias da semana e de alguns eventos (quase todos eram Olimpíadas).

Só que nem tudo é motivo para reclamação. Pude curtir as madrugadas muito mais do que o normal (sempre tinha alguma coisa interessante para ver na televisão), aproveitei para entender um pouco mais de uma ou outra modalidade, vi alguns dos atletas que eu já havia entrevistado por aqui competindo com a nata do esporte mundial, fui entrevistado por um jornal chileno... e, em se tratando de blog, pude reeditar a fórmula das rapidinhas. Que cativou até novos leitores e leitoras para este espaço.

Mas acabou. Os Jogos Olímpicos de Pequim acabaram e só voltam dentro de quatro anos. Respirei aliviado quando vi a tocha olímpica se apagar, mas... mas como sempre acontece ao término de um grande evento, bateu até uma tristeza. Aquela coisa de fim de festa.

Bom... a tocha apagou lá em Pequim, mas apenas com este post encerro a série das rapidinhas olímpicas. Fórmula que deu certo e voltará dentro de algum tempo, com algum outro evento que valha a pena. Por ora, este blog retoma sua programação normal. Ufa!

(Últimas!!) Rapidinhas olímpicas:

Paranóia:
Percebi que tinha atingido o meu limite profissional quando passei uma tarde inteira tentando ligar para uma jogadora da seleção de vôlei que não foi convocada para Pequim. Ela não atendeu e eu, na tentativa de conseguir falar com ela, até mandei uma mensagem de celular tentando marcar a entrevista. Claro que não deu certo, né?

Amarelada?: Eu poderia falar que foi mais uma amarelada. Que foi azar. Que foi um fracasso, uma decepção, um vexame, uma pataquada. Que me fez perder preciosíssimas horas de sono. Mas... ah, por mais que eu queira, não tem como criticar a seleção brasileira masculina de vôlei, né? Os caras simplesmente ganharam tudo nos últimos oito anos, seria uma puta injustiça falar em fracasso.

Comparação: Posso não criticar, mas nada me impede de fazer um comentário. Bom, com certeza as pessoas aí conhecem o Murilo Endres, irmão do Gustavo. Uma vez fui a um jogo da seleção de vôlei aqui em São Paulo com uma amiga e ela não parava de falar que o cara era lindo, que o cara era sei lá o quê e blábláblá. Vendo o cara todos os dias na tevê recentemente, notei que o Murilo é quase o irmão gêmeo loiro do Boça. E percebi que entender o gosto feminino é uma missão quase que impossível.

Bônus: É incrível o que a Globo conseguiu. Após as competições, mais de 95% dos atletas que eu vi dando entrevista para os repórteres da Vênus Platinada bem que tentavam contornar, mas acabavam chorando em frente às câmeras após as várias investidas dos repórteres. A lista é grande, passando por Jade Barbosa (claro!), meninas do futebol, César Cielo, Maurren Maggi, judocas em geral, pessoal do vôlei praia, etc., etc., etc. Não há dúvidas de que eles devem ganhar pelo menos umas 500 pratas por cada lágrima derramada em rede nacional.

O último choro: Essa insistência dos repórteres da Globo atingiu seu ápice de inconveniência com o Marcelinho, levantador da seleção de vôlei. O cara já tinha perdido o jogo, já estava se matando para não abrir o berreiro na televisão... até ensaiou algumas palavras de explicação para todo o Brasil e depois pediu para o repórter falar com o Gustavo, que também estava lá. “Marcelinho, a sua família está ao vivo assistindo a você”. O cara, que virou pai e ainda não viu o filho, não conseguiu mais segurar. Agora me diz: pra que fazer isso?

Direitos autorais: Imagino que a maioria dos vídeos que foram linkados aqui durante esse período rapidinhas olímpicas já foi retirada do ar no YouTube. Por causa dos direitos de transmissão dos Jogos, os trechos eram bloqueados pelo site cerca de dois dias após irem ao ar. Não precisava, hunf.

Escola eslava: Quando o Brasil perdeu o Pré-olímpico das Américas de basquete masculino e ficou fora de Pequim, o Oscar Schmidt falou aos quatro ventos que a nossa seleção tinha que seguir a escola eslava de basquete. Na hora não questionei – era a opinião de um monstro sagrado na bola-na-cesta, não? Mas os dois países eslavos nas Olimpíadas não tiveram muito sucesso: a Rússia ficou pela primeira fase e a Croácia caiu nas quartas-de-final. Será que a gente ainda tem que seguir um padrão perdedor? Já que não temos o modelo brasileiro de basquete (ufa!), não seria mais fácil seguir o modelo vencedor de Estados Unidos, Espanha ou Argentina?

Raios, duas vezes, mesmos lugares...: No ano passado, quando o Brasil ficou por umas duas horas à frente de Cuba no quadro de medalhas do Pan-americano do Rio de Janeiro, até dei um print screen do quadro de medalhas (imagem que jaz no arquivo-morto do meu computador falecido) achando que jamais veria algo semelhante. Um ano depois, não é que o esporte verde-amarelo (mais amarelo do que verde) conseguiu, e com cinco postos de vantagem (ficamos no 23º lugar, enquanto os atletas ex-Fidel terminaram na 28ª colocação)? Claro que não é lá tão mérito nosso, mas sim demérito cos caribenhos. Ainda assim, um quadro de medalhas histórico.

Futuro: Não é preciso ser gênio para saber. Modalidades como vela (sobretudo classes como RS:X e 470), taekwondo, salto em distância, salto com vara, judô, taekwondo e até mesmo a ginástica artística e o futebol feminino só serão lembradas dentro de três anos, com os Jogos Pan-americanos. Alguém duvida?

sábado, 23 de agosto de 2008

Rapidinhas olímpicas (Quase)

O estresse aumenta à medida que o fim das Olimpíadas se aproxima.

Resta saber o que termina antes: a minha paciência ou os Jogos de Pequim.

Não sei, ainda não sei. Amanhã eu respondo.

Rapidinhas olímpicas, apenas por obrigação:

Corujinha: Começou no bar, depois da aula. Estava pagando a conta quando a Natália Falavigna disputou sua primeira luta. Comecei a discorrer com uns amigos da sala sobre o quanto a Natália era educada, simpática, tinha um sorriso legal, era linda e... tinha o mesmo tamanho que eu. O cara que bebia sozinho no balcão, olhou para mim e deu um sorrisinho, do tipo “putz, ela é baixinha”. Fingi que não vi.

Coruja: Continuou em casa, na madrugada. A Natália pisou no tatame lá pelas 4 da manhã e eu fiquei acordado para ver a minha ídolo olímpico ganhar mais uma vez e entrar na disputa de uma medalha. Acho que não tenho lá uma personalidade muito forte: basta eu entrevistar um atleta simpático para que eu comece a torcer por ele.

Corujão: O dia estava clareando lá fora quando a Natália foi lutar nas semifinais contra uma nipo-nórdica (na verdade, sul-coreana que defendia a Noruega). Empate nos três rounds normais, na prorrogação... e aí os árbitros decidiram pela vitória da adversária, que foi mais ofensiva durante o combate. Todo mundo já esperava isso, uma vez que a brasileira apenas lutava no contra-ataque... menos o comentarista da Globo, que dizia que a Natália tinha sido superior o combate inteiro. Fui dormir. Chateado, mas fui dormir. E nem vi a luta em que a Natália ganhou o bronze.

Desamarelada Virada: E não é que a seleção feminina de vôlei cravou a medalha de ouro? Depois de protagonizarem a maior amarelada brasileira da história em Atenas-2004 (perdeu oito match points na semifinal contra a Rússia), as meninas do Zé Roberto fizeram bonito e ganharam bem dos Estados Unidos. Um time que aprendeu a desamarelar. E que provou a importância de um trabalho psicológico com atletas brasileiros (com jornalistas esportivos também seria interessante esse trabalho em um momento como este).

Comentários: Levantadora da equipe de 2004, a Fernanda Venturini saiu de Atenas dizendo “Se quem estava virando as bolas no jogo não conseguiu definir, que culpa eu tenho?” e “Talvez se eu tivesse seguido minha intuição e virado uma bola de segunda, a história tivesse sido outra”. Hoje, depois do ouro, a Fernanda recebeu em seu blog uma série de comentários, ahn, nada amistosos. Dentre eles, o mais engraçado é o “Vai lavar roupa, sua cara de trouxa”. Haha.

Espírito olímpico: Você treina a sua vida inteira. Passa quatro anos enclausurado com apenas uma idéia fixa em mente: conseguir uma medalha olímpica. Vence as duas primeiras lutas, acaba perdendo uma e vai lá disputar o bronze. Leva vantagem e fica a 7s da vitória, quando resolve dar uma catimbada para esfriar o clima. Aí vacila, não vê o tempo do atendimento médico terminar e é declarado perdedor. Perde a luta. Perde a medalha. Perde a viagem para o outro lado do mundo. Perde tudo, inclusive a cabeça. Foi o que aconteceu com o taekwondista cubano Angel Matos. Não que isso justifique a cagada que ele fez hoje, mas... sei lá, vai entender...

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Rapidinhas olímpicas (29/12, 20 meses depois)

Era 29 de dezembro de 2006 quando eu fiz a minha primeira pauta externa, para cobrir a São Silvestrinha – evento da casa, sabe como é. Mas estava em êxtase, um pouco nervoso e vislumbrado com a possibilidade de ganhar copinhos d’água à vontade.

No meio do evento, apareceu por lá no Ginásio do Ibirapuera uma mulher magrela, meio feiosa, com canelas de sabiá. Apertei os olhos por trás do óculos e reconheci: era a Maurren Maggi, campeã dos Jogos de Winnipeg-1999, mas que ficou de fora dos Jogos de Atenas-2004 por causa de doping.

Tinha ouvido falar que a Maurren estava voltando a competir depois da suspensão de dois anos, poderia entrevistá-la e tal. Tremi, confesso. Minhas pernas bambearam levemente, meu coração teve um sobressalto... um misto de ansiedade, timidez e muitas outras coisas. Sensação semelhante àquela de tomar a iniciativa fatal para dar o primeiro beijo em uma garota.

Depois de muito ensaiar algumas perguntas, fui falar com a Maurren. Não lembro exatamente as perguntas que fiz, mas aposto que tive um desempenho péssimo na entrevista. Mas, durante a conversa, ela disse uma coisa legal: “Vou brigar por medalha”, respondendo à minha pergunta mal-formulada sobre as suas expectativas no Pan do Rio, que aconteceriam dali a oito meses. É claro que duvidei, mas nem por isso deixei de cravar a frase na manchete.

(Nota da redação: fui vasculhar a tal notícia de quase dois anos atrás do site. Incrível como eu consigo ter vergonha de quase tudo o que eu escrevi dois anos atrás – o que me faz perguntar como diabos eu consegui o emprego)

Seja lá como for, a Maurren calou a minha boca quando faturou o ouro no Pan do Rio. Depois, conseguiu a vaga para os Jogos Olímpicos de Pequim e eu não apostava em nada além do que... sei lá, uma participação de sexto lugar da brasileira.

E minha boca foi calada mais uma vez. Depois de um dia decepcionante, não é que ela conseguiu colocar um pouco de brilho no amarelo e faturou um inédito ouro para o atletismo brasileiro feminino? Estava meio acordado e meio dormindo quando ouvi a Maurren pular 7,04m. Só acordei de vez quando a jamaicana foi fazer seu salto – três antes de a brasileira ratificar o título olímpico.

Por mais que eu não acreditasse (e quase ninguém, para falar a verdade), a Maurren Maggi ganhou a segunda medalha de ouro do Brasil em Pequim. Ela, a primeira atleta que eu entrevistei pessoalmente na minha curta carreira. Ela, que não respondeu atravessado para o estagiário que tinha três semanas de trabalho. Ela, que me prometeu ganhar medalha no Pan e conseguiu ainda mais. Um feito notável, mas que não escapará das famigeradas, maldosas, repetitivas e nada rápidas rapidinhas olímpicas, que vêm a seguir.

Rapidinhas olímpicas:

Decepção infantil: Tem coisa mais triste do que decepcionar seus filhos? Não sou a pessoa mais cotada para responder a essa pergunta porque nunca tive filhos (creio eu), mas tentei me colocar no lugar da Maurren. Confirmada a medalha de ouro do Brasil, lá estava a onipresente Globo para entrevistar a campeã, com link ao vivo de casa. E lá estava a Sofia, filhinha da Maurren, que pegou o microfone para conversar com a mamãe e... reclamou: “Mamãe, eu queria a de prata. E agora?”, reclamou a menininha. Tadinha... tão novinha e já incorporando o espírito olímpico loser realista brasileiro.

Lengalenga ao vivo: Na mesma conversa entre Maurren Higa Maggi e Sofia, uma cena impagável. Mãe e filha quase começaram uma ferrenha discussão por causa de um assunto curioso: quem amava mais quem. “Te amo, mamãe”, disse a Sofia. “Filha, a mamãe te ama muito”, respondeu a mãe de ouro. “Eu te amo bastante, mamãe”. “Não, filha, a mamãe te ama mais”, treplicou a Maurren, subindo o tom da voz em meio tom. Isso ao vivo, para todo o Brasil. Parecia aquele papo de namoradinhos terminando uma conversa no telefone: “Desliga você”. “Não, desliga você”. “Desliga você, vai”. “Eu não vou desligar”. “Então os dois desligam juntos”. “Tá”. “No três”. “Um, dois... três”. “Ah, você não desligou?”. “Não consegui”. “Tá, agora eu desligo”. “Tá”. “Não consigo, desliga você”. Até que chega uma boa alma, puxa o fio do telefone da tomada e deixa os dois pombinhos falando sozinhos: “Alô? Alô?”

Galvão, o mestre: A Maurren Maggi conseguiu algo que eu deveria ter feito quando ganhei minha medalha de ouro no xadrez por equipes na Oliarqui-1999: um discurso. E o ponto máximo de sua oratória foi quando agradeceu ao apoio recebido por ele: o mestre, o gênio, o inquestionável, o único, o incólume, o onipresente, o onipontente e o nada onisciente Galvão “é ouro, é ouro, é ouro, é ouro, é ouro, é ouro” Bueno. Quando eu ganhar mais uma medalha de ouro por aí (tipo nunca), prometo incluir no meu discurso o Galvão e, claro, o Silvio Luiz.

Espírito brasileiro: Se eu escolhesse uma modalidade para representar o maior fracasso brasileiro nas Olimpíadas, por certo que minha opção seriam os saltos ornamentais. Depois de César Castro (oitavo do Mundial) pipocar e terminar em 23º, Juliana Veloso cair que nem um saco de batata na água e admitir que tem medo de altura, desta vez foi o Cassius Duran, ficar em 24º da plataforma e dizer que saiu feliz com o resultado. Ele, o atleta que no ano passado brigou e fez birra com a Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos (CBDA) para competir em todas as provas do Pan e não conseguir nada além de um sétimo lugar em todas, mostrou que não é apenas a Juliana Veloso que tem o perfil fracassado otimista da equipe.

Surreal: Deixando as palhaçadas de lado, vi ontem uma cena que me deixaria emocionado se não estivesse com a cabeça tão atordoada por causa de Pequim-2008. Eram os instantes finais da prova de 50 km da marcha atlética, com o italiano Alex Schwarzer entrando no Estádio Olímpico após rebolar sob um sol de mais de 30º durante nada menos do que 50 mil metros. Fiquei imaginando a sensação de passar por um sacrifício desses, entrar na pista de atletismo, ser aplaudido por mais de 70 mil pessoas e ser visto pelo mundo inteiro. Claro que o italiano não resistiu e caiu no choro assim que entrou no estádio. O mais bonito foi ver que ele dedicou a medalha para o avô, que tinha morrido um mês antes.

Tititi-lelelê: Estava já além do horário na redação quando o telefone toca na mesa do chefe. Depois de uns sete toques e ninguém atender (o chefe já tinha ido embora), levantei correndo para atender o telefone: “Gazeta”. “Caceta?”. “Humm.. sí, Gazeta”. “Hola, yo soy _____, de periódico ____, de Chile (leia: Tilê). Con quien yo puedo hablar sobre Juegos Olimpicos?”, “Yo puedo hablar, señor”, “Oh, perfecto. Yo estoy haciendo un reportaje especial con periodistas de los mejores vehículos deportivos del mundo sobre quien fue lo mejor deportista de Pekín: Usain Bolt o Michel Phelps?”. “Uh, pregunta difícil, no? Yo tengo que pensar, un minutito…”. Pensei rapidamente, fiz um balanço rápido e iniciei ali um discurso em cima do muro, mas acabei escolhendo o Phelps, óbvio. O cara do outro lado da linha e do outro lado das fronteiras argentinas, bem simpático, perguntou meu nome para colocar na matéria. “Felipe Held – ache, e, ele, de”, soletrei. “Por sinal, señor, hay un tenista de Chile con lo mismo nombre que yo, haha”. O cara, no entanto, não se importou com meu xará chileno. Tudo bem, vai. Mas amanhã o nome do ex-tenista chileno Felipe Held vai ganhar lá seu espaço na mídia chilena.