terça-feira, 31 de julho de 2007
Carta para o futuro
É uma pena que você não leia tudo o que escrevo agora. Gostaria que você soubesse o quanto vou gostar de você. E quantas vezes irei dormir pensando em você, em quantos sonhos a sua imagem aparecerá para mim... mais do que isso, talvez seria interessante se um dia eu te contasse isso. Quem sabe um dia, quando você já estiver casada e com três filhos (um deles terá o nome do seu marido).
Ainda não sei do desgosto que vou nutrir por você nos dias que sucederão à decepção que vou ter com você. Para falar a verdade, escrevo sem tê-lo em mente. A única coisa que move minha caneta é a imagem do seu sorriso tímido, que vai ser o meu porto seguro durante algumas semanas.
Também não passou pela minha cabeça que me apaixonarei e desapaixonarei por você sem ter-lhe tido em meus braços. Pensarei platonicamente em você sem jamais ter beijado seus lábios e sem ter segurado as suas mãos. As suas mãos pequenas, de dedos curtos, frágeis, que arrumam seu cabelo de mechas claras e brilhantes.
Escrevo sem saber que derramarei algumas lágrimas por você. Vou me lembrar de você em um sábado, depois de assistir a um filme sozinho em uma sessão noturna de cinema, de jantar em uma mesa vazia de um restaurante japonês e de tomar uma taça de vinho em um bar, ao lado de vários casais de namorados. Meus lábios ficarão trêmulos, meus olhos ficarão marejados e a primeira gota rolará pelo meu rosto quando estiver dirigindo, voltando para casa, e alguma música um pouco mais lenta irá tocar no som do meu carro. Mas ninguém verá, porque já será de madrugada e as ruas também estarão vazias.
Não cogitei a hipótese de perder algumas horas pensando em uma poesia singela e boba para lhe dar quando comemorarmos nosso primeiro mês de namoro. Não sei que um dia vou sonhar em passar nosso aniversário de um ano de namoro em um bar em Praga, antes de sentarmos à beira do Rio Vltava, com a visão do Castelo de Praga ao fundo. Mas não me importaria com a belíssima paisagem tcheca. Minha vontade era passar com a cabeça apoiada no seu colo quente, olhando para o seu rosto de baixo para cima e contemplando o seu sorriso.
E o pior é que também não imagino que um dia vou querer fingir que você não existiu para mim. Daqui um ano, iremos nos encontrar todos os dias e sequer nos cumprimentaremos. Sei que não. No máximo, darei um sorriso para responder ao seu oi quando nos virmos em algum corredor.
Só que não quero pensar em nada disso hoje.
Por ora, quero apenas te conhecer logo e imaginar como seria perfeito andar por um país sem conseguir me comunicar com mais ninguém, apenas você. Que me fará sorrir, se não pelo resto de nossos dias, pelo menos durante algumas semanas.
domingo, 29 de julho de 2007
V de vingança
Simplesmente abrir os olhos no meio da madrugada com um cobertor já jogado no chão, olhar para a janela e se lamentar pela noite de sono ter sido tão curta, mas já se preparar para um dia longo e cansativo.
E logo em seguida encontrar o painel luminoso do rádio relógio e ver que ainda são 3h30 da manhã. E que, por mais que você já tenha se preparado psicologicamente para o dia que vem a seguir, ainda pode ter mais três horas de sono. E até mais quentes do que antes, porque pode pegar o cobertor caído e juntá-lo aos outros dois que já estão sobre a cama.
Sempre gostei quando isso acontecia, desde pequeno. O único problema é que as tais três horas passam rápido, e o despertador dispara com tudo no horário de sempre. E não se pode fazer nada, a não ser levantar e ir para o tal dia.
Hoje, no entanto, foi diferente.
Não acordei no meio da noite. Só fui despertado às 6h27, com o tal alarme embalado como sempre.
Ouvi o barulho e abri os olhos. Olhei pela janela, levantei da minha cama, atravessei o quarto e, no meio do caminho, lembrei de uma coisa: depois de três semanas de trabalho em um ritmo alucinante, estava de folga.
Cheguei em frente ao despertador, deixei escapar um sorriso e enchi a boca para sussurrar para o carrasco de todos os meus sonhos: “Ih, hoje não. Se fodeu”.
E voltei a dormir.
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Rapidinhas do Pan
Porta-bandeira amarelo: Para quem achava que o último dia do Pan não teria nada de bizarro, tudo começou cedinho, na prova da maratona masculina – que, a meu ver, era ouro certo para o Vanderlei Cordeiro de Lima. Primeiro da delegação verde e amarela na cerimônia de abertura, o nosso porta-bandeira que se dá ao direito de beijar a Miss Brasil em frente às câmeras não poderia desonrar seus compatriotas e deu uma bela amarelada, desistindo da prova antes do fim.
Mau exemplo: O Franck ‘canelas-de-sabiá’ Caldeira deu um show na maratona, ao contrário do compatriota. O mineiro que se equilibra sobre duas varetas foi buscar no finalzinho a diferença de quase 300 metros que o fortíssimo guatemalteco Amado Não-lembro-quem ampliava gradativamente. No entanto, uma cena feia: o nosso campeão tomava água e jogava o lixo no chão. E em rede nacional! Se fosse um cara consciente, deveria sair de casa com um saquinho plástico, e... parei.
Calando a boca: E deu Flávio Saretta na final do tênis, contra tudo, contra todos e contra o próprio desempenho pessoal. O barbudinho bem que tentou, mas não foi bom o bastante para ser mais um amarelo no Pan. Ele fez de tudo para perder, mas conseguiu subir no degrau mais alto do pódio, calando a boca de muitos críticos. Inclusive a minha, que sempre fez comentários maldosos quando o glorioso tenista perdia na primeira rodada de um challenger qualquer.
Quase Deus, parte 1: Uma coisa que eu reparei ao longo dos Jogos foi a onipresença do Galvão Bueno nos eventos. O cara tava em todas, era impressionante. O jogo de vôlei terminava por volta da meia-noite e, depois de uns 150 ‘Giba neeeeeeeeeeles’, logo às 8h do dia seguinte, lá estava o gênio da crônica esportiva pronto para narrar o futsal. Isso sem falar na transmissão da Copa América. Parecia um estagiário.
Quase Deus, parte 2: Hoje, enquanto assistia à final do basquete, percebi a onipotência do Galvão Bueno. Em menos de dez minutos de transmissão, ele fez com que o Rodrigo Santoro fosse disputar a final do hipismo e o Flávio Saretta estivesse na briga por uma medalha no vôlei. Ele pode tudo! Até fazer com que Oscar e Hortência concordem com tal afirmação. Para virar Deus de verdade, só faltou a onisciência...
Férias para o Galvão: Por essas e outras, o Galvão Bueno deveria descansar um pouco e ganhar pelo menos uns dois meses de folga. Ou isso ou estaremos fadados a ouvir fantásticos comentários como “o cérebro é um queijo pastoso em uma caixa de madeira”, ou “a banana é rica em cálcio”. Isso sem falar que o nosso digníssimo amigo da Rede Globo pode se tornar barraqueiro.
Aprendendo na marra: A cerimônia de encerramento seguia o protocolo de uma festa xoxa e triste até que entrou em ação o Mário Vasquez, presidente da Organização Desportiva Pan-americana (Odepa). Na abertura, o gringo causou uma das cenas mais bizarras do Pan ao de pronunciar em espanhol e constatar que carioca não sabe nada de castelhano ao dizer hoje (hoy) e ser cumprimentado hospitaleiramente pelo povo do Rio. Hoje, no entanto, o mexicano iniciou seu discurso saldando a galera do Maracanã com um simpático “Ooooi” e caindo na gargalhada. Logo em seguida, quando precisou se referir ao dia presente, não hesitou: “Hojeeee”. E a festa de encerramento ficou engraçada.
sábado, 28 de julho de 2007
Tentativa de assalto
Depois de comer algo nem um pouco saudável e sair da lanchonete, coloquei a mão no bolso para pegar os fones de ouvido e fazer a volta para casa com trilha sonora. Assim que tiro os fiozinhos brancos do bolso, ouço dois passos rápidos e mais três no mesmo ritmo que o meu.
“Ei”, ouvi. Decidi fingir que não era comigo, até porque meu nome começa com F... Não deveria ser alguém íntimo me chamando por algum apelido que eu ainda não conheço.
“Ow, ow, ow”, ouvi novamente. Continuei andando e decidi me fazer de difícil. Mas, claro, já estava pensando em tudo o que falar para o meliante. Já tava tudo ensaiado na cabeça:
- Não, cara, não tenho nada.
- Tava trabalhando, cara, tô voltando pra casa.
- Se eu sou playboy, não deveria estar trabalhando em um sábado desde as 8 da matina. E nesse frio!
- Onde eu trabalho? Eu sou estagiário, cara.
- Celular? Pô, mas esse tá uma merda. Nem crédito ele tem!
- Ah, esse ipod... eh, mas... aaahh... eh...
Aí ele ia pedir para ver o que eu tinha na mochila e não ia encontrar muita coisa, a não ser uma caneta, uma caixa de óculos sem óculos, o tal livro do Harry Potter, e um outro que eu troquei com um hare krishna por todas as oito moedas de R$ 0,10 que eu tinha no meu bolso há umas duas semanas. Não ia ler, mas também não joguei fora porque alguma personalidade da religião pode se voltar contra mim e me amaldiçoar para sempre.
Voltando...
“Aí, caralho, pára agora. E vira pra cá!”. Agora sim era comigo. Decidi me virar e me surpreendi por não encontrar nenhum trombadinha a meu encalço. Vi apenas dois polícias que haviam invadido a calçada com suas motos e que apontavam cada um uma arma (que, aliás, pareciam aquelas de pressão) para um cara de toca.
“Mão na cabeça, porra! Aí, eu mandei colocar a mão na cabeça”. Comecei a fazer o movimento para colocar a mão na cabeça, lentamente, como eu via nos filmes da tevê. Até que um dos oficiais percebeu o que eu estava fazendo e rapidamente esclareceu: “Não, você não! Você vai embora. Tu num viu que ele ia te roubar não?”.
Preferi não responder. O sorriso amarelo do meliante, que me olhava com um misto de ‘dessa vez você deu sorte’ e ‘ainda te pego, fidaputa’, respondia tudo. Coloquei rapidamente os fones de volta no meu bolso, dei as costas para a cena e fui para o metrô, mantendo o ritmo dos passos.
E só na estação eu decidi fazer com que a minha vida tivesse trilha sonora.
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Rapidinhas do Pan (com videocassetadas)
A canoa virou: A última prova de canoagem velocidade do Rio-2007 era o K2 500m para mulheres. Em ação, Naiane Pereira e Ariela Pinto, que tinham a incumbência de se tornarem as primeiras mulheres brasileiras da história a subir ao pódio em um Pan. A largada foi dada e os caiaques de Canadá, Cuba, Venezuela, entre outros, disparam na Lagoa Rodrigo de Freitas. O verde e amarelo não sai do lugar. Mas é errado dizer que a embarcação não se mexeu: ela tombou, jogando as representantes nacionais na água. Depois da bizarrice, o técnico explicou: “A pressão atrapalhou”. Em tese, foi (mais) uma amarelada da delegação brasileira.
Cama elástica 1: Acompanhei o resultado das provas do trampolim acrobático pelo site do Rio-2007, mas achei estranho o fato de a brasileira Bruna Garambone não ter recebido mais do que a nota 0,8 (em uma escala que vai até 10, que fique claro). O Sportv começou a passar a reprise. Foram quatro saltos: um parafuso esticado, uma pirueta e meia com frescura da comentarista, um duplo mortal para frente e uma pataquada com aterrissada de cabeça. Depois de parecer uma bêbada na cama elástica, a última posição.
Cama elástica 2: A mesma nota baixa da Bruna Garambone esteve presente com outro brazuca: Rafael Andrade. E ele conseguiu imitar direitinho o feito da compatriota. Depois de três saltos até que bem executados, uma pisadela no quiabo com quique de bunda. Apresentação abortada e último lugar.
Tem um limite: Para não parecer que eu só falo mal dos atletas brasileiros, vai uma cassetada de um uruguaio. Na semifinal do basquete, o Taboada foi em busca de uma bola perdida na lateral da quadra, mas se esqueceu de frear. Resultado: atropelou a placa de proteção lateral e tombou junto com o aparelho, ficando em uma posição não muito digna com a retaguarda ao vento. Só não entendi por que o Cléber Machado falou que a torcida da Arena Olímpica aplaudiu o esforço do uruguaio sendo que todo mundo tava dando risada.
China no quadro de medalhas: E quem disse que a China ficou de fora dos Jogos Pan-americanos? Depois de hoje, com a final individual do tênis de mesa, a constatação que a maior população do mundo tem condições sim de garimpar medalhas em solo americano. Após o mais do que emocionante duelo entre Lin Ju e Liu Song (quase xarás), ouro para o primeiro, que recebeu o patrocínio da República Dominicana e impôs mais uma derrota à Argentina (que havia aliciado o Liu). Um dia antes, houve a final do feminino entre Jun Gao e Xue Wu. Depois da dupla dobradinha, o país oriental chegou a duas medalhas de ouro e outras duas de prata, disparando no quadro de medalhas, assumindo a 15ª posição e ultrapassando potências esportivas como Antilhas Holandesas, Ilhas Cayman, Barbados, São Vicente & Granadina e Nicarágua. Fraaaancamente...
sexta-feira, 27 de julho de 2007
Metrô também é cultura
Antes, os ensinamentos eram de que os bancos de cor cinza são de uso preferencial (Respeite esse direito!).
Em seguida, foi pedido à população para que, ao toque da campainha, não entre nem saia do trem.
Na hora do rush, a lição de casa é fazer com que os passageiros não segurem as portas do trem (Isso provoca atraso em todos os trens).
Os usuários do coletivo subterrâneo também já foram informados de que pedir esmolas e o comércio ambulante nos trens são práticas ilegais (não incentive essas ações).
Um dos mais conhecidos é o pedido para que os passageiros não ultrapassem a faixa amarela. A súplica mais clássica, no entanto, é para que, mesmo em caso de emergência, o civil não desça à via de maneira alguma.
Hoje, o metrô escreveu mais um capítulo nessa história tão bonita que é a conscientização popular, ensinando pouco a pouco o cidadão a usar o transporte público. Pelo menos em uma das escadas rolantes da Estação Jabaquara, havia um manual de instruções para o uso da escada rolante.
Sem muito o que fazer, comecei a prestar atenção nos dizeres, escritos em adesivos colados ao longo daquela parte metálica ao lado do corrimão. Ao ler, tive a inteira certeza de que eu não sei andar de escada rolante.
Claro que não me lembro de todos os adesivos, mas destaco os que me chamaram a atenção. A começar pelo tradicional ‘mantenha-se à direita, deixe a esquerda livre pela circulação’. Ponto para o criador dessa idéia, que colou os adesivos do lado direito da escada.
Em seguida, ‘mantenha os pés longe das bordas’. Passando por ‘os adultos devem andar de mãos dadas com as crianças’ e ‘não sente nos degraus’. Até aí a minha nota era dez. Até aí.
Comecei a perder pontos no ‘segure-se no corrimão’, e minha média começou a ficar vermelha no ‘não corra’. Sinto que terminei com a nota bem baixa no teste da escada rolante quando acabaram os adesivos. Tinha um lembrete até para que o usuário tomasse cuidado com a roupa durante o trajeto. Nunca tinha prestado atenção nisso.
Antes, andar de escada rolante era mais simples. Da primeira vez que andei em uma com o meu pai, em meados da década de 1990, recebi a única instrução que lembro até hoje: ‘Dê um passo firme, olhe onde você vai pisar e espere o trajeto chegar ao final. Na hora de sair, mais um passo firme. Cuidado, essa é a parte mais difícil’. E não é que nunca falhou?
Claro, durante um tempo tive a minha fase X-treme na escada rolante. Na época do colegial, o mais bacana eram os campeonatos de butt-rail. A pista mais emocionante era na Estação Consolação; a da morte, na Vila Madalena.
Veeelhos tempos!
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Rapidinhas
Uma vida mais feliz: Não faz muitos dias, decidi tomar uma atitude drástica para mudar a minha vida: tirei o Insert do meu teclado e coloquei um esparadrapo tampando o vão do maldito botão. Desde então, tenho sonhos mais agradáveis, ando menos estressado e meu cabelo parou de cair.
Vacilo: De uns anos para cá, a ESPN Brasil vem dando um show de jornalismo esportivo, apesar de não ter nem de perto a verba e a influência que a Globosat, do Sportv. Às vezes há algumas derrapadas, e uma delas aconteceu há alguns instantes. O Pedro Lima conseguiu a primeira medalha pan-americana de ouro do boxe brasileiro dos últimos 44 anos. Logo depois, o pugilista apareceu na redação da emissora instalada na Vila do Pan. Depois das perguntas de praxe, o Dudu Monsanto preparou uma surpresa para o grande campeão: "A sua namorada Jacigleide (!) está na linha, Peu, o que você tem a falar para ela?". Começou. Peu e a gloriosa Dinha (ah, se não fossem os apelidos!) trocaram juras de amor. O auge foi quando o medalhista disse "Meu amor, nada vai mudar entre a gente depois dessa medalha. Você sabe onde eu tenho aquela tatuagem pra você, naquele lugar que eu não posso mostrar na tevê". Ai, Jesus!
Limbo: Aproveitando o gancho da medalha de ouro, lembra o Hudson de Souza, aquele de quem ninguém se lembrava? Então. Anteontem, ele ganhou mais uma dourada nos 1.500m livres masculino. Não sei quanto o restante dos locutores, mas pelo menos os que narraram nas duas emissoras que eu vi simultaneamente (Band Sports e ESPN) custaram a se lembrar que havia sido o bicampeonato da prova, visto que o fundista havia faturado o primeiro lugar no Pan de Santo Domingo-2003. Ninguém lembrava do tal Hudson, dono do primeiro ouro do Brasil nos Jogos da República Dominicana.
Limbo (versões 2 e 3): A moda da semana é o futebol feminino. Justíssimo. Foi uma das melhores campanhas que eu já vi de um time em uma competição. As emissoras de televisão reivindicaram uma competição oficial para as meninas e o Orlando Silva, ministro dos Esportes, prometeu. Porque afinal elas merecem, e muitas garotas podem ser iguais à Marta, a melhor do mundo... e mais quantas frases feitas forem necessárias. Vai ser assim até domingo, quando os programas de debate futebolístico vão mostrar os gols, dizer que muitas das mulheres têm lugar nos times de marmanjos. Segunda-feira que vem, quase ninguém vai dar mais importância para isso. Aliás, estava pensando... será que alguém na rua se lembra do Diogo Silva e que esporte ele pratica?
quinta-feira, 26 de julho de 2007
E agora, José?
Tentei não me abalar pela ligeira quebra da minha rotina. Mesmo entrando uma hora mais tarde no trabalho, mantive a tradição de comprar um copo grande de água quente e suja (no Monet, dizem que é café), pegar o elevador e tomar um copo de água gelada antes de começar a tomar o ‘café’.
Liguei o computador, sintonizei as televisões da redação no Sportv para mais um dia de Jogos Pan-americanos. Tudo corria bem, embora eu tivesse esquecido a minha caneta em casa e as folhas que eu guardo de rascunho ao lado do computador já tivessem sido usadas durante a noite.
Foram provas de canoagem velocidade, preliminares de luta greco-romana e caratê, decisão do último lugar no hóquei sobre grama, algumas partidas de tênis. Por volta das 13 horas, minha maior (e única) preocupação era encontrar um jeito interessante para explicar que um dos brasileiros iria enfrentar um canadense na disputa individual de tênis de mesa.
Em um instante, no entanto, um barulho. De um teclado de computador caindo da mesa, talvez. Normal, acontece. Dez segundos depois, um uníssono ‘Aaai’ e um baque surdo. Não, isso não era normal. Levantei, estiquei o pescoço e vi o que já imaginava há alguns segundos, depois do grito de dor: um homem estirado no chão.
O que acontecia eu não consegui ver. Ou não entendi. Talvez tivesse sido apenas um mal-estar. Normal em uma redação abafada. Depois, tremedeiras. Palidez. Gemidos, preocupação, algo semelhante a uma massagem cardíaca. Correria, afobação. “Fica bem, fica bem!” Tentativas de telefonemas. Polícia, bombeiros, médicos, segurança. Uma ida ao ambulatório médico da fundação. A porta, trancada; o médico, na hora de almoço.
Desespero. O melhor site de esportes do Brasil parado durante 30 minutos. Um bombeiro, uma cadeira de rodas, correria. E o homem era levado para o hospital no colo do bombeiro. Sem conseguir falar nada. Acordado, mas grogue. Com uma súplica por assistência no olhar distante.
Depois que o homem foi levado para embora, toda a redação com o olhar fixo para o mesmo ponto imaginário postado no fundo da mesma parede. Até que o primeiro sentou. Cinco segundos depois, o segundo retornou ao seu lugar e, no mesmo intervalo de tempo, a rotina ia voltando à normalidade.
Voltei à notícia do tênis de mesa. Ainda tive tempo de escrever mais alguma coisa sobre tênis e caratê tentando sobreouvir as conversas em busca de alguma notícia. Nada além dos comentários de sempre. "Acho que foi isso". "Não, mas pareceu ter sido aquilo". E, claro, o tradicional "Quando ele caiu da cadeira, não pensei que fosse nada sério. Pensei que ele tava brincando".
Fui embora chateado, sem a esperança de dizer “não foi nada, e amanhã ele tá bem”. Talvez não tenha sido nada tão grave, mas é melhor não falar nada ainda. Para falar a verdade, nem pensei muito nisso ainda. Acabei lembrando algumas coisas.
O tal homem, que deve ter pouco mais de 60 anos, talvez, foi o primeiro a me dar bom dia, mesmo quando eu ainda fazia os testes do processo seletivo para o estágio. Dias antes de sair o resultado de que eu tinha sido contratado, em novembro, me encontrou na rua e fez questão de me cumprimentar.
É o único que consegue chegar bem humorado à redação às 8 horas de uma segunda-feira. Que faz as mesmas piadas que acabam sendo engraçadas por serem feitas quando o único barulho é feito pelos dedos em contato com as teclas. Do Braguinthians. É o chefe que melhor trata os estagiários, sem ter vergonha de pedir explicações sobre o andar de um campeonato de tênis ou perguntar quem é aquele número seis do Flamengo na foto. E que ainda agradece como se você tivesse feito o maior favor do mundo. Além de pedir desculpas por ter te incomodado.
Um cara bacana. Daqueles que, em um feriado de Corpus Christi, vai trabalhar às 8 horas enquanto apenas um estagiário (eu) estava escalado para trabalhar.
- Só tá você aqui agora? É feriado, meu, volta pra casa pra dormir.
- Bem que eu queria, mas...
- Cara, mas assim nem dá tempo de você tomar café da manhã.
- Hahahaha... Tô acostumado.
- Você saiu de casa sem comer nada?
- Nada. E nem pude tomar o café que eu tomo todo dia... tava tudo fechado no caminho pra cá.
(Ele foi embora. Dez minutos depois, apareceu com um Club Social, um copo de guaraná e um chocolate)
- Comprei pra você. Come aí, cara, senão você vai passar mal. E, se quiser mais, pode me falar que eu vou lá e compro pra você.
quarta-feira, 25 de julho de 2007
Água abaixo
Lembro que comprei a primeira parte da trama em algum dia de maio de 2001. Tinha o dinheiro contado para comprar o Use your illusion I, do Guns n’ Roses, mas passei na frente de uma livraria no shopping e optei pelo livro de que todo mundo falava na época.
O primeiro eu li em exatos cinco dias. Logo em seguida, devorei o terceiro em apenas três dias e precisei de apenas mais quatro para terminar o terceiro. A partir daí, uma longa espera pelo lançamento do próximo capítulo.
O quarto fragmento eu só li nas férias de inverno de 2003. Um ano e meio depois, na semana entre o Natal de 2004 e o Reveillon de 2005, terminei o quinto. O sexto foi uma irresponsabilidade: durante os vestibulares de Unicamp e Cásper, quando eu deveria estar lendo algum livro para a alguma das provas. Mas valeu a pena.
Desde então, foram outros 18 meses apenas esperando o lançamento do derradeiro capítulo. Finalmente surgiu a notícia de que o sétimo Harry Potter estava à venda, mesmo que em inglês, na Fnac. Maravilha.
Aproveitando que estou a apenas 50 páginas de terminar o Veríssimo que me acompanhou nas idas ao trabalho durante os últimos dias, repensei alguns gastos. Os dilatadores nasais, que serviriam para minimizar a necessidade física da minha rinite alérgica combinada com desvio de septo pelo Aturgyl, ficariam para outra vez. A quarta-feira seria para comprar a última parte da saga.
Estranhamente, decidi entrar no site da loja para ver o valor do livro. O preço de verdade é de R$ 75,90, mas decidiram dar um desconto de alguns pontos percentuais, reduzindo a quantia para R$ 54,90. Pronto. Estava pronto para ir para a cama.
Antes, porém, vi que o MSN ainda estava ligado. Fui fechar o programa, mas fui ver se tinha alguém interessante para trocar algumas palavras antes de ir dormir. A única pessoa online era um amigo meu da época de colégio e sua namorada, com quem eu também estudei há alguns anos.
O subnick de ambos, contudo, não era uma troca de carinhos furados normal entre um casal. Pelo contrário. Propositadamente, os dois (que jamais leram uma página de algum dos livros) resumiam em quatro palavras o final de toda a saga que me custou seis anos, R$ 202,80 (em números atualizados. Na época, o valor deve ter sido bem maior), 2.712 páginas e muitas, muitas horas de leituras. Não que eu fosse daqueles que contava os dias para que o livro chegasse, mas depois de tanto tempo era questão de honra chegar ao final. No entanto, tudo isso foi quebrado.
Durante alguns minutos, imaginei todos os xingamentos possíveis que eu aprendi ao longo de 19 anos. Depois, inventei alguns outros. E, claro, deixei os dois bloqueados nas profundezas do meu MSN.
Droga.
quarta-feira, 18 de julho de 2007
Sorria, você está sendo filmado
Não é fácil voltar para casa depois de 15 dias de ausência. Por mais que você conheça tintim por tintim do seu lar dos últimos 19 anos melhor do que a você mesmo, é normal estranhar alguma coisa nos primeiros instantes do retorno.
Foi assim comigo esses dias. Voltei para a minha casa normal (longas histórias de separação de pais) no domingo. Cansado, porém, a única coisa que me limitei a fazer foi cair na minha cama e dormir profundamente até o despertador acabar com a brincadeira. No dia seguinte a história foi diferente.
Deu 18 horas e alguma coisa ficou diferente no meu quarto, mas eu não sabia o que era. Os (velhos) pôsteres do Palmeiras e da seleção brasileira de 2002 estavam todos no lugar. Os CDs de uma adolescência musical, em ordem. Os livros, contados na estante. Mas alguma coisa estava diferente.
Aprisionado por toda essa incerteza de estranhamento, decidi ir tomar banho para pensar melhor na situação. Assim que entrei no banheiro, no entanto, uma surpresa: o vidro do boxe é novo? Não, não pode ser. Eu tomei banho hoje de manhã e não percebi que era novo. Não, eu não tava tão cansado assim.... será?
Não. Liguei a luz e o vidro do boxe continuava verde, como sempre fora nos últimos 17 anos (minha mãe falou que ele foi trocado uma vez, quando eu tinha dois anos). Desliguei a luz para ver se entendia o que tava acontecendo e percebi: tinha alguma coisa com muita luz voltara para o banheiro.
O problema é que não era só para o banheiro. Tinha um refletor virado para a janela do meu quarto! Mas por que diabos fizeram isso? Há 19 anos eu moro aqui e por que fizeram essa merda? E como eu iria dormir? A luz passava pela janela, pela cortina, pela veneziana... e deixava o meu quarto claro.
Na hora de dormir, tentei mudar as folhas das venezianas. A sem buraquinhos ia ficar no lado contrário do que o normal. Melhorou um pouco, mas ainda assim não tava legal. Sei lá. Sou metódico. Tão metódico ao ponto de almoçar sozinho no mesmo restaurante de segunda a quinta-feira e em outro às sextas. E, se possível, na mesma mesa. Pegando as mesmas coisas no self-service. Tão metódico a ponto de pegar o mesmo vagão do metrô em todas as estações, tão metódico a ponto de gostar de ter uma rotina.
Acabei dormindo, mesmo com o meu quarto mais iluminado do que a Torre Eiffel. Só que hoje de manhã decidi reclamar. Liguei na administração do meu condomínio e decidi reclamar. Mas sem me identificar, inicialmente.
“Oi, eu sou morador do condomínio e voltei de viagem hoje. Percebi que instalaram um refletor novo pra iluminar um corredor do condomínio, mas a luz ficou virada para o meu quarto. Foi como dormir com um holofote apontado para a minha cama durante a noite toda. Quer dizer... tinha um holofote apontando para a minha cama durante a noite toda!”
O auxiliar administrativo prontamente respondeu: “Pode ficar tranqüilo que a gente vai arrumar isso o mais rápido possível. Bom dia, Felipe”.
Agora, escrevo com a luz do quarto apagada. Não preciso acender nada aqui, a nova instalação do condomínio supre qualquer necessidade de luz que eu possa ter.
Mas o pior é o seguinte: tem um holofote de luz apontado para o meu quarto. E o auxiliar de administração sabe exatamente quem estava falando, apesar de o condomínio ter pouco menos do que (e não é exagero) 500 apartamentos.
Perseguição!